{"id":28231,"date":"2011-12-26T00:00:00","date_gmt":"2011-12-26T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/mensagem-de-paz-do-papa-3\/"},"modified":"2011-12-26T00:00:00","modified_gmt":"2011-12-26T02:00:00","slug":"mensagem-de-paz-do-papa-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/mensagem-de-paz-do-papa-3\/","title":{"rendered":"Mensagem de paz do Papa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">No dia 1\u00ba de janeiro, o Papa Bento XVI, dirige ao mundo uma mensagem pela Jornada Mundial da Paz. A publica\u00e7\u00e3o desta mensagem, no entanto, \u00e9 realizada no dia da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, dia 8 de dezembro.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Leia a mensagem:<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">MENSAGEM DE SUA SANTIDADE<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">BENTO XVI<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">PARA A CELEBRA\u00c7\u00c3O DO<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">XLV DIA MUNDIAL DA PAZ<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">1 DE JANEIRO DE 2012<\/p>\n<div style=\"text-align: center\"><strong>EDUCAR OS JOVENS PARA A JUSTI\u00c7A E A PAZ <\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: center\"><strong><br \/><\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">1. O IN\u00cdCIO DE UM NOVO ANO, dom de Deus \u00e0 humanidade, induz-me a desejar a todos, com grande confian\u00e7a e estima, de modo especial que este tempo, que se abre diante de n\u00f3s, fique marcado concretamente pela justi\u00e7a e a paz.\u00a0Com qual atitude devemos olhar para o novo ano? No salmo 130, encontramos uma imagem muito bela. O salmista diz que o homem de f\u00e9 aguarda pelo Senhor \u00ab mais do que a sentinela pela aurora \u00bb (v. 6), aguarda por Ele com firme esperan\u00e7a, porque sabe que trar\u00e1 luz, miseric\u00f3rdia, salva\u00e7\u00e3o. Esta expectativa nasce da experi\u00eancia do povo eleito, que reconhece ter sido educado por Deus a olhar o mundo na sua verdade sem se deixar abater pelas tribula\u00e7\u00f5es. Convido-vos a olhar o ano de 2012 com esta atitude confiante. \u00c9 verdade que, no ano que termina, cresceu o sentido de frustra\u00e7\u00e3o por causa da crise que aflige a sociedade, o mundo do trabalho e a economia; uma crise cujas ra\u00edzes s\u00e3o primariamente culturais e antropol\u00f3gicas. Quase parece que um manto de escurid\u00e3o teria descido sobre o nosso tempo, impedindo de ver com clareza a luz do dia.\u00a0Mas, nesta escurid\u00e3o, o cora\u00e7\u00e3o do homem n\u00e3o cessa de aguardar pela aurora de que fala o salmista. Esta expectativa mostra-se particularmente viva e vis\u00edvel nos jovens; e \u00e9 por isso que o meu pensamento se volta para eles, considerando o contributo que podem e devem oferecer \u00e0 sociedade. Queria, pois, revestir a Mensagem para o XLV Dia Mundial da Paz duma perspectiva educativa: \u00ab Educar os jovens para a justi\u00e7a e a paz \u00bb, convencido de que eles podem, com o seu entusiasmo e idealismo, oferecer uma nova esperan\u00e7a ao mundo.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">A minha Mensagem dirige-se tamb\u00e9m aos pais, \u00e0s fam\u00edlias, a todas as componentes educativas, formadoras, bem como aos respons\u00e1veis nos diversos \u00e2mbitos da vida religiosa, social, pol\u00edtica, econ\u00f3mica, cultural e medi\u00e1tica. Prestar aten\u00e7\u00e3o ao mundo juvenil, saber escut\u00e1-lo e valoriz\u00e1-lo para a constru\u00e7\u00e3o dum futuro de justi\u00e7a e de paz n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma oportunidade mas um dever prim\u00e1rio de toda a sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Trata-se de comunicar aos jovens o apre\u00e7o pelo valor positivo da vida, suscitando neles o desejo de consum\u00e1-la ao servi\u00e7o do Bem. Esta \u00e9 uma tarefa, na qual todos n\u00f3s estamos, pessoalmente, comprometidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As preocupa\u00e7\u00f5es manifestadas por muitos jovens nestes \u00faltimos tempos, em v\u00e1rias regi\u00f5es do mundo, exprimem o desejo de poder olhar para o futuro com fundada esperan\u00e7a. Na hora actual, muitos s\u00e3o os aspectos que os trazem apreensivos: o desejo de receber uma forma\u00e7\u00e3o que os prepare de maneira mais profunda para enfrentar a realidade, a dificuldade de formar uma fam\u00edlia e encontrar um emprego est\u00e1vel, a capacidade efectiva de intervir no mundo da pol\u00edtica, da cultura e da economia contribuindo para a constru\u00e7\u00e3o duma sociedade de rosto mais humano e solid\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 importante que estes fermentos e o idealismo que encerram encontrem a devida aten\u00e7\u00e3o em todas\u00a0 as componentes da sociedade. A Igreja olha para os jovens com esperan\u00e7a, tem confian\u00e7a neles e encoraja-os a procurarem a verdade, a defenderem o bem comum, a possu\u00edrem perspectivas abertas sobre o mundo e olhos capazes de ver \u00ab coisas novas \u00bb (Is 42, 9; 48, 6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Os respons\u00e1veis da educa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">2. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a aventura mais fascinante e dif\u00edcil da vida. Educar \u2013 na sua etimologia latina educere \u2013 significa conduzir para fora de si mesmo ao encontro da realidade, rumo a uma plenitude que faz crescer a pessoa. Este processo alimenta-se do encontro de duas liberdades: a do adulto e a do jovem. Isto exige a responsabilidade do disc\u00edpulo, que deve estar dispon\u00edvel para se deixar guiar no conhecimento da realidade, e a do educador, que deve estar disposto a dar-se a si mesmo. Mas, para isso, n\u00e3o bastam meros dispensadores de regras e informa\u00e7\u00f5es; s\u00e3o necess\u00e1rias testemunhas aut\u00eanticas, ou seja, testemunhas que saibam ver mais longe do que os outros, porque a sua vida abra\u00e7a espa\u00e7os mais amplos. A testemunha \u00e9 algu\u00e9m que vive, primeiro, o caminho que prop\u00f5e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E quais s\u00e3o os lugares onde amadurece uma verdadeira educa\u00e7\u00e3o para a paz e a justi\u00e7a? Antes de mais nada, a fam\u00edlia, j\u00e1 que os pais s\u00e3o os primeiros educadores. A fam\u00edlia \u00e9 c\u00e9lula origin\u00e1ria da sociedade. \u00ab \u00c9 na fam\u00edlia que os filhos aprendem os valores humanos e crist\u00e3os que permitem uma conviv\u00eancia construtiva e pac\u00edfica. \u00c9 na fam\u00edlia que aprendem a solidariedade entre as gera\u00e7\u00f5es, o respeito pelas regras, o perd\u00e3o e o acolhimento do outro \u00bb.[1] Esta \u00e9 a primeira escola, onde se educa para a justi\u00e7a e a paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vivemos num mundo em que a fam\u00edlia e at\u00e9 a pr\u00f3pria vida se v\u00eaem constantemente amea\u00e7adas e, n\u00e3o raro, destro\u00e7adas. Condi\u00e7\u00f5es de trabalho frequentemente pouco compat\u00edveis com as responsabilidades familiares, preocupa\u00e7\u00f5es com o futuro, ritmos fren\u00e9ticos de vida, emigra\u00e7\u00e3o \u00e0 procura dum adequado sustentamento se n\u00e3o mesmo da pura sobreviv\u00eancia, acabam por tornar dif\u00edcil a possibilidade de assegurar aos filhos um dos bens mais preciosos: a presen\u00e7a dos pais; uma presen\u00e7a, que permita compartilhar de forma cada vez mais profunda o caminho para se poder transmitir a experi\u00eancia e as certezas adquiridas com os anos \u2013 o que s\u00f3 se torna vi\u00e1vel com o tempo passado juntos. Queria aqui dizer aos pais para n\u00e3o desanimarem! Com o exemplo da sua vida, induzam os filhos a colocar a esperan\u00e7a antes de tudo em Deus, o \u00fanico de quem surgem justi\u00e7a e paz aut\u00eanticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quero dirigir-me tamb\u00e9m aos respons\u00e1veis das institui\u00e7\u00f5es com tarefas educativas: Velem, com grande sentido de responsabilidade, por que seja respeitada e valorizada em todas as circunst\u00e2ncias a dignidade de cada pessoa. Tenham a peito que cada jovem possa descobrir a sua pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o, acompanhando-o para fazer frutificar os dons que o Senhor lhe concedeu. Assegurem \u00e0s fam\u00edlias que os seus filhos n\u00e3o ter\u00e3o um caminho formativo em contraste com a sua consci\u00eancia e os seus princ\u00edpios religiosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Possa cada ambiente educativo ser lugar de abertura ao transcendente e aos outros; lugar de di\u00e1logo, coes\u00e3o e escuta, onde o jovem se sinta valorizado nas suas capacidades e riquezas interiores e aprenda a apreciar os irm\u00e3os. Possa ensinar a saborear a alegria que deriva de viver dia ap\u00f3s dia a caridade e a compaix\u00e3o para com o pr\u00f3ximo e de participar activamente na constru\u00e7\u00e3o duma sociedade mais humana e fraterna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Dirijo-me, depois, aos respons\u00e1veis pol\u00edticos, pedindo-lhes que ajudem concretamente as fam\u00edlias e as institui\u00e7\u00f5es educativas a exercerem o seu direito-dever de educar. N\u00e3o deve jamais faltar um adequado apoio \u00e0 maternidade e \u00e0 paternidade. Actuem de modo que a ningu\u00e9m seja negado o acesso \u00e0 instru\u00e7\u00e3o e que as fam\u00edlias possam escolher livremente as estruturas educativas consideradas mais id\u00f3neas para o bem dos seus filhos. Esforcem-se por favorecer a reunifica\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias que est\u00e3o separadas devido \u00e0 necessidade de encontrar meios de subsist\u00eancia. Proporcionem aos jovens uma imagem transparente da pol\u00edtica, como verdadeiro servi\u00e7o para o bem de todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o posso deixar de fazer apelo ainda ao mundo dos media para que prestem a sua contribui\u00e7\u00e3o educativa. Na sociedade actual, os meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa t\u00eam uma fun\u00e7\u00e3o particular: n\u00e3o s\u00f3 informam, mas tamb\u00e9m formam o esp\u00edrito dos seus destinat\u00e1rios e, consequentemente, podem concorrer notavelmente para a educa\u00e7\u00e3o dos jovens. \u00c9 importante ter presente a liga\u00e7\u00e3o estreit\u00edssima que existe entre educa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o: de facto, a educa\u00e7\u00e3o realiza-se por meio da comunica\u00e7\u00e3o, que influi positiva ou negativamente na forma\u00e7\u00e3o da pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tamb\u00e9m os jovens devem ter a coragem de come\u00e7ar, eles mesmos, a viver aquilo que pedem a quantos os rodeiam. Que tenham a for\u00e7a de fazer um uso bom e consciente da liberdade, pois cabe-lhes em tudo isto uma grande responsabilidade: s\u00e3o respons\u00e1veis pela sua pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o para a justi\u00e7a e a paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Educar para a verdade e a liberdade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">3. Santo Agostinho perguntava-se: \u00ab Quid enim fortius desiderat anima quam veritatem \u2013 que deseja o homem mais intensamente do que a verdade? \u00bb.[2] O rosto humano duma sociedade depende muito da contribui\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o para manter viva esta quest\u00e3o inevit\u00e1vel. De facto, a educa\u00e7\u00e3o diz respeito \u00e0 forma\u00e7\u00e3o integral da pessoa, incluindo a dimens\u00e3o moral e espiritual do seu ser, tendo em vista o seu fim \u00faltimo e o bem da sociedade a que pertence. Por isso, a fim de educar para a verdade, \u00e9 preciso antes de mais nada saber que \u00e9 a pessoa humana, conhecer a sua natureza. Olhando a realidade que o rodeava, o salmista p\u00f4s-se a pensar: \u00ab Quando contemplo os c\u00e9us, obra das vossas m\u00e3os, a lua e as estrelas que V\u00f3s criastes: que \u00e9 o homem para Vos lembrardes dele, o filho do homem para com ele Vos preocupardes? \u00bb (Sal 8, 4-5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esta \u00e9 a pergunta fundamental que nos devemos colocar: Que \u00e9 o homem? O homem \u00e9 um ser que traz no cora\u00e7\u00e3o uma sede de infinito, uma sede de verdade \u2013 n\u00e3o uma verdade parcial, mas capaz de explicar o sentido da vida \u2013, porque foi criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus. Assim, o facto de reconhecer com gratid\u00e3o a vida como dom inestim\u00e1vel leva a descobrir a dignidade profunda e a inviolabilidade pr\u00f3pria de cada pessoa. Por isso, a primeira educa\u00e7\u00e3o consiste em aprender a reconhecer no homem a imagem do Criador e, consequentemente, a ter um profundo respeito por cada ser humano e ajudar os outros a realizarem uma vida conforme a esta sublime dignidade. \u00c9 preciso n\u00e3o esquecer jamais que \u00ab o aut\u00eantico desenvolvimento do homem diz respeito unitariamente \u00e0 totalidade da pessoa em todas as suas dimens\u00f5es \u00bb,[3] incluindo a transcendente, e que n\u00e3o se pode sacrificar a pessoa para alcan\u00e7ar um bem particular, seja ele econ\u00f3mico ou social, individual ou colectivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">S\u00f3 na rela\u00e7\u00e3o com Deus \u00e9 que o homem compreende o significado da sua liberdade, sendo tarefa da educa\u00e7\u00e3o formar para a liberdade aut\u00eantica. Esta n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de v\u00ednculos, nem o imp\u00e9rio do livre arb\u00edtrio; n\u00e3o \u00e9 o absolutismo do eu. Quando o homem se cr\u00ea um ser absoluto, que n\u00e3o depende de nada nem de ningu\u00e9m e pode fazer tudo o que lhe apetece, acaba por contradizer a verdade do seu ser e perder a sua liberdade. De facto, o homem \u00e9 precisamente o contr\u00e1rio: um ser relacional, que vive em rela\u00e7\u00e3o com os outros e sobretudo com Deus. A liberdade aut\u00eantica n\u00e3o pode jamais ser alcan\u00e7ada, afastando-se d\u2019Ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A liberdade \u00e9 um valor precioso, mas delicado: pode ser mal entendida e usada mal. \u00ab Hoje um obst\u00e1culo particularmente insidioso \u00e0 ac\u00e7\u00e3o educativa \u00e9 constitu\u00eddo pela presen\u00e7a maci\u00e7a, na nossa sociedade e cultura, daquele relativismo que, nada reconhecendo como definitivo, deixa como \u00faltima medida somente o pr\u00f3prio eu com os seus desejos e, sob a apar\u00eancia da liberdade, torna-se para cada pessoa uma pris\u00e3o, porque separa uns dos outros, reduzindo cada um a permanecer fechado dentro do pr\u00f3prio \u201ceu\u201d. Dentro de um horizonte relativista como este, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, portanto, uma verdadeira educa\u00e7\u00e3o: sem a luz da verdade, mais cedo ou mais tarde cada pessoa est\u00e1, de facto, condenada a duvidar da bondade da sua pr\u00f3pria vida e das rela\u00e7\u00f5es que a constituem, da validez do seu compromisso para construir com os outros algo em comum \u00bb.[4]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por conseguinte o homem, para exercer a sua liberdade, deve superar o horizonte relativista e conhecer a verdade sobre si pr\u00f3prio e a verdade acerca do que \u00e9 bem e do que \u00e9 mal. No \u00edntimo da consci\u00eancia, o homem descobre uma lei que n\u00e3o se imp\u00f4s a si mesmo, mas \u00e0 qual deve obedecer e cuja voz o chama a amar e fazer o bem e a fugir do mal, a assumir a responsabilidade do bem cumprido e do mal praticado.[5] Por isso o exerc\u00edcio da liberdade est\u00e1 intimamente ligado com a lei moral natural, que tem car\u00e1cter universal, exprime a dignidade de cada pessoa, coloca a base dos seus direitos e deveres fundamentais e, consequentemente, da conviv\u00eancia justa e pac\u00edfica entre as pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Assim o recto uso da liberdade \u00e9 um ponto central na promo\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a e da paz, que exigem a cada um o respeito por si pr\u00f3prio e pelo outro, mesmo possuindo um modo de ser e viver distante do meu. Desta atitude derivam os elementos sem os quais paz e justi\u00e7a permanecem palavras desprovidas de conte\u00fado: a confian\u00e7a rec\u00edproca, a capacidade de encetar um di\u00e1logo construtivo, a possibilidade do perd\u00e3o, que muitas vezes se quereria obter mas sente-se dificuldade em conceder, a caridade m\u00fatua, a compaix\u00e3o para com os mais fr\u00e1geis, e tamb\u00e9m a prontid\u00e3o ao sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Educar para a justi\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">4. No nosso mundo, onde o valor da pessoa, da sua dignidade e dos seus direitos, n\u00e3o obstante as proclama\u00e7\u00f5es de intentos, est\u00e1 seriamente amea\u00e7ado pela tend\u00eancia generalizada de recorrer exclusivamente aos crit\u00e9rios da utilidade, do lucro e do ter, \u00e9 importante n\u00e3o separar das suas ra\u00edzes transcendentes o conceito de justi\u00e7a. De facto, a justi\u00e7a n\u00e3o \u00e9 uma simples conven\u00e7\u00e3o humana, pois o que \u00e9 justo determina-se originariamente n\u00e3o pela lei positiva, mas pela identidade profunda do ser humano. \u00c9 a vis\u00e3o integral do homem que impede de cair numa concep\u00e7\u00e3o contratualista da justi\u00e7a e permite abrir tamb\u00e9m para ela o horizonte da solidariedade e do amor.[6]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o podemos ignorar que certas correntes da cultura moderna, apoiadas em princ\u00edpios econ\u00f3micos racionalistas e individualistas, alienaram das suas ra\u00edzes transcendentes o conceito de justi\u00e7a, separando-o da caridade e da solidariedade. Ora \u00ab a \u201ccidade do homem\u201d n\u00e3o se move apenas por rela\u00e7\u00f5es feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por rela\u00e7\u00f5es de gratuidade, miseric\u00f3rdia e comunh\u00e3o. A caridade manifesta sempre, mesmo nas rela\u00e7\u00f5es humanas, o amor de Deus; d\u00e1 valor teologal e salv\u00edfico a todo o empenho de justi\u00e7a no mundo \u00bb.[7]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00ab Felizes os que t\u00eam fome e sede de justi\u00e7a, porque ser\u00e3o saciados \u00bb (Mt 5, 6). Ser\u00e3o saciados, porque t\u00eam fome e sede de rela\u00e7\u00f5es justas com Deus, consigo mesmo, com os seus irm\u00e3os e irm\u00e3s, com a cria\u00e7\u00e3o inteira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Educar para a paz<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">5. \u00ab A paz n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 aus\u00eancia de guerra, nem se limita a assegurar o equil\u00edbrio das for\u00e7as adversas. A paz n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel na terra sem a salvaguarda dos bens das pessoas, a livre comunica\u00e7\u00e3o entre os seres humanos, o respeito pela dignidade das pessoas e dos povos e a pr\u00e1tica ass\u00eddua da fraternidade \u00bb.[8] A paz \u00e9 fruto da justi\u00e7a e efeito da caridade. \u00c9, antes de mais nada, dom de Deus. N\u00f3s, os crist\u00e3os, acreditamos que a nossa verdadeira paz \u00e9 Cristo: n\u2019Ele, na sua Cruz, Deus reconciliou consigo o mundo e destruiu as barreiras que nos separavam uns dos outros (cf. Ef 2, 14-18); n\u2019Ele, h\u00e1 uma \u00fanica fam\u00edlia reconciliada no amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A paz, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 apenas dom a ser recebido, mas obra a ser constru\u00edda. Para sermos verdadeiramente art\u00edfices de paz, devemos educar-nos para a compaix\u00e3o, a solidariedade, a colabora\u00e7\u00e3o, a fraternidade, ser activos dentro da comunidade e sol\u00edcitos em despertar as consci\u00eancias para as quest\u00f5es nacionais e internacionais e para a import\u00e2ncia de procurar adequadas modalidades de redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza, de promo\u00e7\u00e3o do crescimento, de coopera\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento e de resolu\u00e7\u00e3o dos conflitos. \u00ab Felizes os pacificadores, porque ser\u00e3o chamados filhos de Deus \u00bb \u2013 diz Jesus no serm\u00e3o da montanha (Mt 5, 9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A paz para todos nasce da justi\u00e7a de cada um, e ningu\u00e9m pode subtrair-se a este compromisso essencial de promover a justi\u00e7a segundo as respectivas compet\u00eancias e responsabilidades. De forma particular convido os jovens, que conservam viva a tens\u00e3o pelos ideais, a procurarem com paci\u00eancia e tenacidade a justi\u00e7a e a paz e a cultivarem o gosto pelo que \u00e9 justo e verdadeiro, mesmo quando isso lhes possa exigir sacrif\u00edcios e obrigue a caminhar contracorrente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Levantar os olhos para Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">6. Perante o \u00e1rduo desafio de percorrer os caminhos da justi\u00e7a e da paz, podemos ser tentados a interrogar-nos como o salmista: \u00ab Levanto os olhos para os montes, de onde me vir\u00e1 o aux\u00edlio? \u00bb (Sal 121, 1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A todos, particularmente aos jovens, quero bradar: \u00ab N\u00e3o s\u00e3o as ideologias que salvam o mundo, mas unicamente o voltar-se para o Deus vivo, que \u00e9 o nosso criador, o garante da nossa liberdade, o garante do que \u00e9 deveras bom e verdadeiro (\u2026), o voltar-se sem reservas para Deus, que \u00e9 a medida do que \u00e9 justo e, ao mesmo tempo, \u00e9 o amor eterno. E que mais nos poderia salvar sen\u00e3o o amor? \u00bb.[9] O amor rejubila com a verdade, \u00e9 a for\u00e7a que torna capaz de comprometer-se pela verdade, pela justi\u00e7a, pela paz, porque tudo desculpa, tudo cr\u00ea, tudo espera, tudo suporta (cf. 1 Cor 13, 1-13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Queridos jovens, v\u00f3s sois um dom precioso para a sociedade. Diante das dificuldades, n\u00e3o vos deixeis invadir pelo des\u00e2nimo nem vos abandoneis a falsas solu\u00e7\u00f5es, que frequentemente se apresentam como o caminho mais f\u00e1cil para superar os problemas. N\u00e3o tenhais medo de vos empenhar, de enfrentar a fadiga e o sacrif\u00edcio, de optar por caminhos que requerem fidelidade e const\u00e2ncia, humildade e dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vivei com confian\u00e7a a vossa juventude e os anseios profundos que sentis de felicidade, verdade, beleza e amor verdadeiro. Vivei intensamente esta fase da vida, t\u00e3o rica e cheia de entusiasmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sabei que v\u00f3s mesmos servis de exemplo e est\u00edmulo para os adultos, e tanto mais o sereis quanto mais vos esfor\u00e7ardes por superar as injusti\u00e7as e a corrup\u00e7\u00e3o, quanto mais desejardes um futuro melhor e vos comprometerdes a constru\u00ed-lo. Cientes das vossas potencialidades, nunca vos fecheis em v\u00f3s pr\u00f3prios, mas trabalhai por um futuro mais luminoso para todos. Nunca vos sintais sozinhos! A Igreja confia em v\u00f3s, acompanha-vos, encoraja-vos e deseja oferecer-vos o que tem de mais precioso: a possibilidade de levantar os olhos para Deus, de encontrar Jesus Cristo \u2013 Ele que \u00e9 a justi\u00e7a e a paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Oh v\u00f3s todos, homens e mulheres, que tendes a peito a causa da paz! Esta n\u00e3o \u00e9 um bem j\u00e1 alcan\u00e7ado mas uma meta, \u00e0 qual todos e cada um deve aspirar. Olhemos, pois, o futuro com maior esperan\u00e7a, encorajemo-nos mutuamente ao longo do nosso caminho, trabalhemos para dar ao nosso mundo um rosto mais humano e fraterno e sintamo-nos unidos na responsabilidade que temos para com as jovens gera\u00e7\u00f5es, presentes e futuras, nomeadamente quanto \u00e0 sua educa\u00e7\u00e3o para se tornarem pac\u00edficas e pacificadoras! Apoiado em tal certeza, envio-vos estas refl ex\u00f5es que se fazem apelo: Unamos as nossas for\u00e7as espirituais, morais e materiais, a fim de \u00ab educar os jovens para a justi\u00e7a e a paz \u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vaticano, 8 de Dezembro de 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">BENEDICTUS PP XVI<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 1\u00ba de janeiro, o Papa Bento XVI, dirige ao mundo uma mensagem pela Jornada Mundial da Paz. A publica\u00e7\u00e3o desta mensagem, no entanto, \u00e9 realizada no dia da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, dia 8 de dezembro.<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":26827,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[784],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/28231"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=28231"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/28231\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media\/26827"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=28231"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=28231"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=28231"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}