{"id":27956,"date":"2010-02-04T00:00:00","date_gmt":"2010-02-04T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/mensagem-do-papa-bento-xvi-para-a-quaresma-2010-3\/"},"modified":"2010-02-04T00:00:00","modified_gmt":"2010-02-04T02:00:00","slug":"mensagem-do-papa-bento-xvi-para-a-quaresma-2010-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/mensagem-do-papa-bento-xvi-para-a-quaresma-2010-3\/","title":{"rendered":"Mensagem do papa Bento XVI para a Quaresma 2010"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Igreja inicia, nesta quarta-feira de cinzas, o tempo da Quaresma, per\u00edodo em que os crist\u00e3os se preparam para a celebra\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa. Todos os anos o papa publica uma mensagem conclamando os fi\u00e9is a viverem intensamente este tempo que \u00e9 caracterizado como momento de penit\u00eancia e convers\u00e3o. Para 2010, Bento XVI escolheu a justi\u00e7a como tema de sua mensagem.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cQual \u00e9 a justi\u00e7a de Cristo? \u00c9 antes de mais a justi\u00e7a que vem da gra\u00e7a, onde n\u00e3o \u00e9 o homem que repara, que cura si mesmo e os outros\u201d, diz o papa. \u201cConverter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilus\u00e3o da autosufici\u00eancia para descobrir e aceitar a pr\u00f3pria indig\u00eancia \u2013 indig\u00eancia dos outros e de Deus, exig\u00eancia do seu perd\u00e3o e da sua amizade\u201d.<\/p>\n<p>Leia, abaixo, a \u00edntegra da mensagem do papa para a Quaresma<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify\">Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s, todos os anos, por ocasi\u00e3o da Quaresma, a Igreja convida-nos a uma revis\u00e3o sincera da nossa vida \u00e1 luz dos ensinamentos evang\u00e9licos. Este ano desejaria propor-vos algumas reflex\u00f5es sobre o tema vasto da justi\u00e7a, partindo da afirma\u00e7\u00e3o Paulina: A justi\u00e7a de Deus est\u00e1 manifestada mediante a f\u00e9 em Jesus Cristo (cfr Rom 3,21 \u2013 22 ).<\/p>\n<p> <strong>Justi\u00e7a: \u201cdare cuique suum\u201d<\/strong> <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Detenho-me em primeiro lugar sobre o significado da palavra \u201cjusti\u00e7a\u201d que na linguagem comum implica \u201cdar a cada um o que \u00e9 seu \u2013 dare cuique suum\u201d, segundo a conhecida express\u00e3o de Ulpiano, jurista romana do s\u00e9culo III. Por\u00e9m, na realidade, tal defini\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica n\u00e3o precisa em que \u00e9 que consiste aquele \u201csuo\u201d que se deve assegurar a cada um. Aquilo de que o homem mais precisa n\u00e3o lhe pode ser garantido por lei. Para gozar de uma exist\u00eancia em plenitude, precisa de algo mais intimo que lhe pode ser concedido somente gratuitamente: poder\u00edamos dizer que o homem vive daquele amor que s\u00f3 Deus lhe pode comunicar, tendo-o criado \u00e1 sua imagem e semelhan\u00e7a. S\u00e3o certamente \u00fateis e necess\u00e1rios os bens materiais \u2013 no fim de contas o pr\u00f3prio Jesus se preocupou com a cura dos doentes, em matar a fome das multid\u00f5es que o seguiam e certamente condena a indiferen\u00e7a que tamb\u00e9m hoje condena centenas de milh\u00f5es de seres humanos \u00e1 morte por falta de alimentos, de \u00e1gua e de medicamentos &#8211; , mas a justi\u00e7a distributiva n\u00e3o restitui ao ser humano todo o \u201csuo\u201d que lhe \u00e9 devido. Como e mais do que o p\u00e3o ele de fato precisa de Deus. Nora Santo Agostinho: se \u201c a justi\u00e7a \u00e9 a virtude que distribui a cada um o que \u00e9 seu\u2026n\u00e3o \u00e9 justi\u00e7a do homem aquela que subtrai o homem ao verdadeiro Deus\u201d (De civitate Dei, XIX, 21).<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\"><strong>De onde vem a injusti\u00e7a?<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">O evangelista Marcos refere as seguintes palavras de Jesus, que se inserem no debate de ent\u00e3o acerca do que \u00e9 puro e impuro: \u201cNada h\u00e1 fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso \u00e9 que o torna impuro. Porque \u00e9 do interior do cora\u00e7\u00e3o dos homens, que saem os maus pensamentos\u201d (Mc 7,14-15.20-21). Para al\u00e9m da quest\u00e3o imediata relativo ao alimento, podemos entrever nas rea\u00e7\u00f5es dos fariseus uma tenta\u00e7\u00e3o permanente do homem: individuar a origem do mal numa causa exterior. Muitas das ideologias modernas, a bem ver, t\u00eam este pressuposto: visto que a injusti\u00e7a vem \u201cde fora\u201d, para que reine a justi\u00e7a \u00e9 suficiente remover as causas externas que impedem a sua atua\u00e7\u00e3o: Esta maneira de pensar &#8211; admoesta Jesus \u2013 \u00e9 ing\u00eanua e m\u00edope. A injusti\u00e7a, fruto do mal, n\u00e3o tem ra\u00edzes exclusivamente externas; tem origem no cora\u00e7\u00e3o do homem, onde se encontram os germes de uma misteriosa coniv\u00eancia com o mal. Reconhece-o com amargura o Salmista: \u201dEis que eu nasci na culpa, e a minha m\u00e3e concebeu-se no pecado\u201d (Sl. 51,7). Sim, o homem torna-se fr\u00e1gil por um impulso profundo, que o mortifica na capacidade de entrar em comunh\u00e3o com o outro. Aberto por natureza ao fluxo livre da partilha adverte dentro de si uma for\u00e7a de gravidade estranha que o leva a dobrar-se sobre si mesmo, a afirmar-se acima e contra os outros: \u00e9 o ego\u00edsmo, consequ\u00eancia do pecado original. Ad\u00e3o e Eva, seduzidos pela mentira de Satan\u00e1s, pegando no fruto misterioso contra a vontade divina, substitu\u00edram \u00e1 l\u00f3gica de confiar no Amor aquela da suspeita e da competi\u00e7\u00e3o; \u00e1 l\u00f3gica do receber, da espera confiante do Outro, aquela ansiosa do agarrar, do fazer sozinho (cfr Gn 3,1-6) experimentando como resultado uma sensa\u00e7\u00e3o de inquieta\u00e7\u00e3o e de incerteza.<\/p>\n<p>Como pode o homem libertar-se deste impulso ego\u00edsta e abrir-se ao amor?<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\"><strong>Justi\u00e7a e Sedaqah<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">No cora\u00e7\u00e3o da sabedoria de Israel encontramos um la\u00e7o profundo entre f\u00e9 em Deus que \u201clevanta do p\u00f3 o indigente (Sl. 113,7) e justi\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo. A pr\u00f3pria palavra com a qual em hebraico se indica a virtude da justi\u00e7a, sedaqah, exprime-o bem. De fato sedaqah significa, dum lado a aceita\u00e7\u00e3o plena da vontade do Deus de Israel; do outro, equidade em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo (cfr Ex 29,12-17), de maneira especial ao pobre, ao estrangeiro, ao \u00f3rf\u00e3o e \u00e1 vi\u00fava (cfr Dt 10,18-19). Mas os dois significados est\u00e3o ligados, porque o dar ao pobre, para o israelita nada mais \u00e9 sen\u00e3o a retribui\u00e7\u00e3o que se deve a Deus, que teve piedade da mis\u00e9ria do seu povo. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o dom das t\u00e1buas da Lei a Mois\u00e9s, no monte Sinai, se verifica depois da passagem do Mar Vermelho. Isto \u00e9, a escuta da Lei , pressup\u00f5e a f\u00e9 no Deus que foi o primeiro a ouvir o lamento do seu povo e desceu para o libertar do poder do Egito (cfr Ex s,8). Deus est\u00e1 atento ao grito do pobre e em resposta pede para ser ouvido: pede justi\u00e7a para o pobre (cfr.Ecli 4,4-5.8-9), o estrangeiro (cfr Ex 22,20), o escravo (cfr Dt 15,12-18). Para entrar na justi\u00e7a \u00e9 portanto necess\u00e1rio sair daquela ilus\u00e3o de auto \u2013 sufici\u00eancia , daquele estado profundo de fecho, que \u00e1 a pr\u00f3pria origem da injusti\u00e7a. Por outras palavras, \u00e9 necess\u00e1rio um \u201c\u00eaxodo\u201d mais profundo do que aquele que Deus efetuou com Mois\u00e9s, uma liberta\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, que a palavra da Lei, sozinha, \u00e9 impotente a realizar. Existe portanto para o homem esperan\u00e7a de justi\u00e7a?<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\"><strong>Cristo, justi\u00e7a de Deus<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\">O anuncio crist\u00e3o responde positivamente \u00e1 sede de justi\u00e7a do homem, como afirma o ap\u00f3stolo Paulo na Carta aos Romanos: \u201cMas agora, \u00e9 sem a lei que est\u00e1 manifestada a justi\u00e7a de Deus\u2026 mediante a f\u00e9 em Jesus Cristo, para todos os crentes. De fato n\u00e3o h\u00e1 distin\u00e7\u00e3o, porque todos pecaram e est\u00e3o privados da gl\u00f3ria de Deus, sendo justificados gratuitamente pela Sua gra\u00e7a, por meio da reden\u00e7\u00e3o que se realiza em Jesus Cristo, que Deus apresentou como vitima de propicia\u00e7\u00e3o pelo Seu pr\u00f3prio sangue, mediante a f\u00e9\u201d (3,21-25). Qual \u00e9, portanto a justi\u00e7a de Cristo? \u00c9 antes de mais a justi\u00e7a que vem da gra\u00e7a, onde n\u00e3o \u00e9 o homem que repara, que cura si mesmo e os outros. O fato de que a \u201cexpia\u00e7\u00e3o\u201d se verifique no \u201csangue\u201d de Jesus significa que n\u00e3o s\u00e3o os sacrif\u00edcios do homem a libert\u00e1-lo do peso das suas culpas, mas o gesto do amor de Deus que se abre at\u00e9 ao extremo, at\u00e9 fazer passar em si \u201c a maldi\u00e7\u00e3o\u201d que toca ao homem, para lhe transmitir em troca a \u201cb\u00ean\u00e7\u00e3o\u201d que toca a Deus (cfr Gal 3,13-14). Mas isto levanta imediatamente uma obje\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Que justi\u00e7a existe l\u00e1 onde o justo morre pelo culpado e o culpado recebe em troca a b\u00ean\u00e7\u00e3o que toca ao justo? Desta maneira cada um n\u00e3o recebe o contr\u00e1rio do que \u00e9 \u201cseu\u201d? Na realidade, aqui manifesta-se a justi\u00e7a divina, profundamente diferente da justi\u00e7a humana. Deus pagou por n\u00f3s no seu Filho o pre\u00e7o do resgate, um pre\u00e7o verdadeiramente exorbitante. Perante a justi\u00e7a da Cruz o homem pode revoltar-se, porque ele p\u00f5e em evidencia que o homem n\u00e3o \u00e9 um ser aut\u00e1rquico , mas precisa de um Outro para ser plenamente si mesmo. Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilus\u00e3o da auto sufici\u00eancia para descobrir e aceitar a pr\u00f3pria indig\u00eancia \u2013 indig\u00eancia dos outros e de Deus, exig\u00eancia do seu perd\u00e3o e da sua amizade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Compreende-se ent\u00e3o como a f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 um fato natural, c\u00f4modo, obvio: \u00e9 necess\u00e1rio humildade para aceitar que se precisa que um Outro me liberte do \u201cmeu\u201d, para me dar gratuitamente o \u201cseu\u201d. Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitencia e da Eucaristia. Gra\u00e7as \u00e1 a\u00e7\u00e3o de Cristo, n\u00f3s podemos entrar na justi\u00e7a \u201c maior\u201d, que \u00e9 aquela do amor ( cfr Rom 13,8-10), a justi\u00e7a de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Precisamente fortalecido por esta experi\u00eancia, o crist\u00e3o \u00e9 levado a contribuir para a forma\u00e7\u00e3o de sociedades justas, onde todos recebem o necess\u00e1rio para viver segundo a pr\u00f3pria dignidade de homem e onde a justi\u00e7a \u00e9 vivificada pelo amor. Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s, a Quaresma culmina no Triduo Pascal, no qual tamb\u00e9m este ano celebraremos a justi\u00e7a divina, que \u00e9 plenitude de caridade, de dom, de salva\u00e7\u00e3o. Que este tempo penitencial seja para cada crist\u00e3o tempo de autentica convers\u00e3o e de conhecimento intenso do mist\u00e9rio de Cristo, que veio para realizar a justi\u00e7a. Com estes sentimentos, a todos concedo de cora\u00e7\u00e3o, a B\u00ean\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica\u201d.<\/p>\n<p><strong>Vaticano, 30 de Outubro de 2009<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Igreja inicia, nesta quarta-feira de cinzas, o tempo da Quaresma, per\u00edodo em que os crist\u00e3os se preparam para a celebra\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa. Todos os anos o papa publica uma mensagem conclamando os fi\u00e9is a viverem intensamente este tempo que \u00e9 caracterizado como momento de penit\u00eancia e convers\u00e3o. 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