{"id":26362,"date":"2008-09-26T00:00:00","date_gmt":"2008-09-26T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/bento-xvi-apresenta-sao-paulo-como-apostolo\/"},"modified":"2008-09-26T00:00:00","modified_gmt":"2008-09-26T03:00:00","slug":"bento-xvi-apresenta-sao-paulo-como-apostolo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/bento-xvi-apresenta-sao-paulo-como-apostolo\/","title":{"rendered":"Bento XVI apresenta S\u00e3o Paulo como ap\u00f3stolo"},"content":{"rendered":"<p>Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s<br \/>Na quarta-feira passada, falei da grande mudan\u00e7a que se produziu na vida de S\u00e3o Paulo ap\u00f3s seu encontro com Cristo crucificado. Jesus entrou em sua vida e o<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>transformou de perseguidor em ap\u00f3stolo. Este encontro marcou o in\u00edcio de sua miss\u00e3o: Paulo n\u00e3o podia continuar vivendo como antes, agora se sentia investido pelo Senhor do encargo de anunciar seu Evangelho em qualidade de ap\u00f3stolo. \u00c9 precisamente desta nova condi\u00e7\u00e3o de vida, ou seja, de ser ap\u00f3stolo de Cristo, que quero falar. N\u00f3s normalmente, seguindo os Evangelhos, identificamos os Doze com o t\u00edtulo de ap\u00f3stolos, para indicar \u00e0queles que eram companheiros de vida e ouvintes dos ensinamentos de Jesus. Mas tamb\u00e9m Paulo se sente verdadeiro ap\u00f3stolo e parece claro, portanto, que o conceito paulino de apostolado n\u00e3o se restringe ao grupo dos Doze. Obviamente, Paulo sabe distinguir seu pr\u00f3prio caso do daqueles \u00abque haviam sido ap\u00f3stolos anteriores\u00bb a ele (G\u00e1latas 1, 17): a eles reconhece um lugar totalmente especial na vida da Igreja. Contudo, como todos sabem, tamb\u00e9m S\u00e3o Paulo se considera como ap\u00f3stolo em sentido estrito. \u00c9 certo que, na \u00e9poca das origens crist\u00e3s, ningu\u00e9m percorreu tantos quil\u00f4metros como ele, por terra e pelo mar, com o \u00fanico objetivo de anunciar o Evangelho.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Portanto, ele tinha um conceito de apostolado que ia mais al\u00e9m do relacionado s\u00f3 com o grupo dos Doze e transmitido sobretudo por S\u00e3o Lucas nos Atos dos Ap\u00f3stolos (Cf. Atos 1, 2.26;6,2). De fato, na primeira carta aos Cor\u00edntios, Paulo faz uma clara distin\u00e7\u00e3o entre \u00abos Doze\u00bb e \u00abtodos os ap\u00f3stolos\u00bb, mencionados como dois grupos diferentes de benefici\u00e1rios das apari\u00e7\u00f5es do Ressuscitado (cf. 1 Cor 15, 5.7). Neste mesmo texto, ele passa a chamar a si mesmo humildemente de \u00abo \u00faltimo dos ap\u00f3stolos\u00bb, comparando-se inclusive com um aborto e afirmando textualmente: \u00abnem sou digno de ser chamado ap\u00f3stolo, porque persegui a Igreja de Deus. Mas pela gra\u00e7a de Deus sou o que sou: e sua gra\u00e7a a mim dispensada n\u00e3o foi est\u00e9ril. Ao contr\u00e1rio, trabalhei mais do que todos eles; n\u00e3o eu, mas a gra\u00e7a de Deus que est\u00e1 comigo \u00bb (1 Cor 15, 9-10). A met\u00e1fora do aborto expressa uma humildade extrema; voltamos a encontr\u00e1-la tamb\u00e9m na Carta aos Romanos de Santo In\u00e1cio de Antioquia: \u00abSou o \u00faltimo de todos, sou um aborto; mas me ser\u00e1 concedido ser algo, se eu alcan\u00e7ar Deus\u00bb (9, 2). O que o bispo de Antioquia dir\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o a seu mart\u00edrio iminente, prevendo que este daria a volta \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o de indignidade, S\u00e3o Paulo o diz em rela\u00e7\u00e3o a seu pr\u00f3prio trabalho apost\u00f3lico: \u00e9 nele onde se manifesta a fecundidade da gra\u00e7a de Deus, que sabe transformar um homem frustrado em um ap\u00f3stolo espl\u00eandido. De perseguidor a fundador de Igrejas: Deus fez isso em algu\u00e9m que, do ponto de vista evang\u00e9lico, poderia ter sido considerado um lixo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O que \u00e9, portanto, segundo a concep\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, o que faz ele e os demais serem ap\u00f3stolos? Em suas cartas aparecem tr\u00eas caracter\u00edsticas principais que constituem o ap\u00f3stolo. A primeira \u00e9 \u00abter visto o Senhor\u00bb (cf. 1 Cor 9, 1), ou seja, ter tido com Ele um encontro determinante para a pr\u00f3pria vida. Analogamente, na Carta aos G\u00e1latas (cf. 1, 15-16), dir\u00e1 que foi chamado, quase selecionado, por gra\u00e7a de Deus, com a revela\u00e7\u00e3o de seu Filho frente ao an\u00fancio aos pag\u00e3os. Em definitivo, \u00e9 o Senhor que constitui o ap\u00f3stolo, n\u00e3o a pr\u00f3pria presun\u00e7\u00e3o. O ap\u00f3stolo n\u00e3o faz a si mesmo, mas o Senhor \u00e9 que o faz; portanto, ele precisa referir-se constantemente ao Senhor. N\u00e3o \u00e9 por acaso que Paulo diz ser \u00abap\u00f3stolo por voca\u00e7\u00e3o\u00bb (Rm 1,1), ou seja, \u00abn\u00e3o da parte dos homens nem por media\u00e7\u00e3o de homem algum, mas por Jesus Cristo e Deus Pai\u00bb (Gl 1,1). Esta \u00e9 a caracter\u00edstica: ter visto o Senhor, ter sido chamado por Ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A segunda caracter\u00edstica \u00e9 a de \u00abter sido enviado\u00bb. O mesmo termo grego ap\u00f3stolos significa precisamente \u00abenviado, mandado\u00bb, ou seja, embaixador e portador de uma mensagem; deve atuar, portanto, como encarregado e representante de um mandante. Por isso Paulo se define como \u00abap\u00f3stolo de Jesus Cristo\u00bb (1 Cor 1, 1; 2 Cor 1,1), ou seja, delegado seu, posto totalmente a seu servi\u00e7o, at\u00e9 o ponto de chamar-se \u00abservo de Jesus Cristo\u00bb (Rm 1,1). Mais uma vez, aparece em primeiro plano a id\u00e9ia de uma iniciativa de outro, a de Deus em Jesus Cristo, \u00e0 qual se est\u00e1 plenamente obrigado; mas sobretudo sublinha o fato de que se recebeu uma miss\u00e3o da parte d\u2019Ele que \u00e9 preciso cumprir em seu nome, pondo absolutamente em segundo plano qualquer interesse pessoal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O terceiro requisito \u00e9 o exerc\u00edcio do \u00aban\u00fancio do Evangelho\u00bb, com a conseguinte funda\u00e7\u00e3o de igrejas. \u00abAp\u00f3stolo\u00bb, portanto, n\u00e3o \u00e9 e n\u00e3o pode ser um t\u00edtulo honor\u00edfico, mas empenha concreta e dramaticamente a exist\u00eancia do sujeito interessado. Na 1\u00aa Carta aos Cor\u00edntios, Paulo exclama: \u00abN\u00e3o sou eu ap\u00f3stolo? Acaso n\u00e3o vi Jesus, Senhor nosso? N\u00e3o sois v\u00f3s minha obra no Senhor? (9, 1). Analogamente, na 2\u00aa Carta aos Cor\u00edntios, afirma: \u00abV\u00f3s sois nossa carta&#8230;, sois uma carta de Cristo, redigida por minist\u00e9rio nosso, escrita n\u00e3o com tinta, mas com o Esp\u00edrito de Deus vivo\u00bb (3, 2-3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o nos surpreende, portanto, se o Cris\u00f3stomo fala de Paulo como de \u00abuma alma de diamante\u00bb (Paneg\u00edricos 1,8), e continua dizendo: \u00abDo mesmo modo que o fogo, aplicando-se a materiais diferentes, refor\u00e7a-se ainda mais&#8230;, assim a palavra de Paulo ganhava para a sua causa todos aqueles com os quais entrava em contato; e aqueles que lhe faziam guerra, surpreendidos por seus discursos, convertiam-se em alimento para esse fogo espiritual\u00bb (ibid. 7, 11). Isso explica por que Paulo define os ap\u00f3stolos como \u00abcolaboradores de Deus\u00bb (1 Cor 3, 9; 2 Cor 6, 1), cuja gra\u00e7a atua neles. Um elemento t\u00edpico do verdadeiro ap\u00f3stolo, trazido \u00e0 luz por S\u00e3o Paulo, \u00e9 uma esp\u00e9cie de identifica\u00e7\u00e3o entre Evangelho e evangelizador, ambos destinados \u00e0 mesma sorte. Ningu\u00e9m como Paulo, de fato, evidenciou como o an\u00fancio da cruz aparece como \u00abesc\u00e2ndalo e necessidade\u00bb (1 Cor 1, 23), ao qual muitos reagiam com incompreens\u00e3o e rejei\u00e7\u00e3o. Isso acontecia naquele tempo e n\u00e3o deve estranhar-nos que aconte\u00e7a tamb\u00e9m hoje. Neste destino, de aparecer como \u00abesc\u00e2ndalo e necessidade\u00bb, participa tamb\u00e9m o ap\u00f3stolo e Paulo o sabe: \u00e9 a experi\u00eancia de sua vida. Aos Cor\u00edntios ele escreve, n\u00e3o sem ironia: \u00abJulgo que Deus nos exp\u00f4s, a n\u00f3s, ap\u00f3stolos, em \u00faltimo lugar, como condenados \u00e0 morte: fomos dados em espet\u00e1culo ao mundo, aos anjos e aos homens. Somos loucos por causa de Cristo, v\u00f3s, por\u00e9m, sois prudentes em Cristo; somos fracos, v\u00f3s, por\u00e9m, sois fortes; v\u00f3s sois bem considerados, n\u00f3s, por\u00e9m, somos desprezados. At\u00e9 o momento presente ainda sofremos fome, sede e nudez; somos maltratados, n\u00e3o temos morada certa e fatigamo-nos trabalhando com as pr\u00f3prias m\u00e3os. Somos amaldi\u00e7oados, e bendizemos; somos perseguidos, e suportamos; somos caluniados, e consolamos. At\u00e9 o presente somos considerados como o lixo do mundo, a esc\u00f3ria do universo\u00bb (1 Cor 4, 9-13). \u00c9 um auto-retrato da vida apost\u00f3lica de S\u00e3o Paulo: em todos estes sofrimentos prevalece a alegria de ser portador da b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus e da gra\u00e7a do Evangelho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Paulo, por outro lado, compartilha com a filosofia est\u00f3ica de seu tempo uma tenaz const\u00e2ncia em todas as dificuldades que lhe s\u00e3o apresentadas; mas ele supera a perspectiva meramente human\u00edstica, exigindo o componente do amor de Deus e de Cristo: \u00abQuem nos separar\u00e1 do amor de Cristo? A tribula\u00e7\u00e3o, a ang\u00fastia, a persegui\u00e7\u00e3o, a fome, a nudez, os perigos, a espada? Segundo est\u00e1 escrito: por sua causa somos postos \u00e0 morte o dia todo, somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro. Mas em tudo isto somos mais que vencedores, gra\u00e7as \u00e0quele que nos amou. Pois estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poder\u00e1 nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor\u00bb (Rm 8, 35-39). Esta \u00e9 a certeza, a alegria profunda que guia o ap\u00f3stolo Paulo em todas estas vicissitudes: nada pode separar-nos do amor de Deus. E este amor \u00e9 a verdadeira riqueza da vida humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como se v\u00ea, S\u00e3o Paulo havia se entregado ao Evangelho com toda sua exist\u00eancia; poder\u00edamos dizer que foi assim durante as 24 horas! E cumpria seu minist\u00e9rio com fidelidade e com alegria, \u00abpara salvar a toda custa algu\u00e9m\u00bb (1 Cor 9, 22). E com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s Igrejas, inclusive sabendo que tinha com elas uma rela\u00e7\u00e3o de paternidade (cf. 1 Cor 4, 15), inclusive de maternidade (cf. 1 Gal 4, 19), ele se colocava em atitude de completo servi\u00e7o, declarando admiravelmente: \u00abN\u00e3o tencionamos dominar a vossa f\u00e9, mas colaboramos para que tenhais alegria\u00bb (2 Cor 1, 24). Esta \u00e9 a miss\u00e3o de todos os ap\u00f3stolos de Cristo em todos os tempos: ser colaboradores da verdadeira alegria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">[Tradu\u00e7\u00e3o: \u00c9lison Santos. Revis\u00e3o: Aline Banchieri]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3sNa quarta-feira passada, falei da grande mudan\u00e7a que se produziu na vida de S\u00e3o Paulo ap\u00f3s seu encontro com Cristo crucificado. 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