{"id":259893,"date":"2021-03-02T13:00:54","date_gmt":"2021-03-02T16:00:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=259893"},"modified":"2021-03-03T08:58:28","modified_gmt":"2021-03-03T11:58:28","slug":"dom-luiz-fernando-lisboa-toma-posse-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/dom-luiz-fernando-lisboa-toma-posse-no-brasil\/","title":{"rendered":"\u00c0s v\u00e9speras da sua posse can\u00f4nica no Brasil, dom Luiz Fernando Lisboa fala da sua experi\u00eancia de 8 anos em Mo\u00e7ambique"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A diocese de Cachoeiro de Itapemirim (ES) se prepara para a chegada de seu novo bispo. A posse can\u00f4nica de dom Luiz Fernando Lisboa est\u00e1 marcada para o pr\u00f3ximo dia 20 de mar\u00e7o, s\u00e1bado, \u00e0s 9h na Catedral de S\u00e3o Pedro, em Cachoeiro e marcar\u00e1 o in\u00edcio de seu Minist\u00e9rio Episcopal na diocese, que estava vacante desde 7 de novembro de 2018. Devido \u00e0s restri\u00e7\u00f5es em decorr\u00eancia da pandemia da Covid-19, a participa\u00e7\u00e3o presencial na cerim\u00f4nia de posse ser\u00e1 restrita e ter\u00e1 transmiss\u00e3o online pelas redes sociais da diocese.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dom Luiz Fernando Lisboa at\u00e9 ent\u00e3o bispo de Pemba, em Mo\u00e7ambique, no continente africano, foi nomeado pelo Papa Francisco para comandar o governo da diocese de Cachoeiro de Itapemirim (ES), no dia 11 de fevereiro. No mesmo ato, o Santo Padre tamb\u00e9m concedeu a dom Luiz a dignidade de arcebispo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s v\u00e9speras de sua posse can\u00f4nica, dom Luiz Fernando concedeu uma entrevista ao padre D\u00e1rio Bossi, mission\u00e1rio comboniano, e a Patr\u00edcia Teixeira Santos, professora do Departamento de Hist\u00f3ria e coordenadora do N\u00facleo sobre hist\u00f3ria da \u00c1frica Contempor\u00e2nea da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No bate papo transcrito pela professora Tamires Sodr\u00e9 de Paula, dom Luiz fala da experi\u00eancia de oito anos como bispo em Mo\u00e7ambique e qual legado trar\u00e1 para o Brasil.\u00a0<em>\u201cO sentimento \u00e9 de muita gratid\u00e3o por tudo o que aprendi na \u00c1frica e por todas as pessoas que eu conheci. Deus permitiu-me fazer essa experi\u00eancia por quase vinte anos\u201d<\/em>, destacou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bispo fala ainda da pobreza no extremo norte de Mo\u00e7ambique e dos conflitos armados na regi\u00e3o de Cabo Delgado que tem afetado e muito a vida daquele povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cPenso que n\u00e3o existe apenas uma motiva\u00e7\u00e3o para a guerra. Com a soma de tudo, eclode-se a guerra que j\u00e1 leva tr\u00eas anos e quatro meses. O motivo principal para muitos, e para mim, continua sendo o econ\u00f4mico, por causa das riquezas naturais de Cabo Delgado\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista, dom Luiz destaca ainda a import\u00e2ncia da igreja mission\u00e1ria e de como as miss\u00f5es Ad Gentes podem enriquecer a pr\u00e1tica e a perspectiva pastoral da Igreja do Brasil. O bispo diz que a miss\u00e3o Ad Gentes sempre foi um desafio e, atualmente, \u00e9 cada vez mais necess\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cQuem faz uma experi\u00eancia mission\u00e1ria, seja al\u00e9m das fronteiras geogr\u00e1ficas ou, como diz o Papa, em situa\u00e7\u00f5es especiais, nunca vai voltar a ser a mesma pessoa. \u00a0Fazer a experi\u00eancia mission\u00e1ria \u00e9 respeitar o outro, acolher a cultura do outro, do diferente, estar disposto a reaprender, n\u00e3o transportar valores e culturas para outros lugares, mas ter abertura para aprender e interagir com outros conhecimentos e aprendizados. Isso converte a mente e o cora\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>, disse.<\/p>\n<figure id=\"attachment_259899\" aria-describedby=\"caption-attachment-259899\" style=\"width: 303px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-259899 \" src=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Dom-Luiz-Fernando-Lisboa-1.jpg\" alt=\"\" width=\"303\" height=\"202\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-259899\" class=\"wp-caption-text\"><em>Foto: Vatican Media<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao finalizar a entrevista, o bispo eleito de Cachoeiro do Itapemirim enfatiza que o Brasil foi terra mission\u00e1ria, \u00e9 fruto de miss\u00e3o e j\u00e1 recebeu muitos mission\u00e1rios estrangeiros. Segundo o dom Luiz, o maior grupo mission\u00e1rio em Mo\u00e7ambique \u00e9 do Brasil. <em>\u201cIsto mostra uma Igreja se abrindo para a miss\u00e3o e repartindo da sua pobreza; isso s\u00f3 enriquece a nossa Igreja\u201d<\/em>, pontua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E conclui dizendo que <em>\u201cEu fiquei em Mo\u00e7ambique por 20 anos e agora volto para o Brasil; tenho que reaprender muita coisa, mas penso que posso partilhar a experi\u00eancia que trago e posso animar muitos a realizarem essa mesma experi\u00eancia: ir ao encontro das pessoas e daqueles que mais precisam.\u00a0Assim como tenho para aprender, tamb\u00e9m tenho para partilhar\u201d<\/em>.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Leia abaixo a \u00edntegra da entrevista:<\/em><\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\nCom que sentimentos o senhor encerra este per\u00edodo de oito anos como bispo em Mo\u00e7ambique? Qual o maior legado recebido deste povo irm\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em primeiro lugar, muita alegria: desde a minha juventude, no in\u00edcio da minha forma\u00e7\u00e3o, eu tive esse sonho de ser mission\u00e1rio <em>Ad Gentes <\/em>no continente africano. Quando pedimos muito alguma coisa a Deus, a gente tem que tomar cuidado porque ele atende! Eu pedi e, para minha felicidade, ele me enviou para essa miss\u00e3o. O sentimento \u00e9 de muita gratid\u00e3o por tudo o que aprendi na \u00c1frica e por todas as pessoas que eu conheci. Deus permitiu-me fazer essa experi\u00eancia por quase vinte anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00ea me perguntar se estou feliz de sair de l\u00e1, eu digo que n\u00e3o estou; ao mesmo tempo, estou tranquilo: a miss\u00e3o \u00e9 de Deus, ela n\u00e3o \u00e9 nossa; somos instrumentos e em qualquer lugar que estejamos podemos realizar a miss\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A regi\u00e3o de Cabo Delgado \u00e9 conhecida pela hist\u00f3ria de conviv\u00eancia e pluralismo religioso. Na sua experi\u00eancia, como o conflito que tomou dimens\u00f5es tr\u00e1gicas foi sendo tecido no cotidiano das popula\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o tempo em que cheguei a Cabo Delgado, em Mo\u00e7ambique, no in\u00edcio de 2001, nunca ouvi falar que tivesse havido algum problema entre as religi\u00f5es, seja ele desentendimento, guerra ou lit\u00edgio. Pude experimentar na minha pr\u00f3pria viv\u00eancia do dia a dia quanto respeito h\u00e1 entre as religi\u00f5es, n\u00e3o s\u00f3 entre os l\u00edderes maiores, mas tamb\u00e9m nas aldeias, com o povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dever do bispo visitar toda a diocese, e eu sempre preferi visitar aquelas aldeias nunca antes visitadas pelos bispos anteriores, para ter contato com o povo, conhec\u00ea-los, e eles tamb\u00e9m a mim.\u00a0Em todos os lugares que fui, ao celebrar a missa, debaixo das \u00e1rvores, sempre havia tr\u00eas, cinco ou dez mu\u00e7ulmanos que ficavam durante toda a missa, com todo respeito. Normalmente, as pessoas oferecem presentes ao bispo, como por exemplo, galinha, cana, amendoim, cabrito, e sempre os mu\u00e7ulmanos levavam tamb\u00e9m seus presentes. Esta \u00e9 uma prova que h\u00e1 respeito!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inclusive, em alguns lugares eles diziam que estavam tamb\u00e9m a receber o bispo deles! Nunca presenciei qualquer problema em Cabo Delgado. Claro que pode ter acontecido algum caso de desentendimento, mas sem qualquer express\u00e3o que comprometesse o bom relacionamento entre n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos anos, t\u00ednhamos um encontro regular entre os l\u00edderes religiosos, que contava com a presen\u00e7a dos dois maiores l\u00edderes dos mu\u00e7ulmanos, o Congresso Isl\u00e2mico e o Conselho Isl\u00e2mico. Tamb\u00e9m houve boa colabora\u00e7\u00e3o entre a Igreja Cat\u00f3lica e o Concelho Crist\u00e3o de Mo\u00e7ambique: no tempo da guerra, lan\u00e7amos documentos em conjunto pedindo a paz, fizemos caminhadas pela paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o in\u00edcio, tanto os mu\u00e7ulmanos quanto n\u00f3s, denunciamos que os reais motivos desta guerra s\u00e3o quest\u00f5es econ\u00f4micas: os terroristas est\u00e3o utilizando o nome de Al\u00e1 e do Estado Isl\u00e2mico para encobrir os verdadeiros motivos desta guerra, que n\u00e3o s\u00e3o religiosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para o senhor, quais raz\u00f5es levam a este conflito t\u00e3o grave n\u00e3o ter a visibilidade que mereceria ter?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso que n\u00e3o existe apenas uma motiva\u00e7\u00e3o, para a guerra. O extremo norte de Mo\u00e7ambique foi sempre esquecido pelo Estado, \u00e9 uma regi\u00e3o muito pobre, a pobreza \u00e9 um componente importante. As etnias s\u00e3o outra quest\u00e3o: naquela regi\u00e3o h\u00e1 uma que prevalece sobre a outra, tendo, por exemplo, com maior acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Outros componentes tamb\u00e9m lan\u00e7aram combust\u00edvel para a guerra: h\u00e1 um certo extremismo de grupos que vieram de fora e foram formadas em outros ambientes, n\u00e3o aceitaram o Isl\u00e3 praticado em Cabo Delgado e quiseram fazer algo diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a soma de tudo, eclode-se a guerra que j\u00e1 leva tr\u00eas anos e quatro meses. O motivo principal para muitos, e para mim, continua sendo o econ\u00f4mico, por causa das riquezas naturais de Cabo Delgado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00e3o os mega projetos que s\u00e3o pensados para esta regi\u00e3o que seriam a principal nervura desses conflitos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com certeza. Cabo Delgado \u00e9 rica em g\u00e1s e petr\u00f3leo, rubi da melhor qualidade, m\u00e1rmore, pedras semi preciosas, ouro; duas empresas estrangeiras exploram o granito; a madeira j\u00e1 foi quase toda exportada pelos chineses. H\u00e1 uma prov\u00edncia rica em recursos, um povo muito pobre, e grandes multinacionais chegando para fazer a explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todas as regi\u00f5es de conflito, em \u00c1frica, encontra-se riqueza de recursos naturais e grandes empresas estrangeiras explorando-os. Estes elementos andam juntos: recursos naturais, empresas multinacionais e guerras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Diversas universidades e institutos, como o IESE, t\u00eam feito reflex\u00f5es sobre o que tem ocorrido na regi\u00e3o. Que institui\u00e7\u00f5es e grupos regionais e internacionais t\u00eam ajudado a reverberar as not\u00edcias e o drama de Cabo Delgado?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio da guerra, era proibido falar sobre ela, houve a tentativa de escond\u00ea-la. Os jornalistas n\u00e3o tinham licen\u00e7a para ir a Cabo Delgado e, muito menos, para a regi\u00e3o norte da prov\u00edncia, onde a guerra acontecia.\u00a0 Alguns foram presos, dois deles por mais de dois meses, e hoje est\u00e3o respondendo a processos. Muitos n\u00e3o receberam licen\u00e7a para realizar a cobertura da guerra; h\u00e1 um jornalista de uma r\u00e1dio comunit\u00e1ria, daquela regi\u00e3o, que est\u00e1 desaparecido desde o dia 07 de abril de 2020 e n\u00e3o temos not\u00edcia se est\u00e1 vivo ou morto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a censura aos jornalistas, a visibilidade sobre a guerra foi dada pela Igreja, denunciando e alertando no Mo\u00e7ambique e no mundo sobre o conflito. Isto \u00e9 reconhecido pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, por v\u00e1rias fontes e autoridades em Mo\u00e7ambique.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa visitou Mo\u00e7ambique, em 2019, e falou sobre a guerra; sua visita a Pemba precisou ser cancelada e um dos motivos foi a quest\u00e3o da seguran\u00e7a. Com a intensifica\u00e7\u00e3o da guerra em 2020, o Papa passou a rezar por Cabo Delgado; telefonou-me, tamb\u00e9m, em agosto, e esse telefonema repercutiu. No final do ano, fez uma doa\u00e7\u00e3o para ser aplicada aos deslocados, que est\u00e1 sendo utilizada para a constru\u00e7\u00e3o de dois hospitais nas regi\u00f5es de assentamentos, e no fim do ano chamou-me at\u00e9 Roma para conversarmos, querendo saber de perto sobre a situa\u00e7\u00e3o da guerra. A visibilidade que o Papa deu \u00e0 guerra foi impressionante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez que outras pessoas e organiza\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m come\u00e7aram a se interessar, o parlamento da Uni\u00e3o Europeia quis fazer um encontro de duas comiss\u00f5es importantes do parlamento, onde fui convidado para falar sobre a guerra. O apoio internacional apareceu em 2020 porque, at\u00e9 ent\u00e3o, o governo n\u00e3o o pedia, uma vez que discursavam serem auto suficientes. Mas a situa\u00e7\u00e3o de uma guerra de car\u00e1ter internacional n\u00e3o se resolve facilmente somente dentro de um pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o parlamento da Uni\u00e3o Europeia ofereceu ajuda, o governo solicitou tr\u00eas tipos de colabora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica: para forma\u00e7\u00e3o dos seus militares, para apoio log\u00edstico e para apoio humanit\u00e1rio.\u00a0 A Uni\u00e3o Europeia, a Comunidade de Desenvolvimento da \u00c1frica Austral e a Uni\u00e3o Africana entraram no debate e estamos esperando que a ajuda concreta chegue, de forma mais eficaz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No tempo do conflito entre Renamo e Frelimo, o conflito n\u00e3o era considerado uma guerra civil, e sim \u2018banditismo social\u2019. Parece que este tema est\u00e1 sendo utilizado tamb\u00e9m em Cabo Delgado.\u00a0<\/strong><strong>O Estado classificou o conflito como \u2018banditismo social\u2019 a fim de terceiriz\u00e1-lo? <\/strong><strong>Como t\u00eam sido percebidas e avaliadas, pelas autoridades do pa\u00eds e internacionalmente, as a\u00e7\u00f5es da Igreja, em aux\u00edlio \u00e0s popula\u00e7\u00f5es atingidas e na den\u00fancia do conflito?<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Houve uma nega\u00e7\u00e3o no come\u00e7o dos conflitos; as autoridades disseram trat\u00e1-lo como problema entre as religi\u00f5es, esperando que a resolu\u00e7\u00e3o ocorresse entre elas. Alguns grupos mu\u00e7ulmanos defendiam uma certa radicaliza\u00e7\u00e3o do islamismo praticado em Cabo Delgado e a popula\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a alertar sobre a atua\u00e7\u00e3o destes indiv\u00edduos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seguida, as autoridades governamentais passaram a interpretar o problema como banditismo; mas a situa\u00e7\u00e3o cresceu ao ponto de ficar imposs\u00edvel escond\u00ea-la, e s\u00f3 ent\u00e3o o governo reconheceu a situa\u00e7\u00e3o de guerra, com infiltra\u00e7\u00e3o externa e coopta\u00e7\u00e3o de muitos jovens nacionais. Sem estudo, dinheiro e emprego, os jovens s\u00e3o facilmente cooptados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inicialmente, houve a nega\u00e7\u00e3o e a tentativa de terceirizar a guerra, por\u00e9m hoje este tipo de nega\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel. \u00c9 importante salientar que a divulga\u00e7\u00e3o realizada pelo Papa foi fundamental, para que as autoridades se dessem conta do problema real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na enc\u00edclica Fratelli Tutti, Papa Francisco comenta que a Igreja se encontra a viver e atuar, hoje, numa \u201cterceira guerra mundial por peda\u00e7os\u201d. Fala de partes da humanidade que seriam \u201csacrific\u00e1veis\u201d, muitas vezes pelos interesses do lucro e de uma economia -como no caso do extrativismo predat\u00f3rio- que mata. Qual \u00e9 a miss\u00e3o da Igreja neste cen\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que nunca, a Igreja \u00e9 chamada hoje a ser compassiva, misericordiosa e prof\u00e9tica; essas s\u00e3o tr\u00eas palavras chaves. A Igreja teve sempre, na hist\u00f3ria, um papel muito importante, sobretudo nas regi\u00f5es mais pobres do mundo. Sempre foi uma voz muito forte em defesa da popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que o Papa diz na enc\u00edclica \u00e9 verdade, a terceira guerra chegou como guerra fragmentada, que diz respeito ao abismo que h\u00e1 entre ricos e pobres, onde h\u00e1 explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria do meio ambiente. A falta de cuidado com a Casa Comum tem provocado o sacrif\u00edcio da maior parte da humanidade.\u00a0Mo\u00e7ambique, por exemplo, est\u00e1 entre os dez pa\u00edses mais pobres do mundo. Desde que cheguei l\u00e1, h\u00e1 vinte anos, vejo a popula\u00e7\u00e3o cada vez mais pobre, gradativamente empobrecida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A invas\u00e3o predat\u00f3ria tornou as terras improdutivas, uma vez que elas s\u00e3o oferecidas \u00e0s grandes empresas. A corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 muito forte e a popula\u00e7\u00e3o, especialmente os pobres, pagam a conta. H\u00e1 um sacrif\u00edcio claro de parte da popula\u00e7\u00e3o. No continente africano, os mais pobres est\u00e3o ficando por \u00faltimos, como o exemplo da vacina\u00e7\u00e3o da COVID-21, que \u00e9 tamb\u00e9m parte desta terceira guerra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00c1frica, como sabemos da hist\u00f3ria, foi dividida para a coloniza\u00e7\u00e3o; hoje estamos em uma nova coloniza\u00e7\u00e3o, que se mostra com a presen\u00e7a das multinacionais e, muitas vezes, com um desprezo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00c1frica. Eu acredito que a Fratelli Tutti, do Papa Francisco, traz isso de maneira muito clara. Por isso ele convida a sermos todos irm\u00e3os e irm\u00e3s: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que uns fiquem relegados em terceiro plano, enquanto outros t\u00eam fartura; infelizmente, \u00e9 isso que est\u00e1 ocorrendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jesus de Nazar\u00e9 buscou o encontro com os povos n\u00e3o hebreus, fora da Galileia; sempre, para a Igreja, a miss\u00e3o Ad Gentes foi uma experi\u00eancia que converte em primeiro lugar a mente e o cora\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios mission\u00e1rios e mission\u00e1rias.\u00a0<\/strong><strong>Como pode a miss\u00e3o Ad Gentes enriquecer a pr\u00e1tica e a perspectiva pastoral da Igreja do Brasil? Quais s\u00e3o os novos caminhos para a Igreja que o senhor intui, a partir de sua experi\u00eancia mission\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu costumo dizer que uma igreja particular, uma diocese, uma par\u00f3quia e uma comunidade s\u00f3 \u00e9 madura quando mission\u00e1ria. H\u00e1 l\u00edderes religiosos que n\u00e3o enviam ningu\u00e9m para a miss\u00e3o, alegando haver muitas necessidades em sua comunidade. Temos que lembrar daquilo que era falado d\u00e9cadas atr\u00e1s: \u201c\u00e9 preciso dar de nossa pobreza\u201d, n\u00e3o podemos esperar ter ou sobrar, para repartir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A miss\u00e3o Ad Gentes sempre foi um desafio e \u00e9 cada vez mais necess\u00e1ria, atualmente. Quem faz uma experi\u00eancia mission\u00e1ria, seja al\u00e9m das fronteiras geogr\u00e1ficas ou, como diz o Papa, em situa\u00e7\u00f5es especiais, nunca vai voltar a ser a mesma pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fazer a experi\u00eancia mission\u00e1ria \u00e9 respeitar o outro, acolher a cultura do outro, do diferente, estar disposto a reaprender, n\u00e3o transportar valores e culturas para outros lugares, mas ter abertura para aprender e interagir com outros conhecimentos e aprendizados. Isso converte a mente e o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil foi terra mission\u00e1ria, somos frutos de miss\u00e3o, j\u00e1 recebemos muitos mission\u00e1rios estrangeiros. Hoje, enviamos mission\u00e1rios para o mundo. Neste momento, por exemplo, em Mo\u00e7ambique, a maior equipe mission\u00e1ria vem do Brasil (em outra \u00e9poca era da It\u00e1lia ou do Portugal). Isto mostra uma Igreja se abrindo para a miss\u00e3o e repartindo da sua pobreza; isso s\u00f3 enriquece a nossa Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu fiquei em Mo\u00e7ambique por 20 anos e agora volto para o Brasil; tenho que reaprender muita coisa, mas penso que posso partilhar a experi\u00eancia que trago e posso animar muitos a realizarem essa mesma experi\u00eancia: ir ao encontro das pessoas e daqueles que mais precisam.\u00a0 Assim como tenho para aprender, tamb\u00e9m tenho para partilhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Depois de 20 anos de miss\u00e3o em Mo\u00e7ambique, o que lhe d\u00e1 for\u00e7a para deix\u00e1-lo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00fanica resposta poss\u00edvel \u00e9 a for\u00e7a de Deus, porque n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Fui para \u00c1frica porque Deus me chamou, e tamb\u00e9m por muito empenho meu. Agora, deixar \u00e9 um grande desafio. Por\u00e9m, a proximidade com o Papa Francisco ajudou a tranquilizar-me: o Papa Francisco tem gestos muito grandiosos, tanto em Cabo Delgado quanto para o mundo.<\/p>\n<p><strong>Veja a \u00edntegra da entrevista em v\u00eddeo<\/strong><\/p>\n<div class=\"ast-oembed-container\" style=\"height: 100%;\">\n<div style=\"max-width: 1333px;\">\n<div style=\"left: 0; width: 100%; height: 0; position: relative; padding-bottom: 56.25%;\"><iframe title=\"Minha miss\u00e3o em Mo\u00e7ambique - Dom Lu\u00eds nos abre horizontes!\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vIEUEF-jhwI?rel=0&amp;start=1782\" style=\"border: 0; top: 0; left: 0; width: 100%; height: 100%; position: absolute;\" allowfullscreen scrolling=\"no\" allow=\"encrypted-media; accelerometer; clipboard-write; gyroscope; picture-in-picture\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<pre style=\"text-align: justify;\"><em>Entrevista realizada pelo padre D\u00e1rio Bossi, mission\u00e1rio comboniano, \r\ne Patr\u00edcia Teixeira Santos, professora da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo.\r\nTranscri\u00e7\u00e3o: professora Tamires Sodr\u00e9 de Paula\r\nFoto: Regional Leste 2 da CNBB<\/em><\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O bispo eleito de Cachoeiro de Itapemirim (ES) concedeu entrevista ao padre D\u00e1rio Bossi, mission\u00e1rio comboniano, e a Patr\u00edcia Teixeira Santos, professora da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo e falou da experi\u00eancia, da situa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds africano e qual legado trar\u00e1 para o Brasil. A posse de dom Luiz est\u00e1 marcada para o pr\u00f3ximo dia 20 de mar\u00e7o, s\u00e1bado, \u00e0s 9h<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":259896,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[854,50,841],"tags":[3388,3150,1927,2104],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/259893"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=259893"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/259893\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media\/259896"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=259893"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=259893"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=259893"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}