{"id":28506,"date":"2013-10-09T00:00:00","date_gmt":"2013-10-09T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/do-concilio-vaticano-ii-as-nossas-diretrizes-atuais-2\/"},"modified":"2013-10-09T00:00:00","modified_gmt":"2013-10-09T03:00:00","slug":"do-concilio-vaticano-ii-as-nossas-diretrizes-atuais-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/do-concilio-vaticano-ii-as-nossas-diretrizes-atuais-2\/","title":{"rendered":"Do Conc\u00edlio Vaticano II \u00e0s nossas Diretrizes atuais"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-size: 10pt\"><strong>Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues<\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt\"><strong>Arcebispo de Sorocaba (SP)<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cNos dias 28 e 29 do m\u00eas de junho os presb\u00edteros da Arquidiocese de Sorocaba com um grupo de leigos(as) catequistas se reuniram para aprofundar o significado da segunda urg\u00eancia das Diretrizes Gerais da A\u00e7\u00e3o Evangelizadora da Igreja no Brasil \u2013 DGAE -: \u201cIgreja: casa da inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 vida crist\u00e3\u201d. A Carta Apost\u00f3lica do Papa Bento XVI oferece com precis\u00e3o o motivo por que a Igreja deve recolocar no centro de sua programa\u00e7\u00e3o pastoral a Inicia\u00e7\u00e3o Crist\u00e3, como condi\u00e7\u00e3o \u201csine qua\u201d de uma presen\u00e7a significativa na vida da sociedade de nosso tempo. Assim se exprime o Santo Padre: \u201cSucede n\u00e3o poucas vezes que os crist\u00e3os sintam maior preocupa\u00e7\u00e3o com as consequ\u00eancias sociais, culturais e pol\u00edticas da f\u00e9 do que com a pr\u00f3pria f\u00e9, considerando esta como um pressuposto \u00f3bvio da sua vida di\u00e1ria.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ora um tal pressuposto n\u00e3o s\u00f3 deixou de existir, mas frequentemente acaba at\u00e9 negado. Enquanto, no passado, era poss\u00edvel reconhecer um tecido cultural unit\u00e1rio, amplamente compartilhado no seu apelo aos conte\u00fados da f\u00e9 e aos valores por ela inspirados, hoje parece que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim em grandes sectores da sociedade devido a uma profunda crise de f\u00e9 que atingiu muitas pessoas. (PF 2). A Cristandade, express\u00e3o com a qual se designa o tempo que, desde os in\u00edcios da Idade M\u00e9dia at\u00e9 o s\u00e9c. XX, no ocidente a cultura estava impregnada pelos valores e pelas pr\u00e1ticas religiosas crist\u00e3s, entrou em dissolu\u00e7\u00e3o, emergindo uma cultura secularizada, marcada pelo avan\u00e7o das ci\u00eancias e pelo senso de autonomia do sujeito humano sempre mais cioso de sua liberdade. As reflex\u00f5es que seguem devem nos motivar no empenho de buscar a convers\u00e3o pastoral de nossa Igreja Particular.<\/p>\n<p><strong>O Conc\u00edlio Vaticano II<\/strong><\/p>\n<p>O Conc\u00edlio Vat. II foi um momento de gra\u00e7a para a Igreja quando, respondendo \u00e0 convoca\u00e7\u00e3o do Papa Jo\u00e3o XXIII, os bispos de todo o mundo se colocaram em ora\u00e7\u00e3o e procuraram, \u00e0 luz da f\u00e9, descortinar caminhos para responder aos apelos de um mundo em acelerado processo de mudan\u00e7as sociais e culturais. Na Am\u00e9rica latina os desafios que se colocavam para a Igreja provinham da situa\u00e7\u00e3o de pobreza da maioria da popula\u00e7\u00e3o oprimida pela mis\u00e9ria e pela fome. O Conc\u00edlio nos entregou quatro documentos fundamentais, chamados Constitui\u00e7\u00f5es: a) a \u201cSacrossanctum Concilium\u201d, sobre a Sagrada Liturgia; b) a \u201cDei Verbum\u201d, sobre a Revela\u00e7\u00e3o Divina: c) a \u201cLumen Gentium\u201d, sobre a Igreja; d) a \u201cGaudium et Spes\u201d, sobre a Igreja no mundo atual. O Conc\u00edlio quis ser eminentemente pastoral ocupado em oferecer aos crist\u00e3os as indispens\u00e1veis orienta\u00e7\u00f5es para uma presen\u00e7a evangelizadora no mundo. Para tal retomou, em formula\u00e7\u00e3o nova, os elementos essenciais de nossa f\u00e9 e procurou explicitar, sobretudo atrav\u00e9s dos documentos chamados decretos, os caminhos de renova\u00e7\u00e3o da vida eclesial. Uma avalia\u00e7\u00e3o do impacto de cada documento na vida da Igreja e de seus frutos h\u00e1 de ser feita nesses anos do jubileu do Conc\u00edlio.<\/p>\n<p><strong>Medellin: a luta pela justi\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Nesta reflex\u00e3o quero ressaltar que, na Am\u00e9rica Latina, a recep\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio Vat. II teve decisiva influ\u00eancia na tomada de posi\u00e7\u00e3o da Igreja em rela\u00e7\u00e3o aos graves problemas sociais que afligiam a vida de nosso povo. A Confer\u00eancia de Medellin, produziu uma s\u00e9rie de documentos, procurando aplicar na Am\u00e9rica latina as orienta\u00e7\u00f5es do Conc\u00edlio: I)Justi\u00e7a, Paz, Fam\u00edlia, Demografia, Educa\u00e7\u00e3o, Juventude. II) Pastoral popular, Pastoral de elites, Catequese, Liturgia. III) Movimentos de Leigos, Sacerdotes, Religiosos, Forma\u00e7\u00e3o do Clero, Pobreza da Igreja, Pastoral de Conjunto, Meios de Comunica\u00e7\u00e3o. O Papa Paulo VI se fez presente e, na ocasi\u00e3o, alertou para a tenta\u00e7\u00e3o de recurso \u00e0 viol\u00eancia como forma de promover a justi\u00e7a social bem como \u00e0 vis\u00e0o marxista da sociedade como ferramenta de interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. Os frutos da Confer\u00eancia de Medellin se traduziram em forte acento na op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres com a consequente busca de fazer do evangelho uma for\u00e7a libertadora das opress\u00f5es por eles sofridas. Nesse contexto as Comunidades Eclesiais de Base se multiplicaram e ganharam for\u00e7a dentro da Igreja e da sociedade. A Telogia da Liberta\u00e7\u00e3o se estruturou nesse contexto e se tornou para muitos simplesmente a Teologia. Houve te\u00f3logos que pensaram poder reinterpretar todo o conte\u00fado da revela\u00e7\u00e3o tendo como uma esp\u00e9cie de objeto formal a liberta\u00e7\u00e3o social dos pobres. Tal pretens\u00e3o se serviu posteriormente do enunciado do objetivo geral das Diretrizes Gerais da A\u00e7\u00e3o (Pastoral) Evangelizadora no Brasil onde sempre de novo foi incluida a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres como a luz a iluminar a a\u00e7\u00e3o da Igreja: \u201c\u00e0 luz da op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres\u201d. Na teologia a luz iluminadora da reflex\u00e3o teol\u00f3gica, seu objeto formal \u00e9 o pr\u00f3prio Deus que se revela em Cristo. Rigorosamente a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres n\u00e3o pode ser a luz iluminadora do fazer teol\u00f3gico, embora deva sempre estar presente uma vez que como nos lembrou Jo\u00e3o Paulo II, \u201cse verdadeiramente partimos da contempla\u00e7\u00e3o de Cristo, devemos saber v\u00ea-Lo sobretudo no rosto daqueles com quem Ele mesmo Se quis identificar: \u00ab Porque tive fome e destes-Me de comer, tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e recolhestes-Me; estava nu e destes-Me de vestir; adoeci e visitastes-Me; estive na pris\u00e3o e fostes ter Comigo \u00bb (Mt 25,35-36). Esta p\u00e1gina n\u00e3o \u00e9 um mero convite \u00e0 caridade, mas uma p\u00e1gina de cristologia que projeta um feixe de luz sobre o mist\u00e9rio de Cristo. Nesta p\u00e1gina, n\u00e3o menos do que o faz com a vertente da ortodoxia, a Igreja mede a sua fidelidade de Esposa de Cristo\u201d(NMI 49).<\/p>\n<p>Clodovis Boff percebeu com acuidade o risco de uma teologia que colocasse o pobre como luz do pensar teol\u00f3gico: \u201cn\u00e3o v\u00ea que est\u00e1 a\u00ed confundindo dois sentidos de &#8220;ponto de partida&#8221;: como mero come\u00e7o (material, tem\u00e1tico, cronol\u00f3gico ou ainda pr\u00e1tico) e como princ\u00edpio (formal, hermen\u00eautico, epistemol\u00f3gico ou ainda te\u00f3rico). Ora, &#8220;pobre&#8221; pode ser &#8220;ponto de partida&#8221; como &#8220;come\u00e7o&#8221; (come\u00e7o de conversa), mas n\u00e3o como &#8220;princ\u00edpio&#8221; (crit\u00e9rio determinante)\u201d. Exageros \u00e0 parte, Medellin se constituiu em um momento muito rico de abertura da Igreja, \u00e0s vezes excessivamente clerical, para uma participa\u00e7\u00e3o mais efetiva dos leigos na miss\u00e3o da Igreja, com especial aten\u00e7\u00e3o aos pobres, pensados tamb\u00e9m como sujeito principal das grandes mudan\u00e7as na Igreja e na sociedade. O Conc\u00edlio convocou a Igreja a se colocar a servi\u00e7o do mundo. Na Am\u00e9rica Latina o grande desafio era a justi\u00e7a social. A maioria absoluta de nosso povo era constituida de cat\u00f3licos. Era urgente investir o capital da f\u00e9 crist\u00e3 na transforma\u00e7\u00e3o da sociedade. A situa\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica \u2013 est\u00e1vamos em 1968 \u2013 cobrava da Igreja posi\u00e7\u00f5es firmes contra os regimes de exce\u00e7\u00e3o ent\u00e3o dominantes e uma a\u00e7\u00e3o pastoral que visasse o engajamento pol\u00edtico dos fieis. As CEBs ganharam for\u00e7a e encarnaram o novo jeito da Igreja ser. As pastorais sociais se multiplicaram. A liturgia e a catequese passaram a expressar o novo modelo.<\/p>\n<p><strong>Puebla: Comunh\u00e3o e Participa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O documento de Puebla (ano de 1979), \u201cEvangeliza\u00e7\u00e3o no Presente e no Futuro da Am\u00e9rica latina\u201d, fruto da Terceira Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino- Americano, significou um passo adiante, com as devidas corre\u00e7\u00f5es, na busca de novos caminhos para a evangeliza\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica latina. A Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica de Paulo VI \u201cEvangelii Nuntiandi\u201d(ano de1975) e a palavra de Jo\u00e3o Paulo II na abertura iluminaram os trabalhos da Terceira Confer\u00eancia. Jo\u00e3o Paulo II foi categ\u00f3rico em afirmar a necessidade de anunciar: a) a verdade sobre Jesus Cristo, obscurecida por releituras insuficientes e distorcidas do evangelho; b) a verdade sobre a miss\u00e3o da Igreja; c) a verdade sobre o Homem. Nesse \u00faltimo \u00edtem abordou a tem\u00e1tica da liberta\u00e7\u00e3o, prevenindo sobre posi\u00e7\u00f5es que tendiam a reduzir a liberta\u00e7\u00e3o crist\u00e3 a uma liberta\u00e7\u00e3o puramente temporal, como j\u00e1 havia advertido Paulo VI na Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica sobre a evangeliza\u00e7\u00e3o do mundo contempor\u00e2neo em 1975. O eixo teol\u00f3gico-pastoral que ilumina o documento de Puebla \u00e9 o bin\u00f4mio \u201cComunh\u00e3o e Participa\u00e7\u00e3o\u201d: \u201cDepois da proclama\u00e7\u00e3o de Cristo que nos revela o Pai e nos d\u00e1 seu Esp\u00edrito, chegamos a desco\u00adbrir as ra\u00edzes \u00faltimas de nossa comunh\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o, Revela-nos Cristo que a vida divina, \u00e9 comunh\u00e3o trinit\u00e1ria. Pai, Filho e Esp\u00edrito vivem, em perfeita inter-comunh\u00e3o de amor, o mist\u00e9rio supremo da unidade. Daqui procede todo amor e toda comu\u00adnh\u00e3o, para a grandeza e dignidade da exist\u00eancia humana\u201d (DP 211-219). E ainda: \u201cNa Am\u00e9rica Latina, Deus nos chama para uma vida em Cristo Jesus. Urge anunci\u00e1-la a todos os irm\u00e3os. Esta miss\u00e3o incumbe \u00e0 Igreja evangelizadora: pre\u00adgar a convers\u00e3o, libertar o homem e impulsion\u00e1-lo rumo ao mist\u00e9rio de comunh\u00e3o com a Trindade e comunh\u00e3o com todos os irm\u00e3os, transformando-os em agentes e cooperadores do des\u00edgnio de Deus.\u201d(DP 563). Reafirma-se no documento de Puebla a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres \u00e0 qual se acrescenta uma segunda: a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos jovens. Dentro do horizonte de \u201cComunh\u00e3o e Participa\u00e7\u00e3o\u201d, tendo a Trindade como fonte e modelo, \u00e9 que se desenvolvem as ricas e abrangentes orienta\u00e7\u00f5es pastorais do documento que contribu\u00edram de modo significativo para a evangeliza\u00e7\u00e3o de nosso Continente( Cf. DP 211 a 219). O contexto social e pol\u00edtico da Am\u00e9rica latina, entretanto, estava ainda muito marcado pela luta ideol\u00f3gica que atingia tamb\u00e9m a vida da Igreja, raz\u00e3o pela qual o documento trata da quest\u00e3o das ideologias e procura retomar o ensinamento de Paulo VI a respeito das rela\u00e7\u00f5es entre evangeliza\u00e7\u00e3o e liberta\u00e7\u00e3o, ressaltando a import\u00e2ncia das pequenas comunidades \u2013 CEBs \u2013 e procurando definir-lhes sua identidade eclesial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A doutrina da Seguran\u00e7a Nacional, criticada no documento de Puebla, justificava a continuidade do regime de exce\u00e7\u00e3o com o consequente atentado \u00e0 dignidade da pessoa, exigindo da Igreja tomadas de posi\u00e7\u00e3o en\u00e9rgicas no sentido da defesa dos direitos humanos. A teologia da liberta\u00e7\u00e3o, em pleno vigor, embora n\u00e3o tivesse conseguido ditar os rumos da Confer\u00eancia de Puebla, continuou a exercer forte influ\u00eancia tanto na forma\u00e7\u00e3o de presb\u00edteros como de leigos. As Diretrizes Gerais da A\u00e7\u00e3o Pastoral da Igreja no Brasil, tendo retomado em sua fundamenta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica a profiss\u00e3o de f\u00e9 de Puebla, expressaram, na formula\u00e7\u00e3o do objetivo geral, a finalidade do processo evangelizador assim: \u201cvisando \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa e fraterna, anunciando assim o Reino definitivo\u201d. A preocupa\u00e7\u00e3o com a justi\u00e7a social \u00e9, pois, colocada em primeiro plano e pela sua procura se d\u00e1 testemunho do Reino definitivo que j\u00e1 atua no presente hist\u00f3rico. \u00c9 necess\u00e1rio observar que a formula\u00e7\u00e3o do objetivo geral nunca consegue traduzir toda a riqueza do conjunto do documento, permitindo interpreta\u00e7\u00f5es at\u00e9 mesmo divergentes. O significado de \u201cEVANGELIZAR\u201d, por ex., n\u00e3o aparece de forma suficientemente clara em seu enunciado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O documento de Puebla, \u00e0 luz da \u201cEvangelii Nuntiandi\u201d, \u00e9 de extraordin\u00e1ria riqueza. Ouso afirmar que foi o que melhor traduziu para a Am\u00e9rica latina os prop\u00f3sitos do Conc\u00edlio. Quero, entretanto, destacar a reflex\u00e3o nele desenvolvida sobre \u201cEvangeliza\u00e7\u00e3o e Cultura\u201d assim introduzida: \u201cNova e valiosa contribui\u00e7\u00e3o pastoral da exorta\u00e7\u00e3o Evangelii Nuntiandi est\u00e1 no chamado de Paulo VI a que se enfrente a tarefa da evangeliza\u00e7\u00e3o da cultura e das culturas\u201d (EN 20). Paulo VI havia profetizado: \u201cA ruptura entre o Evangelho e a cultura \u00e9 sem d\u00favida o drama da nossa \u00e9poca, como o foi tamb\u00e9m de outras \u00e9pocas. Assim, importa envidar todos os esfor\u00e7os no sentido de uma generosa evangeliza\u00e7\u00e3o da cultura, ou mais exatamente das culturas. Estas devem ser regeneradas mediante o impacto da Boa Nova. Mas um tal encontro n\u00e3o vir\u00e1 a dar-se se a Boa Nova n\u00e3o for proclamada\u201d. Aqui se abriu um campo novo de reflex\u00e3o que vai desembocar na Confer\u00eancia de Santo Domingo (outubro de 1992). O tempo p\u00f3s-Puebla significou, com os ensinamentos de Jo\u00e3o Paulo II, uma retomada das propostas do Conc\u00edlio Vat. II, onde a pessoa e o mist\u00e9rio de Cristo passam a ocupar o centro do empenho evangelizador da Igreja. A queda do muro de Berlim com o conseq\u00fcente colapso do comunismo ajudou a compreender que a justi\u00e7a e a fraternidade n\u00e3o renovam as estruturas sociais sem passar pela media\u00e7\u00e3o da cultura. E n\u00e3o haver\u00e1 uma cultura verdadeiramente humanizante sem homens novos. Voltamos a Paulo VI que afirmou: \u201cEvangelizar, para a Igreja, \u00e9 levar a Boa Nova a todas as parcelas da humanidade, em qualquer meio e latitude, e pelo seu influxo transform\u00e1-las a partir de dentro e tornar nova a pr\u00f3pria humanidade: &#8220;Eis que fa\u00e7o de novo todas as coisas&#8221;. No entanto n\u00e3o haver\u00e1 humanidade nova, se n\u00e3o houver em primeiro lugar homens novos, pela novidade do batismo e da vida segundo o Evangelho\u201d( EN 18).<\/p>\n<p><strong>Santo Domingo: evangeliza\u00e7\u00e3o da cultura<\/strong><\/p>\n<p>A Confer\u00eancia de Santo Domingo concentra a aten\u00e7\u00e3o em Jesus Cristo e afirma com Jo\u00e3o Paulo II a urg\u00eancia de uma Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o: \u201cNova Evangeliza\u00e7\u00e3o, Promo\u00e7\u00e3o Humana e Cultura Crist\u00e3\u201d. E o an\u00fancio \u00e9 este: \u201cJesus Cristo ontem, hoje e sempre\u201d (Hb 13,8). ( Ano de 1992). O Papa Jo\u00e3o Paulo II insistiu: \u201cA confiss\u00e3o da f\u00e9 \u2013 \u201cJesus Cristo \u00e9 sempre o mesmo: ontem, hoje e sempre\u201d (Hb 13,8) \u2013 que \u00e9 como o pano de fundo do tema desta IV Confer\u00eancia, nos leva a recordar o seguinte vers\u00edculo: \u201cN\u00e3o vos deixeis seduzir pela diversidade de doutrinas estranhas\u201d (Hb 13,9). V\u00f3s, amados Pastores, deveis zelar sobretudo pela f\u00e9 da gente simples que, em caso contr\u00e1rio, se veria desorientada e confundida\u201d(discurso de Jo\u00e3o Paulo II). Ainda: \u201cPor outra parte, os novos tempos exigem que a mensagem crist\u00e3 chegue ao homem de hoje, mediante novos m\u00e9todos de apostolado, e que seja expressada numa linguagem e forma acess\u00edveis ao homem latino-americano, necessitado de Cristo e sedento do Evangelho: como tornar acess\u00edvel, penetrante, v\u00e1lida e profunda a resposta ao homem de hoje, sem alterar ou modificar em nada o conte\u00fado da mensagem evang\u00e9lica? Como chegar ao cora\u00e7\u00e3o da cultura que queremos evangelizar? Como falar de Deus num mundo em que est\u00e1 presente um processo crescente de seculariza\u00e7\u00e3o?\u201d Houve quem visse em Santo Domingo um retrocesso em rela\u00e7\u00e3o a Puebla. N\u00e3o \u00e9 verdade. Houve uma concentra\u00e7\u00e3o no mist\u00e9rio de Cristo e a aguda percep\u00e7\u00e3o de que a insist\u00eancia na transforma\u00e7\u00e3o social estava levando a um descuido com o fundamental da experi\u00eancia crist\u00e3, sem o qual a cultura fica privada da for\u00e7a transformadora do evangelho. Santo Domingo retoma o que h\u00e1 de melhor em Medellin e Puebla e procura libertar a pr\u00e1tica Pastoral da Igreja na Am\u00e9rica latina de uma interpreta\u00e7\u00e3o equivocada do processo evangelizador que fazia da transforma\u00e7\u00e3o social a raz\u00e3o principal da proclama\u00e7\u00e3o do evangelho. Paulo VI j\u00e1 havia advertido sobre tal quest\u00e3o: \u201cN\u00e3o devemos esconder, entretanto, que numerosos crist\u00e3os, generosos e sens\u00edveis perante os problemas dram\u00e1ticos que se apresentam quanto a este ponto da liberta\u00e7\u00e3o, ao quererem atuar o empenho da Igreja no esfor\u00e7o de liberta\u00e7\u00e3o, t\u00eam freq\u00fcentemente a tenta\u00e7\u00e3o de reduzir a sua miss\u00e3o \u00e0s dimens\u00f5es de um projeto simplesmente temporal; os seus objetivos a uma vis\u00e3o antropoc\u00eantrica; a salva\u00e7\u00e3o, de que ela \u00e9 mensageira e sacramento, a um bem-estar material; a sua atividade, a iniciativas de ordem pol\u00edtica ou social esquecendo todas as preocupa\u00e7\u00f5es espirituais e religiosas. No entanto, se fosse assim, a Igreja perderia o seu significado pr\u00f3prio. A sua mensagem de liberta\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o teria originalidade alguma e ficaria prestes a ser monopolizada e manipulada por sistemas ideol\u00f3gicos e por partidos pol\u00edticos\u201d(cf. EN 32-38).Essa observa\u00e7\u00e3o do Santo Padre, n\u00f3s a constatamos sempre que nos surpreendemos querendo resolver os problemas da sociedade, prescindindo da miss\u00e3o primeira da Igreja que \u00e9 o an\u00fancio do querigma e a inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 dos n\u00e9o-convertidos. Retomo a afirma\u00e7\u00e3o de Bento XVI j\u00e1 citada no in\u00edcio dessa reflex\u00e3o: \u201cSucede n\u00e3o poucas vezes que os crist\u00e3os sintam maior preocupa\u00e7\u00e3o com as consequ\u00eancias sociais, culturais e pol\u00edticas da f\u00e9 do que com a pr\u00f3pria f\u00e9, considerando esta como um pressuposto \u00f3bvio da sua vida di\u00e1ria. Ora um tal pressuposto n\u00e3o s\u00f3 deixou de existir, mas frequentemente acaba at\u00e9 negado. Enquanto, no passado, era poss\u00edvel reconhecer um tecido cultural unit\u00e1rio, amplamente compartilhado no seu apelo aos conte\u00fados da f\u00e9 e aos valores por ela inspirados, hoje parece que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim em grandes sectores da sociedade devido a uma profunda crise de f\u00e9 que atingiu muitas pessoas\u201d.(n. 2).<\/p>\n<p><strong>O Pontificado de Jo\u00e3o Paulo II<\/strong><\/p>\n<p>Ao deslocar o foco dos desafios \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o da luta social para a cultura, a Igreja retoma com vigor a urg\u00eancia de anunciar Jesus Cristo. O Pontificado de Jo\u00e3o Paulo II foi fortemente marcado pela pessoa e pelo mist\u00e9rio de Jesus. O Encontro com Cristo e o conseq\u00fcente mergulho na vida trinit\u00e1ria, com suas conseq\u00fc\u00eancias hist\u00f3ricas para a Igreja e para a constru\u00e7\u00e3o da sociedade, foi tema recorrente no ensinamento do Papa Jo\u00e3o Paulo II. Basta percorrer os documentos promulgados durante seu pontificado. Esse foi seu programa assim anunciado na sua primeira enc\u00edclica \u201cRedemptor Hominis\u201d: \u201cEntretanto, se as vias a seguir, para as quais o Conc\u00edlio do nosso s\u00e9culo orientou a Igreja, vias que nos indicou na sua primeira Enc\u00edclica o saudoso Papa Paulo VI, continuarem a ser exatamente as vias que n\u00f3s todos devemos seguir, ent\u00e3o podemos nesta nova fase interrogar-nos: Como? De que maneira ser\u00e1 conveniente prosseguir? O que ser\u00e1 necess\u00e1rio fazer, para que este novo advento da Igreja, conjugado com o j\u00e1 iminente fim do segundo Mil\u00eanio, nos aproxime d&#8217;Aquele que a Sagrada Escritura chama \u00ab Pai perp\u00e9tuo \u00bb, Pater futuri saeculi\u201d? Em seguida: \u201c\u00c9 precisamente aqui neste ponto, car\u00edssimos Irm\u00e3os, Filhos e Filhas, que se imp\u00f5e uma resposta fundamental e essencial, a saber: a \u00fanica orienta\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito, a \u00fanica dire\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia, da vontade e do cora\u00e7\u00e3o para n\u00f3s \u00e9 esta: na dire\u00e7\u00e3o de Cristo, Redentor do homem; na dire\u00e7\u00e3o de Cristo, Redentor do mundo. Para Ele queremos olhar, porque s\u00f3 n&#8217;Ele, Filho de Deus, est\u00e1 a salva\u00e7\u00e3o, renovando a afirma\u00e7\u00e3o de Pedro: \u00ab Para quem iremos n\u00f3s, Senhor? Tu tens as palavras de vida eterna \u00bb.\u201d O grande tema Exorta\u00e7\u00e3o p\u00f3s-sinodal \u201cEcclesia in America\u201d foi: \u201cO Encontro com Jesus Cristo vivo, caminho para a convers\u00e3o, a comunh\u00e3o e a solidariedade na Am\u00e9rica.\u201d A Carta Apost\u00f3lica NMI, 2001, n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o a reafirma\u00e7\u00e3o quase como mensagem final de seu pontificado, de tudo o que significou seu empenho de Pastor universal: a contempla\u00e7\u00e3o do rosto de Cristo para, partindo dele, em processo permanente de santifica\u00e7\u00e3o, testemunhar no novo mil\u00eanio o amor de Deus.<\/p>\n<p><strong>Aparecida e nossas Diretrizes<\/strong><\/p>\n<p>O desafio: fazer disc\u00edpulos<\/p>\n<p>A Confer\u00eancia de Aparecida prop\u00f5e-nos exatamente esse caminho. Fazer disc\u00edpulos mission\u00e1rios. O disc\u00edpulo come\u00e7a, n\u00e3o a partir de uma id\u00e9ia, de uma decis\u00e3o \u00e9tica, da assimila\u00e7\u00e3o de uma doutrina, o disc\u00edpulo nasce e cresce no encontro e na conviv\u00eancia com a pessoa de Jesus (cf. DAp 243 e 244). Quando da proposta da tem\u00e1tica: \u201cFazer disc\u00edpulos e mission\u00e1rios de Cristo para que nossos povos tenham vida\u201d, o Santo Padre, Bento XVI mandou colocar um \u201cNELE\u201d &#8211; Cristo -, pois Ele \u00e9 \u201co caminho, a verdade e a vida\u201d.<br \/>\nVivemos hoje um momento em que temos muitas pastorais destinadas a responder aos problemas sociais e um n\u00famero insuficiente de verdadeiros disc\u00edpulos para assumi-las. A \u201cmudan\u00e7a de \u00e9poca\u201d coloca desafios novos para a Igreja. Donde a necessidade de formar verdadeiros disc\u00edpulos de Jesus. Nesse sentido as atuais Diretrizes da A\u00e7\u00e3o Evangelizadora da Igreja no Brasil indicam para n\u00f3s o caminho para tornar realidade as propostas do documento de Aparecida.<\/p>\n<p><strong>Uma Igreja Mission\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>Uma Igreja em estado permanente de miss\u00e3o, presente e atuante no mundo, pressup\u00f5e que os batizados, a come\u00e7ar pelos ministros ordenados, a exemplo do ap\u00f3stolo Paulo, estejam tomados pelo mist\u00e9rio de Cristo, vivendo-o na ora\u00e7\u00e3o, na fra\u00e7\u00e3o do P\u00e3o e na comunh\u00e3o fraterna, de modo a poderem repetir com o documento de Aparecida: \u201cconhecer Jesus \u00e9 o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; t\u00ea-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e faz\u00ea-lo conhecido com nossa palavra e obras \u00e9 nossa alegria\u201d(n. 29). Por que e para que retomar com vigor a Inicia\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 tendo como paradigma a forma como ela se construiu nos in\u00edcios da vida da Igreja? A resposta vem da pr\u00f3pria realidade eclesial que estamos vivendo. E vem sob a forma de perguntas: onde est\u00e1 a maioria de nossos cat\u00f3licos, batizados em nossa Igreja, muitos dos quais fizeram a primeira comunh\u00e3o, foram crismados e se casaram ou desejam se casar na Igreja? Qual a porcentagem de cat\u00f3licos que participa da missa dominical e da vida de nossas comunidades? Dos que participam da missa aos domingos quantos est\u00e3o engajados em alguma pastoral ou movimento da Igreja? Quantos estariam dispostos a esse engajamento se para tal forem chamados? Qual a influ\u00eancia que exercem na vida da sociedade? Sua presen\u00e7a gera a cultura da vida? Por que, sobretudo entre os pobres, cresce a ades\u00e3o \u00e0s comunidades pentecostais oriundas do protestantismo? E o mundo da pol\u00edtica? N\u00e3o \u00e9 verdade que a maioria de nossos pol\u00edticos foi batizada pela Igreja Cat\u00f3lica? Quantos cat\u00f3licos entraram na pol\u00edtica partid\u00e1ria a partir de sua experi\u00eancia eclesial, ou sob a influ\u00eancia da f\u00e9, e permanecem fieis, dando testemunho do evangelho no exerc\u00edcio de sua fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica? E que dizer da presen\u00e7a cat\u00f3lica nas escolas e nas universidades? Paulo VI na \u201cEvangelii Nuntiandi\u201d j\u00e1 havia levantado perguntas semelhantes: \u201cO que \u00e9 que \u00e9 feito, em nossos dias, daquela energia escondida da Boa Nova, suscet\u00edvel de impressionar profundamente a consci\u00eancia dos homens? At\u00e9 que ponto e como \u00e9 que essa for\u00e7a evang\u00e9lica est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de transformar verdadeiramente o homem deste nosso s\u00e9culo? Quais os m\u00e9todos que h\u00e3o de ser seguidos para proclamar o Evangelho de modo a que a sua pot\u00eancia possa ser eficaz?\u201d(EN n.4). As perguntas poderiam se multiplicar indefinidamente abordando todo o vasto campo da vida da sociedade e de suas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>A inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3<\/strong><\/p>\n<p>As DGAE dizem assim: \u201cEsta \u00e9 a raz\u00e3o pela qual cresce o incentivo \u00e0 inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 vida crist\u00e3, \u2018grande desafio que questiona a fundo a maneira como estamos educando na f\u00e9 e como estamos alimentando a experi\u00eancia crist\u00e3\u2019. Trata-se, portanto, de \u2018desenvolver, em nossas comunidades, um processo de inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 vida crist\u00e3 que conduza a um encontro pessoal, cada vez mais profundo com Jesus Cristo\u2019, atitude que deve ser assumida em todo o continente latino-americano e, portanto, tamb\u00e9m no Brasil. Este \u00e9 um dos mais urgentes sentidos do termo miss\u00e3o em nossos dias. \u00c9 o desafio de anunciar Jesus Cristo, recome\u00e7ando a partir dele, sem \u201cdar nada como pressuposto ou descontado\u201d. \u00c9 preciso ajudar as pessoas a conhecer Jesus Cristo, fascinar-se por Ele e optar por segui-lo\u201d( n.40). Conhecer Jesus Cristo sempre mais, mist\u00e9rio inesgot\u00e1vel de gra\u00e7a e de amor. A constata\u00e7\u00e3o de que muitos cat\u00f3licos receberam os sacramentos da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 sem terem sido iniciados de verdade na viv\u00eancia do evangelho est\u00e1 a pedir um catecumenato p\u00f3s-batismal, ou seja, uma inicia\u00e7\u00e3o existencial \u00e0 vida da Igreja, come\u00e7ando pelo querigma e passando pelo processo de catequese onde os fundamentos da f\u00e9 e a experi\u00eancia do encontro com Cristo na Liturgia se tornem o P\u00e3o de cada dia, conduzindo a uma aut\u00eantica vida de comunidade e de presen\u00e7a no mundo. O documento de Aparecida mudou o foco da a\u00e7\u00e3o evangelizadora: trata-se de anunciar Jesus Cristo para fazer disc\u00edpulos, sem o que n\u00e3o teremos nem incultura\u00e7\u00e3o, nem mais vida, nem transforma\u00e7\u00e3o social rumo ao reino definitivo. As novas Diretrizes da A\u00e7\u00e3o Evangelizadora da Igreja no Brasil s\u00e3o o belo fruto de todo um caminho que vem sendo feito pela Igreja no p\u00f3s-conc\u00edlio. Longe de afastar a Igreja da hist\u00f3ria e do compromisso com os pobres, a evangeliza\u00e7\u00e3o, tal como vem formulada nas atuais diretrizes, aumentar\u00e1 em qualidade e n\u00famero os disc\u00edpulos, verdadeiros mission\u00e1rios no cora\u00e7\u00e3o do mundo. Quanto mais profundamente o fiel mergulha no mist\u00e9rio da comunh\u00e3o eclesial, tanto mais sua presen\u00e7a no mundo \u00e9 fonte de vida para os irm\u00e3os: \u201cA constru\u00e7\u00e3o da cidadania, no sentido mais amplo, e a constru\u00e7\u00e3o de eclesialidade nos leigos, \u00e9 um s\u00f3 e \u00fanico movimento\u201d(DAp 215).<\/p>\n<p><strong>Igreja, comunh\u00e3o mission\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>A Eclesiologia de Comunh\u00e3o \u00e9, no entender de Jo\u00e3o Paulo II, a que melhor traduz os ensinamentos do Vat. II sobre a Igreja. Na Assembl\u00e9ia Extraordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos em 1985, em que foi avaliada a recep\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio, Jo\u00e3o Paulo II ressaltou: \u201cde modo particular neste S\u00ednodo foi examinada a natureza da Igreja, enquanto \u00e9 mist\u00e9rio e comunh\u00e3o, isto \u00e9, koinonia\u201d (n. 6). Em 1988, na Christifideles laici, exorta\u00e7\u00e3o p\u00f3s-sinodal sobre os fieis leigos &#8211; o s\u00ednodo se deu em 1987 -, Jo\u00e3o Paulo II retoma o ensinamento do S\u00ednodo de 1985: \u201cA eclesiologia da comunh\u00e3o \u00e9 a id\u00e9ia central e fundamental nos documentos do Conc\u00edlio: \u201cA Koinonia-comunh\u00e3o, fundada na Sagrada Escritura, \u00e9 tida em grande honra na Igreja antiga e nas Igrejas orientais at\u00e9 aos nossos dias. Por isso, muito se tem feito desde o Conc\u00edlio Vaticano II para que a Igreja como comunh\u00e3o seja entendida de maneira mais clara e traduzida de modo mais concreto na vida. Que significa a complexa palavra \u2018comunh\u00e3o\u2019? Trata-se fundamentalmente de comunh\u00e3o com Deus por Jesus Cristo no Esp\u00edrito Santo\u201d(n. 19).<br \/>\nA Eclesiologia de Comunh\u00e3o implica necessariamente a dimens\u00e3o mission\u00e1ria: \u201cOra, a comunh\u00e3o gera comunh\u00e3o e reveste essencialmente a forma de comunh\u00e3o mission\u00e1ria. Jesus, de fato, diz aos Seus disc\u00edpulos: \u00ab N\u00e3o fostes v\u00f3s que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e vos constitu\u00ed para irdes e dardes fruto e para que o vosso fruto permane\u00e7a \u00bb (Jo 15, 16). A comunh\u00e3o e a miss\u00e3o est\u00e3o profundamente ligadas entre si, compenetram-se e integram-se mutuamente, ao ponto da comunh\u00e3o representar a fonte e, simultaneamente, o fruto da miss\u00e3o: a comunh\u00e3o \u00e9 mission\u00e1ria e a miss\u00e3o \u00e9 para a comunh\u00e3o\u201d(32). O documento de Aparecida assume decididamente essa compreens\u00e3o no seu cap\u00edtulo V, onde descreve \u201ca comunh\u00e3o dos disc\u00edpulos mission\u00e1rios na Igreja\u201d.<\/p>\n<p><strong>O c\u00edrculo virtuoso das urg\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Nossas atuais Diretrizes da A\u00e7\u00e3o Evangelizadora condensam de maneira objetiva aquilo que \u00e9 a miss\u00e3o essencial da Igreja, colocando nas urg\u00eancias os passos do processo evangelizador, que devem ser pensados como formando um c\u00edrculo virtuoso: miss\u00e3o-an\u00fancio, inicia\u00e7\u00e3o (inser\u00e7\u00e3o na comunh\u00e3o eclesial), comunidades concretas (visibiliza\u00e7\u00e3o da comunh\u00e3o) e miss\u00e3o-servi\u00e7o \u00e0 vida plena (testemunho acompanhado do an\u00fancio expl\u00edcito). Tocadas pelo testemunho e pelo an\u00fancio querigm\u00e1tico haver\u00e1 outras pessoas que passar\u00e3o pelo processo de inicia\u00e7\u00e3o, e, inseridas na comunidade, se tornar\u00e3o por sua vez disc\u00edpulas e testemunhas a servi\u00e7o da vida plena. O processo integral \u00e9 alimentado pela Palavra, que deve animar toda a vida da Igreja. Aqui n\u00e3o se trata de prioridades, trata-se da Prioridade, ou seja, da tarefa essencial da Igreja. A urg\u00eancia de implantar esse processo na pr\u00e1tica da Igreja \u00e9, sem d\u00favida, um apelo do Esp\u00edrito. Imaginemos uma Par\u00f3quia em que um grupo de pessoas, j\u00e1 participantes da vida da Igreja, refa\u00e7am a experi\u00eancia do encontro com Cristo pela acolhida do querigma, \u201cfio condutor de um processo que culmina na maturidade do disc\u00edpulo de Cristo\u201d( DAp 278) e que, em raz\u00e3o dessa experi\u00eancia se disponha a formar uma pequena comunidade de vida, que se re\u00fane periodicamente para orar, aprofundar o conhecimento da f\u00e9 e partilhar as experi\u00eancias de vida. Imaginemos os membros dessa comunidade assumindo a tarefa da visita\u00e7\u00e3o mensal em um determinado setor da par\u00f3quia, em esp\u00edrito de solidariedade e com a disposi\u00e7\u00e3o de oportunamente anunciar Jesus. Imaginemos que muitas, ou algumas pessoas, se interessem pela vida crist\u00e3 e se disponham a viver a mesma experi\u00eancia, formando assim uma nova pequena comunidade que fa\u00e7a a experi\u00eancia da comunh\u00e3o eclesial e cujos membros comecem em outro setor da par\u00f3quia a visita\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria. Imaginemos esse processo caminhando lenta e firmemente, superando os inevit\u00e1veis obst\u00e1culos que se colocam no caminho dos oper\u00e1rios do Reino, e, ent\u00e3o poderemos sonhar com a constru\u00e7\u00e3o de uma Igreja de disc\u00edpulos mission\u00e1rios, comunidade de comunidades, a servi\u00e7o da vida plena, para a gl\u00f3ria de Deus e a salva\u00e7\u00e3o do mundo. Esse \u00e9 o caminho proposto pelo documento de Aparecida e pelas nossas Diretrizes da A\u00e7\u00e3o Evangelizadora.<\/p>\n<p><strong>O S\u00ednodo para a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o e o Ano da F\u00e9<\/strong><\/p>\n<p>O S\u00ednodo sobre a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o \u2013 a transmiss\u00e3o da F\u00e9 \u2013 e o Ano da F\u00e9, proclamado pelo \u201cMotu Proprio Porta Fidei\u201d, insistem no mesmo tema. A raz\u00e3o dessa retomada vem assim expressa em texto acima citado e que proponho de novo no final dessas reflex\u00f5es: \u201cSucede n\u00e3o poucas vezes que os crist\u00e3os sintam maior preocupa\u00e7\u00e3o com as consequ\u00eancias sociais, culturais e pol\u00edticas da f\u00e9 do que com a pr\u00f3pria f\u00e9, considerando esta como um pressuposto \u00f3bvio da sua vida di\u00e1ria. Ora um tal pressuposto n\u00e3o s\u00f3 deixou de existir, mas frequentemente acaba at\u00e9 negado. Enquanto, no passado, era poss\u00edvel reconhecer um tecido cultural unit\u00e1rio, amplamente compartilhado no seu apelo aos conte\u00fados da f\u00e9 e aos valores por ela inspirados, hoje parece que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim em grandes sectores da sociedade devido a uma profunda crise de f\u00e9 que atingiu muitas pessoas\u201d(n. 2).<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A Igreja de Sorocaba quer responder ao aos apelos de Deus, por isso ora ao Senhor:<\/p>\n<p>\u201cSenhor Jesus, conhecer-te \u00e9 o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; encontrar-te foi o melhor que aconteceu em nossas vidas; tornar-te conhecido com nossa palavra e obras \u00e9 nossa alegria (DAp 29). Faze, Senhor, que pela a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, a tua Verdade seja nossa Vida e que anunciar-te e te fazer conhecido seja de fato nossa alegria. Nossa Senhora da Ponte, fica conosco e contagia-nos com o amor de teu Filho, para que sejamos tamb\u00e9m comunidade mission\u00e1ria, sinal desse amor para nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s de humanidade, aqui nesse ch\u00e3o de Sorocaba, que nasceu e cresceu sob tua prote\u00e7\u00e3o! Am\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>Observa\u00e7\u00e3o final: a presente reflex\u00e3o foi feita antes da ren\u00fancia de Bento XVI e da elei\u00e7\u00e3o do papa Francisco. Quando de sua elei\u00e7\u00e3o publiquei a seguinte reflex\u00e3o: Temos um Papa Jesu\u00edta &#8211; guerreiro como In\u00e1cio &#8211; com a simplicidade de Francisco de Assis. N\u00e3o era o Papa previsto pelos vaticanistas, mas com certeza sua escolha se deu em clima de ora\u00e7\u00e3o e pelas preces de toda a Igreja. Um papa latino-americano, Argentino, jesu\u00edta, cheio do esp\u00edrito inaciano, mas, ao mesmo tempo, amante da pobreza, caracter\u00edstica de Francisco de Assis. Seu nome Francisco nos faz lembrar tamb\u00e9m o dinamismo mission\u00e1rio de S\u00e3o Francisco Xavier. Carrega no cora\u00e7\u00e3o toda a Am\u00e9rica Latina, e haver\u00e1 de levar para o mundo todo o vigor e a luz dos documentos do CELAM, sobretudo do documento de Aparecida. A Am\u00e9rica Latina est\u00e1 convocada a intensificar seu esp\u00edrito mission\u00e1rio.\u201d \u00c9 cedo para avaliar o pontificado do Papa Francisco. Mas aqui e acol\u00e1 surgem interpreta\u00e7\u00f5es distorcidas sobre a significado dos \u00faltimos papas a partir de Jo\u00e3o XXIII, Alguns chegam a afirmar que o Papa Francisco significa a retomada da proposta de Jo\u00e3o XXIII, considerando os papas intermedi\u00e1rios como infi\u00e9is aos ideais do Conc\u00edlio Vaticano II. Esta \u00e9 uma leitura falaciosa que n\u00e3o honra a f\u00e9 na a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo na caminhada da Igreja. Algu\u00e9m definiu assim os tr\u00eas \u00faltimos pont\u00edfices: Jo\u00e3o Paulo II: \u201c\u00c9 nisso que cremos\u201d; Bento XVI: \u201c\u00c9 por isso que cremos\u201d; Francisco; \u201cAgora vai e vive isso\u201d. \u00c9 uma forma de dizer que cada um dos papas do p\u00f3s-conc\u00edlio deu sua contribui\u00e7\u00e3o para o acerto de nossos passos na evangeliza\u00e7\u00e3o de nosso mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues Arcebispo de Sorocaba (SP) Introdu\u00e7\u00e3o \u201cNos dias 28 e 29 do m\u00eas de junho os presb\u00edteros da Arquidiocese de Sorocaba com um grupo de leigos(as) catequistas se reuniram para aprofundar o significado da segunda urg\u00eancia das Diretrizes Gerais da A\u00e7\u00e3o Evangelizadora da Igreja no Brasil \u2013 DGAE -: \u201cIgreja: &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/do-concilio-vaticano-ii-as-nossas-diretrizes-atuais-2\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Do Conc\u00edlio Vaticano II \u00e0s nossas Diretrizes atuais<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[784],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/28506"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=28506"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/28506\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=28506"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=28506"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=28506"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}