{"id":255707,"date":"2020-11-24T16:54:40","date_gmt":"2020-11-24T19:54:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=255707"},"modified":"2020-11-24T16:55:10","modified_gmt":"2020-11-24T19:55:10","slug":"em-livro-a-ser-lancado-em-dezembro-papa-narra-tres-situacoes-covid-a-doenca-a-alemanha-e-cordoba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/em-livro-a-ser-lancado-em-dezembro-papa-narra-tres-situacoes-covid-a-doenca-a-alemanha-e-cordoba\/","title":{"rendered":"Em livro, a ser lan\u00e7ado em dezembro, Papa narra tr\u00eas situa\u00e7\u00f5es &#8220;Covid&#8221;: a doen\u00e7a, a Alemanha e C\u00f3rdoba"},"content":{"rendered":"<p>Na minha vida tive tr\u00eas situa\u00e7\u00f5es &#8220;Covid&#8221;: a doen\u00e7a, a Alemanha e C\u00f3rdoba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando eu tinha 21 anos contra\u00ed uma doen\u00e7a muito grave, tive minha primeira experi\u00eancia de limita\u00e7\u00e3o, dor e solid\u00e3o. Mudaram minhas coordenadas. Durante meses eu n\u00e3o sabia quem eu era, se iria morrer ou viver. Mesmo os m\u00e9dicos n\u00e3o sabiam se eu conseguiria sobreviver. Lembro-me de um dia ter pedido a minha m\u00e3e, abra\u00e7ando-a, para me dizer se eu ia morrer. Eu estava no segundo ano do semin\u00e1rio diocesano em Buenos Aires.<\/p>\n<div>\n<div class=\"article__embed article__embed--unwrap article__embed--dark\">\n<div class=\"article__innerTitle\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro-me da data: era 13 de agosto de 1957. Foi levado ao hospital, ao constatarem que eu n\u00e3o tinha o tipo de gripe que \u00e9 tratada com aspirina. Inicialmente tiraram um litro e meio de \u00e1gua do meu pulm\u00e3o, depois lutei entre a vida e a morte. Em novembro, fiz uma cirurgia para remover o lobo superior direito do meu pulm\u00e3o. Sei por experi\u00eancia pr\u00f3pria como se sentem os pacientes com coronav\u00edrus quando lutam para respirar em um respirador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daqueles dias recordo-me de duas enfermeiras em particular. Uma era a enfermeira-chefe, uma irm\u00e3 dominicana que tinha sido professora em Atenas antes de ser enviada a Buenos Aires. Soube mais tarde que, depois que o m\u00e9dico saiu da sala ao terminar o primeiro exame, ela disse \u00e0s enfermeiras para dobrar a dose do tratamento que ele havia prescrito \u2013 \u00e0 base de penicilina e estreptomicina &#8211; porque sua experi\u00eancia lhe dizia que eu estava morrendo. A Irm\u00e3 Cornelia Caraglio salvou minha vida. Gra\u00e7as a seu contato habitual com os doentes, ela sabia mais do que o m\u00e9dico o que os pacientes precisavam, e teve a coragem de usar essa experi\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra enfermeira, Micaela, fez a mesma coisa quando eu sofria com fortes dores. Ela me dava secretamente doses extras de calmantes fora do hor\u00e1rio previsto. Lutaram por mim at\u00e9 o fim, at\u00e9 eu melhorar. Ensinaram-me o que significa usar a ci\u00eancia e o saber para ir al\u00e9m, para responder \u00e0s necessidades espec\u00edficas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daquela experi\u00eancia aprendi outra coisa: como \u00e9 importante evitar consolos superficiais. As pessoas vinham me visitar e me diziam que eu ficaria bem, que nunca mais sentiria toda aquela dor: palavras sem sentido e vazias, ditas com boas inten\u00e7\u00f5es, mas nunca chegaram ao meu cora\u00e7\u00e3o. A pessoa que me tocou mais profundamente, com seu sil\u00eancio, foi uma das mulheres que marcaram minha vida: Irm\u00e3 Mar\u00eda Dolores Tortolo, minha professora quando crian\u00e7a, que me preparou para minha Primeira Comunh\u00e3o. Veio me ver, pegou minha m\u00e3o, me deu um beijo e ficou em sil\u00eancio por um longo tempo. Depois me disse: &#8220;Voc\u00ea est\u00e1 imitando Jesus&#8221;. N\u00e3o precisava dizer mais nada. Sua presen\u00e7a, seu sil\u00eancio, me deram um profundo consolo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois dessa experi\u00eancia, tomei a decis\u00e3o de falar o m\u00ednimo poss\u00edvel quando visito pessoas doentes. Eu s\u00f3 lhe dou a m\u00e3o.<\/p>\n<p>[\u2026]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poderia dizer que o per\u00edodo alem\u00e3o, em 1986, foi a &#8220;Covid do ex\u00edlio&#8221;. Foi um ex\u00edlio volunt\u00e1rio, porque fui para estudar a l\u00edngua e procurar material para concluir minha tese, mas me sentia como um peixe fora d&#8217;\u00e1gua&#8230; Costumava fazer algumas caminhadas at\u00e9 o cemit\u00e9rio em Frankfurt e de l\u00e1 se podia ver os avi\u00f5es decolando e pousando; eu estava nost\u00e1lgico por minha terra natal, para voltar. Lembro-me do dia em que a Argentina ganhou a Copa do Mundo. Eu n\u00e3o quis ver o jogo e soube que ganhamos s\u00f3 no dia seguinte, lendo os jornal. Na minha aula de alem\u00e3o ningu\u00e9m falou sobre isso, mas quando uma jovem japonesa escreveu &#8220;Viva a Argentina&#8221; no quadro negro, os outros riram. O professor entrou, disse para apagar e fechou o assunto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era a solid\u00e3o de uma vit\u00f3ria sozinho, porque n\u00e3o tinha ningu\u00e9m para compartilh\u00e1-la; a solid\u00e3o de n\u00e3o fazer parte de nada, o que faz de voc\u00ea um estranho. Leva para longe de seu lugar e coloca-o em um lugar que voc\u00ea n\u00e3o conhece, e nesse lugar voc\u00ea se d\u00e1 conta que o que realmente importa \u00e9 lugar que voc\u00ea deixou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes, o desenraizamento pode ser uma cura ou uma transforma\u00e7\u00e3o radical. Este foi meu terceiro &#8220;Covid&#8221; foi quando fui enviado para C\u00f3rdoba de 1990 a 1992. A raiz deste per\u00edodo remonta ao meu modo de comandar, primeiro como provincial e depois como reitor. Eu certamente tinha feito algo de bom, mas \u00e0s vezes eu era muito severo. Em C\u00f3rdoba eles me fizeram o favor e tinham raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passei um ano, dez meses e treze dias naquela resid\u00eancia jesu\u00edta. Celebrava a missa, confessava e oferecia dire\u00e7\u00e3o espiritual, mas nunca saia de casa, exceto quando ia aos correios. Foi uma esp\u00e9cie de quarentena, de isolamento, como aconteceu com muitos de n\u00f3s nos \u00faltimos meses, e me fez bem. Isso me levou a amadurecer ideias: eu escrevia e rezava muito. At\u00e9 ent\u00e3o eu tinha tido uma vida ordenada na Companhia, baseada na minha experi\u00eancia primeiro como professor dos novi\u00e7os e depois de governo a partir de 1973, quando fui nomeado provincial, at\u00e9 1986, quando terminei meu mandato como reitor. Tinha me acomodado com aquele modo de vida. Mas um desenraizamento como aquele, que voc\u00ea \u00e9 mandado para algum lugar remoto e o colocam como professor substituto, abala tudo. Seus h\u00e1bitos, seus reflexos comportamentais, suas linhas de refer\u00eancia cristalizadas ao longo do tempo, tudo isso se transformou desapareceu e voc\u00ea deve aprender a viver novamente, a colocar sua exist\u00eancia novamente em ordem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daquele per\u00edodo, hoje, me impressionam tr\u00eas coisas. Primeiro, a capacidade de rezar que me foi doada. Em segundo lugar, as tenta\u00e7\u00f5es que eu sentia. E terceiro &#8211; e isto \u00e9 o mais estranho &#8211; que eu tenha lido na \u00e9poca, por acaso, os trinta e sete volumes da &#8220;Hist\u00f3ria dos Papas&#8221; de Ludwig Pastor. Poderia ter escolhido um romance, algo mais interessante. Pensando onde estou agora, me pergunto por que Deus me inspirou a ler exatamente aquela obra naquele momento. Com aquela vacina, o Senhor me preparou. Uma vez que se conhece aquela hist\u00f3ria, n\u00e3o h\u00e1 muito que possa surpreend\u00ea-lo sobre o que acontece na C\u00faria Romana e na Igreja de hoje. Me ajudou muito!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A &#8220;Covid&#8221; de C\u00f3rdoba foi uma verdadeira purifica\u00e7\u00e3o. Deu-me mais toler\u00e2ncia, compreens\u00e3o, capacidade de perdoar. Tamb\u00e9m me deixou com uma nova empatia para com os fracos e indefesos. E paci\u00eancia, muita paci\u00eancia, ou seja, o dom de entender que para as coisas importantes precisa tempo, que a mudan\u00e7a \u00e9 org\u00e2nica, que h\u00e1 limites e que devemos trabalhar dentro deles e ao mesmo tempo manter os olhos no horizonte, como fez Jesus. Aprendi a import\u00e2ncia de ver o grande no pequeno, e de ter cuidado com o pequeno nas coisas grandes. Foi um per\u00edodo de crescimento em muitos sentidos, como o brotar novamente ap\u00f3s uma poda minuciosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas devo estar atento, porque quando voc\u00ea cai em certas falhas, certos pecados, e voc\u00ea mesmo corrige, o diabo, como diz Jesus, volta, v\u00ea a casa &#8220;varrida e adornada&#8221; (Lucas 11, 25) e vai chamar sete outros esp\u00edritos piores do que ele. O fim daquele homem, disse Jesus, torna-se muito pior do que antes. \u00c9 com isto que devo me preocupar agora em minha tarefa de governar a Igreja: n\u00e3o cair nos mesmos defeitos de quando eu era superior religioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[\u2026] Estes foram meus principais \u201cCovid\u201d pessoais. Aprendi que sofri muito, mas se voc\u00ea se deixar mudar, sair\u00e1 melhor. Ao contr\u00e1rio, se voc\u00ea levantar barreiras, sair\u00e1 pior.<\/p>\n<p>Com informa\u00e7\u00f5es do <a href=\"https:\/\/www.vaticannews.va\/pt\/papa\/news\/2020-11\/papa-francisco-libro-tres-solidoes-minha-vida.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">VaticanNews<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhe\u00e7a um trecho do livro &#8220;Ritorniamo a sognare&#8221; (Voltemos a sonhar) escrito pelo Pont\u00edfice com o jornalista Austen Ivereigh, que ser\u00e1 publicado em dezembro. &#8220;Aprendi que sofri muito, mas se voc\u00ea se deixar mudar, sair\u00e1 melhor. Ao contr\u00e1rio, se voc\u00ea levantar barreiras, sair\u00e1 pior&#8221;, conta o Papa<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":255708,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[50,784],"tags":[1199,3164,3165],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/255707"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=255707"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/255707\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media\/255708"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=255707"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=255707"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=255707"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}