{"id":28493,"date":"2013-09-12T00:00:00","date_gmt":"2013-09-12T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/papa-envia-carta-em-resposta-ao-jornal-la-reppublica-2\/"},"modified":"2013-09-12T00:00:00","modified_gmt":"2013-09-12T03:00:00","slug":"papa-envia-carta-em-resposta-ao-jornal-la-reppublica-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/papa-envia-carta-em-resposta-ao-jornal-la-reppublica-2\/","title":{"rendered":"Papa envia carta em resposta ao jornal La Reppublica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Segue, na \u00edntegra, a carta do papa Francisco, publicada no jornal<em> La Reppublica<\/em>, no dia 11 de setembro, em resposta a dois editoriais (7 de julho e 7 de agosto) do jornalista fundador do jornal italiano, Eugenio Scalfari, sobre quest\u00f5es relacionadas \u00e0 f\u00e9 e \u00e0 vida crist\u00e3, tendo como refer\u00eancia a Enc\u00edclica<em> Lumen Fidei<\/em> .<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>Carta do papa Francisco em resposta ao jornal La Reppublica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vaticano, 4 de setembro de 2013<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Car\u00edssimo Dr. Scalfari, \u00e9 com viva cordialidade que, ainda que em linhas gerais, gostaria de responder, com esta minha carta, \u00e0 que o Sr., pelas p\u00e1ginas [do jornal] Rep\u00fablica, escreveu-me, dia 07 de julho, com uma s\u00e9rie de reflex\u00f5es pessoais, que posteriormente aprofundou, no mesmo jornal, dia 07 de agosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Agrade\u00e7o-lhe, antes de tudo, pela aten\u00e7\u00e3o com a qual leu a Enc\u00edclica Lumen fidei. Ela, na inten\u00e7\u00e3o de meu amado Predecessor, Bento XVI, que a concebeu e em grande medida a redigiu, e de quem, com gratid\u00e3o, eu herdei, tem por finalidade n\u00e3o s\u00f3 confirmar na f\u00e9 em Jesus Cristo os que j\u00e1 se reconhecem nessa f\u00e9, mas tamb\u00e9m suscitar um di\u00e1logo sincero e rigoroso com quem, como o Sr., se define \u201cum n\u00e3o crente h\u00e1 muitos anos interessado e fascinado pela prega\u00e7\u00e3o de Jesus de Nazar\u00e9\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Parece-me, portanto, que seja positivo, n\u00e3o s\u00f3 para n\u00f3s pessoalmente, mas tamb\u00e9m para a sociedade em que vivemos, concentrar-nos no di\u00e1logo a respeito de uma realidade importante como \u00e9 a f\u00e9, que se refere \u00e0 prega\u00e7\u00e3o e \u00e0 figura de Jesus. Penso que h\u00e1 duas circunst\u00e2ncias, em particular, que tornam hoje esse di\u00e1logo necess\u00e1rio e precioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ele, afinal, constitui, como \u00e9 sabido, um dos principais objetivos do Conc\u00edlio Vaticano II \u2013 querido por Jo\u00e3o XXIII \u2013 e do minist\u00e9rio dos Papas que, cada um com sua sensibilidade e sua contribui\u00e7\u00e3o, daquela ocasi\u00e3o at\u00e9 hoje caminharam no sulco tra\u00e7ado pelo Conc\u00edlio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A primeira circunst\u00e2ncia \u2013 como se destaca nas p\u00e1ginas iniciais da Enc\u00edclica \u2013 deriva do fato que, ao longo dos s\u00e9culos da modernidade, se tem assistido a um paradoxo: a f\u00e9 crist\u00e3, cuja novidade e incid\u00eancia na vida do homem desde o in\u00edcio se expressou com o s\u00edmbolo da luz, foi considerada como supersti\u00e7\u00e3o obscura, oposta \u00e0 luz da raz\u00e3o. Assim se chegou a um estado de incomunica\u00e7\u00e3o entre a Igreja e a cultura de inspira\u00e7\u00e3o crist\u00e3, por um lado, e a cultura moderna de cunho iluminista, por outro. Chegou, por\u00e9m, o tempo de um di\u00e1logo aberto e sem preconceitos, que reabra as portas de um s\u00e9rio e fecundo encontro. O Vaticano II inaugurou esta esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A segunda circunst\u00e2ncia, para quem procura ser fiel ao dom do seguimento de Jesus \u00e0 luz da f\u00e9, deriva do fato que este di\u00e1logo n\u00e3o \u00e9 um acess\u00f3rio secund\u00e1rio da exist\u00eancia de quem cr\u00ea. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 uma express\u00e3o \u00edntima e indispens\u00e1vel [dessa exist\u00eancia]. Permita-me citar, a prop\u00f3sito, uma afirma\u00e7\u00e3o que considero muito importante da Enc\u00edclica: como a verdade testemunhada pela f\u00e9 \u00e9 a verdade do amor \u2013 ali se sublinha \u2013 \u201c\u00e9 claro que a f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 intransigente, mas cresce na conviv\u00eancia que respeita o outro. Quem cr\u00ea n\u00e3o \u00e9 arrogante; ao contr\u00e1rio, a verdade o faz humilde, sabendo que mais do que n\u00f3s a possuirmos, \u00e9 ela que nos circunda e possui. Longe de enrijecer-nos, a seguran\u00e7aa da f\u00e9 nos p\u00f5e a caminho e torna poss\u00edvel o testemunho e o di\u00e1logo com todos\u201d (n. 34). \u00c9 este o esp\u00edrito que anima as palavras que escrevo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A f\u00e9, para mim, nasce do encontro com Jesus. Um encontro pessoal, que tocou meu cora\u00e7\u00e3o e deu uma nova dire\u00e7\u00e3o e um novo sentido \u00e0 minha exist\u00eancia. Mas, ao mesmo tempo, um encontro tornado poss\u00edvel pela comunidade de f\u00e9 na qual eu vivi e gra\u00e7as \u00e0 qual encontrei o acesso \u00e0 intelig\u00eancia da Sagrada Escritura, \u00e0 vida nova que como fluxo de \u00e1gua jorrando de Jesus atrav\u00e9s dos Sacramentos, \u00e0 fraternidade para com todos e a servi\u00e7o dos pobres, verdadeira imagens do Senhor. Sem a Igreja, &#8211; creia-me \u2013 n\u00e3o teria podido encontrar Jesus, apesar de estar ciente de que este dom imenso que \u00e9 a f\u00e9 est\u00e1 guardado nos vasos da fr\u00e1gil argila de nossa humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 precisamente a partir daqui, desta experi\u00eancia pessoal de f\u00e9 vivida na Igreja, que me sinto \u00e0 vontade para escutar suas quest\u00f5es e para procurar, junto com o Sr., os caminhos ao longo dos quais poderemos, talvez, come\u00e7ar a fazer juntos um percurso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Perdoe-me se n\u00e3o sigo passo a passo a argumenta\u00e7\u00e3o que o Sr. Prop\u00f4s no editorial de 7 de julho. Parece-me mais frutuoso \u2013 ou me \u00e9 mais congenial \u2013 ir, de certo modo, ao cora\u00e7\u00e3o de suas considera\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m n\u00e3o entro na modalidade expositiva seguida pela Enc\u00edclica, na qual o Sr. sente a falta de uma se\u00e7\u00e3o especificamente dedicada \u00e0 experi\u00eancia hist\u00f3rica de Jesus de Nazar\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Observo apenas, para come\u00e7ar, que uma an\u00e1lise desse tipo n\u00e3o \u00e9 secund\u00e1ria. Trata-se, de fato, seguindo a pr\u00f3pria l\u00f3gica que segue o desenvolvimento da Enc\u00edclica, de centrar a aten\u00e7\u00e3o sobre o significado do que Jesus disse e fez, e, assim, em \u00faltima inst\u00e2ncia, sobre o que Jesus foi e \u00e9 por n\u00f3s. De fato, as cartas de Paulo e o Evangelho de Jo\u00e3o, aos quais se faz particular refer\u00eancia na Enc\u00edclica, foram constru\u00eddos sobre o s\u00f3lido fundamento do minist\u00e9rio messi\u00e2nico de Jesus de Nazar\u00e9, cujo cume resolutivo \u00e9 a p\u00e1scoa da morte e da ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 necess\u00e1rio confrontar-se com Jesus, eu diria, na concretude e na dureza do seu acontecimento, assim como \u00e9 narrado sobretudo no mais antigo dos Evangelhos, que \u00e9 o de Marcos. Constata-se, ent\u00e3o, que o \u201cesc\u00e2ndalo\u201d que a palavra e a praxe de Jesus provocam ao seu redor derivam de sua extraordin\u00e1ria \u201cautoridade\u201d: uma palavra atestada desde o Evangelho de Marcos, mas que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de traduzir para o italiano. A palavra grega \u00e9 \u201cexousia\u201d, que literalmente se refere ao que \u201cprov\u00e9m do ser\u201d que se \u00e9. N\u00e3o se trata de algo exterior ou for\u00e7ado, mas que emana de dentro e que se imp\u00f5e por si. Jesus, efetivamente, atinge, surpreene, inova, como ele mesmo diz, a partir de sua rela\u00e7\u00e3o com Deus, a quem chama familiarmente Abb\u00e1, que lhe entrega esta \u201cautoridade\u201d para que ele a exer\u00e7a a favor dos homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Assim Jesus prega \u201ccomo quem tem autoridade\u201d, cura, chama os disc\u00edpulos a segui-lo, perdoa&#8230; todas elas, coisas que no Antigo Testamento s\u00e3o pr\u00f3prias de Deus esomente dele. A pergunta que retorna mais de uma vez no Evangelho de Marcos: \u201cQuem \u00e9 este que&#8230;?\u201d, e que se refere \u00e0 identidade de Jesus, brota da constata\u00e7\u00e3o de uma autoridade diferente da do mundo, uma autoridade cuja finalidade n\u00e3o \u00e9 exercitar um poder sobre os outros, mas servi-lhes, dar-lhes liberdade e plenitude de vida. E isto at\u00e9 o ponto de por em jogo a pr\u00f3pria vida, experimentar a incompreens\u00e3o, a trai\u00e7\u00e3o, a recusa, ser condenado \u00e0 morte, at\u00e9 o estado de abandono na cruz. Mas Jesus permanece fiel a Deus, at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 ent\u00e3o \u2013 como exclama o centuri\u00e3o romano aos p\u00e9s da cruz, no Evangelho de Marcos \u2013 que Jesus se mostra, paradoxalmente, como o Filho de Deus! Filho de um Deus que e amor e que quer, com todo seu ser, que o homem, cada homem, se descubra e viva tamb\u00e9m como seu verdadeiro filho. Este, pela f\u00e9 crist\u00e3, recebe a certeza de que Jesus ressuscitou: n\u00e3o para triunfar sobre os quem lhe refutou, mas para atestar que o amor de Deus \u00e9 mais forte que a morte, o perd\u00e3o de Deus \u00e9 mais forte que todo pecado, e que vale a pena gastar a pr\u00f3pria vida, at\u00e9 o fim, para testemunhar este imenso dom.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A f\u00e9 crist\u00e3 cr\u00ea isto: que Jesus \u00e9 o filho de Deus vindo para dar a sua vida para abrir a todos o caminho do amor. Por isso, tem raz\u00e3o o egr\u00e9gio Dr. Scalfari, quando v\u00ea na encarna\u00e7\u00e3o do Filho de Deus o caminho da salva\u00e7\u00e3o. J\u00e1 Tertuliano escrevia \u201ccaro cardo salutis\u201d, a carne [de Cristo] \u00e9 o cardo da salva\u00e7\u00e3o. Porque a encarna\u00e7\u00e3o \u2013 o fato que o Filho de Deus tenha vindo na nossa carne e tenha condiviso alegrias e dores, vit\u00f3rias e derrotas da nossa exist\u00eancia, at\u00e9 o grito na cruz, vivendo cada coisa no amor e na fidelidade ao Abb\u00e1 \u2013 testemunha o incr\u00edvel amor que Deus tem por cada homem, o valor inestim\u00e1vel que lhe atribui. Cada um de n\u00f3s, por isto, \u00e9 chamado a fazer seu o olhar e a escolha de amor de Jesus, a entrar no seu modo de ser, de pensar e de agir. Esta \u00e9 a f\u00e9, com todas as express\u00f5es que s\u00e3o descritas com precis\u00e3o na Enc\u00edclica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No mesmo editorial de 07 de julho, o Sr. me pergunta ainda como compreender a originalidade da f\u00e9 crist\u00e3 enquanto essa tem seu foco precisamente sobre a encarna\u00e7\u00e3o do Filho de Deus, em rela\u00e7\u00e3o a outros credos que, diferentemente, gravitam em torno da transcend\u00eancia absoluta de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Eu diria que a originalidade est\u00e1 precisamente no fato que a f\u00e9 nos faz participar, em Jesus, da rela\u00e7\u00e3o que Ele tem com Deus que \u00e9 Abb\u00e1 e, a esta luz, no relacionamento que Ele tem com todos os outros homens, inclusive os inimigos, no sinal do amor. Em outros termos, a filia\u00e7\u00e3o de Jesus, como a apresenta a f\u00e9 crist\u00e3, n\u00e3o \u00e9 revelada para marcar uma separa\u00e7\u00e3o insuper\u00e1vel entre Jesus e todos os outros: mas para dizer-nos que, nele, todos somos chamados a ser filhos do \u00fanico Pai e irm\u00e3os entre n\u00f3s. A singularidade de Jesus \u00e9 para a comunica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o para a exclus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Disto segue tamb\u00e9m \u2013 e n\u00e3o \u00e9 pouca coisa \u2013 a distin\u00e7\u00e3o entre a esfera religiosa e a esfera pol\u00edtica que \u00e9 afirmada no \u201cdar a Deus o que \u00e9 de Deus e a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar\u201d, afirmada com clareza por Jesus e sobre a qual, com fadiga, se construiu a hist\u00f3ria do Ocidente. A Igreja, de fato, \u00e9 chamada a semear o fermento e o sal do Evangelho, o amor e a miseric\u00f3rdia de Deus que atingem todos os homens, apontando a meta ultraterrena e definitiva do nosso destino, enquanto \u00e0 sociedade civil e pol\u00edtica toca a \u00e1rdua tarefa de articular e encarnar na justi\u00e7a e na solidariedade, no direito e na paz, uma vida cada vez mais humana. Para quem vive a f\u00e9 crist\u00e3, isto n\u00e3o significa fuga do mundo ou procura de qualquer tipo de hegemonia, mas servi\u00e7o ao homem, ao homem todo e a todos os homens, a partir das periferias da hist\u00f3ria e tendo desperto o sentido da esperan\u00e7a que impulsiona a trabalhar pelo bem apesar de tudo e olhando sempre al\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Senhor me pergunta ainda, na conclus\u00e3o de seu primeiro artigo, o que dizer aos irm\u00e3os judeus a respeito da promessa feita por Deus a eles: esvaziou-se completamente? Este \u00e9 \u2013 acredite-me \u2013 um questionamento que nos interpela radicalmente, como crist\u00e3os, porque, com a ajuda de Deus, sobretudo a partir do Conc\u00edlio Vaticano II, temos redescoberto que o povo judeu \u00e9 ainda, para n\u00f3s, a raiz santa da qual germinou Jesus. Eu tamb\u00e9m, na amizade que cultivei ao longo de todos esses anos com irm\u00e3os judeus, na Argentina, muitas vezes na ora\u00e7\u00e3o interroguei a Deus, de modo particular quando recordava a terr\u00edvel experi\u00eancia da Shoah. O que lhe posso dizer, com o ap\u00f3stolo Paulo, e que nunca se acabou a fidelidade de Deus \u00e0 alian\u00e7a feita com Israel e que, atrav\u00e9s das terr\u00edveis provas destes s\u00e9culos, os judeus conservaram a sua f\u00e9 em Deus. E por isto, nunca seremos suficientemente gratos a eles, como Igreja, mas tamb\u00e9m como humanidade. Esses, perseverando na f\u00e9 no Deus da alian\u00e7a, recordam todos, tamb\u00e9m n\u00f3s crist\u00e3os, o fato que estamos sempre na espera do retorno do Senhor, como peregrinos, e, portanto, devemos estar abertos para ele e nunca apoiar-nos no que j\u00e1 tenhamos atingido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Agora trato das tr\u00eas quest\u00f5es que o Sr. me prop\u00f4s no artigo de 07 de agosto. Me parece que, nas duas primeiras, o que lhe interessa \u00e9 entender o comportamento da Igreja com rela\u00e7\u00e3o aos que n\u00e3o partilham a f\u00e9 em Jesus. Antes de tudo, me pergunta se o Deus dos crist\u00e3os perdoa quem n\u00e3o cr\u00ea e n\u00e3o busca a f\u00e9. Antecipando que \u2013 e \u00e9 o fundamental \u2013 a miseric\u00f3rdia de Deus n\u00e3o tem limites se se volta a ele de cora\u00e7\u00e3o sincero e contrito, a quest\u00e3o para quem n\u00e3o cr\u00ea em Deus est\u00e1 em obedecer \u00e0 pr\u00f3pria consci\u00eancia. O pecado, tamb\u00e9m para quem n\u00e3o tem f\u00e9, existe quando se vai contra a consci\u00eancia. Escutar e obedecer a ela significa, de fato, decidir-se diante do que \u00e9 percebido como bem ou como mal. E sobre essa decis\u00e3o se joga a bondade ou a maldade do nosso agir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em segundo lugar, me pergunta se o pensamento segundo o qual n\u00e3o existe nenhum absoluto e, consequentemente, nenhuma verdade absoluta, mas somente uma s\u00e9rie de verdades relativas e subjetivas, seja um erro ou um pecado. Para come\u00e7ar, eu n\u00e3o falaria, nem mesmo para quem cr\u00ea, de verdade \u201cabsoluta\u201d, no sentido que absoluto \u00e9 o que \u00e9 desligado, o que \u00e9 privado de qualquer rela\u00e7\u00e3o. Ora, a verdade, segundo a f\u00e9 crist\u00e3, \u00e9 o amor de Deus por n\u00f3s em Jesus Cristo. Portanto, a verdade \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o! Tanto \u00e9 verdade, que cada um de n\u00f3s a compreende e a exprime a partir de si: da sua hist\u00f3ria e cultura, da situa\u00e7\u00e3o em que vive, etc. Isto n\u00e3o significa que a verdade seja vari\u00e1vel e subjetiva. Ao contr\u00e1rio. Mas significa que ela se d\u00e1 a n\u00f3s sempre e s\u00f3 como um caminho e uma vida. Jesus n\u00e3o disse \u201cEu sou o caminho, a verdade, a vida\u201d? Em outros termos, a verdade, sendo definitivamente uma com o amor, requer a humildade e a abertura para ser buscada, acolhida e expressa. Portanto, \u00e9 necess\u00e1rio um bom entendimento a respeito dos termos e, talvez, sair da estreiteza de uma contraposi\u00e7\u00e3o&#8230; absoluta, impostar novamente em profundidade a quest\u00e3o. Penso que isto seja absolutamente necess\u00e1rio para entabular o di\u00e1logo sereno e construtivo que eu auspiciava no in\u00edcio desse meu dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na \u00faltima pergunta, o Sr. me pergunta se, com o desaparecimento do homem sobre a terra, desaparecer\u00e1 tamb\u00e9m o pensamento capaz de pensar Deus. Certo, a grandeza do homem est\u00e1 no poder pensar Deus. E no poder viver uma rela\u00e7\u00e3o consciente e respons\u00e1vel com Ele. Mas a rela\u00e7\u00e3o existe entre duas realidades. Deus \u2013 este \u00e9 o meu pensamento e esta \u00e9 minha experi\u00eancia, mas quantos, ontem e hoje, a condividem! \u2013 n\u00e3o \u00e9 uma ideia, ainda que elevad\u00edssima, fruto do pensamento do homem. Deus \u00e9 realidade com \u201cR\u201d mai\u00fasculo. Jesus no-lo revela \u2013 e vive a rela\u00e7\u00e3o com Ele \u2013 como um Pai de bondade e miseric\u00f3rdia infinita. Deus n\u00e3o depende, portanto, do nosso pensamento. De resto, tamb\u00e9m quando viesse a acabar a vida do homem sobre a terra \u2013 e para a f\u00e9 crist\u00e3, em todo caso, este mundo assim como o conhecemos \u00e9 destinado a acabar \u2013, o homem n\u00e3o cessar\u00e1 de existir e, de um modo que n\u00e3o sabemos, tamb\u00e9m com ele o universo criado. A Escritura fala de \u201cnovos c\u00e9us e nova terra\u201d e afirma que, no fim, no onde e no quando que est\u00e3o al\u00e9m de n\u00f3s, mas para os quais, na f\u00e9, tendemos com desejo e esperan\u00e7a, Deus ser\u00e1 \u201ctudo em todos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Egr\u00e9gio Dr. Scalfari, concluo assim estas minhas reflex\u00f5es, suscitadas pelo que o Sr. quis me comunicar e perguntar. Acolha como resposta provis\u00f3ria mas sincera e confiante ao convite que lhe dirigi de fazer um percurso de caminho juntos. A Igreja, creia-me, apesar de todas as lentid\u00f5es, infidelidades, erros e pecados que pode ter cometido e pode ainda cometer nos que a comp\u00f5em, n\u00e3o tem outro sentido e fim a n\u00e3o ser o de viver e testemunhar Jesus: Ele que foi enviado pelo Abb\u00e1 \u201ca levar aos pobres o alegre an\u00fancio, a proclamar aos prisioneiros a liberta\u00e7\u00e3o e aos cegos a vista, e por em liberdade os oprimidos, a proclamar o ano da gra\u00e7a do Senhor\u201d (Lc 4,18-19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com proximidade fraterna,<br \/>Francisco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segue, na \u00edntegra, a carta do papa Francisco, publicada no jornal La Reppublica, no dia 11 de setembro, em resposta a dois editoriais (7 de julho e 7 de agosto) do jornalista fundador do jornal italiano, Eugenio Scalfari, sobre quest\u00f5es relacionadas \u00e0 f\u00e9 e \u00e0 vida crist\u00e3, tendo como refer\u00eancia a Enc\u00edclica Lumen Fidei .<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[784],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/28493"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=28493"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/28493\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=28493"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=28493"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=28493"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}