{"id":261005,"date":"2021-03-19T11:53:52","date_gmt":"2021-03-19T14:53:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=261005"},"modified":"2021-03-19T11:55:18","modified_gmt":"2021-03-19T14:55:18","slug":"as-licoes-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/as-licoes-do-tempo\/","title":{"rendered":"As li\u00e7\u00f5es do tempo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Alberto Taveira Corr\u00eaa<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo de Bel\u00e9m do Par\u00e1 (PA)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo \u00e0 dist\u00e2ncia de tantos anos, impressiona-nos a atualidade das constata\u00e7\u00f5es do Conc\u00edlio Vaticano II, na introdu\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o Gaudium et spes, que descreve profeticamente a mudan\u00e7a de \u00e9poca de nossos dias: \u201cA humanidade vive hoje uma fase nova da sua hist\u00f3ria, com profundas e r\u00e1pidas transforma\u00e7\u00f5es&#8230; Provocadas pela intelig\u00eancia e atividade criadora do homem, elas reincidem sobre o mesmo homem, sobre os seus ju\u00edzos e desejos individuais e coletivos, sobre os seus modos de pensar e agir, tanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas como \u00e0s pessoas. Podemos j\u00e1 falar duma verdadeira transforma\u00e7\u00e3o social e cultural, que se reflete tamb\u00e9m na vida religiosa. Como acontece em qualquer crise de crescimento, esta transforma\u00e7\u00e3o traz consigo n\u00e3o pequenas dificuldades. Assim, o homem, que t\u00e3o imensamente alarga o pr\u00f3prio poder, nem sempre \u00e9 capaz de coloc\u00e1-lo a servi\u00e7o da pr\u00f3pria humanidade. Ao procurar penetrar no interior de si mesmo, aparece frequentemente mais incerto a seu pr\u00f3prio respeito. E, descobrindo gradualmente com maior clareza as leis da vida social, hesita quanto \u00e0 dire\u00e7\u00e3o a tomar. Nunca o g\u00eanero humano teve ao seu dispor t\u00e3o grande abund\u00e2ncia de riquezas, possibilidades e poderio econ\u00f4mico; e, no entanto, uma imensa parte dos habitantes da terra \u00e9 atormentada pela fome e pela mis\u00e9ria&#8230; Nunca os homens tiveram um t\u00e3o vivo sentido da liberdade como hoje, em que surgem novas formas de servid\u00e3o social e psicol\u00f3gica. Ao mesmo tempo que o mundo experimenta intensamente a pr\u00f3pria unidade e a interdepend\u00eancia m\u00fatua dos seus membros na solidariedade necess\u00e1ria, ei-lo gravemente dilacerado por for\u00e7as antag\u00f4nicas; persistem ainda, com efeito, agudos conflitos pol\u00edticos, sociais, econ\u00f4micos, raciais e ideol\u00f3gicos&#8230; Aumenta o interc\u00e2mbio das ideias, mas as pr\u00f3prias palavras com que se exprimem conceitos da maior import\u00e2ncia assumem sentidos diferentes segundo as diversas ideologias. Finalmente, procura-se com todo o empenho uma ordem temporal mais perfeita, mas sem que a acompanhe um progresso espiritual proporcionado\u201d (Cf. Gaudium et spes 4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um olhar apenas humano, ainda que justificado por muitos fatos, pode dizer que os tempos que vivemos s\u00e3o maus. N\u00e3o s\u00e3o raras as pessoas que entreveem at\u00e9 o fim dos tempos nos acontecimentos atuais, numa longa agonia que deixa perplexa toda a humanidade, quando poder\u00edamos imagin\u00e1-la capaz de resolver todos os seus problemas, dado o crescimento dos conhecimentos e a incr\u00edvel capacidade das na\u00e7\u00f5es e dos poderes econ\u00f4micos. De repente, todos est\u00e3o ca\u00eddos por terra, desejosos de uma luz que lhes possibilite enxergar os passos a serem dados. O chamado \u201cnovo normal\u201d t\u00e3o esperado certamente ser\u00e1 muito diferente e extremamente exigente, de modo que nossas cabe\u00e7as e nossas vidas ser\u00e3o obrigatoriamente reprogramadas, sejam quais forem as consequ\u00eancias do que vivemos hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 no Antigo Testamento, o autor do Eclesiastes refletia sobre o tempo, nem sempre com muito otimismo! \u201cTudo tem seu tempo. H\u00e1 um momento oportuno para cada coisa debaixo do c\u00e9u: tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de destruir e tempo de construir; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de lamentar e tempo de dan\u00e7ar; tempo de espalhar pedras e tempo de as ajuntar; tempo de abra\u00e7ar e tempo de se afastar dos abra\u00e7os; tempo de procurar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de jogar fora; tempo de rasgar e tempo de costurar; tempo de calar e tempo de falar; tempo do amor e tempo do \u00f3dio; tempo da guerra e tempo da paz\u201d (Eclesiastes 3,1-8). N\u00e3o nos conv\u00e9m transformar tais palavras num fatalismo destruidor, com o qual as pessoas venham simplesmente a se renderem diante dos fatos e acontecimentos, mas reconhecer a exist\u00eancia de situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis e at\u00e9 contradit\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A plenitude dos tempos (Cf. Gl 4,4) veio com a Encarna\u00e7\u00e3o do Verbo de Deus e seu mist\u00e9rio pascal de morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, quando tudo ganhou um sentido novo. Em Jesus Cristo e s\u00f3 nele se encontra o sentido da vida das pessoas e o rumo para o mundo. Da\u00ed a busca de caminhos para reagirmos no tempo presente!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando chegaram pessoas de longe com o desejo de \u201cver Jesus\u201d (Jo 12,20-33), ele mesmo anuncia que chegou a hora de sua glorifica\u00e7\u00e3o. E estava para acontecer sua pris\u00e3o, condena\u00e7\u00e3o e morte! Aos gregos que chegam, Jesus logo prop\u00f5e perder a vida, no servi\u00e7o e na entrega da exist\u00eancia, como o gr\u00e3o de trigo ca\u00eddo e morto na terra. Cada situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica na hist\u00f3ria pessoal ou da humanidade pede a sa\u00edda de n\u00f3s mesmos. Ser\u00e1 livre e feliz quem se dispuser a entregar a sua vida. No meio de tantas dores geradas pela presente pandemia, consegue superar as dificuldades quem vai ao encontro dos outros, come\u00e7ando da pr\u00f3pria fam\u00edlia. Pensemos em nossa capacidade de rever nosso relacionamento familiar, descubramos os caminhos para consolar os que sofrem, dediquemo-nos nestes dias \u00e0 ora\u00e7\u00e3o em fam\u00edlia, redescubramos a riqueza da Palavra de Deus e multipliquemos os gestos de fraternidade e solidariedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo presente, que a carta aos Hebreus (Hb 3,13) chama de \u201choje\u201d nos leve justamente a n\u00e3o perder tempo, mas lan\u00e7armos m\u00e3o de todos os imensos recursos plantados por Deus em nossa alma, para passar continuamente da morte \u00e0 vida, lembrando-nos de que recebemos esta gra\u00e7a na fonte batismal. Poderemos ent\u00e3o desde j\u00e1 cantar com o salmista: \u201cQuando o Senhor reconduziu nossos cativos, parec\u00edamos sonhar; encheu-se de sorrisos nossa boca, nossos l\u00e1bios, de can\u00e7\u00f5es. Entre os gentios se dizia: \u2018Maravilhas fez com eles o Senhor!\u2019 Sim, maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria! Mudai a nossa sorte, \u00f3 Senhor, como torrentes no deserto. Os que lan\u00e7am as sementes entre l\u00e1grimas, ceifar\u00e3o com alegria. Chorando de tristeza sair\u00e3o, espalhando suas sementes; cantando de alegria voltar\u00e3o, carregando os seus feixes\u201d (Salmo 125,1-6).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Alberto Taveira Corr\u00eaa Arcebispo de Bel\u00e9m do Par\u00e1 (PA) &nbsp; Mesmo \u00e0 dist\u00e2ncia de tantos anos, impressiona-nos a atualidade das constata\u00e7\u00f5es do Conc\u00edlio Vaticano II, na introdu\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o Gaudium et spes, que descreve profeticamente a mudan\u00e7a de \u00e9poca de nossos dias: \u201cA humanidade vive hoje uma fase nova da sua hist\u00f3ria, com profundas &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/as-licoes-do-tempo\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">As li\u00e7\u00f5es do tempo<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/261005"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=261005"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/261005\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=261005"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=261005"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=261005"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}