{"id":26426,"date":"2009-06-24T00:00:00","date_gmt":"2009-06-24T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/homilia-do-papa-ao-inaugurar-o-ano-sacerdotal\/"},"modified":"2009-06-24T00:00:00","modified_gmt":"2009-06-24T03:00:00","slug":"homilia-do-papa-ao-inaugurar-o-ano-sacerdotal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/homilia-do-papa-ao-inaugurar-o-ano-sacerdotal\/","title":{"rendered":"Homilia do Papa ao Inaugurar o Ano Sacerdotal"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify\">Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s:<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">Na ant\u00edfona do Magnificat, dentro de pouco, cantaremos: \u201cO Senhor nos acolheu em seu cora\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cSuscepit nos Dominus in sinum et cor suum\u201d. No Antigo Testamento, fala-se 26 vezes do cora\u00e7\u00e3o de Deus, considerado como o \u00f3rg\u00e3o da sua vontade: em refer\u00eancia ao cora\u00e7\u00e3o de Deus, o homem \u00e9 julgado. Por causa da dor que seu cora\u00e7\u00e3o sente pelos pecados do homem, Deus decide o dil\u00favio, mas depois se comove diante da fraqueza humana e perdoa.<\/div>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Depois, h\u00e1 uma passagem do Antigo Testamento em que o tema do cora\u00e7\u00e3o de Deus se expressa de maneira totalmente clara: encontra-se no cap\u00edtulo 11 do livro do profeta Oseias, em que os primeiros vers\u00edculos descrevem a dimens\u00e3o do amor com que o Senhor se dirige a Israel na aurora de sua hist\u00f3ria: \u201cQuando Israel era menino, eu o amei e do Egito chamei meu filho\u201d (v. 1). Na realidade, \u00e0 incans\u00e1vel predile\u00e7\u00e3o divina, Israel responde com indiferen\u00e7a e inclusive com ingratid\u00e3o. \u201cMas quanto mais os chamava, tanto mais eles se afastavam de mim\u201d (v. 2). No entanto, Ele n\u00e3o abandona Israel nas m\u00e3os dos inimigos, pois \u201cmeu cora\u00e7\u00e3o se contorce dentro de mim, minhas entranhas comovem-se\u201d (v. 8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O cora\u00e7\u00e3o de Deus se estremece de compaix\u00e3o! Na solenidade do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, a Igreja apresenta este mist\u00e9rio \u00e0 nossa contempla\u00e7\u00e3o, o mist\u00e9rio do cora\u00e7\u00e3o de um Deus que se comove e oferece todo o seu amor \u00e0 humanidade. Um amor misterioso, que nos textos do Novo Testamento nos \u00e9 revelado como incomensur\u00e1vel paix\u00e3o de Deus pelo homem. N\u00e3o se rende diante da ingratid\u00e3o, nem sequer diante da rejei\u00e7\u00e3o do povo que Ele escolheu; mais ainda, com infinita miseric\u00f3rdia, envia ao mundo seu Filho unig\u00eanito para que carregue sobre si o destino do amor destru\u00eddo; para que, derrotando o poder do mal e da morte, possa restituir a dignidade de filhos aos seres humanos escravizados pelo pecado. Tudo isso com um pre\u00e7o muito caro: o Filho unig\u00eanito do Pai se imola na cruz: \u201cTendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os at\u00e9 o fim\u201d (cf. Jo\u00e3o 13, 1). S\u00edmbolo deste amor que vai muito al\u00e9m da morte \u00e9 seu lado atravessado por uma lan\u00e7a. Neste sentido, uma testemunha ocular \u2013 o ap\u00f3stolo Jo\u00e3o \u2013 afirma: \u201cUm dos soldados traspassou-lhe o lado com uma lan\u00e7a e imediatamente saiu sangue e \u00e1gua\u201d (cf. Jo\u00e3o 19, 34).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s: obrigado, pois, respondendo ao meu convite, viestes em grande n\u00famero a esta celebra\u00e7\u00e3o, pela qual entramos no Ano Sacerdotal. Sa\u00fado os senhores cardeais e os bispos, em particular o cardeal prefeito e o secret\u00e1rio da Congrega\u00e7\u00e3o para o Clero, junto a seus colaboradores, e o bispo de Ars. Sa\u00fado os sacerdotes e seminaristas dos col\u00e9gios de Roma; os religiosos e religiosas e a todos os fi\u00e9is. Dirijo uma sauda\u00e7\u00e3o especial a Sua Beatitude Ignace Youssef Younan, patriarca de Antioquia dos S\u00edrios, que veio a Roma para visitar-me e manifestar publicamente a ecclesiastica communio (comunh\u00e3o eclesial, N. da T.), que lhe foi concedida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s: detenhamo-nos para contemplar juntos o Cora\u00e7\u00e3o traspassado do Crucificado. Mais uma vez, acabamos de escutar, na breve leitura tomada da carta de S\u00e3o Paulo aos Ef\u00e9sios, que \u201cDeus, que \u00e9 rico em miseric\u00f3rdia, pelo grande amor com que nos amou, quando est\u00e1vamos mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo \u2013 pela gra\u00e7a fostes salvos! \u2013 e com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos c\u00e9us, em Cristo Jesus\u201d (Ef\u00e9sios 2, 4-6). Estar em Cristo Jesus significa j\u00e1 sentar-se nos c\u00e9us. No Cora\u00e7\u00e3o de Jesus se expressa o n\u00facleo essencial do cristianismo; em Cristo nos \u00e9 revelada e entregue toda a novidade revolucion\u00e1ria do Evangelho: o Amor que nos salva e nos faz viver j\u00e1 na eternidade de Deus. O evangelista Jo\u00e3o escreve: \u201cDeus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho \u00fanico, para que todo o que nele cr\u00ea n\u00e3o pere\u00e7a, mas tenha a vida eterna\u201d (3, 16). Seu Cora\u00e7\u00e3o divino chama ent\u00e3o nosso cora\u00e7\u00e3o; convida-nos a sair de n\u00f3s mesmos e a abandonar nossas seguran\u00e7as humanas para fiar-nos d\u2019Ele e, seguindo seu exemplo, a fazer de n\u00f3s mesmos um dom de amor sem reservas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Se \u00e9 verdade que o convite de Jesus a \u201cpermanecer em seu amor\u201d (cf. Jo\u00e3o 15, 9) se dirige a todo batizado, na festa do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, Dia de Santifica\u00e7\u00e3o Sacerdotal, este convite ressoa com maior for\u00e7a para n\u00f3s, sacerdotes, em particular nesta tarde, solene in\u00edcio do Ano Sacerdotal, que convoquei por ocasi\u00e3o do 150\u00ba anivers\u00e1rio da morte do Santo Cura de Ars. Vem-me imediatamente \u00e0 mente uma bela e comovedora afirma\u00e7\u00e3o, referida no Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica: \u201cO sacerd\u00f3cio \u00e9 o amor do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus\u201d (n. 1589). Como n\u00e3o recordar com como\u00e7\u00e3o que diretamente desse Cora\u00e7\u00e3o manou o dom do nosso minist\u00e9rio sacerdotal? Como esquecer que n\u00f3s, presb\u00edteros, fomos consagrados para servir, humilde e autorizadamente, ao sacerd\u00f3cio comum dos fi\u00e9is? Nossa miss\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel para a Igreja e para o mundo, que exige fidelidade plena a Cristo e uma incessante uni\u00e3o com Ele; isto \u00e9, exige que busquemos constantemente a santidade, como fez S\u00e3o Jo\u00e3o Maria Vianney. Na carta que vos dirigi por ocasi\u00e3o deste ano jubilar especial, queridos sacerdotes, eu quis sublinhar alguns aspectos que qualificam nosso minist\u00e9rio, fazendo refer\u00eancia ao exemplo e ao ensinamento do Santo Cura de Ars, modelo e protetor de todos os sacerdotes, em particular dos p\u00e1rocos. Espero que este meu texto vos sirva de ajuda e est\u00edmulo para fazer deste ano uma ocasi\u00e3o prop\u00edcia para crescer na intimidade com Jesus, que conta conosco, seus ministros, para difundir e consolidar seu Reino, para difundir seu amor, sua verdade. E, portanto, \u201ca exemplo do Santo Cura de Ars, deixai-vos conquistar por Ele e sereis, tamb\u00e9m v\u00f3s, no mundo de hoje, mensageiros de esperan\u00e7a, reconcilia\u00e7\u00e3o e paz\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Deixar-se conquistar totalmente por Cristo! Este foi o objetivo de toda a vida de S\u00e3o Paulo, a quem dirigimos nossa aten\u00e7\u00e3o durante o Ano Paulino, que j\u00e1 est\u00e1 terminando; esta foi a meta de todo o minist\u00e9rio do Santo Cura de Ars, a quem invocaremos particularmente durante o Ano Sacerdotal; que este seja tamb\u00e9m o principal objetivo de cada um de n\u00f3s. Para ser ministros ao servi\u00e7o do Evangelho, \u00e9 certamente \u00fatil e necess\u00e1rio o estudo com uma atenta e permanente forma\u00e7\u00e3o pastoral, mas \u00e9 ainda mais necess\u00e1ria essa \u201cci\u00eancia do amor\u201d, que s\u00f3 se aprende de \u201ccora\u00e7\u00e3o a cora\u00e7\u00e3o\u201d com Cristo. Ele nos chama a partir o p\u00e3o do seu amor, a perdoar os pecados e a guiar o rebanho em seu nome. Precisamente por este motivo, n\u00e3o podemos nos afastar nunca do manancial do amor que \u00e9 seu Cora\u00e7\u00e3o atravessado na cruz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Somente assim seremos capazes de cooperar eficazmente com o misterioso \u201cdes\u00edgnio do Pai\u201d, que consiste em \u201cfazer de Cristo o cora\u00e7\u00e3o do mundo\u201d, des\u00edgnio que se realiza na hist\u00f3ria na medida em que Jesus se converte no Cora\u00e7\u00e3o dos cora\u00e7\u00f5es humanos, come\u00e7ando por aqueles que est\u00e3o chamados a estar mais perto d\u2019Ele, os sacerdotes. As \u201cpromessas sacerdotais\u201d que pronunciamos no dia da nossa ordena\u00e7\u00e3o e que renovamos cada ano, na Quinta-Feira Santa, na Missa Crismal, voltam a nos recordar este constante compromisso. Inclusive nossas car\u00eancias, nossos limites e fraquezas devem nos conduzir ao Cora\u00e7\u00e3o de Jesus. Se \u00e9 verdade que os pecadores, ao contempl\u00e1-lo, devem aprender a necess\u00e1ria \u201cdor dos pecados\u201d que volta a conduzi-los ao Pai, isso se aplica ainda mais aos ministros sagrados. \u201cComo esquecer que nada faz a Igreja, Corpo de Cristo, sofrer mais que os pecados dos seus pastores, sobretudo daqueles que se convertem em \u201cladr\u00f5es de ovelhas\u201d (Jo\u00e3o 10, 1ss), seja porque as desviam com suas doutrinas privadas, seja porque as atam com os la\u00e7os do pecado e da morte? Tamb\u00e9m para n\u00f3s, queridos sacerdotes, aplica-se o chamado \u00e0 convers\u00e3o e a recorrer \u00e0 Miseric\u00f3rdia Divina, e igualmente devemos dirigir com humildade incessante a s\u00faplica ao Cora\u00e7\u00e3o de Jesus para que nos preserve do terr\u00edvel risco de causar dano \u00e0queles a quem devemos salvar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 pouco, pude venerar, na Capela do Coro, a rel\u00edquia do Santo Cura de Ars: seu cora\u00e7\u00e3o. Um cora\u00e7\u00e3o inflamado de amor divino, que se comovia frente ao pensamento da dignidade do sacerdote e falava aos fi\u00e9is com tons tocantes e sublimes, afirmando que \u201cdepois de Deus, o sacerdote \u00e9 tudo!&#8230; Ele pr\u00f3prio n\u00e3o se entender\u00e1 bem a si mesmo, sen\u00e3o no c\u00e9u\u201d (cf. Carta para o Ano Sacerdotal). Cultivemos, queridos irm\u00e3os, esta mesma como\u00e7\u00e3o, seja para cumprir nosso minist\u00e9rio com generosidade e dedica\u00e7\u00e3o, seja para custodiar na alma um verdadeiro \u201ctemor de Deus\u201d: temor de poder privar de tanto bem, por nossa neglig\u00eancia ou culpa, as almas que nos foram confiadas, ou de poder causar-lhes dano. Que Deus n\u00e3o o permita! A Igreja tem necessidade de sacerdotes santos, de ministros que ajudem os fi\u00e9is a experimentar o amor misericordioso do Senhor e sejam suas testemunhas convictas. Na adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, ap\u00f3s a celebra\u00e7\u00e3o das V\u00e9speras, pediremos ao Senhor que inflame o cora\u00e7\u00e3o de cada presb\u00edtero com essa caridade pastoral capaz de fundir seu \u201ceu\u201d no de Jesus sacerdote, para assim poder imit\u00e1-lo na mais completa entrega de si mesmo. Que nos obtenha esta gra\u00e7a a Virgem M\u00e3e, de quem amanh\u00e3 contemplaremos com viva f\u00e9 o Cora\u00e7\u00e3o Imaculado. O Santo Cura de Ars vivia uma filial devo\u00e7\u00e3o por ela, at\u00e9 o ponto de que, em 1836, antecipando-se \u00e0 proclama\u00e7\u00e3o do dogma da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, j\u00e1 havia consagrado sua par\u00f3quia a Maria \u201cconcebida sem pecado\u201d. E manteve o costume de renovar frequentemente esta oferenda da par\u00f3quia \u00e0 Santa Virgem, ensinando aos fi\u00e9is que \u201cbasta dirigir-se a ela para ser escutados\u201d, pela simples raz\u00e3o de que ela \u201cdeseja sobretudo ver-nos felizes\u201d. Que Nossa Senhora, nossa M\u00e3e, nos acompanhe no Ano Sacerdotal que iniciamos hoje, para que possamos ser guias firmes e iluminados para os fi\u00e9is que o Senhor confia aos nossos cuidados pastorais. Am\u00e9m!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s: Na ant\u00edfona do Magnificat, dentro de pouco, cantaremos: \u201cO Senhor nos acolheu em seu cora\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cSuscepit nos Dominus in sinum et cor suum\u201d. No Antigo Testamento, fala-se 26 vezes do cora\u00e7\u00e3o de Deus, considerado como o \u00f3rg\u00e3o da sua vontade: em refer\u00eancia ao cora\u00e7\u00e3o de Deus, o homem \u00e9 julgado. 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