{"id":257883,"date":"2021-01-19T11:54:25","date_gmt":"2021-01-19T14:54:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=257883"},"modified":"2021-01-19T11:54:50","modified_gmt":"2021-01-19T14:54:50","slug":"precisamos-falar-dela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/precisamos-falar-dela\/","title":{"rendered":"Precisamos falar dela"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Pedro Carlos Cipollini<br \/>\nBispo de Santo Andr\u00e9 (SP)<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ano que terminou n\u00e3o ser\u00e1 esquecido, foi o \u201cano da Covid-19\u201d. Nele nos despedimos de muitas vidas, ceifadas pela pandemia. Dizia um fil\u00f3sofo que qualquer adeus tem sabor de morte (A. Schopenhauer). Nossa exist\u00eancia neste tempo, mais que nunca, est\u00e1 marcada pelas despedidas e pela morte.<\/p>\n<p>Morte \u00e9 assunto \u201ctabu\u201d em nossa cultura, desfaz qualquer roda de conversa. Precisamos, por\u00e9m, falar do morrer e do luto, este \u00faltimo, durante a pandemia, n\u00e3o est\u00e1 sendo poss\u00edvel realizar como se deveria, mas que, assim como a pr\u00f3pria morte, faz parte da vida. Como indicava o escritor G. Lapouge, \u201cdesde a inf\u00e2ncia da humanidade, os funerais s\u00e3o um dos sinais que separam os animais dos homens\u201d.<\/p>\n<p>Nossa sociedade censura a morte silenciando sobre ela. Para o homem moderno com a tecnologia avan\u00e7ada, intelig\u00eancia artificial, a morte deve ser a grande ausente. \u00c9 permitido somente ao homem pr\u00e9-moderno falar da morte como um evento pessoal. Contudo, os meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa somente falam da morte como espet\u00e1culo, algo que atinge os outros, os estranhos e n\u00e3o a mim.<\/p>\n<p>A morte \u00e9 censurada por estragar o projeto hedonista de prazer ilimitado e a necessidade de felicidade absoluta. O sil\u00eancio sobre a morte se faz porque ela, agora, est\u00e1 dessacralizada, n\u00e3o acontece na presen\u00e7a das outras pessoas. N\u00e3o tem papel social, \u00e9 algo pessoal que deve se passar na esfera privada. Enfim, a nega\u00e7\u00e3o da morte \u00e9 fruto da euforia da t\u00e9cnica na sociedade atual, t\u00e9cnica que resolve todos os problemas\u2026 menos este.<\/p>\n<p>A tentativa, por\u00e9m, de negar e esconder a morte n\u00e3o obt\u00e9m sucesso. A pandemia trouxe \u00e0 tona sua dura realidade. Para qualquer pessoa individualmente, ela continua sendo amea\u00e7a, mesmo quando inconfess\u00e1vel. A crise sanit\u00e1ria atual nos coloca diante da morte. Vamos compreendendo nossa finitude, coletiva e pessoal. \u00c9 dram\u00e1tico, desagrad\u00e1vel, mas necess\u00e1rio falar da morte e do morrer, do humano sofrer e do sepultamento dos mortos, com a dignidade que merecem.<\/p>\n<p>Os ritos profanos e religiosos do corpo presente, que duravam em m\u00e9dia 24 horas e que se inserem no dever de honrar os mortos e sepult\u00e1-los, j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o podendo ser celebrados. Nos vel\u00f3rios ocorrem momentos decisivos para os familiares processarem o luto. Enterrar os mortos com dignidade \u00e9 agradecer a vida que tiveram entre n\u00f3s. \u00c9 um dever e uma honra.<\/p>\n<p>A falta de celebrar o luto \u00e9 prejudicial \u00e0s pessoas. Ver o corpo do falecido \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia para o trabalho psicol\u00f3gico do luto. Assim, se incorpora a imagem do morto \u00e0 mem\u00f3ria dele vivo, integrando nos que ficam, a completude daquela vida. A lembran\u00e7a do defunto quando vivo sem a lembran\u00e7a dele morto, faz tudo parecer absurdo, irreal. Fica um vazio, como de algo inacabado. A energia afetiva de cada um se revolta contra esta realidade absurda. Para a realiza\u00e7\u00e3o do trabalho interior do luto \u00e9 fundamental que o inconsciente e o consciente possam contar com a imagem do morto.<\/p>\n<p>Para muitos o vel\u00f3rio e as ex\u00e9quias n\u00e3o servem para nada. \u00c9 tempo perdido de jogar conversa fora e atrasar o enterro. Atrapalha o ritmo normal das coisas. Se o tempo perdido, excepcionalmente por alguns, na celebra\u00e7\u00e3o das ex\u00e9quias j\u00e1 parece absurdo, o que diriam do tempo consagrado a este servi\u00e7o pelos sacerdotes e ministros das ex\u00e9quias? Neste tempo de pandemia os padres e ministros da Igreja Cat\u00f3lica tem prestado um grande conforto \u00e0s fam\u00edlias, muitos se arriscando para orar e \u201cencomendar\u201d os mortos, um derradeiro conforto dado pela f\u00e9, diante da perda irrepar\u00e1vel.<\/p>\n<p>Se numa sociedade do \u201cdescart\u00e1vel\u201d, como a chama o papa Francisco, os idosos e doentes devem ser descart\u00e1veis, que se dir\u00e1 dos mortos? Do modo como caminhamos, Deus nos livre, mas se chegar\u00e1 \u00e0 crema\u00e7\u00e3o para os corpos dos ricos e o aterro sanit\u00e1rio para os pobres. \u00c9 preciso respeitar os mortos! Os cemit\u00e9rios \u00e0s vezes mal cuidados, assaltados, parecem rodovi\u00e1rias com bares, lanchonetes, circula\u00e7\u00e3o intensa e salas inadequadas com ac\u00fastica impr\u00f3pria para celebra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na f\u00e9 crist\u00e3 sabe-se que a vida n\u00e3o \u00e9 tirada, mas transformada, pois, n\u00e3o morremos, entramos na vida definitiva. Somente saberemos viver bem se soubermos encarar a morte de frente, como Jesus Cristo o fez. Morrendo na cruz ele destruiu a morte e deu-nos a vida que dura para sempre. Ele mesmo disse: \u201cSe o gr\u00e3o de trigo, caindo na terra, n\u00e3o morrer, fica s\u00f3. Mas se morrer, produz muito fruto\u201d (Jo 12, 24).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Pedro Carlos Cipollini Bispo de Santo Andr\u00e9 (SP) &nbsp; O ano que terminou n\u00e3o ser\u00e1 esquecido, foi o \u201cano da Covid-19\u201d. Nele nos despedimos de muitas vidas, ceifadas pela pandemia. Dizia um fil\u00f3sofo que qualquer adeus tem sabor de morte (A. Schopenhauer). 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