{"id":257711,"date":"2021-01-15T11:39:24","date_gmt":"2021-01-15T14:39:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=257711"},"modified":"2021-01-15T11:49:42","modified_gmt":"2021-01-15T14:49:42","slug":"ao-celebrar-30-anos-a-semana-social-brasileira-reafirma-sua-luta-pelos-direitos-humanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/ao-celebrar-30-anos-a-semana-social-brasileira-reafirma-sua-luta-pelos-direitos-humanos\/","title":{"rendered":"Ao celebrar 30 anos, a Semana Social Brasileira reafirma sua luta pelos direitos humanos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO sujeito da autoridade pol\u00edtica \u00e9 o povo considerado na sua totalidade como detentor da soberania\u201d, escreveu o Pontificado Conselho para a Justi\u00e7a e a Paz, em 2004, a pedido do papa Jo\u00e3o Paulo II no Compendio da Doutrina Social da Igreja. Tal observa\u00e7\u00e3o do magist\u00e9rio est\u00e1 na base de a\u00e7\u00e3o e motiva\u00e7\u00e3o das Semanas Sociais Brasileiras, que h\u00e1 30 anos colaboram com a constru\u00e7\u00e3o de um projeto de pa\u00eds mais justo e igualit\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O terreno em que a iniciativa evangelizadora brotou por aqui, a exemplo da europeia, era de celebra\u00e7\u00e3o dos cem anos da Enc\u00edclica Rerum Novarum, de Le\u00e3o XIII, que tratava sobre as condi\u00e7\u00f5es dos oper\u00e1rios, das quest\u00f5es sociais. N\u00e3o por acaso, o tema da 1\u00aa Semana Social Brasileira foi \u201cMundo do trabalho: desafios e perspectivas\u201d, e diferentemente das demais edi\u00e7\u00f5es, que se tornaram processos formativos com eventos pontuais descentralizados por todo o pa\u00eds, a primeira edi\u00e7\u00e3o aconteceu entre 3 e 8 de novembro de 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO mundo do trabalho estava em debate naquele momento e a sociedade come\u00e7ava a viver a implementa\u00e7\u00e3o das novas tecnologias naquela \u00e9poca, ent\u00e3o foi algo importante\u201d, avalia Ari Alberti, da coordena\u00e7\u00e3o nacional do Grito dos Exclu\u00eddos, que participou da primeira edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o s\u00f3. Houve um cen\u00e1rio de redemocratiza\u00e7\u00e3o p\u00f3s-Ditadura Militar (1968-1985), de abertura pol\u00edtica, de organiza\u00e7\u00e3o popular e esperan\u00e7a para o povo alimentada pelo Conc\u00edlio Vaticano II (1965-1968) e sua obra de <em>aggiornamento<\/em>, que firmou no interior da Igreja Cat\u00f3lica latino-americana uma crescente preocupa\u00e7\u00e3o com o povo mais pobre e suas necessidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) passa (nos anos 1960) a assumir um papel central na luta pelos direitos humanos e constitui-se em um foco permanente de resist\u00eancia democr\u00e1tica\u201d, destaca o te\u00f3logo Paulo Fernando Carneiro de Andrade em seu artigo \u201cDemocracia e Doutrina Social da Igreja\u201d, publicado no livro Democracia, Igreja e Cidadania, Desafios Atuais, de 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestes tempos, e muitas s\u00e3o as fontes vivas para testemunhar, bispos como dom Waldir Calheiros, de Volta Redonda (RJ), e dom Helder C\u00e2mara, de Recife (PE), s\u00e3o acusados de estarem a servi\u00e7o do comunismo internacional. Padres s\u00e3o presos e muitas vezes torturados, alguns s\u00e3o condenados por tribunais militares e outros s\u00e3o expulsos do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cFui preso em 1964 por integrar a dire\u00e7\u00e3o nacional da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, considerada subversiva pelos militares que deram o golpe de Estado naquele ano. E preso novamente em 1969, por dar guarida e fuga do Brasil a perseguidos pela ditadura\u201d, disse Frei Betto em entrevista a esta rep\u00f3rter. Seus livros Cartas da Pris\u00e3o (Companhia das Letras), Batismo de Sangue e Di\u00e1rio de Fernando \u2013 Nos C\u00e1rceres da Ditadura Militar Brasileira (ambos editados pela Rocco) revelam em detalhes o que sofreu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1970, dom Alo\u00edsio Lorscheider, na \u00e9poca secret\u00e1rio-geral da CNBB, \u00e9 detido por cerca de quatro horas na sede da entidade e impedido de comparecer a uma reuni\u00e3o com o ministro da Justi\u00e7a. Outros diversos nomes, como dom Paulo Evaristo Arns e dom Eug\u00eanio Salles, se destacaram na luta incondicional a favor dos presos pol\u00edticos, dos Direitos Humanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andrade destaca tamb\u00e9m que in\u00fameros documentos publicados pela hierarquia da Igreja Cat\u00f3lica, como \u201cEu Ouvi os Clamores do meu Povo\u201d, dos bispos do Nordeste, de maio de 1973, \u201cComunica\u00e7\u00e3o Pastoral ao Povo de Deus\u201d, da Comiss\u00e3o Representativa da CNBB, de 1976, e \u201cExig\u00eancias Crist\u00e3s de uma Ordem Pol\u00edtica\u201d, de 1977, somados \u00e0s posturas individuais ou coletivas, romperam com o sil\u00eancio imposto pela censura \u201ce com a morda\u00e7a que naqueles anos pretendia calar qualquer voz cr\u00edtica ao regime militar, a seus atos e \u00e0 sua ideologia\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cAs semanas sociais foram grandes sementeiras da luta do povo brasileiro e que envolveram muita gente.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Florescia ali tamb\u00e9m um intenso movimento pastoral que culminaria anos depois na 1\u00aa Semana Social Brasileira. \u201cAs semanas sociais foram grandes sementeiras da luta do povo brasileiro e que envolveram muita gente. V\u00ednhamos de um processo da Ditadura Militar, da repress\u00e3o, das mortes, do sil\u00eancio, n\u00e3o pod\u00edamos nos reunir&#8230; ent\u00e3o t\u00ednhamos uma organiza\u00e7\u00e3o social e a m\u00edstica do encontro, da unidade, da partilha e da perspectiva de um horizonte novo\u201d, lembra Ari Alberti, coordenador nacional do Grito dos Exclu\u00eddos, fruto da 2\u00aa Semana Social Brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a primeira tamb\u00e9m rendeu frutos. O te\u00f3logo Nelito Nonato Dornelas, que j\u00e1 foi assessor da Comiss\u00e3o Episcopal Pastoral para A\u00e7\u00e3o Sociotransformadora CNBB, aponta em seu artigo \u201cIgreja e Sociedade a Partir das Semanas Sociais\u201d, publicado na revista Encontros Teol\u00f3gicos em 2014, que a primeira edi\u00e7\u00e3o da Semana Social Brasileira estabeleceu um processo de monitoramento de viola\u00e7\u00e3o de direitos civis e sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cForam criados in\u00fameros grupos de economia solid\u00e1ria apoiados pelos sindicatos e incentivados pelas C\u00e1ritas e por pastorais sociais. Este processo resultou na constitui\u00e7\u00e3o do F\u00f3rum Nacional de Economia Solid\u00e1ria, que contribuiu para a cria\u00e7\u00e3o da Secretaria Nacional de Economia Solid\u00e1ria no Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego do governo federal\u201d, registra o padre, que tamb\u00e9m foi articulador da 5\u00aa Semana Social Brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda segundo ele, em 2014 eram mais de 20 mil os grupos de economia popular solid\u00e1ria e sustent\u00e1vel espalhados pelo pa\u00eds que recebiam apoio t\u00e9cnico da referida secretaria.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">O Brasil que queremos<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A 2\u00aa Semana Social Brasileira, realizada em 1993 e 1994, tratou do tema \u201cBrasil: Alternativas e Protagonistas\u201d, e para se ter ideia da relev\u00e2ncia desta iniciativa no cen\u00e1rio pol\u00edtico, a programa\u00e7\u00e3o da semana contou com a realiza\u00e7\u00e3o de um debate com os candidatos \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Em julho de 1994 houve o primeiro confronto entre Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT), dentre os nove presidenci\u00e1veis na ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O debate foi realizado no Centro de Conven\u00e7\u00f5es Ulysses Guimar\u00e3es, em Bras\u00edlia (DF), e transmitido ao vivo pela TV Bandeirantes. Segundo a Folha de S.Paulo de 26 de julho de 1994, apenas os 350 participantes da 2\u00aaSSB e a imprensa credenciada poderiam assistir no local.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCinquenta perguntas foram colocadas em v\u00e1rias urnas distribu\u00eddas pelas regi\u00f5es do pa\u00eds e eram sorteadas publicamente. Todos os participantes estavam presentes no debate. Ou seja, o debate n\u00e3o foi feito num est\u00fadio, mas num lugar p\u00fablico sob o olhar atento de todos os participantes do evento (semana social)\u201d, conta o professor Cesar Sanson, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e ex-coordenador nacional da Comiss\u00e3o Pastoral Oper\u00e1ria no artigo \u201cA CNBB e o debate de 1994 entre os presidenci\u00e1veis. Algumas notas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas as perguntas foram elaboradas a partir de uma consulta aos participantes da 2\u00aa SSB, distribu\u00eddos em grupos tem\u00e1ticos, e o debate foi coordenado pessoalmente por dom Luciano Mendes de Almeida, ent\u00e3o presidente da CNBB, que realizou reuni\u00f5es entre os presidenci\u00e1veis. Naquele ano, dom Luciano tamb\u00e9m publicou artigos sobre a Semana Social Brasileira tanto no jornal Folha de S.Paulo quanto na Revista Fam\u00edlia Crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A 2\u00aa Semana foi articulada pelo Setor Pastoral Social da CNBB, cujo bispo respons\u00e1vel era dom Demetrio Valentini, atualmente bispo em\u00e9rito de Jales (SP), e a partir de um grupo de lideran\u00e7as das pastorais sociais coordenada na \u00e9poca pelo jesu\u00edta In\u00e1cio Neutzling, hoje diretor do Instituto Humanitas Unisinos &#8211; IHU. Em entrevista ao Boletim da Uni\u00e3o Crist\u00e3 Brasileira de Comunica\u00e7\u00e3o Social e da Uni\u00e3o de Radiodifus\u00e3o Cat\u00f3lica do Brasil S\u00e3o Pauto, de abril de 1994, padre In\u00e1cio Neutzling falou sobre a realiza\u00e7\u00e3o da Semana Social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEla vai ao encontro de diversas iniciativas das organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil que est\u00e3o assumindo a dimens\u00e3o propositiva. Isso acontece no momento em que o espa\u00e7o interno dos partidos e das articula\u00e7\u00f5es interpartid\u00e1rias, bem como os espa\u00e7os das institui\u00e7\u00f5es do Estado, revelam-se limitados para a constru\u00e7\u00e3o daqueles consensos estrat\u00e9gicos necess\u00e1rios \u00e0 formula\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o de um novo projeto nacional\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo o processo de mobiliza\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o acumulado nas semanas sociais culminou tamb\u00e9m em 1994 no surgimento da Articula\u00e7\u00e3o do Semi\u00e1rido (ASA). \u201cO surgimento da ASA est\u00e1 diretamente relacionado ao processo de mobiliza\u00e7\u00e3o e fortalecimento da sociedade civil no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990. Um dos mais marcantes foi a ocupa\u00e7\u00e3o da Superintend\u00eancia de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), em 1993, com o objetivo de pautar a conviv\u00eancia com o semi\u00e1rido em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica governamental vigente na \u00e9poca\u201d, registra a articula\u00e7\u00e3o em sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padre Nelito Dornellas destaca que a 2\u00aa Semana Social Brasileira possibilitou a Articula\u00e7\u00e3o do Semi\u00e1rido (ASA) envolvendo mais de 400 entidades que atuam no semi\u00e1rido brasileiro, e que desde ent\u00e3o a articula\u00e7\u00e3o promove a campanha de conviv\u00eancia com o semi\u00e1rido e n\u00e3o de combate \u00e0 seca, mediante a proposi\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas que resultou na campanha pela constru\u00e7\u00e3o de um milh\u00e3o de cisternas para a coleta de \u00e1gua da chuva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo dos anos, a ASA vem fortalecendo a sociedade civil na constru\u00e7\u00e3o de processos participativos para o desenvolvimento sustent\u00e1vel e a conviv\u00eancia com o semi\u00e1rido referenciados em valores culturais e de justi\u00e7a social. \u201cA ASA fortalece a sociedade civil mobilizando-a. Uma das estrat\u00e9gias que a articula\u00e7\u00e3o utiliza para a mobiliza\u00e7\u00e3o social \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o popular, assim como processos de sistematiza\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias e de interc\u00e2mbio entre as fam\u00edlias agricultoras, que promovem a constru\u00e7\u00e3o coletiva do conhecimento\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais uma vez, as experi\u00eancias desenvolvidas e articuladas pela ASA e suas organiza\u00e7\u00f5es mostram que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel reformular as bases estruturais do modelo de desenvolvimento a partir das bases. \u201cElas (as experi\u00eancias) revelam a possibilidade de estabelecer novas rela\u00e7\u00f5es entre Estado e sociedade civil, nas quais o Estado assuma o papel de apoiar as iniciativas aut\u00f4nomas e criativas, gestadas no seio da sociedade\u201d, registra a ASA em sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Grito dos Exclu\u00eddos tamb\u00e9m surge a partir do debate do \u201cBrasil: alternativas e protagonistas\u201d, com o objetivo de mobilizar a sociedade durante a Semana da P\u00e1tria, em setembro, para discutir quest\u00f5es sociais em \u00e2mbito local, e ent\u00e3o, desde seu nascimento, o Grito dos Exclu\u00eddos vem marcando o pa\u00eds discutindo a liberdade, a independ\u00eancia e a soberania do Brasil, e tem servido de horizonte e de luta para todos os movimentos sociais, mas a partir daqueles que s\u00e3o mais exclu\u00eddos. Assim avalia seu coordenador nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEm 1994, o cen\u00e1rio pol\u00edtico p\u00f3s-ditadura era protagonizado por PT e PSDB, uma polariza\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de ser comparada com o atual cen\u00e1rio que enfrentamos hoje no pa\u00eds. Est\u00e1vamos em um processo crescente. N\u00e3o t\u00ednhamos a rede social, mas t\u00ednhamos uma articula\u00e7\u00e3o melhor, uma unidade maior dos movimentos, das pastorais, e t\u00ednhamos processos que davam liga, e era sim mais lento, porque se a gente pensa em mudan\u00e7a \u00e9 preciso pensar em processos lentos. Mudan\u00e7as exigem processos maiores, horizontalidade\u201d, avalia Ari Alberti.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele conta que o trabalho era feito na base, no olho no olho, alimentando a partilha, a luta e o sorriso. \u201cTalvez aquilo que o papa Francisco fala agora da Igreja em sa\u00edda, da visita que est\u00e1 no Evangelho dos Disc\u00edpulos de Ema\u00fas, nos mostra a import\u00e2ncia do trabalho de base, do trabalho de formiguinha que foi feito\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A proposta do Grito dos Exclu\u00eddos e Exclu\u00eddas surgiu, portanto, em1994, inspirada tamb\u00e9m pela Campanha da Fraternidade de 1995, que tinha o lema \u201cA fraternidade e os exclu\u00eddos\u201d. O primeiro Grito dos Exclu\u00eddos, no entanto, aconteceu no dia 7 de setembro de 1995, com o lema \u201cA vida em primeiro lugar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de 1996, o Grito passa a ser assumido pela CNBB, e a cada ano se efetiva como uma imensa constru\u00e7\u00e3o coletiva, antes, durante e ap\u00f3s o Dia da P\u00e1tria, como uma experi\u00eancia formativa interna e pessoal sobre os problemas existentes no pa\u00eds, mas tamb\u00e9m coletiva, de mobiliza\u00e7\u00e3o, de den\u00fancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSe o povo brasileiro n\u00e3o fosse lutador e resistente, mais gente estaria na mis\u00e9ria. O nosso desafio principal hoje n\u00e3o \u00e9 o Planalto, \u00e9 a plan\u00edcie onde temos que atuar. S\u00f3 mexendo na plan\u00edcie se pode mexer na estrutura. O nosso inimigo \u00e9 gigante, mas ele tem os p\u00e9s de barro, se a gente souber lutar e onde jogar \u00e1gua o gigante cai\u201d, conclama Ari.<\/p>\n<h3>D\u00edvida de quem?<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre 1997 e 1999 foi realizada a 3\u00aa Semana Social Brasileira, com o tema \u201cResgate das D\u00edvidas Sociais: Justi\u00e7a e solidariedade na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade democr\u00e1tica\u201d, e dela se efetivou o nascimento da Rede Jubileu Sul Brasil, entidade que questiona o pagamento de d\u00edvida externa em detrimento do uso de dinheiro p\u00fablico em direitos da popula\u00e7\u00e3o. \u201cPara a sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 recurso, mas para manter o pagamento dos t\u00edtulos das d\u00edvidas h\u00e1. Essa \u00e9 a l\u00f3gica perversa e que a gente tem denunciado permanentemente. Esse \u00e9 um Estado que n\u00e3o tem a popula\u00e7\u00e3o como prioridade, isso \u00e9 perverso, desumano\u201d, conta Rosilene Wansetto, secret\u00e1ria-executiva da entidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rosi, como \u00e9 conhecida na milit\u00e2ncia, lembra que o nascimento da Rede surgiu a partir do ac\u00famulo dos debates sobre o endividamento p\u00fablico que perpassaram os anos 1990 nos \u201cpa\u00edses do sul global\u201d, ou seja, nas regi\u00f5es perif\u00e9ricas e semiperif\u00e9ricas dos pa\u00edses anteriormente denominados Terceiro Mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os debates a que ela se refere eram feitos nas bases, par\u00f3quias e rodas de conversa, e desmitificavam a economia dando informa\u00e7\u00e3o, forma\u00e7\u00e3o e autonomia para o cidad\u00e3o e a cidad\u00e3 cobrarem o bom uso do dinheiro p\u00fablico naquilo que \u00e9 necess\u00e1rio e leg\u00edtimo: em direitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cHouve contratos da d\u00edvida brasileira contra\u00eddas no per\u00edodo ditatorial que nem existem mais, que desapareceram, e esse recurso n\u00e3o foi aplicado em sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o ou saneamento, ent\u00e3o essa \u00e9 uma quest\u00e3o que a gente vem discutindo bastante. Voc\u00ea contrai d\u00edvida para qu\u00ea e para quem? Diz-se para o desenvolvimento, mas do qu\u00ea?\u201d, questiona Rosilene.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a soci\u00f3loga, n\u00e3o basta s\u00f3 discutir a d\u00edvida financeira, monet\u00e1ria, mas \u00e9 preciso tamb\u00e9m discutir qual a d\u00edvida que alimenta a d\u00edvida social, e isso tem a ver com o racismo, a coloniza\u00e7\u00e3o, a destrui\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios, dos povos ind\u00edgenas, com esses modelos de desenvolvimento, com o impacto disso na vida das mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuem sempre lucrou continua lucrando, ou seja, o pa\u00eds tem uma prioridade, que \u00e9 manter esse compromisso fiscal com os detentores dos t\u00edtulos. Veja agora, em tempos de pandemia, vem uma negocia\u00e7\u00e3o com o FMI (Fundo Monet\u00e1rio Internacional) para adquirir mais d\u00edvida, enquanto a maior parte da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 desempregada, desalentada\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cN\u00e3o vamos conseguir derrotar esse projeto de morte que est\u00e1 a\u00ed com lives, Twitter, \u00e9 s\u00f3 atrav\u00e9s de um projeto de forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, e a Semana Social \u00e9 este espa\u00e7o\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rosilene defende que a 6\u00aa Semana Social Brasileira seja um espa\u00e7o de luta pelo fim do teto de gastos (a Emenda Constitucional 95), que congelou por 30 anos investimentos em direitos sociais, e que um novo projeto popular de na\u00e7\u00e3o seja constru\u00eddo coletivamente, mas ela tamb\u00e9m alerta que isso n\u00e3o se dar\u00e1 pelas redes sociais. \u201cN\u00e3o vamos conseguir derrotar esse projeto de morte que est\u00e1 a\u00ed com lives, Twitter, \u00e9 s\u00f3 atrav\u00e9s de um projeto de forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, e a Semana Social \u00e9 este espa\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do surgimento da Rede Jubileu Sul Brasil, a 3\u00aa SSB fortaleceu a vida democr\u00e1tica participativa do pa\u00eds, com a organiza\u00e7\u00e3o popular no monitoramento da d\u00edvida externa. \u201cSe n\u00f3s conseguimos fazer um plebiscito sobre a d\u00edvida externa na Semana da P\u00e1tria e juntar 6 milh\u00f5es e 30 mil votos, foi porque existiu um trabalho de base. Havia articula\u00e7\u00e3o e muito trabalho de distribui\u00e7\u00e3o de cartilhas e jornaizinhos por meio de correio&#8230;\u201d, conta Alberti, o coordenador do Grito dos Exclu\u00eddos.<\/p>\n<h3>Milit\u00e2ncia<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os dias 1\u00ba e 7 de setembro de 2002, a partir desse processo de organiza\u00e7\u00e3o popular, aconteceu o plebiscito contra a \u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas (Alca) e nele a maioria dos 10.149.542 de eleitores brasileiros de 3.894 munic\u00edpios mostrou-se contra a ades\u00e3o do governo brasileiro \u00e0 Alca. Mas decidiram tamb\u00e9m pela suspens\u00e3o das negocia\u00e7\u00f5es para a forma\u00e7\u00e3o do bloco e sobre um projeto de lei do governo, que na ocasi\u00e3o estava em an\u00e1lise no Congresso e que permitiria aos Estados Unidos o uso da base de lan\u00e7amento de Alc\u00e2ntara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela consulta, a popula\u00e7\u00e3o brasileira votou contra a cess\u00e3o da base de Alc\u00e2ntara, e contrariando esse desejo popular, em novembro de 2019 o governo Bolsonaro permitiu aos Estados Unidos o uso comercial da base em troca de recursos para investir no desenvolvimento e no aperfei\u00e7oamento do Programa Espacial Brasileiro.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO trabalho que a semana social faz historicamente gera movimento, mudan\u00e7a, constr\u00f3i um projeto de sociedade em que todas as pessoas est\u00e3o inclu\u00eddas.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO trabalho que a semana social faz historicamente gera movimento, mudan\u00e7a, constr\u00f3i um projeto de sociedade em que todas as pessoas est\u00e3o inclu\u00eddas. E o que n\u00f3s temos hoje \u00e9 um projeto que seleciona as pessoas, e ele j\u00e1 escolheu\u201d, explica Rosi, lembrando o momento de paralisia que hoje o pa\u00eds atravessa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNos anos 1980 est\u00e1vamos em um movimento de ascens\u00e3o, est\u00e1vamos lutando contra um gigante maior, que era a ditadura. T\u00ednhamos um horizonte, que era o processo democr\u00e1tico, e hoje estamos como que paralisados, mesmo as esquerdas est\u00e3o sem projeto de Brasil, o que dificulta a possibilidade de impeachment de um governo que j\u00e1 cometeu muito mais crimes e nada acontece\u201d, analisa Rosi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do processo da 3\u00aa SSB tamb\u00e9m nasceu a Assembleia Popular com o objetivo de criar mecanismos de discuss\u00f5es sobre quest\u00f5es sociais e articular as for\u00e7as em defesa dos direitos civis e sociais.<\/p>\n<h3>Articular \u00e9 preciso e cuidar tamb\u00e9m<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A 4\u00aa Semana Social Brasileira realizada de 2003 a 2005 trabalhou com o tema \u201cMutir\u00e3o por um novo Brasil: Articula\u00e7\u00e3o das for\u00e7as sociais para a \u201cconstru\u00e7\u00e3o conjunta do Brasil que queremos\u201d e tinha como objetivo atingir um projeto alternativo de sociedade que fosse economicamente justo, politicamente democr\u00e1tico, culturalmente plural e que fosse tamb\u00e9m solid\u00e1rio e sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUm dos horizontes da Semana Social \u00e9 a conquista de uma soberania em que os bens e as riquezas ambientais como a biodiversidade, a \u00e1gua, as florestas, nossos recursos econ\u00f4micos, nossas riquezas culturais e os bens socialmente produzidos possam beneficiar o conjunto da popula\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUm dos horizontes da Semana Social \u00e9 a conquista de uma soberania em que os bens e as riquezas ambientais como a biodiversidade, a \u00e1gua, as florestas, nossos recursos econ\u00f4micos, nossas riquezas culturais e os bens socialmente produzidos possam beneficiar o conjunto da popula\u00e7\u00e3o brasileira, em especial os mais pobres, historicamente exclu\u00eddos desses bens. Evidentemente, numa perspectiva de solidariedade e unidade com os pobres do mundo. A Semana Social aposta ainda na transforma\u00e7\u00e3o do estado como instrumento a servi\u00e7o da cidadania\u201d, escreveu Luiz Bassegio, secret\u00e1rio continental do Grito dos Exclu\u00eddos e da coordena\u00e7\u00e3o da 4\u00aa Semana Social Brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como resultado desse processo surgiu o F\u00f3rum para a Justi\u00e7a Social e Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas, coordenado desde ent\u00e3o pelo fil\u00f3sofo e cientista social Ivo Polleto. O f\u00f3rum promove o debate e forma\u00e7\u00e3o permanente sobre as quest\u00f5es ambientais e demanda pol\u00edticas p\u00fablicas para a sustentabilidade ambiental e preven\u00e7\u00e3o de desastres. Atua em \u00e2mbito nacional e se faz presente nos biomas e territ\u00f3rios por meio das entidades membros e parceiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na esteira do processo da 4\u00aa SSB aconteceu em 2007 a campanha nacional \u201cA Vale \u00e9 nossa\u201d com o prop\u00f3sito imediato de consultar a popula\u00e7\u00e3o sobre o processo de privatiza\u00e7\u00e3o de uma das empresas estatais mais importantes do Pa\u00eds, a Companhia Vale do Rio Doce, uma das maiores produtoras de min\u00e9rio de ferro do mundo. A privatiza\u00e7\u00e3o dessa empresa estatal havia ocorrido em maio de 1997, quando foi vendida por R$ 3,3 bilh\u00f5es. Diversos movimentos sociais acusaram que teria havido fraude no processo de privatiza\u00e7\u00e3o e que a Vale tinha um valor muito superior ao que foi efetivamente vendido, chegando a R$ 100 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O plebiscito tinha como objetivo principal anular a privatiza\u00e7\u00e3o da empresa. Segundo os seus organizadores, foram colhidos mais de 3,7 milh\u00f5es de votos em 3.200 munic\u00edpios, sendo que a mobiliza\u00e7\u00e3o envolveu 104 mil militantes em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<h3>\u201cO Estado que temos e o Estado que queremos&#8221;<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A 5\u00aa Semana Social Brasileira foi realizada entre 2011 e 2013 promoveu o debate \u201cUm Novo Estado: Caminho para uma Nova Sociedade do Bem Viver\u201d, apresentando \u00e0 sociedade os limites e o esgotamento da democracia representativa, apontando para a necessidade de uma efetiva democracia participativa e direta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padre Ari Antonio dos Reis, p\u00e1roco da Catedral de Passo Fundo (RS), foi um dos coordenadores e conta que a semana social, para al\u00e9m da pr\u00e1tica de uma m\u00edstica que alimenta a f\u00e9, a Semana Social potencializou a capacidade de conscientiza\u00e7\u00e3o das pessoas. \u201cNa 5\u00aa Semana Social estava acontecendo o in\u00edcio do debate sobre a reforma pol\u00edtica e tentou-se fazer uma liga\u00e7\u00e3o desse debate com a vida das pessoas, em seu dia a dia. Na minha cidade, por exemplo, temos v\u00e1rias ocupa\u00e7\u00f5es, e a Semana Social est\u00e1 com esse debate desde sempre, sobre os direitos. Teoricamente deveria fazer brilhar os olhos dessas pessoas, mas \u00e0s vezes nem isso se concretiza. Percebemos isso na quinta semana social, de que precis\u00e1vamos chegar naqueles que ainda n\u00e3o compreenderam a profundidade e a import\u00e2ncia desse debate. Claro, \u00e9 utopia pensar que todos v\u00e3o participar desse debate&#8230;\u201d, avalia o padre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2013, foi realizado um plebiscito informal sobre a necessidade de reforma do sistema pol\u00edtico. \u201cAvaliando que os setores conservadores n\u00e3o permitiriam uma reforma profunda e democr\u00e1tica nessa dire\u00e7\u00e3o, diversas organiza\u00e7\u00f5es, entidades de classe e partidos pol\u00edticos passaram a organizar a realiza\u00e7\u00e3o de um plebiscito informal para pressionar pelas mudan\u00e7as desejadas\u201d, explica o professor Alessandro Soares, da Faculdade Escola Paulista de Direito, em sua pesquisa \u201cIniciativa popular no Brasil: tend\u00eancias punitivistas e dificuldades democr\u00e1ticas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em setembro de 2013, a Plen\u00e1ria Nacional dos Movimentos Sociais aprovou a celebra\u00e7\u00e3o de um Plebiscito Popular pela Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Pol\u00edtico. A pergunta elaborada para esse plebiscito era: \u201cVoc\u00ea \u00e9 a favor de uma constituinte exclusiva e soberana sobre o sistema pol\u00edtico?\u201d. Ap\u00f3s campanha, a consulta popular foi realizada entre os dias 1\u00b0 e 7 de setembro de 2014. Dados oficiais dos organizadores da campanha apontam mais de 40 mil urnas instaladas em todo o pa\u00eds em 4.500 munic\u00edpios, com o diferencial que tamb\u00e9m foram colhidos votos pela internet. Os votos em urnas f\u00edsicas foram 7,75 milh\u00f5es, al\u00e9m de 1,74 milh\u00e3opela internet, sendo que 97,05% dos votos disseram \u201csim\u201d \u00e0 pergunta quanto \u00e0 convoca\u00e7\u00e3o de uma Assembleia Constituinte para reformar o sistema pol\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Padre Nelito Dornelas, que fez um levantamento hist\u00f3rico das Semanas Sociais Brasileiras, destaca que a 5\u00aa SSB assumiu como proposta a ser apresentada e debatida pela sociedade brasileira o Sumak Kawsay, o Bem Viver dos povos ind\u00edgenas da regi\u00e3o Andina, os Qu\u00e9tchua e os Aymar\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEste conceito retoma duas palavras com significados semelhantes em Qu\u00e9tchua e Aymar\u00e1: sumak (muito bom) e kawsay ou cama\u00f1a (conviver), com a ideia central de uma vida em harmonia: harmonia consigo mesmo, com as outras pessoas do mesmo grupo, com os diferentes grupos, com a Pachamama, a M\u00e3e Terra e seus filhos e filhas, as outras esp\u00e9cies e com as realidades espirituais\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cOs princ\u00edpios do bem-viver dialogam com a proposta das bem-aventuran\u00e7as proclamadas por Jesus&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele explica em sua pesquisa que antes do fracasso das pol\u00edticas econ\u00f4micas neoliberais, este projeto de vida coletivo ganhou novo conte\u00fado, nova forma e tal for\u00e7a que foi incorporado \u00e0s constitui\u00e7\u00f5es do Equador (2008) e da Bol\u00edvia (2009), despertando a aten\u00e7\u00e3o de grupos e movimentos sociais em v\u00e1rios pa\u00edses. \u201cOs princ\u00edpios do bem-viver dialogam com a proposta das bem-aventuran\u00e7as proclamadas por Jesus. Das oito bem aventuran\u00e7as, destaquemos tr\u00eas: bem-aventurados os puros de cora\u00e7\u00e3o porque ver\u00e3o a Deus (Mt 5,8: princ\u00edpio religioso), bem-aventurados os mansos porque possuir\u00e3o a terra (Mt 5,5: princ\u00edpio pol\u00edtico) e bem-aventurados os misericordiosos porque alcan\u00e7ar\u00e3o miseric\u00f3rdia (Mt 5,7: princ\u00edpio \u00e9tico)\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta maneira, a 5\u00aa Semana Social entra no debate sobre o bem-viver para contribuir e transformar em express\u00e3o pol\u00edtica de uma sociedade do bem-viver para todos: povos ind\u00edgenas, afrodescendentes e tantos outros povos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-257720\" src=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Esperan\u00e7ar-6\u00aa-SSB.jpg\" alt=\"\" width=\"1023\" height=\"611\" srcset=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Esperan\u00e7ar-6\u00aa-SSB.jpg 1023w, https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Esperan\u00e7ar-6\u00aa-SSB-300x179.jpg 300w, https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Esperan\u00e7ar-6\u00aa-SSB-768x459.jpg 768w, https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Esperan\u00e7ar-6\u00aa-SSB-500x299.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 1023px) 100vw, 1023px\" \/><\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Desafios da 6\u00aa Semana Social<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao completar 30 anos desde seu \u201cnascimento\u201d, em 1991, a Semana Social Brasileira enfrenta desafios que entram tamb\u00e9m para a \u00e1rea do que nem sempre \u00e9 poss\u00edvel tocar ou mensurar. Ari Alberti explica. \u201cTemos que ressignificar os valores: a solidariedade, a generosidade, a partilha, a \u00e9tica&#8230; Reviver entre n\u00f3s essa experi\u00eancia. Oxal\u00e1 a Semana Social, o Grito, consigam ser esse espa\u00e7o onde o povo est\u00e1 bravamente partilhando a luta do dia a dia, da sobreviv\u00eancia dos mais pobres, da produ\u00e7\u00e3o alternativa e org\u00e2nica etc. Precisamos ter espa\u00e7o para socializar as experi\u00eancias que alimentam sim a luta, a esperan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>Precisamos ter espa\u00e7o para socializar as experi\u00eancias que alimentam sim a luta, a esperan\u00e7a\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o bastassem os desafios apresentados pelos contextos econ\u00f4micos, pol\u00edtico e social, a 6\u00aa Semana Social Brasileira, esse processo de forma\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 permanente, acontece em meio a uma pandemia que at\u00e9 o momento em que este texto era fechado j\u00e1 tinha vitimado 202 mil pessoas no Brasil. Ela entra para a hist\u00f3ria como a primeira Semana Social Brasileira a ser realizada, quase que exclusivamente, de modo virtual, um cen\u00e1rio de desafios e oportunidades frentes \u00e0s bolhas e aos algoritmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alessandra Miranda, secret\u00e1ria-executiva da 6\u00aaSSB, conta em entrevista feita por plataforma digital, o palco das atividades dessa semana, como tem sido essa experi\u00eancia em tempos de isolamento, polariza\u00e7\u00f5es e desgoverno.\u00a0\u201cA pandemia nos fez mudar o planejamento e passamos a atuar dentro de limites, porque sabemos que as comunidades n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 internet, e porque tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 da cultura de grande parte da sociedade estar conectado, se encontrar e celebrar pelas redes sociais\u201d, avalia Alessandra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas como algu\u00e9m que enxerga o copo metade cheio, a secret\u00e1ria-executiva observa que as exig\u00eancias desse novo tempo empurraram Igrejas e movimentos sociais a aprenderem t\u00e9cnica e criativamente a lidarem com as redes sociais e estarem presentes no mundo virtual, afim de alcan\u00e7ar outros p\u00fablicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cOs movimentos e as pastorais sociais aprenderam muito na perspectiva t\u00e9cnica. Hoje mesmo, depois dessa crise sanit\u00e1ria, a gente sabe que em muitos momentos n\u00e3o precisaremos nos reunir e encontrar. Com certeza os movimentos e pastorais est\u00e3o se adaptando para dar conta de uma linguagem mais atrativa e efetiva, porque a comunica\u00e7\u00e3o estava muito interna, e com esse boom da necessidade das redes sociais a gente teve de aprender a trabalhar nelas e o desafio \u00e9 furar as bolhas e chegar aos grupos que pensam diferente de n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alessandra revela que, caso a pandemia se alongue pelo ano de 2021, o que \u00e9 prov\u00e1vel, a 6\u00aa SSB se estenda por mais um ano para garantir que de fato as discuss\u00f5es e debates cheguem a mais e mais pessoas e de modo presencial. A ideia \u00e9 que, assim como a cartilha sobre as elei\u00e7\u00f5es de 2020 puderam aquecer o debate nos munic\u00edpios, que a Semana Social colabore ainda mais com as reflex\u00f5es sobre o peso do voto em 2022.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuisemos aproveitar as elei\u00e7\u00f5es para refletir que terra, teto e trabalho s\u00e3o direitos. No caderno\u201cMutir\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es pela vida\u201d quisemos motivar as cidades a debaterem a gest\u00e3o dos munic\u00edpios e nos preparando para as elei\u00e7\u00f5es de 2022, porque percebemos que as elei\u00e7\u00f5es municipais s\u00e3o como que um term\u00f4metro para as elei\u00e7\u00f5es de 2022. Temos uma grande perspectiva de que a gente encerre de maneira formal a Semana gerando um grande debate nessa perspectiva\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O acesso da popula\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0 vacina contra a Covid-19 tamb\u00e9m est\u00e1 entre os temas que devem ocupar a pauta da Semana Social em 2021. \u201cLan\u00e7amos enquanto CNBB uma nota sobre a import\u00e2ncia da vacina\u00e7\u00e3o para todos os brasileiros e migrantes que vivem no pa\u00eds. O tema \u00e9 Mutir\u00e3o pela Vida, ent\u00e3o v\u00e1rias quest\u00f5es urgentes entram na pauta para fazermos grandes mobiliza\u00e7\u00f5es, porque a Semana Social tem isso, e a defesa do SUS sempre esteve em nossa agenda\u201d, conclui Alessandra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela tamb\u00e9m destaca a exig\u00eancia da Semana Social de alimentar a f\u00e9, o \u00e2nimo dos que buscam a constru\u00e7\u00e3o coletiva de um Estado democr\u00e1tico, livre e soberano. \u201cA din\u00e2mica da m\u00edstica independe de religi\u00e3o, porque unimos outras experi\u00eancias de f\u00e9 e n\u00e3o-f\u00e9, da m\u00edstica libertadora, do engajamento e de trazer a din\u00e2mica da f\u00e9 relacionada com a pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o podemos cair em um pessimismo que n\u00e3o nos ajude a caminhar e n\u00e3o nos ajude a organizar. \u201cEsperan\u00e7ar\u201d \u00e9 perceber que n\u00f3s podemos fazer incid\u00eancia pol\u00edtica, \u00e9 cuidar da sa\u00fade mental, \u00e9 promover o mutir\u00e3o pela vida, uma forma de cuidado individual e coletivo.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ter esperan\u00e7as e lutar para que nosso pa\u00eds torne-se um Estado mais justo tem sido um grande desafio e, para Alessandra, tal constata\u00e7\u00e3o merece aten\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o podemos cair em um pessimismo que n\u00e3o nos ajude a caminhar e n\u00e3o nos ajude a organizar. \u201cEsperan\u00e7ar\u201d \u00e9 perceber que n\u00f3s podemos fazer incid\u00eancia pol\u00edtica, \u00e9 cuidar da sa\u00fade mental, \u00e9 promover o mutir\u00e3o pela vida, uma forma de cuidado individual e coletivo, sobretudo em um tempo de pandemia que mexe tanto com a gente\u201d, finaliza \u201cesperan\u00e7ando\u201d a secret\u00e1ria-executiva da 6\u00aaSSB.<\/p>\n<p>A 6\u00aa Semana Social Brasileira segue em Mutir\u00e3o pela Vida: Por Terra, Teto e Trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No site da 6\u00aa Social Brasileira \u00e9 poss\u00edvel acompanhar as not\u00edcias e ter acesso aos subs\u00eddios em prepara\u00e7\u00e3o \u00e0 semana: <a href=\"https:\/\/ssb.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.ssb.org.br<\/a> e para fazer o download de materiais para redes sociais da comemora\u00e7\u00e3o dos 30 anos de sua realiza\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/ssb.org.br\/noticias\/30-anos-das-semanas-sociais-brasileiras\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui neste link.\u00a0<\/a><\/p>\n<pre>Por Karla Maria | Especial 6\u00aa Semana Social Brasileira<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEsperan\u00e7ar: 30 anos das Semanas Sociais Brasileiras\u201d \u00e9 o tema comemorativo do 30\u00ba anivers\u00e1rio de realiza\u00e7\u00e3o das Semanas Sociais Brasileiras (SSB),  lan\u00e7ado nesta sexta, 15, pela CNBB, pastorais sociais e movimentos populares. Para a abertura das comemora\u00e7\u00f5es, foi lan\u00e7ada uma reportagem em que narra o processo hist\u00f3rico das Semanas Sociais e seus frutos, bem como o material de divulga\u00e7\u00e3o para as redes sociais<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":257715,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[863,50],"tags":[2083,3306,2041,2042],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/257711"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=257711"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/257711\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media\/257715"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=257711"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=257711"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=257711"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}