{"id":255869,"date":"2020-11-27T15:59:25","date_gmt":"2020-11-27T18:59:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=255869"},"modified":"2020-11-27T16:00:28","modified_gmt":"2020-11-27T19:00:28","slug":"warao-fratelli-tutti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/warao-fratelli-tutti\/","title":{"rendered":"Warao: Fratelli tutti"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Jo\u00e3o Justino de Medeiros Silva<br \/>\nArcebispo de Montes Claros (MG)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Desde o in\u00edcio de novembro, os montesclarenses observam a presen\u00e7a de alguns jovens casais com crian\u00e7as ao colo pedindo esmolas em cruzamentos no centro da cidade. Alguns trazem cartazes se identificando como venezuelanos. Pedem dinheiro para sobreviver. Quem s\u00e3o esses venezuelanos que est\u00e3o aqui? Como chegaram? O que est\u00e3o buscando? Podemos fazer algo em favor deles? Essas e outras perguntas surgem, sobretudo, no cora\u00e7\u00e3o das pessoas mais sens\u00edveis aos pobres e marginalizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Esses venezuelanos que aqui chegaram s\u00e3o ind\u00edgenas da etnia Warao. Viviam, originalmente, no delta do Rio Orinoco, na Venezuela. Grandes obras naquela regi\u00e3o, h\u00e1 40 anos, resultaram na dispers\u00e3o de um povo que vivia especialmente da pesca e do cultivo de algumas esp\u00e9cies. Come\u00e7aram, ent\u00e3o, a migrar dentro do pr\u00f3prio territ\u00f3rio da Venezuela em busca de novos lugares para se fixarem. Com a grave crise que se abateu nos \u00faltimos anos naquele pa\u00eds, os Warao cruzaram fronteiras. No Brasil entraram pelo munic\u00edpio de Pacaraima, no estado de Roraima. Iniciaram uma verdadeira aventura \u00e0 procura de um lugar para viver. O grupo que chegou a Montes Claros j\u00e1 passou por estados das regi\u00f5es Norte e Nordeste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os Warao t\u00eam uma l\u00edngua pr\u00f3pria. Poucos entre eles falam o espanhol. Os la\u00e7os familiares s\u00e3o fortes e eles viajam em grupos maiores como uma grande fam\u00edlia. Entre os que est\u00e3o em Montes Claros h\u00e1 muitas crian\u00e7as e algumas gestantes. Seus h\u00e1bitos alimentares s\u00e3o diferentes dos nossos. Eles n\u00e3o tomam caf\u00e9 nem cozinham feij\u00e3o, por exemplo. Preferem inhame, mandioca, cebola, piment\u00e3o, peixe e frango. Sem d\u00favida t\u00eam uma cultura pr\u00f3pria e, nas diferen\u00e7as de costumes, h\u00e1bitos e comportamentos podem nos causar espanto ou mesmo nos chocar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tenho pensado que a chegada deles n\u00e3o \u00e9 somente um grande desafio para n\u00f3s que aqui vivemos, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma oportunidade para aprendermos a lidar com a rica diversidade da humanidade. Meu olhar volta-se para o Papa Francisco, que no dia 3 de outubro passado publicou a carta enc\u00edclica \u201cFratelli tutti\u201d, express\u00e3o tomada de S\u00e3o Francisco de Assis e que pode ser traduzida como \u201cTodos irm\u00e3os\u201d. Diz o Papa: \u201cEntrego esta enc\u00edclica social como humilde contribui\u00e7\u00e3o para a reflex\u00e3o, a fim de que, perante as v\u00e1rias formas atuais de eliminar ou ignorar os outros, sejamos capazes de reagir com um novo sonho de fraternidade e amizade social que n\u00e3o se limite a palavras\u201d (FT 6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A chegada do estrangeiro pobre pode causar-nos desconforto, estranheza. Mas \u201cse forem ajudados a integrar-se, os imigrantes s\u00e3o uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, uma riqueza e um novo dom, que convida a sociedade a crescer\u201d (FT 135). Eis porque afirmei que a chegada dos Warao pode ser uma oportunidade para n\u00f3s. Vai nos ajudar a vencer preconceitos, a perceber que n\u00e3o somos o centro do mundo, a nos dar conta de que o verdadeiro amor crist\u00e3o, o \u00e1gape, \u00e9 oblativo, \u00e9 paciente, \u00e9 benfazejo, n\u00e3o se encoleriza, desculpa tudo (Cf. 1Cor 13, 4-7). Estamos em busca da melhor forma de acolh\u00ea-los e ajud\u00e1-los. N\u00e3o sabemos o resultado de nossas a\u00e7\u00f5es, nem se eles permanecer\u00e3o aqui. Mas se eles forem motivo para aprendermos a ser menos preconceituosos j\u00e1 ter\u00e3o trazido uma b\u00ean\u00e7\u00e3o para n\u00f3s. Porque somos todos irm\u00e3os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o Justino de Medeiros Silva Arcebispo de Montes Claros (MG) \u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Desde o in\u00edcio de novembro, os montesclarenses observam a presen\u00e7a de alguns jovens casais com crian\u00e7as ao colo pedindo esmolas em cruzamentos no centro da cidade. 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