{"id":256016,"date":"2020-12-03T11:00:07","date_gmt":"2020-12-03T14:00:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=256016"},"modified":"2020-12-03T11:00:38","modified_gmt":"2020-12-03T14:00:38","slug":"as-minas-que-sao-covas-de-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/as-minas-que-sao-covas-de-morte\/","title":{"rendered":"As minas que s\u00e3o covas de morte"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Beto Breis<\/strong><br \/>\n<strong>Bispo de Juazeiro (BA)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Naquele dia, nascer\u00e1 uma haste do tronco de Jess\u00e9 e, a partir da raiz, surgir\u00e1 o rebento de uma flor; sobre ele repousar\u00e1 o Esp\u00edrito do Senhor: trar\u00e1 justi\u00e7a para os humildes e uma ordem justa para os homens pac\u00edficos&#8230; N\u00e3o haver\u00e1 danos nem mortes por todo o meu santo monte<\/em>\u201d (Isa\u00edas 11,1.4.9)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Movido pela Esperan\u00e7a celebrada e reavivada pela Liturgia nestes dias de Advento e comovido pela dor de tantos irm\u00e3os atingidos e amea\u00e7ados por empresas ligadas \u00e0 minera\u00e7\u00e3o nestas terras da Bahia escrevo estas palavras, pra que ao grito das v\u00edtimas de Mariana e Brumadinho ressoe tamb\u00e9m o clamor de tantas pessoas e comunidades atingidas e amea\u00e7adas por tais empreendimentos e suas ilus\u00f3rias\u00a0 promessas de progresso. Nem sempre a morte semeada e cultivada pelos que colocam no centro o lucro e seus interesses se manifesta abrupta, como nas Minas Gerais, mas muitas vezes vem em conta-gotas, aos poucos, gerando n\u00e3o menos dor e indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na segunda metade do s\u00e9culo XVII, as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas nativas destas margens do S\u00e3o Francisco viviam e sobreviviam amea\u00e7adas por \u00e1vidos exploradores e aventureiros de toda esp\u00e9cie em busca de ouro e pelos que se diziam propriet\u00e1rios das terras, \u201cdoadas\u201d como sesmarias. \u00a0Passados mais de tr\u00eas s\u00e9culos, a situa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a e de desrespeito aos direitos e \u00e0 vida das popula\u00e7\u00f5es locais nestas terras s\u00e3ofranciscanas persiste, com vestes imorais de legalidade que cobrem os gananciosos por min\u00e9rios e terras. Mineradoras e pretensos propriet\u00e1rios (grileiros) ferem a qualidade de vida e amea\u00e7am fam\u00edlias que h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es convivem com o semi\u00e1rido e aproveitam das benesses de um rio generoso e perene.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Moradores de diversas comunidades, n\u00e3o apenas no \u00e2mbito de nossa Igreja Particular de Juazeiro, vem sofrendo os efeitos da presen\u00e7a de mineradoras e da chegada de outras dessas empresas. Trago aqui, por exemplo, o drama vivido desde 2005 pelas mais de trezentas fam\u00edlias que formam a popula\u00e7\u00e3o de Angico dos Dias, no munic\u00edpio de Campo Alegre de Lourdes. O ar polu\u00eddo pela poeira t\u00f3xica expelida no processamento de fosfato em uma pequena serra junto \u00e0 comunidade (por vezes formando densas nuvens) tem gerado enfermidades respirat\u00f3rias e dermatol\u00f3gicas das mais diversas. A lagoa, at\u00e9 ent\u00e3o portadora da irm\u00e3 \u00e1gua \u201c<em>\u00fatil, preciosa e casta<\/em>\u201d (como decantava S\u00e3o Francisco), est\u00e1 morta. Em visita recente \u00e0 comunidade pude ouvir os lamentos de habitantes, muitos deles idosos, que sofrem tamb\u00e9m com os impactos de explos\u00f5es provocados por empresa mineradora (comprometendo estruturas de casas e de indispens\u00e1veis cisternas) e as amea\u00e7as de grileiros que chegam com \u201cdocumentos\u201d negando o direito \u00e0 terra de quem vive em espa\u00e7os sacralizados pelos firmes passos dos seus antepassados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Sento S\u00e9, comunidades \u00e0s margens do Velho Chico, ainda com feridas n\u00e3o cicatrizadas desde os tempos da constru\u00e7\u00e3o da Barragem de Sobradinho (nos anos 70), afirmam serem desrespeitadas por empresas mineradoras, que se instalam na proximidade da Serra da Bicuda como se toda a \u00e1rea vizinha fosse \u201cterra de ningu\u00e9m\u201d. E a\u00ed moram aproximadamente mil e trezentas fam\u00edlias! Afirmam peremptoriamente que a instala\u00e7\u00e3o da mineradora foi autorizada e anunciada por \u00f3rg\u00e3os competentes sem que fossem ouvidos aqueles que sofrer\u00e3o seus impactos em suas vidas e na natureza com a qual tem uma rela\u00e7\u00e3o de interdepend\u00eancia, a come\u00e7ar pelas \u00e1guas do Velho Chico.\u00a0 Em encontro h\u00e1 algumas semanas com moradores dessas comunidades sa\u00ed impressionado com seus relatos angustiantes e com sua indigna\u00e7\u00e3o. Certa moradora, relembrando as dores persistentes desde os anos 70, fala do progresso prometido com a Barragem de Sobradinho, que \u201cainda n\u00e3o chegou\u201d, e se pergunta: \u201c<em>o que fizemos para merecer tanto castigo<\/em>?\u201d. Outra jovem senhora, por sua vez, porta tamb\u00e9m os sentimentos dos demais afirmando que \u201c<em>Deus est\u00e1 ao nosso lado, pois ele \u00e9 o dono de tudo<\/em>\u201d. Alegramo-nos, por outro lado, com a presen\u00e7a da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT) e da Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP) junto \u00e0s popula\u00e7\u00f5es, que assim se sentem fortalecidas e apoiadas em sua luta e na defesa dos seus direitos inalien\u00e1veis. A CNBB &#8211; Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil \u2013 j\u00e1 comp\u00f4s uma Comiss\u00e3o Episcopal Pastoral Especial sobre Ecologia Integral e Minera\u00e7\u00e3o (CEEM), para focar aten\u00e7\u00e3o especial nos graves e preocupantes reflexos da minera\u00e7\u00e3o em todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cremos firmemente que as autoridades constitu\u00eddas em todas as esferas, no seu dever de atuarem no \u201c<em>campo da caridade mais ampla, a caridade pol\u00edtica<\/em>\u201d (Papa Pio XI, em 1927) t\u00eam a tarefa de ouvir as popula\u00e7\u00f5es em quest\u00e3o e tomarem a defesa dos seus interesses. Bem afirma o Papa Francisco em sua mais recente Enc\u00edclica:\u00a0 \u201c<em>al\u00e9m de reabilitar uma pol\u00edtica saud\u00e1vel que n\u00e3o esteja sujeita aos ditames das finan\u00e7as, devemos voltar a p\u00f4r a dignidade humana no centro e sobre este pilar devem ser constru\u00eddas as estruturas sociais alternativas de que precisamos<\/em>\u201d ( Fratelli Tutti, 168).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste dia em que finalizo este texto, recordamos o Beato Charles de Foucauld (+ 1916), o \u201c<em>Irm\u00e3o Universal<\/em>\u201d, que em correspond\u00eancia ao bispo Monsenhor Gu\u00e9rin, escreveu: \u201c<em>Eu aprendi a mesma coisa, a defender os inocentes, os fracos, desde que sejam atacados&#8230;\u00a0 e isto \u00e9 um dever evidente da caridade fraterna<\/em>\u201d. Fa\u00e7o minhas as suas palavras, pedindo ao Senhor que sustente essas popula\u00e7\u00f5es em suas lutas e anseios. Que o tempo novo que Ele anunciou pelo Profeta Isa\u00edas, tempo que \u201ctrar\u00e1 justi\u00e7a para os humildes e uma ordem justa para os homens pac\u00edficos\u201d, logo se fa\u00e7a plenamente presente entre n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Beto Breis Bispo de Juazeiro (BA) \u201cNaquele dia, nascer\u00e1 uma haste do tronco de Jess\u00e9 e, a partir da raiz, surgir\u00e1 o rebento de uma flor; sobre ele repousar\u00e1 o Esp\u00edrito do Senhor: trar\u00e1 justi\u00e7a para os humildes e uma ordem justa para os homens pac\u00edficos&#8230; N\u00e3o haver\u00e1 danos nem mortes por todo o &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/as-minas-que-sao-covas-de-morte\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">As minas que s\u00e3o covas de morte<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":123,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/256016"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/123"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=256016"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/256016\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=256016"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=256016"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=256016"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}