{"id":250710,"date":"2020-10-19T15:40:31","date_gmt":"2020-10-19T18:40:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=250710"},"modified":"2020-10-23T14:26:23","modified_gmt":"2020-10-23T17:26:23","slug":"mes-missionario-jornalista-nazare-soares-missionaria-leiga-partilha-sua-experiencia-de-sete-meses-em-mocambique","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/mes-missionario-jornalista-nazare-soares-missionaria-leiga-partilha-sua-experiencia-de-sete-meses-em-mocambique\/","title":{"rendered":"M\u00eas Mission\u00e1rio: jornalista Nazar\u00e9 Soares, mission\u00e1ria leiga, partilha sua experi\u00eancia de sete meses em Mo\u00e7ambique"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A leiga mission\u00e1ria Nazar\u00e9 Soares, da arquidiocese de Aparecida (SP), regressou recentemente de uma experi\u00eancia de sete meses na miss\u00e3o em Mo\u00e7ambique. A jornalista foi para a regi\u00e3o de Dombe, que fica na diocese de Chimoio, onde est\u00e1 instalada, desde 2006, a Fazenda da Esperan\u00e7a, comunidade terap\u00eautica cat\u00f3lica que acolhe dependentes qu\u00edmicos e outros v\u00edcios. Na miss\u00e3o existem as unidades masculina e feminina de recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_250714\" aria-describedby=\"caption-attachment-250714\" style=\"width: 285px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-250714 \" src=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Nazar\u00e9-Soares-Mo\u00e7ambique-300x300.png\" alt=\"\" width=\"285\" height=\"285\" srcset=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Nazar\u00e9-Soares-Mo\u00e7ambique-300x300.png 300w, https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Nazar\u00e9-Soares-Mo\u00e7ambique-150x150.png 150w, https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Nazar\u00e9-Soares-Mo\u00e7ambique.jpg 496w\" sizes=\"(max-width: 285px) 100vw, 285px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-250714\" class=\"wp-caption-text\"><em>Nazar\u00e9 Soares. Foto: arquivo pessoal<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista \u00e0 Cleide Barbosa da r\u00e1dio 9 de Julho, da Arquidiocese de S\u00e3o Paulo (SC), Nazar\u00e9 contou que conhecer Mo\u00e7ambique era um desejo antigo e no in\u00edcio de 2020 recebeu o convite do frei Hans Stapel e do Nelson Giovanelli Rosendo dos Santos, fundadores da Fazenda, para fazer uma miss\u00e3o de divulga\u00e7\u00e3o da fazenda durante um m\u00eas no pa\u00eds Africano. A experi\u00eancia seroa de meados de mar\u00e7o at\u00e9 meados de abril.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cEu recebi esse convite que veio de encontro com o sonho que eu tinha de conhecer Mo\u00e7ambique, imediatamente eu aceitei e uma miss\u00e3o que era para ser durante um m\u00eas acabou se estendendo para sete meses no pa\u00eds\u201d, relata<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m das unidades da Fazenda Esperan\u00e7a, em Dombe existe ainda o Centro Infantil Chitaitai, internato para 200 jovens e escola para 900 alunos. H\u00e1 d\u00e9cadas institutos religiosos do Brasil enviam religiosos e religiosas para Mo\u00e7ambique. A popula\u00e7\u00e3o em geral \u00e9 muito carente, eles t\u00eam necessidades de tudo, principalmente das a\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, nutri\u00e7\u00e3o e cidadania. A l\u00edngua m\u00e3e \u00e9 o portugu\u00eas, mas o dialeto mais falado\u00a0 na regi\u00e3o \u00e9 o \u201cTindau\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Confira a \u00edntegra do bate papo de Cleide Barbosa com a jornalista Nazar\u00e9 Soares:<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nazar\u00e9 gostaria que voc\u00ea iniciasse se falando para gente como \u00e9 que despertou esse desejo, como \u00e9 que surgiu o convite para essa experi\u00eancia em Mo\u00e7ambique?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde crian\u00e7a eu tenho um sonho de conhecer, tinha um sonho na verdade de conhecer, o pa\u00eds Mo\u00e7ambique. E esse ano eu recebi um convite da presid\u00eancia da Fazenda da Esperan\u00e7a, dos fundadores na verdade, o frei Hans e o Nelson Giovanelli, que s\u00e3o os presidentes, os fundadores da Fazenda Esperan\u00e7a e eles me convidaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o, foi no in\u00edcio desse ano que surgiu o convite para voc\u00ea conhecer a fazenda da Esperan\u00e7a. Essa Fazenda j\u00e1 existe em mais de 80 pa\u00edses e ela trabalha com a reabilita\u00e7\u00e3o de pessoas dependentes qu\u00edmicos, n\u00e9 Nazar\u00e9?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu recebi o convite para fazer uma experi\u00eancia mission\u00e1ria. A Fazenda da Esperan\u00e7a est\u00e1 em Dombe, em Mo\u00e7ambique. L\u00e1 existe a fazenda feminina e a fazenda masculina. P\u00f3s Ciclone, que aconteceu em mar\u00e7o do ano passado, a fazenda voltou para um processo para come\u00e7ar a acolher meninas que s\u00e3o dependentes qu\u00edmicas. Ent\u00e3o, o frei e o Nelson, os fundadores da Fazenda, eles acabaram me convidando para fazer essa miss\u00e3o, essa miss\u00e3o de divulga\u00e7\u00e3o da Fazenda durante um m\u00eas, em Mo\u00e7ambique. Eu ficaria na verdade na metade de mar\u00e7o para metade de abril, em Mo\u00e7ambique fazendo essa miss\u00e3o. Ent\u00e3o, eu recebi esse convite que veio de encontro com o sonho que eu tinha de conhecer Mo\u00e7ambique, imediatamente eu aceitei e uma miss\u00e3o que era pra ser de durante um m\u00eas acabou se estendendo para sete meses no pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 que \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o social em Mo\u00e7ambique? A gente sabe que \u00e9 um pa\u00eds que tem muitas riquezas naturais, tem pedras preciosas e \u00e9 o motivo tamb\u00e9m da viol\u00eancia que muitos mission\u00e1rios reportam que acontece l\u00e1. Voc\u00ea acompanhou isso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu fiquei um pouco distante dessa realidade. Eu estava mais no centro do pa\u00eds, em Dombe. Recentemente aconteceram alguns ataques mesmo l\u00e1 em Dombe, que a pol\u00edcia, os militares n\u00e3o sabiam dizer ao certo se eram por conta da quest\u00e3o pol\u00edtica, porque \u00e9 muito forte a quest\u00e3o pol\u00edtica l\u00e1, o embate pol\u00edtico e tamb\u00e9m essa outra quest\u00e3o, mas \u00e9 uma regi\u00e3o que acontece em Cabo Delgado. A gente tinha pouco o reflexo disso. Ent\u00e3o, quando eu sai de Mo\u00e7ambique, ainda estava em investiga\u00e7\u00e3o para saber se a nossa regi\u00e3o (Dombe) tinha sido atingida por esses ataques mesmo, que aconteceram na regi\u00e3o de Cabo Delgado, nessa guerra entre o pa\u00eds. Existe mesmo esses conflitos mesmo sociais. Eu passei por algumas regi\u00f5es de Mo\u00e7ambique, fui na diocese de Teti, fiquei na verdade na diocese de Chimoio. \u00c9 um pa\u00eds pobre, o quarto pa\u00eds mais pobre do mundo, mas \u00e9 um pa\u00eds rico em Cultura. Voc\u00ea dizia sobre a quest\u00e3o dos dialetos da regi\u00e3o que eu estava e pela oportunidade de estar dentro da fazenda. Eu convivi ent\u00e3o com meninas de diversos dialetos. A l\u00edngua m\u00e3e \u00e9 portugu\u00eas de fato, mas os dialetos s\u00e3o diversificados de cada regi\u00e3o l\u00e1. Ent\u00e3o, assim \u00e9 um pa\u00eds muito muito muito rico e a quest\u00e3o do conflito social \u00e9 muito grande. E repito, a gente presenciou essa quest\u00e3o dos ataques, que ainda est\u00e1 em processo de investiga\u00e7\u00e3o se de fato s\u00e3o por conta da guerra mesmo, que estava acontecendo, ou conflito pol\u00edtico tamb\u00e9m na regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os crist\u00e3os tamb\u00e9m s\u00e3o uma minoria em Mo\u00e7ambique. H\u00e1 outras denomina\u00e7\u00f5es crist\u00e3s e religi\u00f5es tamb\u00e9m. Como \u00e9 essa conviv\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como eu fiquei na Fazenda da Esperan\u00e7a, l\u00e1 tamb\u00e9m os acolhidos s\u00e3o cada um com sua religi\u00e3o, com a sua cultura tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, l\u00e1 t\u00ednhamos pessoas mul\u00e7umanas, pessoas cat\u00f3licas, tinham pessoas de outras denomina\u00e7\u00f5es religiosas. Mas h\u00e1 uma diversifica\u00e7\u00e3o muito, muito grande, no pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o, l\u00e1 na Fazenda voc\u00ea observou essa conviv\u00eancia de pessoas que professam diversos credos. Essa conviv\u00eancia \u00e9 bem pac\u00edfica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Interessante que a Fazenda Da Esperan\u00e7a \u00e9 uma comunidade terap\u00eautica cat\u00f3lica. Ent\u00e3o, eles convivem muito bem. Os acolhidos acabam tamb\u00e9m fazendo as mesmas ora\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas, porque l\u00e1 tem a ora\u00e7\u00e3o do ter\u00e7o, da reflex\u00e3o da palavra. Ent\u00e3o, assim as pessoas respeitam muito. A realidade que eu tive em Dombe, especificamente, a conviv\u00eancia maior \u00e9 uma regi\u00e3o bem cat\u00f3lica. As pessoas participam bastante. Claro que tamb\u00e9m tem a quest\u00e3o deles acreditarem muito tamb\u00e9m em feiti\u00e7aria. Na verdade, eles acreditam muito nisso, mas predomina tamb\u00e9m ali na regi\u00e3o a quest\u00e3o cat\u00f3lica. A religi\u00e3o cat\u00f3lica \u00e9 muito forte. A participa\u00e7\u00e3o deles \u00e9 muito grande. Infelizmente, eu n\u00e3o participei de cultos religiosos por conta da Pandemia. Logo que eu cheguei ao pa\u00eds j\u00e1 foram suspensas as celebra\u00e7\u00f5es eucar\u00edsticas. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o participei muito com o povo mo\u00e7ambicano. Ent\u00e3o, n\u00f3s temos l\u00e1, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, uma Igreja de Nossa Senhora Aparecida tamb\u00e9m. Tem muito cat\u00f3licos ali, que participam de forma fervorosa da Igreja. Ent\u00e3o, na regi\u00e3o que eu estava em Dombe, especificamente, predomina mesmo o catolicismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A pandemia mudou totalmente seus planos. Voc\u00ea tinha um planejamento de ficar um m\u00eas por l\u00e1 e creio que isso foi um desafio da miss\u00e3o. Como \u00e9 que foi para voc\u00ea essa mudan\u00e7a de planos de um m\u00eas e ficou sete meses l\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu tinha um projeto de ficar durante um m\u00eas l\u00e1 divulgando a Fazenda nas dioceses para n\u00f3s acolhermos meninas na casa de Dombe. Mas, acabou que tudo mudou e eu vi um sentido. \u00c9 que era Deus, de fato, fazendo essa mudan\u00e7a por conta da pandemia. A pandemia foi um, digamos que, um pano de fundo para eu continuar l\u00e1 em Mo\u00e7ambique. Porque o interessante, Cleide, \u00e9 que assim quando eu fui para fazer a miss\u00e3o, n\u00e3o tinha meninas na casa, na casa feminina em Dombe. Ent\u00e3o n\u00f3s ir\u00edamos reabrir essa casa p\u00f3s o ciclone, que aconteceu em mar\u00e7o do ano passado. Quando eu cheguei logo as fronteiras fecharam, logo foram suspensas as celebra\u00e7\u00f5es Eucar\u00edsticas, logo tudo mudou. Ent\u00e3o, eu fui viver a vida de Fazenda da Esperan\u00e7a mesmo. E foi um desafio muito grande, porque eu nunca na minha vida imaginaria que iria viver uma experi\u00eancia dessa t\u00e3o intensa nesse sentido e logo posso. Depois de um m\u00eas mais ou menos que eu estava l\u00e1, come\u00e7aram a chegar as meninas na casa onde eu estava, ent\u00e3o assim foi mais interessante, mais sentido. Eu vi mais sentido ainda mais! A m\u00e3o de Deus a respeito disso, porque eu comecei a conviver de fato com as meninas, com as mulheres mo\u00e7ambicanas, porque ela chegaram de diversas regi\u00f5es do pa\u00eds l\u00e1 na casa. Hoje tem temos 11 meninas l\u00e1 na casa, cada uma de uma regi\u00e3o, cada uma de uma cultura, cada uma com sua ess\u00eancia, cada uma com sua hist\u00f3ria e eu no meio delas. Eu brasileira, cheguei e n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m e ter que dividir o mesmo quarto, ter que dividir 24 horas do dia com elas foi uma experi\u00eancia para mim incr\u00edvel viver da Fazenda. N\u00f3s t\u00ednhamos uma rotina que acord\u00e1vamos muito cedo, faz\u00edamos as nossas ora\u00e7\u00f5es e \u00edamos para o trabalho. Ent\u00e3o, eu vi de fato a experi\u00eancia de estar nessa casa terap\u00eautica, que foi algo enriquecedor para minha vida a conviv\u00eancia mesmo com as mo\u00e7ambicanas. Interessante que se eu ficasse por um m\u00eas, durante o m\u00eas, depois eu comecei a fazer an\u00e1lise nesse sentido, eu ia passar por Mo\u00e7ambique. E como eu fiquei sete meses eu vivi de fato Mo\u00e7ambique, mas eu vivi na ess\u00eancia quando vieram com a cultura, comendo da comida do povo mo\u00e7ambicano. Algo que era totalmente diferente da minha realidade aqui do Brasil, algo tamb\u00e9m que era diferente. Eu nunca tinha convivido tanto tempo numa comunidade assim fechada. Minha vida do Brasil \u00e9 totalmente diferente, eu moro s\u00f3, e l\u00e1 n\u00e3o, eu tinha que viver a vida em comunidade com as meninas. Ent\u00e3o, uma experi\u00eancia assim totalmente de desprendimento, de eu me abrir para um novo, e um novo muito, muito, muito diferente da minha vida aqui no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com certeza foi uma experi\u00eancia muito enriquecedora para voc\u00ea e para essas meninas tamb\u00e9m, porque independente da origem, do credo, do dialeto que elas falavam, das experi\u00eancias, do caminho dif\u00edcil que elas trilharam at\u00e9 ali, porque todas v\u00eam de uma experi\u00eancia, mesma drogadi\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia qu\u00edmica.Ppenso que a sua mensagem era a \u00fanica, Nazar\u00e9, uma mensagem que leva a palavra de Deus, uma mensagem universal de liberta\u00e7\u00e3o, que leva elas ao Cristo, Cristo, caminho, verdade e vida.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando eu sa\u00ed do Brasil, era um sonho conhecer Mo\u00e7ambique e a\u00ed eu n\u00e3o imaginava que o sonho, que era bem pequeno, meu sonho era passar por uma experi\u00eancia Mo\u00e7ambique, mas ele se tornou algo muito grandioso e ,quando eu sa\u00ed, eu sa\u00ed no prop\u00f3sito de amar do in\u00edcio ao fim e eu aprendi muito, em t\u00e3o pouco tempo, amar intensamente Mo\u00e7ambique. Ent\u00e3o, l\u00e1 todos os dias eu buscava um sentido para minha vida vivendo com as meninas, convivendo com as meninas, as hist\u00f3rias s\u00e3o diversas, diversas, diversas, meninas na drogadi\u00e7\u00e3o, meninas tamb\u00e9m muito deprimidas, passaram por processos de depress\u00e3o, de n\u00e3o valoriza\u00e7\u00e3o da mulher mesmo nesse sentido, ent\u00e3o eu convivi com diversas hist\u00f3rias. E falando em amor, eu recebi muito amor, mais do que eu dei, e a\u00ed eu vi o quanto eu fui pequena e quanto eu retorno grande ao Brasil. Aconteceram v\u00e1rias, v\u00e1rias experi\u00eancias marcantes l\u00e1 para mim, mas a experi\u00eancia maior foram duas na verdade. Teve um dia que eu me deparei com uma jovem de 22 anos que estava no processo de desintoxica\u00e7\u00e3o ainda na casa, na Fazenda. Ela estava muito mal. Ela teve v\u00f4mito, ela estava muito fraca. Eu entrei no quarto dela e, nesse instante, ela passava muito mal. Ang\u00e9lica o nome dela, menina de 22 anos. E eu, particularmente, tamb\u00e9m tinha uma fraqueza muito grande no sentido de quando a pessoa tinha o v\u00f4mito perto de mim eu passava mal. Parece bobagem, mas a Ang\u00e9lica passar mal e eu ter que cuidar dela, eu ter que dar banho, limp\u00e1-la foi algo que eu e tive que me fazer pequena e tive que tornar e me tornei grande entendendo o que era Jesus abandonado. Essa experi\u00eancia foi muito, muito marcante da minha vida, cuidar da Ang\u00e9lica e, minha experi\u00eancia como jornalista era, de fato, contar a hist\u00f3ria, \u00a0dar voz \u00e0s pessoas que por muito tempo na Rede Aparecida de Comunica\u00e7\u00e3o, eu tinha essa fun\u00e7\u00e3o de levar a palavra de Deus, mais do que isso, trazemos gestos concretos de uma Igreja viva que existe aqui no Brasil, e l\u00e1 em Mo\u00e7ambique, de fato, eu n\u00e3o era uma jornalista, eu era a Nazar\u00e9. Eu estava l\u00e1 convivendo com aquelas meninas sem o meu t\u00edtulo de jornalista, mas a Nazar\u00e9 que estava ali para cuidar e ser cuidada, para amar e ser amada, para receber muito mais do que dar, porque eu recebi do come\u00e7o ao fim e Ang\u00e9lica ao final de tudo isso me dizia que ali na Fazenda ela encontrava amor, e \u00e9 isso que a Fazenda da Esperan\u00e7a faz no mundo todo. Ela resgata essas meninas, ela resgata esses homens, resgata essas mulheres, resgata tamb\u00e9m pessoas de mais idade. Enfim, ela respeita credo, respeita cor, respeita todo tipo de&#8230; at\u00e9 mesmo pessoas que est\u00e3o esquecidas da sociedade. Elas est\u00e3o ali sendo resgatadas para serem amadas, serem cuidadas e a\u00ed quando a gente chega pensando que eu vou amor, a\u00ed eu vou amar e foi meu prop\u00f3sito de sair daqui do Brasil, vou amar em Mo\u00e7ambique at\u00e9 o fim. Eu n\u00e3o, eu recebi muito mais amor e amor dessa forma, de forma concreta mesmo, de ter que cuidar, de ter que abra\u00e7ar, de ter que experimentar a cultura do povo mo\u00e7ambicano. N\u00e3o foi f\u00e1cil eu retornar ao Brasil no sentido de meu cora\u00e7\u00e3o ficou em Mo\u00e7ambique, a conviv\u00eancia com as meninas foi muito incr\u00edvel. Ent\u00e3o assim, Ang\u00e9lica foi uma das que me ensinou muito l\u00e1, mas tem outras meninas, com outras hist\u00f3rias e ficar\u00e3o marcadas para sempre na minha vida. E para voc\u00ea ter uma ideia, Cleide, eu jamais imaginava e eu acho que n\u00e3o teria uma oportunidade, de repente, de presenciar um parto. Eu fui uma vez socorrer junto com os mission\u00e1rios, com a Jordana, respons\u00e1vel l\u00e1 da Fazenda feminina, mais Edinaldo tamb\u00e9m, respons\u00e1vel da Fazenda masculina l\u00e1 de Dombe, ajudar uma pessoa, Am\u00e9lia de uma comunidade l\u00e1, que foi atendida pelo ciclone a ir para o hospital para ganhar beb\u00ea e, no caminho, essa crian\u00e7a nasceu no carro e a\u00ed eu via um milagre da vida. Ent\u00e3o assim, Deus foi muito, muito, muito amor comigo me fazendo sentir as alegrias e as dores, as emo\u00e7\u00f5es, tudo do mo\u00e7ambicano. Eu l\u00e1 em sete meses peguei tr\u00eas mal\u00e1rias, senti na pele a dor do mo\u00e7ambicano. Eu tinha a m\u00ednima estrutura, eu tinha estrutura m\u00ednima, era estrutura por eu ser brasileira. Ent\u00e3o eu tinha um certo cuidado, mas a\u00ed eu refleti sobre a quest\u00e3o dos cuidados com o povo mo\u00e7ambicano, descaso com eles por v\u00e1rios motivos, por corrup\u00e7\u00e3o. \u00c9 um pa\u00eds muito rico, mas \u00e9 um pa\u00eds muito pobre no fato de explora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. A explora\u00e7\u00e3o \u00e9 muito, muito, muito grande no pa\u00eds. O pa\u00eds tem 47 anos de liberta\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 um pa\u00eds muito dependente da corrup\u00e7\u00e3o, muito preso a isso, aos roubos, a falta de estrutura, enfim. Ent\u00e3o, assim eu vivi muita, muita coisa Mo\u00e7ambique que eu, nem nos meus maiores sonhos, nem nunca tentei, imaginei que eu fosse viver em Mo\u00e7ambique e, principalmente, vivi tudo isso porque eu fui a Nazar\u00e9, a Nazar\u00e9 que estava na casa dos meninos ouvindo as hist\u00f3rias deles, estava na casa das meninas convivendo com elas praticamente 24 horas do meu dia, rezando com ela elas, ouvindo as dores as alegrias. \u00a0Muitas vezes, muitas vezes, a maioria das vezes, gra\u00e7as a Deus sendo muito pequena e me tornando muito grande ap\u00f3s uma partilha, uma conversa, na conviv\u00eancia com elas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu queria que voc\u00ea deixasse uma mensagem a partir da sua experi\u00eancia para as pessoas que desejam apoiar as miss\u00f5es, ou se desejam doar-se mais ainda as miss\u00f5es. Se vale a pena ser mission\u00e1rio.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale muito a pena ser mission\u00e1rio e vale apoiar e acreditar na miss\u00e3o. Mas, mais do que isso, eu acho que vale a pena vivenciar essa experi\u00eancia. Muitas vezes a gente l\u00ea sobre a Fazenda da Esperan\u00e7a, eu lia sobre diferentes miss\u00f5es que aconteciam, conhecia claro com o meu trabalho de jornalista, mais viver essa experi\u00eancia, estar mesmo onde o povo est\u00e1 \u00e9 fundamental. Eu acho que assim, todo crist\u00e3o deve apoiar essas causas. A gente sabe de todas as dificuldades financeiras que o mundo enfrenta, que o Brasil enfrenta, que Mo\u00e7ambique enfrenta, mas eu acho que o pouco com Deus \u00e9 muito e eu acho que o pouco da nossa vida em doa\u00e7\u00e3o para uma miss\u00e3o \u00e9 grandioso porque voc\u00ea sai pensando &#8220;vou fazer uma miss\u00e3o&#8221;, e na verdade voc\u00ea passa passou por um processo de ressignifica\u00e7\u00e3o, voc\u00ea passa pelo processo de restaura\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o vale a pena. Foram sete meses que eu viveria tudo da mesma forma, mesma forma e agradeceria da mesma forma todos os dias ao acordar. Eu agradeci a Deus por ter me deixado permanecer em Mo\u00e7ambique, por eu ter vivido em Mo\u00e7ambique, por eu ter morado em Mo\u00e7ambique e, principalmente, pela oportunidade de eu estar na Fazenda da Esperan\u00e7a, uma obra linda, uma obra que n\u00e3o v\u00ea cor, n\u00e3o v\u00ea ra\u00e7a, n\u00e3o v\u00ea op\u00e7\u00e3o sexual (sic), n\u00e3o v\u00ea nada, simplesmente, enxerga no outro o amor. Ent\u00e3o assim, sou grata eternamente pela Fazenda da Esperan\u00e7a, algo que, assim como voc\u00ea disse, os sonhos de Deus s\u00e3o muito, nossa muito, maiores que os nossos planos e eu vivi concretamente. Algo que eu pensava bem pequeno ou passageiro se tornou algo muito grande e eterno na minha vida, eterna da vida dos meus amigos que partilharam comigo essa experi\u00eancia, vivenciaram comigo, mesmo \u00e0 dist\u00e2ncia aqui no Brasil e principalmente as meninas. Eu agrade\u00e7o assim todo o povo mo\u00e7ambicano, sem exce\u00e7\u00e3o, e principalmente \u00e0s meninas com quem eu convivi l\u00e1 na Fazenda da Esperan\u00e7a, seja mission\u00e1ria Brasileira, que est\u00e1 l\u00e1 se lan\u00e7ando em Mo\u00e7ambique, que a Jordana eterno em meu cora\u00e7\u00e3o e seja tamb\u00e9m as meninas mo\u00e7ambicanas, as mulheres mo\u00e7ambicanas que me ensinaram muito, muito, muito, muito. Ent\u00e3o assim, vale a pena acreditar nas obras de Deus, acreditar nas miss\u00f5es espalhadas pelo mundo e vale a pena acreditar e sentir orgulho dos brasileiros que est\u00e3o fora se doando, se entregando, cuidando do povo de outra nacionalidade, de outra cultura. Ent\u00e3o, se voc\u00ea puder se doar, seja indo fazer uma miss\u00e3o ou seja ajudando financeiramente, ou at\u00e9 mesmo em ora\u00e7\u00e3o, se permita. Fa\u00e7a, se d\u00ea essa oportunidade, porque vale cada segundo a pena e eu garanto por experi\u00eancia pr\u00f3pria \u00e9 enriquecedor, voc\u00ea mais ganha nessa hist\u00f3ria do que voc\u00ea mais, na verdade, voc\u00ea acaba ganhando muito mais do que voc\u00ea dando. Eu s\u00f3 ganhei. Ganhei o amor do in\u00edcio ao fim que eu cheguei em Mo\u00e7ambique. A energia eu venho de Mo\u00e7ambique, n\u00e3o como uma \u00c1frica triste, \u00e9 sofrido sim por causa da nossa da nossa realidade. Mas, \u00e9 uma \u00c1frica, uma regi\u00e3o que exala muito amor. Ent\u00e3o, eu venho rica em amor, eu venho rica em crescimento mesmo pessoal. \u00c9 algo assim inesquec\u00edvel para minha vida. Ent\u00e3o, vale a pena, vale a pena se doar. Eu acho que o que eu tenho para dizer \u00e9 seja fiel tamb\u00e9m aos chamados de Deus. Deus me chamou para algo aparentemente pequeno e me deu algo muito, muito, muito, muito grande. Ent\u00e3o, espero que voc\u00ea est\u00e1 se sinta tocado a poder evangelizar e na verdade n\u00e3o \u00e9 simplesmente s\u00f3 falar de Deus, mas \u00e9 tentar ver a presen\u00e7a de Deus na vida das outras pessoas, nas pequenas ou grandes coisas, seja para o seu vizinho, para seu amigo, seja para o seu irm\u00e3o, seja, principalmente, para sua fam\u00edlia. Ent\u00e3o, a gente tem que ser Deus na vida das pessoas porque a gente recebe demais de Deus e a gente precisa contribuir com Ele. Eterna, eterna gratid\u00e3o \u00e0 Fazenda da Esperan\u00e7a, \u00e0 toda presid\u00eancia, \u00e0 toda a miss\u00e3o, em particular, \u00e0 miss\u00e3o de Dombe, que est\u00e1 l\u00e1 no cantinho de Mo\u00e7ambique, mas que faz toda, toda diferen\u00e7a na vida de milhares de jovens, de mulheres, de crian\u00e7as, porque a Fazenda ajudou na reconstru\u00e7\u00e3o de Dombe p\u00f3s ciclone. Ent\u00e3o assim, vale, vale muito a pena ajudar e refor\u00e7o, colabore, colabore com esta obra, colabore com outras obras, colabore com que voc\u00ea puder e da maneira que voc\u00ea puder.<\/p>\n<p><em>* A descri\u00e7\u00e3o da entrevista foi parcialmente editada<\/em><\/p>\n<p>Voc\u00ea tamb\u00e9m pode ouvir a entrevista em \u00e1udio:<\/p>\n<p><iframe title=\"Mission\u00e1ria leiga partilha experi\u00eancia em Mo\u00e7ambique by R\u00e1dio 9 de Julho\" src=\"https:\/\/w.soundcloud.com\/player\/?visual=true&amp;url=https%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F912446902&amp;show_artwork=true\" style=\"border: 0; width: 100%; height: 400px;\" allowfullscreen allow=\"encrypted-media\"><\/iframe><\/p>\n<pre><em>Foto de capa: arquivo pessoal<\/em><\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nazar\u00e9 foi passar um m\u00eas e, por causa da pandemia da Covid-19, ficou sete meses como mission\u00e1ria na unidade feminina da Fazenda Esperan\u00e7a, instalada na diocese  de Chimoio, regi\u00e3o muito pobre do pa\u00eds Africano<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":250719,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[854,50],"tags":[1249],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/250710"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=250710"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/250710\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media\/250719"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=250710"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=250710"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=250710"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}