{"id":27143,"date":"2011-10-28T00:00:00","date_gmt":"2011-10-28T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/mensagem-de-bento-xvi-em-assis-2\/"},"modified":"2011-10-28T00:00:00","modified_gmt":"2011-10-28T02:00:00","slug":"mensagem-de-bento-xvi-em-assis-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/mensagem-de-bento-xvi-em-assis-2\/","title":{"rendered":"Mensagem de Bento XVI em Assis"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As religi\u00f5es jamais podem ser motivo de viol\u00eancia. Os credos e o di\u00e1logo inter-religioso s\u00e3o e devem ser baseados na paz. Foi a evoca\u00e7\u00e3o feita por Bento XVI, nesta quinta-feira, em Assis, diante dos expoentes de todas as religi\u00f5es do mundo, e de um grupo de agn\u00f3sticos, por ocasi\u00e3o de uma nova Jornada mundial de ora\u00e7\u00e3o e de reflex\u00e3o pela paz, \u00e0 dist\u00e2ncia de 25 anos do hist\u00f3rico encontro realizado por iniciativa de Jo\u00e3o Paulo II.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Papa e os cerca de 300 participantes do encontro &#8220;Peregrinos da verdade, peregrinos da paz&#8221; chegaram pela manh\u00e3 \u00e0 cidade de S\u00e3o Francisco a bordo de um trem, que no final do dia os trar\u00e1 de volta a Roma. De fato, tendo partido \u00e0s 8h locais da esta\u00e7\u00e3o vaticana, o trem Etr 600 das Ferrovias italianas, formado por 7 vag\u00f5es e a locomotiva, levava a bordo o Santo Padre e cerca de 300 pessoas.<\/p>\n<p>O Pont\u00edfice viajou no vag\u00e3o 2, localizado na parte traseira do trem, com o Cardeal Secret\u00e1rio de Estado Tarcisio Bertone, acompanhado do Patriarca Ecum\u00eanico de Constantinopla, Bartolomeu I, e de outros renomados expoentes das religi\u00f5es mundiais. O trem chegou a Assis \u00e0s 9h45 locais.<\/p>\n<p>No final desta manh\u00e3, o Santo Padre dirigiu-se aos participantes na Jornada de Reflex\u00e3o em Assis. O Pont\u00edfice iniciou seu discurso lembrando que \u201cpassaram-se vinte e cinco anos desde quando, pela primeira vez, o beato Papa Jo\u00e3o Paulo II convidou representantes das religi\u00f5es do mundo para uma ora\u00e7\u00e3o pela paz em Assis\u201d. E ent\u00e3o p\u00f4s as quest\u00f5es: \u201co que aconteceu desde ent\u00e3o? Como se encontra hoje a causa da paz?\u201d. <\/p>\n<p>\u201cNaquele momento \u2013 disse o Papa -, a grande amea\u00e7a para a paz no mundo provinha da divis\u00e3o da terra em dois blocos contrapostos entre si. O s\u00edmbolo saliente daquela divis\u00e3o era o muro de Berlim que, atravessando a cidade, tra\u00e7ava a fronteira entre dois mundos. Em 1989, tr\u00eas anos depois do encontro em Assis, o muro caiu, sem derramamento de sangue. Inesperadamente, os enormes arsenais, que estavam por detr\u00e1s do muro, deixaram de ter qualquer significado. (\u2026) Enfim, a vontade de ser livre foi mais forte do que o medo face a uma viol\u00eancia que n\u00e3o tinha mais nenhuma cobertura espiritual\u201d.<\/p>\n<p>Bento XVI continuou afirmando que, desde ent\u00e3o, \u201cinfelizmente, n\u00e3o podemos dizer que desde ent\u00e3o a situa\u00e7\u00e3o se caracterize por liberdade e paz. Embora a amea\u00e7a da grande guerra n\u00e3o se aviste no horizonte, todavia o mundo est\u00e1, infelizmente, cheio de disc\u00f3rdias\u201d. Ent\u00e3o o Papa falou sobre o terrorismo, e deste ressaltou a motiva\u00e7\u00e3o religiosa que, muitas vezes, serve como justificativa para o que o classificou de \u201ccrueldade monstruosa, que cr\u00ea poder anular as regras do direito por causa do \u00abbem\u00bb pretendido\u201d. \u201cAqui a religi\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 ao servi\u00e7o da paz, mas da justifica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia\u201d. E acrescentou: \u201co que os representantes das religi\u00f5es congregados no ano 1986, em Assis, pretenderam dizer \u2013 e n\u00f3s o repetimos com vigor e grande firmeza \u2013 era que esta n\u00e3o \u00e9 a verdadeira natureza da religi\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 a sua deturpa\u00e7\u00e3o e contribui para a sua destrui\u00e7\u00e3o\u201d. <\/p>\n<p>O Santo Padre falou sobre uma segunda tipologia de viol\u00eancia, ou seja, \u201ca consequ\u00eancia da aus\u00eancia de Deus, da sua nega\u00e7\u00e3o e da perda de humanidade que resulta disso\u201d. \u201cAqui, por\u00e9m, n\u00e3o pretendo deter-me no ate\u00edsmo prescrito pelo Estado \u2013 fez a ressalva -, queria, antes, falar da \u00abdecad\u00eancia\u00bb do homem, em consequ\u00eancia da qual se realiza, de modo silencioso, e por conseguinte mais perigoso, uma altera\u00e7\u00e3o do clima espiritual. A adora\u00e7\u00e3o do dinheiro, do ter e do poder, revela-se uma contra-religi\u00e3o, na qual j\u00e1 n\u00e3o importa o homem, mas s\u00f3 o lucro pessoal\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o Papa falou sobre o mundo do agnosticismo, que destacou estar em expans\u00e3o. \u201cTais pessoas n\u00e3o se limitam a afirmar \u00abN\u00e3o existe nenhum Deus\u00bb\u201d, disse o Santo Padre, mostrando que elas est\u00e3o em busca da verdade e do bem, andando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Deus portanto. \u201cColocam quest\u00f5es tanto a uma parte como \u00e0 outra \u2013 afirmou o Pont\u00edfice. Aos ateus combativos, tiram-lhes aquela falsa certeza com que pretendem saber que n\u00e3o existe um Deus, e convidam-nos a tornar-se, em lugar de pol\u00eamicos, pessoas \u00e0 procura, que n\u00e3o perdem a esperan\u00e7a de que a verdade exista e que n\u00f3s podemos e devemos viver em fun\u00e7\u00e3o dela\u201d. <\/p>\n<p>Bento XVI ainda chamou a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que os agn\u00f3sticos \u201cchamam em causa tamb\u00e9m os membros das religi\u00f5es, para que n\u00e3o considerem Deus como uma propriedade que de tal modo lhes pertence que se sintam autorizados \u00e0 viol\u00eancia contra os demais\u201d. <\/p>\n<p>Concluindo, o Papa assegura de que \u201ca Igreja Cat\u00f3lica n\u00e3o desistir\u00e1 da luta contra a viol\u00eancia e do seu compromisso pela paz no mundo\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">=====================================================================================================<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A \u00edntegra do discurso<\/p>\n<div style=\"text-align: center\"><strong><span><span><span><span><span><span><span><span><span><span><strong>Discurso do Santo Padre Bento XVI <\/strong><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/strong><span><br \/><strong>para a Jornada de Reflex\u00e3o, Di\u00e1logo e Ora\u00e7\u00e3o  pela Paz e Justi\u00e7a no Mundo<br \/><\/strong><\/span><strong><span><span><span><span><span><span><span><span><span><span>&#8220;Peregrinos da verdade, peregrinos da paz&#8221; <\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: center\"><em><strong><span><span><span><span><span><span><span><span><span><span><strong>Assis,  It\u00e1lia<\/strong><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/strong><\/em><br \/><em><span><span><span><span><span><span><span><span><span><span><strong>Quinta-feira, <\/strong><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><span><span><span><span><span><span><span><span><span><span><strong>27 de outubro de  2011<\/strong><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/em><\/div>\n<p><em><br \/>Queridos  irm\u00e3os e irm\u00e3s,<br \/>distintos Chefes e representantes das Igrejas e Comunidades  eclesiais e das religi\u00f5es do mundo,<br \/>queridos amigos,<\/em> <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Passaram-se 25 anos desde quando pela primeira vez o beato Papa  Jo\u00e3o Paulo II convidou representantes das religi\u00f5es do mundo para uma ora\u00e7\u00e3o  pela paz em Assis. O que aconteceu desde ent\u00e3o? Como se encontra hoje a causa da  paz? Naquele momento, a grande amea\u00e7a para a paz no mundo provinha da divis\u00e3o da  terra em dois blocos contrapostos entre si. O s\u00edmbolo saliente daquela divis\u00e3o  era o muro de Berlim que, atravessando a cidade, tra\u00e7ava a fronteira entre dois  mundos. Em 1989, tr\u00eas anos depois do encontro em Assis, o muro caiu, sem  derramamento de sangue. Inesperadamente, os enormes arsenais, que estavam por  detr\u00e1s do muro, deixaram de ter qualquer significado. Perderam a sua capacidade  de aterrorizar. A vontade que tinham os povos de ser livres era mais forte que  os arsenais da viol\u00eancia. A quest\u00e3o sobre as causas de tal derrocada \u00e9 complexa  e n\u00e3o pode encontrar uma resposta em simples f\u00f3rmulas. Mas, ao lado dos factores  econ\u00f4micos e pol\u00edticos, a causa mais profunda de tal acontecimento \u00e9 de car\u00e1cter  espiritual: por detr\u00e1s do poder material, j\u00e1 n\u00e3o havia qualquer convic\u00e7\u00e3o  espiritual. Enfim, a vontade de ser livre foi mais forte do que o medo face a  uma viol\u00eancia que n\u00e3o tinha mais nenhuma cobertura espiritual. Sentimo-nos  agradecidos por esta vit\u00f3ria da liberdade, que foi tamb\u00e9m e sobretudo uma  vit\u00f3ria da paz. E \u00e9 necess\u00e1rio acrescentar que, embora neste contexto n\u00e3o se  tratasse somente, nem talvez primariamente, da liberdade de crer, tamb\u00e9m se  tratava dela. Por isso, podemos de certo modo unir tudo isto tamb\u00e9m com a ora\u00e7\u00e3o  pela paz.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas, que aconteceu depois? Infelizmente, n\u00e3o podemos dizer que  desde ent\u00e3o a situa\u00e7\u00e3o se caracterize por liberdade e paz.<strong> Embora a  amea\u00e7a da grande guerra n\u00e3o se aviste no horizonte, todavia o mundo est\u00e1,  infelizmente, cheio de disc\u00f3rdias. <\/strong>E n\u00e3o \u00e9 somente o fato de haver, em  v\u00e1rios lugares, guerras que se reacendem repetidamente; a viol\u00eancia como tal  est\u00e1 potencialmente sempre presente e caracteriza a condi\u00e7\u00e3o do nosso  mundo<strong>. A liberdade \u00e9 um grande bem. Mas o mundo da liberdade revelou-se,  em grande medida, sem orienta\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o poucos entendem, erradamente, a  liberdade tamb\u00e9m como liberdade para a viol\u00eancia. A disc\u00f3rdia assume novas e  assustadoras fisionomias e a luta pela paz deve-nos estimular a todos de um modo  novo.<\/strong><\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Procuremos identificar, mais de perto, as novas fisionomias da  viol\u00eancia e da disc\u00f3rdia. Em grandes linhas, parece-me que \u00e9 poss\u00edvel individuar  duas tipologias diferentes de novas formas de viol\u00eancia, que s\u00e3o diametralmente  opostas na sua motiva\u00e7\u00e3o e, nos particulares, manifestam muitas variantes.  Primeiramente temos o terrorismo, no qual, em vez de uma grande guerra,  realizam-se ataques bem definidos que devem atingir pontos importantes do  advers\u00e1rio, de modo destrutivo e sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o pelas vidas humanas  inocentes, que acabam cruelmente ceifadas ou mutiladas. Aos olhos dos  respons\u00e1veis,<strong> a grande causa da danifica\u00e7\u00e3o do inimigo justifica  qualquer forma de crueldade. \u00c9 posto de lado tudo aquilo que era comummente  reconhecido e sancionado como limite \u00e0 viol\u00eancia no direito internacional.  Sabemos que, frequentemente, o terrorismo tem uma motiva\u00e7\u00e3o religiosa e que  precisamente o car\u00e1cter religioso dos ataques serve como justifica\u00e7\u00e3o para esta  crueldade monstruosa, que cr\u00ea poder anular as regras do direito por causa do  \u00abbem\u00bb pretendido. Aqui a religi\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 ao servi\u00e7o da paz, mas da  justifica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">A cr\u00edtica da religi\u00e3o, a partir do Iluminismo, alegou  repetidamente que a religi\u00e3o seria causa de viol\u00eancia e assim fomentou a  hostilidade contra as religi\u00f5es. Que, no caso em quest\u00e3o, a religi\u00e3o motive de  fato a viol\u00eancia \u00e9 algo que,<strong> enquanto pessoas religiosas, nos deve  preocupar profundamente.<\/strong> De modo mais subtil mas sempre cruel, vemos a  religi\u00e3o como causa de viol\u00eancia tamb\u00e9m nas situa\u00e7\u00f5es onde esta \u00e9 exercida por  defensores de uma religi\u00e3o contra os outros. O que os representantes das  religi\u00f5es congregados no ano 1986, em Assis, pretenderam dizer \u2013 e n\u00f3s o  repetimos com vigor e grande firmeza \u2013 era que esta n\u00e3o \u00e9 a verdadeira natureza  da religi\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 a sua deturpa\u00e7\u00e3o e contribui para a sua destrui\u00e7\u00e3o.  Contra isso, objecta-se: Mas donde deduzis qual seja a verdadeira natureza da  religi\u00e3o? A vossa pretens\u00e3o por acaso n\u00e3o deriva do fato que se apagou entre v\u00f3s  a for\u00e7a da religi\u00e3o? E outros objectar\u00e3o: <strong>Mas existe verdadeiramente uma  natureza comum da religi\u00e3o, que se exprima em todas as religi\u00f5es e, por  conseguinte, seja v\u00e1lida para todas? Devemos enfrentar estas quest\u00f5es, se  quisermos contrastar de modo realista e cred\u00edvel o recurso \u00e0 viol\u00eancia por  motivos religiosos. Aqui situa-se uma tarefa fundamental do di\u00e1logo  inter-religioso, uma tarefa que deve ser novamente sublinhada por este encontro.  Como crist\u00e3o, quero dizer, neste momento: \u00c9 verdade, na hist\u00f3ria, tamb\u00e9m se  recorreu \u00e0 viol\u00eancia em nome da f\u00e9 crist\u00e3. Reconhecemo-lo, cheios de vergonha.  Mas, sem sombra de d\u00favida, tratou-se de um uso abusivo da f\u00e9 crist\u00e3, em  contraste evidente com a sua verdadeira natureza. O Deus em quem n\u00f3s, crist\u00e3os,  acreditamos \u00e9 o Criador e Pai de todos os homens, a partir do qual todas as  pessoas s\u00e3o irm\u00e3os e irm\u00e3s entre si e constituem uma \u00fanica fam\u00edlia. <\/strong>A  Cruz de Cristo \u00e9, para n\u00f3s, o sinal daquele Deus que, no lugar da viol\u00eancia,  coloca o sofrer com o outro e o amar com o outro. O seu nome \u00e9 \u00abDeus do amor e  da paz\u00bb (2 <em>Cor<\/em> 13,11). <strong>\u00c9 tarefa de todos aqueles que possuem  alguma responsabilidade pela f\u00e9 crist\u00e3, purificar continuamente a religi\u00e3o dos  crist\u00e3os a partir do seu centro interior, para que \u2013 apesar da fraqueza do homem  \u2013 seja verdadeiramente instrumento da paz de Deus no mundo.<\/strong><\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Se hoje uma tipologia fundamental da viol\u00eancia tem motiva\u00e7\u00e3o  religiosa, colocando assim as religi\u00f5es perante a quest\u00e3o da sua natureza e  obrigando-nos a todos a uma purifica\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma segunda tipologia de viol\u00eancia,  de aspecto multiforme, que possui uma motiva\u00e7\u00e3o exatamente oposta: \u00e9 a  consequ\u00eancia da aus\u00eancia de Deus, da sua nega\u00e7\u00e3o e da perda de humanidade que  resulta disso. Como dissemos, os inimigos da religi\u00e3o veem nela uma fonte  prim\u00e1ria de viol\u00eancia na hist\u00f3ria da humanidade e, consequentemente, pretendem o  desaparecimento da religi\u00e3o. <strong>Mas o \u00abn\u00e3o\u00bb a Deus produziu crueldade e uma  viol\u00eancia sem medida, que foi poss\u00edvel s\u00f3 porque o homem deixara de reconhecer  qualquer norma e juiz superior, mas tomava por norma somente a si mesmo. <\/strong>Os horrores dos campos de concentra\u00e7\u00e3o mostram, com toda a clareza, as  consequ\u00eancias da aus\u00eancia de Deus.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Aqui, por\u00e9m, n\u00e3o pretendo deter-me no ate\u00edsmo prescrito pelo  Estado; queria, antes, falar da \u00abdecad\u00eancia\u00bb do homem, em consequ\u00eancia da qual  se realiza, de modo silencioso, e por conseguinte mais perigoso, uma altera\u00e7\u00e3o  do clima espiritual. A adora\u00e7\u00e3o do dinheiro, do ter e do poder, revela-se uma  contra-religi\u00e3o, na qual j\u00e1 n\u00e3o importa o homem, mas s\u00f3 o lucro pessoal.  <strong>O desejo de felicidade degenera num anseio desenfreado e desumano como  se manifesta, por exemplo, no dom\u00ednio da droga com as suas formas  diversas.<\/strong> A\u00ed est\u00e3o os grandes que com ela fazem os seus neg\u00f3cios, e  depois tantos que acabam seduzidos e arruinados por ela tanto no corpo como na  alma. A viol\u00eancia torna-se uma coisa normal e, em algumas partes do mundo,  amea\u00e7a destruir a nossa juventude. <strong>Uma vez que a viol\u00eancia se torna uma  coisa normal, a paz fica destru\u00edda e, nesta falta de paz, o homem destr\u00f3i-se a  si mesmo.<\/strong><\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>A aus\u00eancia de Deus leva \u00e0 decad\u00eancia do homem e do  humanismo.<\/strong> Mas, onde est\u00e1 Deus? Temos n\u00f3s possibilidades de O conhecer  e mostrar novamente \u00e0 humanidade, para fundar uma verdadeira paz? Antes de mais  nada, sintetizemos brevemente as nossas reflex\u00f5es feitas at\u00e9 agora. Disse que  existe uma concep\u00e7\u00e3o e um uso da religi\u00e3o atrav\u00e9s dos quais esta se torna fonte  de viol\u00eancia, enquanto que a orienta\u00e7\u00e3o do homem para Deus, vivida retamente, \u00e9  uma for\u00e7a de paz. Neste contexto, recordei a necessidade de di\u00e1logo e falei da  purifica\u00e7\u00e3o, sempre necess\u00e1ria, da viv\u00eancia da religi\u00e3o. Por outro lado, afirmei  que a nega\u00e7\u00e3o de Deus corrompe o homem, priva-o de medidas e leva-o \u00e0  viol\u00eancia.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Ao lado destas duas realidades, religi\u00e3o e anti-religi\u00e3o,  existe, no mundo do agnosticismo em expans\u00e3o, outra orienta\u00e7\u00e3o de fundo: pessoas  \u00e0s quais n\u00e3o foi concedido o dom de poder crer e todavia procuram a verdade,  est\u00e3o \u00e0 procura de Deus. Tais pessoas n\u00e3o se limitam a afirmar \u00abN\u00e3o existe  nenhum Deus\u00bb, mas elas sofrem devido \u00e0 sua aus\u00eancia e, procurando a verdade e o  bem, est\u00e3o, intimamente est\u00e3o a caminho Dele. S\u00e3o \u00abperegrinos da verdade,  peregrinos da paz\u00bb. Colocam quest\u00f5es tanto a uma parte como \u00e0 outra. Aos ateus  combativos, tiram-lhes aquela falsa certeza com que pretendem saber que n\u00e3o  existe um Deus, e convidam-nos a tornar-se, em lugar de pol\u00eamicos, pessoas \u00e0  procura, que n\u00e3o perdem a esperan\u00e7a de que a verdade exista e que n\u00f3s podemos e  devemos viver em fun\u00e7\u00e3o dela. Mas, tais pessoas chamam em causa tamb\u00e9m os  membros das religi\u00f5es, para que n\u00e3o considerem Deus como uma propriedade que de  tal modo lhes pertence que se sintam autorizados \u00e0 viol\u00eancia contra os demais.  Estas pessoas procuram a verdade, procuram o verdadeiro Deus, cuja imagem n\u00e3o  raramente fica escondida nas religi\u00f5es, devido ao modo como eventualmente s\u00e3o  praticadas. <strong>Que os agn\u00f3sticos n\u00e3o consigam encontrar a Deus depende  tamb\u00e9m dos que creem, com a sua imagem diminu\u00edda ou mesmo deturpada de Deus.  Assim, a sua luta interior e o seu interrogar-se constituem para os que creem  tamb\u00e9m um apelo a purificarem a sua f\u00e9, para que Deus \u2013 o verdadeiro Deus \u2013 se  torne acess\u00edvel.<\/strong> Por isto mesmo, convidei representantes deste terceiro  grupo para o nosso Encontro em Assis, que n\u00e3o re\u00fane somente representantes de  institui\u00e7\u00f5es religiosas. <strong>Trata-se de nos sentirmos juntos neste caminhar  para a verdade, de nos comprometermos decisivamente pela dignidade do homem e de  assumirmos juntos a causa da paz contra toda a esp\u00e9cie de viol\u00eancia que destr\u00f3i  o direito. Concluindo, queria assegura-vos de que a Igreja Cat\u00f3lica n\u00e3o  desistir\u00e1 da luta contra a viol\u00eancia, do seu compromisso pela paz no mundo.  Vivemos animados pelo desejo comum de ser \u00abperegrinos da verdade, peregrinos da  paz\u00bb.<\/strong><\/p>\n<p><span><span> <\/span><\/span><\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"><span><span> <\/p>\n<p><span><span><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/BENTOXVI_assinatura.bmp\" width=\"200\" border=\"0\" height=\"51\" \/><\/span> <\/span><\/p>\n<p> <\/span><\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 As religi\u00f5es jamais podem ser motivo de viol\u00eancia. Os credos e o di\u00e1logo inter-religioso s\u00e3o e devem ser baseados na paz. Foi a evoca\u00e7\u00e3o feita por Bento XVI, nesta quinta-feira, em Assis, diante dos expoentes de todas as religi\u00f5es do mundo, e de um grupo de agn\u00f3sticos, por ocasi\u00e3o de uma nova Jornada mundial &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/mensagem-de-bento-xvi-em-assis-2\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Mensagem de Bento XVI em Assis<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":26785,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[784],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/27143"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=27143"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/27143\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media\/26785"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=27143"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=27143"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=27143"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}