{"id":28530,"date":"2014-01-01T00:00:00","date_gmt":"2014-01-01T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/mensagem-do-papa-francisco-para-o-dia-mundial-da-paz-2\/"},"modified":"2014-01-01T00:00:00","modified_gmt":"2014-01-01T02:00:00","slug":"mensagem-do-papa-francisco-para-o-dia-mundial-da-paz-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/mensagem-do-papa-francisco-para-o-dia-mundial-da-paz-2\/","title":{"rendered":"Mensagem do papa Francisco para o Dia Mundial da Paz"},"content":{"rendered":"<p>Hoje, 1\u00ba de janeiro, celebra-se o Dia Mundial da Paz. Segue, na \u00edntegra, a primeira mensagem do papa Francisco para este dia e que aborda o tema &#8220;Fraternidade, fundamento e caminho para a paz.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>PARA A CELEBRA\u00c7\u00c3O DO XLVII DIA MUNDIAL DA PAZ<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>1\u00ba DE JANEIRO DE 2014<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"text-align: justify\"><strong>FRATERNIDADE, FUNDAMENTO E CAMINHO PARA A PAZ<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"text-align: justify\">1. Nesta minha primeira Mensagem para o Dia Mundial da Paz, desejo formular a todos, indiv\u00edduos e povos, votos duma vida repleta de alegria e esperan\u00e7a. Com efeito, no cora\u00e7\u00e3o de cada homem e mulher, habita o anseio duma vida plena que cont\u00e9m uma aspira\u00e7\u00e3o irreprim\u00edvel de fraternidade, impelindo \u00e0 comunh\u00e3o com os outros, em quem n\u00e3o encontramos inimigos ou concorrentes, mas irm\u00e3os que devemos acolher e abra\u00e7ar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"text-align: justify\">Na realidade, a fraternidade \u00e9 uma dimens\u00e3o essencial do homem, sendo ele um ser relacional. A consci\u00eancia viva desta dimens\u00e3o relacional leva-nos a ver e tratar cada pessoa como uma verdadeira irm\u00e3 e um verdadeiro irm\u00e3o; sem tal consci\u00eancia, torna-se imposs\u00edvel a constru\u00e7\u00e3o duma sociedade justa, duma paz firme e duradoura. E conv\u00e9m desde j\u00e1 lembrar que a fraternidade se come\u00e7a a aprender habitualmente no seio da fam\u00edlia, gra\u00e7as sobretudo \u00e0s fun\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis e complementares de todos os seus membros, mormente do pai e da m\u00e3e. A fam\u00edlia \u00e9 a fonte de toda a fraternidade, sendo por isso mesmo tamb\u00e9m o fundamento e o caminho prim\u00e1rio para a paz, j\u00e1 que, por voca\u00e7\u00e3o, deveria contagiar o mundo com o seu amor.<\/span><\/p>\n<p>O n\u00famero sempre crescente de liga\u00e7\u00f5es e comunica\u00e7\u00f5es que envolvem o nosso planeta torna mais palp\u00e1vel a consci\u00eancia da unidade e partilha dum destino comum entre as na\u00e7\u00f5es da terra. Assim, nos dinamismos da hist\u00f3ria \u2013 independentemente da diversidade das etnias, das sociedades e das culturas \u2013, vemos semeada a voca\u00e7\u00e3o a formar uma comunidade feita de irm\u00e3os que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros. Contudo, ainda hoje, esta voca\u00e7\u00e3o \u00e9 muitas vezes contrastada e negada nos fatos, num mundo caracterizado pela \u00abglobaliza\u00e7\u00e3o da indiferen\u00e7a\u00bb que lentamente nos faz \u00abhabituar\u00bb ao sofrimento alheio, fechando-nos em n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Em muitas partes do mundo, parece n\u00e3o conhecer tr\u00e9guas a grave les\u00e3o dos direitos humanos fundamentais, sobretudo dos direitos \u00e0 vida e \u00e0 liberdade de religi\u00e3o. Exemplo preocupante disso mesmo \u00e9 o dram\u00e1tico fen\u00f4meno do tr\u00e1fico de seres humanos, sobre cuja vida e desespero especulam pessoas sem escr\u00fapulos. \u00c0s guerras feitas de confrontos armados juntam-se guerras menos vis\u00edveis, mas n\u00e3o menos cru\u00e9is, que se combatem nos campos econ\u00f4mico e financeiro com meios igualmente demolidores de vidas, de fam\u00edlias, de empresas.<\/p>\n<p>A globaliza\u00e7\u00e3o, como afirmou Bento XVI, torna-nos vizinhos, mas n\u00e3o nos faz irm\u00e3os.[1] As in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es de desigualdade, pobreza e injusti\u00e7a indicam n\u00e3o s\u00f3 uma profunda car\u00eancia de fraternidade, mas tamb\u00e9m a aus\u00eancia duma cultura de solidariedade. As novas ideologias, caracterizadas por generalizado individualismo, egocentrismo e consumismo materialista, debilitam os la\u00e7os sociais, alimentando aquela mentalidade do \u00abdescart\u00e1vel\u00bb que induz ao desprezo e abandono dos mais fracos, daqueles que s\u00e3o considerados \u00abin\u00fateis\u00bb. Assim, a conviv\u00eancia humana assemelha-se sempre mais a um mero do ut des pragm\u00e1tico e ego\u00edsta.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, resulta claramente que as pr\u00f3prias \u00e9ticas contempor\u00e2neas se mostram incapazes de produzir aut\u00eanticos v\u00ednculos de fraternidade, porque uma fraternidade privada da refer\u00eancia a um Pai comum como seu fundamento \u00faltimo n\u00e3o consegue subsistir.[2] Uma verdadeira fraternidade entre os homens sup\u00f5e e exige uma paternidade transcendente. A partir do reconhecimento desta paternidade, consolida-se a fraternidade entre os homens, ou seja, aquele fazer-se \u00abpr\u00f3ximo\u00bb para cuidar do outro.<\/p>\n<p>\u00abOnde est\u00e1 o teu irm\u00e3o?\u00bb (Gn 4, 9)<\/p>\n<p>2. Para compreender melhor esta voca\u00e7\u00e3o do homem \u00e0 fraternidade e para reconhecer de forma mais adequada os obst\u00e1culos que se interp\u00f5em \u00e0 sua realiza\u00e7\u00e3o e identificar as vias para a supera\u00e7\u00e3o dos mesmos, \u00e9 fundamental deixar-se guiar pelo conhecimento do des\u00edgnio de Deus, tal como se apresenta de forma egr\u00e9gia na Sagrada Escritura.<\/p>\n<p>Segundo a narra\u00e7\u00e3o das origens, todos os homens prov\u00eam dos mesmos pais, de Ad\u00e3o e Eva, casal criado por Deus \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a (cf. Gn 1, 26), do qual nascem Caim e Abel. Na hist\u00f3ria desta fam\u00edlia primig\u00eania, lemos a origem da sociedade, a evolu\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas e os povos.<\/p>\n<p>Abel \u00e9 pastor, Caim agricultor. A sua identidade profunda e, conjuntamente, a sua voca\u00e7\u00e3o \u00e9 ser irm\u00e3os, embora na diversidade da sua atividade e cultura, da sua maneira de se relacionarem com Deus e com a cria\u00e7\u00e3o. Mas o assassinato de Abel por Caim atesta, tragicamente, a rejei\u00e7\u00e3o radical da voca\u00e7\u00e3o a ser irm\u00e3os. A sua hist\u00f3ria (cf. Gn 4, 1-16) p\u00f5e em evid\u00eancia o dif\u00edcil dever, a que todos os homens s\u00e3o chamados, de viver juntos, cuidando uns dos outros. Caim, n\u00e3o aceitando a predile\u00e7\u00e3o de Deus por Abel, que Lhe oferecia o melhor do seu rebanho \u2013 \u00abo Senhor olhou com agrado para Abel e para a sua oferta, mas n\u00e3o olhou com agrado para Caim nem para a sua oferta\u00bb (Gn 4, 4-5) \u2013, mata Abel por inveja. Desta forma, recusa reconhecer-se irm\u00e3o, relacionar-se positivamente com ele, viver diante de Deus, assumindo as suas responsabilidades de cuidar e proteger o outro. \u00c0 pergunta com que Deus interpela Caim \u2013 \u00abonde est\u00e1 o teu irm\u00e3o?\u00bb \u2013, pedindo-lhe contas da sua a\u00e7\u00e3o, responde: \u00abN\u00e3o sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irm\u00e3o?\u00bb (Gn 4, 9). Depois \u2013 diz-nos o livro do G\u00eanesis \u2013, \u00abCaim afastou-se da presen\u00e7a do Senhor\u00bb (4, 16).<\/p>\n<p>\u00c9 preciso interrogar-se sobre os motivos profundos que induziram Caim a ignorar o v\u00ednculo de fraternidade e, simultaneamente, o v\u00ednculo de reciprocidade e comunh\u00e3o que o ligavam ao seu irm\u00e3o Abel. O pr\u00f3prio Deus denuncia e censura a Caim a sua contiguidade com o mal: \u00abo pecado deitar-se-\u00e1 \u00e0 tua porta\u00bb (Gn 4, 7). Mas Caim recusa opor-se ao mal, e decide igualmente \u00ablan\u00e7ar-se sobre o irm\u00e3o\u00bb (Gn 4, 8), desprezando o projeto de Deus. Deste modo, frustra a sua voca\u00e7\u00e3o original para ser filho de Deus e viver a fraternidade.<\/p>\n<p>A narra\u00e7\u00e3o de Caim e Abel ensina que a humanidade traz inscrita em si mesma uma voca\u00e7\u00e3o \u00e0 fraternidade, mas tamb\u00e9m a possibilidade dram\u00e1tica da sua trai\u00e7\u00e3o. Disso mesmo d\u00e1 testemunho o ego\u00edsmo di\u00e1rio, que est\u00e1 na base de muitas guerras e injusti\u00e7as: na realidade, muitos homens e mulheres morrem pela m\u00e3o de irm\u00e3os e irm\u00e3s que n\u00e3o sabem reconhecer-se como tais, isto \u00e9, como seres feitos para a reciprocidade, a comunh\u00e3o e a doa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00abE v\u00f3s sois todos irm\u00e3os\u00bb (Mt 23, 8)<\/p>\n<p>3. Surge espontaneamente a pergunta: poder\u00e3o um dia os homens e as mulheres deste mundo corresponder plenamente ao anseio de fraternidade, gravado neles por Deus Pai? Conseguir\u00e3o, meramente com as suas for\u00e7as, vencer a indiferen\u00e7a, o ego\u00edsmo e o \u00f3dio, aceitar as leg\u00edtimas diferen\u00e7as que caracterizam os irm\u00e3os e as irm\u00e3s?<\/p>\n<p>Parafraseando as palavras do Senhor Jesus, poderemos sintetizar assim a resposta que Ele nos d\u00e1: dado que h\u00e1 um s\u00f3 Pai, que \u00e9 Deus, v\u00f3s sois todos irm\u00e3os (cf. Mt 23, 8-9). A raiz da fraternidade est\u00e1 contida na paternidade de Deus. N\u00e3o se trata de uma paternidade gen\u00e9rica, indistinta e historicamente ineficaz, mas do amor pessoal, sol\u00edcito e extraordinariamente concreto de Deus por cada um dos homens (cf. Mt 6, 25-30). Trata-se, por conseguinte, de uma paternidade eficazmente geradora de fraternidade, porque o amor de Deus, quando \u00e9 acolhido, torna-se no mais admir\u00e1vel agente de transforma\u00e7\u00e3o da vida e das rela\u00e7\u00f5es com o outro, abrindo os seres humanos \u00e0 solidariedade e \u00e0 partilha ativa.<\/p>\n<p>Em particular, a fraternidade humana foi regenerada em e por Jesus Cristo, com a sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o. A cruz \u00e9 o \u00ablugar\u00bb definitivo de funda\u00e7\u00e3o da fraternidade que os homens, por si s\u00f3s, n\u00e3o s\u00e3o capazes de gerar. Jesus Cristo, que assumiu a natureza humana para a redimir, amando o Pai at\u00e9 \u00e0 morte e morte de cruz (cf. Fl 2, 8), por meio da sua ressurrei\u00e7\u00e3o constitui-nos como humanidade nova, em plena comunh\u00e3o com a vontade de Deus, com o seu projeto, que inclui a realiza\u00e7\u00e3o plena da voca\u00e7\u00e3o \u00e0 fraternidade.<\/p>\n<p>Jesus retoma o projeto inicial do Pai, reconhecendo-Lhe a primazia sobre todas as coisas. Mas Cristo, com o seu abandono at\u00e9 \u00e0 morte por amor do Pai, torna-Se princ\u00edpio novo e definitivo de todos n\u00f3s, chamados a reconhecer-nos n\u2019Ele como irm\u00e3os, porque filhos do mesmo Pai. Ele \u00e9 a pr\u00f3pria Alian\u00e7a, o espa\u00e7o pessoal da reconcilia\u00e7\u00e3o do homem com Deus e dos irm\u00e3os entre si. Na morte de Jesus na cruz, ficou superada tamb\u00e9m a separa\u00e7\u00e3o entre os povos, entre o povo da Alian\u00e7a e o povo dos Gentios, privado de esperan\u00e7a porque permanecera at\u00e9 ent\u00e3o alheio aos pactos da Promessa. Como se l\u00ea na Carta aos Ef\u00e9sios, Jesus Cristo \u00e9 Aquele que reconcilia em Si todos os homens. Ele \u00e9 a paz, porque, dos dois povos, fez um s\u00f3, derrubando o muro de separa\u00e7\u00e3o que os dividia, ou seja, a inimizade. Criou em Si mesmo um s\u00f3 povo, um s\u00f3 homem novo, uma s\u00f3 humanidade nova (cf. 2,14-16).<\/p>\n<p>Quem aceita a vida de Cristo e vive n\u2019Ele, reconhece Deus como Pai e a Ele Se entrega totalmente, amando-O acima de todas as coisas. O homem reconciliado v\u00ea, em Deus, o Pai de todos e, consequentemente, \u00e9 solicitado a viver uma fraternidade aberta a todos. Em Cristo, o outro \u00e9 acolhido e amado como filho ou filha de Deus, como irm\u00e3o ou irm\u00e3, e n\u00e3o como um estranho, menos ainda como um antagonista ou at\u00e9 um inimigo. Na fam\u00edlia de Deus, onde todos s\u00e3o filhos dum mesmo Pai e, porque enxertados em Cristo, filhos no Filho, n\u00e3o h\u00e1 \u00abvidas descart\u00e1veis\u00bb. Todos gozam de igual e inviol\u00e1vel dignidade; todos s\u00e3o amados por Deus, todos foram resgatados pelo sangue de Cristo, que morreu na cruz e ressuscitou por cada um. Esta \u00e9 a raz\u00e3o pela qual n\u00e3o se pode ficar indiferente perante a sorte dos irm\u00e3os.<\/p>\n<p>A fraternidade, fundamento e caminho para a paz<\/p>\n<p>4. Suposto isto, \u00e9 f\u00e1cil compreender que a fraternidade \u00e9 fundamento e caminho para a paz. As Enc\u00edclicas sociais dos meus Predecessores oferecem uma ajuda valiosa neste sentido. Basta ver as defini\u00e7\u00f5es de paz da Populorum progressio, de Paulo VI, ou da Sollicitudo rei socialis, de Jo\u00e3o Paulo II. Da primeira, apreendemos que o desenvolvimento integral dos povos \u00e9 o novo nome da paz[3] e, da segunda, que a paz \u00e9 opus solidaritatis, fruto da solidariedade.[4]<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Paulo VI afirma que tanto as pessoas como as na\u00e7\u00f5es se devem encontrar num esp\u00edrito de fraternidade. E explica: \u00abNesta compreens\u00e3o e amizade m\u00fatuas, nesta comunh\u00e3o sagrada, devemos (&#8230;) trabalhar juntos para construir o futuro comum da humanidade\u00bb.[5] Este dever recai primariamente sobre os mais favorecidos. As suas obriga\u00e7\u00f5es radicam-se na fraternidade humana e sobrenatural, apresentando-se sob um tr\u00edplice aspecto: o dever de solidariedade, que exige que as na\u00e7\u00f5es ricas ajudem as menos avan\u00e7adas; o dever de justi\u00e7a social, que requer a reformula\u00e7\u00e3o em termos mais corretos das rela\u00e7\u00f5es defeituosas entre povos fortes e povos fracos; o dever de caridade universal, que implica a promo\u00e7\u00e3o de um mundo mais humano para todos, um mundo onde todos tenham qualquer coisa a dar e a receber, sem que o progresso de uns seja obst\u00e1culo ao desenvolvimento dos outros.[6]<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ora, da mesma forma que se considera a paz como opus solidarietatis, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o pensar que o seu fundamento principal seja a fraternidade. A paz, afirma Jo\u00e3o Paulo II, \u00e9 um bem indivis\u00edvel: ou \u00e9 bem de todos, ou n\u00e3o o \u00e9 de ningu\u00e9m. Na realidade, a paz s\u00f3 pode ser conquistada e usufru\u00edda como melhor qualidade de vida e como desenvolvimento mais humano e sustent\u00e1vel, se estiver viva, em todos, \u00aba determina\u00e7\u00e3o firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum\u00bb.[7] Isto implica n\u00e3o deixar-se guiar pela \u00abavidez do lucro\u00bb e pela \u00absede do poder\u00bb. \u00c9 preciso estar pronto a \u00ab\u201cperder-se\u201d em benef\u00edcio do pr\u00f3ximo em vez de o explorar, e a \u201cservi-lo\u201d em vez de o oprimir para proveito pr\u00f3prio (&#8230;). O \u201coutro\u201d \u2013 pessoa, povo ou na\u00e7\u00e3o \u2013 [n\u00e3o deve ser visto] como um instrumento qualquer, de que se explora, a baixo pre\u00e7o, a capacidade de trabalhar e a resist\u00eancia f\u00edsica, para o abandonar quando j\u00e1 n\u00e3o serve; mas sim como um nosso \u201csemelhante\u201d, um \u201caux\u00edlio\u201d\u00bb.[8]<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A solidariedade crist\u00e3 pressup\u00f5e que o pr\u00f3ximo seja amado n\u00e3o s\u00f3 como \u00abum ser humano com os seus direitos e a sua igualdade fundamental em rela\u00e7\u00e3o a todos os demais, mas [como] a imagem viva de Deus Pai, resgatada pelo sangue de Jesus Cristo e tornada objecto da a\u00e7\u00e3o permanente do Esp\u00edrito Santo\u00bb,[9] como um irm\u00e3o. \u00abEnt\u00e3o a consci\u00eancia da paternidade comum de Deus, da fraternidade de todos os homens em Cristo, \u201cfilhos no Filho\u201d, e da presen\u00e7a e da a\u00e7\u00e3o vivificante do Esp\u00edrito Santo conferir\u00e1 \u2013 lembra Jo\u00e3o Paulo II \u2013 ao nosso olhar sobre o mundo como que um novo crit\u00e9rio para o interpretar\u00bb,[10] para o transformar.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A fraternidade, premissa para vencer a pobreza<\/p>\n<p>5. Na Caritas in veritate, o meu Predecessor lembrava ao mundo que uma causa importante da pobreza \u00e9 a falta de fraternidade entre os povos e entre os homens.[11] Em muitas sociedades, sentimos uma profunda pobreza relacional, devido \u00e0 car\u00eancia de s\u00f3lidas rela\u00e7\u00f5es familiares e comunit\u00e1rias; assistimos, preocupados, ao crescimento de diferentes tipos de car\u00eancias, marginaliza\u00e7\u00e3o, solid\u00e3o e de v\u00e1rias formas de depend\u00eancia patol\u00f3gica. Uma tal pobreza s\u00f3 pode ser superada atrav\u00e9s da redescoberta e valoriza\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es fraternas no seio das fam\u00edlias e das comunidades, atrav\u00e9s da partilha das alegrias e tristezas, das dificuldades e sucessos presentes na vida das pessoas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, se por um lado se verifica uma redu\u00e7\u00e3o da pobreza absoluta, por outro n\u00e3o podemos deixar de reconhecer um grave aumento da pobreza relativa, isto \u00e9, de desigualdades entre pessoas e grupos que convivem numa regi\u00e3o espec\u00edfica ou num determinado contexto hist\u00f3rico-cultural. Neste sentido, servem pol\u00edticas eficazes que promovam o princ\u00edpio da fraternidade, garantindo \u00e0s pessoas \u2013 iguais na sua dignidade e nos seus direitos fundamentais \u2013 acesso aos \u00abcapitais\u00bb, aos servi\u00e7os, aos recursos educativos, sanit\u00e1rios e tecnol\u00f3gicos, para que cada uma delas tenha oportunidade de exprimir e realizar o seu projeto de vida e possa desenvolver-se plenamente como pessoa.<\/p>\n<p>Reconhece-se haver necessidade tamb\u00e9m de pol\u00edticas que sirvam para atenuar a excessiva desigualdade de rendimento. N\u00e3o devemos esquecer o ensinamento da Igreja sobre a chamada hipoteca social, segundo a qual, se \u00e9 l\u00edcito \u2013 como diz S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino \u2013 e mesmo necess\u00e1rio que \u00abo homem tenha a propriedade dos bens\u00bb,[12] quanto ao uso, por\u00e9m, \u00abn\u00e3o deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui s\u00f3 como pr\u00f3prias, mas tamb\u00e9m como comuns, no sentido de que possam beneficiar n\u00e3o s\u00f3 a si mas tamb\u00e9m aos outros\u00bb.[13]<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, h\u00e1 uma forma de promover a fraternidade \u2013 e, assim, vencer a pobreza \u2013 que deve estar na base de todas as outras. \u00c9 o desapego vivido por quem escolhe estilos de vida s\u00f3brios e essenciais, por quem, partilhando as suas riquezas, consegue assim experimentar a comunh\u00e3o fraterna com os outros. Isto \u00e9 fundamental, para seguir Jesus Cristo e ser verdadeiramente crist\u00e3o. \u00c9 o caso n\u00e3o s\u00f3 das pessoas consagradas que professam voto de pobreza, mas tamb\u00e9m de muitas fam\u00edlias e tantos cidad\u00e3os respons\u00e1veis que acreditam firmemente que a rela\u00e7\u00e3o fraterna com o pr\u00f3ximo constitua o bem mais precioso.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A redescoberta da fraternidade na economia<\/p>\n<p>6. As graves crises financeiras e econ\u00f3micas dos nossos dias \u2013 que t\u00eam a sua origem no progressivo afastamento do homem de Deus e do pr\u00f3ximo, com a ambi\u00e7\u00e3o desmedida de bens materiais, por um lado, e o empobrecimento das rela\u00e7\u00f5es interpessoais e comunit\u00e1rias, por outro \u2013 impeliram muitas pessoas a buscar o bem-estar, a felicidade e a seguran\u00e7a no consumo e no lucro fora de toda a l\u00f3gica duma economia saud\u00e1vel. J\u00e1, em 1979, o Papa Jo\u00e3o Paulo II alertava para a exist\u00eancia de \u00abum real e percept\u00edvel perigo de que, enquanto progride enormemente o dom\u00ednio do homem sobre o mundo das coisas, ele perca os fios essenciais deste seu dom\u00ednio e, de diversas maneiras, submeta a elas a sua humanidade, e ele pr\u00f3prio se torne objecto de multiforme manipula\u00e7\u00e3o, se bem que muitas vezes n\u00e3o diretamente percept\u00edvel; manipula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de toda a organiza\u00e7\u00e3o da vida comunit\u00e1ria, mediante o sistema de produ\u00e7\u00e3o e por meio de press\u00f5es dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social\u00bb.[14]<\/p>\n<p>As sucessivas crises econ\u00f3micas devem levar a repensar adequadamente os modelos de desenvolvimento econ\u00f4mico e a mudar os estilos de vida. A crise atual, com pesadas consequ\u00eancias na vida das pessoas, pode ser tamb\u00e9m uma ocasi\u00e3o prop\u00edcia para recuperar as virtudes da prud\u00eancia, temperan\u00e7a, justi\u00e7a e fortaleza. Elas podem ajudar-nos a superar os momentos dif\u00edceis e a redescobrir os la\u00e7os fraternos que nos unem uns aos outros, com a confian\u00e7a profunda de que o homem tem necessidade e \u00e9 capaz de algo mais do que a maximiza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio lucro individual. As referidas virtudes s\u00e3o necess\u00e1rias sobretudo para construir e manter uma sociedade \u00e0 medida da dignidade humana.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A fraternidade extingue a guerra<\/p>\n<p>7. Ao longo do ano que termina, muitos irm\u00e3os e irm\u00e3s nossos continuaram a viver a experi\u00eancia dilacerante da guerra, que constitui uma grave e profunda ferida infligida \u00e0 fraternidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos conflitos que se consumam na indiferen\u00e7a geral. A todos aqueles que vivem em terras onde as armas imp\u00f5em terror e destrui\u00e7\u00e3o, asseguro a minha solidariedade pessoal e a de toda a Igreja. Esta \u00faltima tem por miss\u00e3o levar o amor de Cristo tamb\u00e9m \u00e0s v\u00edtimas indefesas das guerras esquecidas, atrav\u00e9s da ora\u00e7\u00e3o pela paz, do servi\u00e7o aos feridos, aos famintos, aos refugiados, aos deslocados e a quantos vivem no terror. De igual modo a Igreja levanta a sua voz para fazer chegar aos respons\u00e1veis o grito de dor desta humanidade atribulada e fazer cessar, juntamente com as hostilidades, todo o abuso e viola\u00e7\u00e3o dos direitos fundamentais do homem.[15]<\/p>\n<p>Por este motivo, desejo dirigir um forte apelo a quantos semeiam viol\u00eancia e morte, com as armas: naquele que hoje considerais apenas um inimigo a abater, redescobri o vosso irm\u00e3o e detende a vossa m\u00e3o! Renunciai \u00e0 via das armas e ide ao encontro do outro com o di\u00e1logo, o perd\u00e3o e a reconcilia\u00e7\u00e3o para reconstruir a justi\u00e7a, a confian\u00e7a e esperan\u00e7a ao vosso redor! \u00abNesta \u00f3ptica, torna-se claro que, na vida dos povos, os conflitos armados constituem sempre a deliberada nega\u00e7\u00e3o de qualquer conc\u00f3rdia internacional poss\u00edvel, originando divis\u00f5es profundas e dilacerantes feridas que necessitam de muitos anos para se curarem. As guerras constituem a rejei\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de se comprometer para alcan\u00e7ar aquelas grandes metas econ\u00f4micas e sociais que a comunidade internacional estabeleceu\u00bb.[16]<\/p>\n<p>Mas, enquanto houver em circula\u00e7\u00e3o uma quantidade t\u00e3o grande como a atual de armamentos, poder-se-\u00e1 sempre encontrar novos pretextos para iniciar as hostilidades. Por isso, fa\u00e7o meu o apelo lan\u00e7ado pelos meus Predecessores a favor da n\u00e3o-prolifera\u00e7\u00e3o das armas e do desarmamento por parte de todos, a come\u00e7ar pelo desarmamento nuclear e qu\u00edmico.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos, por\u00e9m, deixar de constatar que os acordos internacionais e as leis nacionais, embora sendo necess\u00e1rios e altamente desej\u00e1veis, por si s\u00f3s n\u00e3o bastam para preservar a humanidade do risco de conflitos armados. \u00c9 precisa uma convers\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o que permita a cada um reconhecer no outro um irm\u00e3o do qual cuidar e com o qual trabalhar para, juntos, constru\u00edrem uma vida em plenitude para todos. Este \u00e9 o esp\u00edrito que anima muitas das iniciativas da sociedade civil, incluindo as organiza\u00e7\u00f5es religiosas, a favor da paz. Espero que o compromisso di\u00e1rio de todos continue a dar fruto e que se possa chegar tamb\u00e9m \u00e0 efetiva aplica\u00e7\u00e3o, no direito internacional, do direito \u00e0 paz como direito humano fundamental, pressuposto necess\u00e1rio para o exerc\u00edcio de todos os outros direitos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o e o crime organizado contrastam a fraternidade<\/p>\n<p>8. O horizonte da fraternidade apela ao crescimento em plenitude de todo o homem e mulher. As justas ambi\u00e7\u00f5es duma pessoa, sobretudo se jovem, n\u00e3o devem ser frustradas nem lesadas; n\u00e3o se lhe deve roubar a esperan\u00e7a de pod\u00ea-las realizar. A ambi\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o deve ser confundida com prevarica\u00e7\u00e3o; pelo contr\u00e1rio, \u00e9 necess\u00e1rio competir na m\u00fatua estima (cf. Rm 12, 10). Mesmo nas disputas, que constituem um aspecto inevit\u00e1vel da vida, \u00e9 preciso recordar-se sempre de que somos irm\u00e3os; por isso, \u00e9 necess\u00e1rio educar e educar-se para n\u00e3o considerar o pr\u00f3ximo como um inimigo nem um advers\u00e1rio a eliminar.<\/p>\n<p>A fraternidade gera paz social, porque cria um equil\u00edbrio entre liberdade e justi\u00e7a, entre responsabilidade pessoal e solidariedade, entre bem dos indiv\u00edduos e bem comum. Uma comunidade pol\u00edtica deve, portanto, agir de forma transparente e respons\u00e1vel para favorecer tudo isto. Os cidad\u00e3os devem sentir-se representados pelos poderes p\u00fablicos, no respeito da sua liberdade. Em vez disso, muitas vezes, entre cidad\u00e3o e institui\u00e7\u00f5es, interp\u00f5em-se interesses partid\u00e1rios que deformam essa rela\u00e7\u00e3o, favorecendo a cria\u00e7\u00e3o dum clima perene de conflito.<\/p>\n<p>Um aut\u00eantico esp\u00edrito de fraternidade vence o ego\u00edsmo individual, que contrasta a possibilidade das pessoas viverem em liberdade e harmonia entre si. Tal ego\u00edsmo desenvolve-se, socialmente, quer nas muitas formas de corrup\u00e7\u00e3o que hoje se difunde de maneira capilar, quer na forma\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es criminosas \u2013 desde os pequenos grupos at\u00e9 \u00e0queles organizados \u00e0 escala global \u2013 que, minando profundamente a legalidade e a justi\u00e7a, ferem no cora\u00e7\u00e3o a dignidade da pessoa. Estas organiza\u00e7\u00f5es ofendem gravemente a Deus, prejudicam os irm\u00e3os e lesam a cria\u00e7\u00e3o, revestindo-se duma gravidade ainda maior se t\u00eam conota\u00e7\u00f5es religiosas.<\/p>\n<p>Penso no drama dilacerante da droga com a qual se lucra desafiando leis morais e civis, na devasta\u00e7\u00e3o dos recursos naturais e na polui\u00e7\u00e3o em curso, na trag\u00e9dia da explora\u00e7\u00e3o do trabalho; penso nos tr\u00e1ficos il\u00edcitos de dinheiro como tamb\u00e9m na especula\u00e7\u00e3o financeira que, muitas vezes, assume caracteres predadores e nocivos para inteiros sistemas econ\u00f3micos e sociais, lan\u00e7ando na pobreza milh\u00f5es de homens e mulheres; penso na prostitui\u00e7\u00e3o que diariamente ceifa v\u00edtimas inocentes, sobretudo entre os mais jovens, roubando-lhes o futuro; penso no abom\u00ednio do tr\u00e1fico de seres humanos, nos crimes e abusos contra menores, na escravid\u00e3o que ainda espalha o seu horror em muitas partes do mundo, na trag\u00e9dia frequentemente ignorada dos emigrantes sobre quem se especula indignamente na ilegalidade. A este respeito escreveu Jo\u00e3o XXIII: \u00abUma conviv\u00eancia baseada unicamente em rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a nada tem de humano: nela v\u00eaem as pessoas coarctada a pr\u00f3pria liberdade, quando, pelo contr\u00e1rio, deveriam ser postas em condi\u00e7\u00e3o tal que se sentissem estimuladas a procurar o pr\u00f3prio desenvolvimento e aperfei\u00e7oamento\u00bb.[17] Mas o homem pode converter-se, e n\u00e3o se deve jamais desesperar da possibilidade de mudar de vida. Gostaria que isto fosse uma mensagem de confian\u00e7a para todos, mesmo para aqueles que cometeram crimes hediondos, porque Deus n\u00e3o quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cf. Ez 18, 23).<\/p>\n<p>No contexto alargado da sociabilidade humana, considerando o delito e a pena, penso tamb\u00e9m nas condi\u00e7\u00f5es desumanas de muitos estabelecimentos prisionais, onde frequentemente o preso acaba reduzido a um estado sub-humano, violado na sua dignidade de homem e sufocado tamb\u00e9m em toda a vontade e express\u00e3o de resgate. A Igreja faz muito em todas estas \u00e1reas, a maior parte das vezes sem rumor. Exorto e encorajo a fazer ainda mais, na esperan\u00e7a de que tais a\u00e7\u00f5es desencadeadas por tantos homens e mulheres corajosos possam cada vez mais ser sustentadas, leal e honestamente, tamb\u00e9m pelos poderes civis.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A fraternidade ajuda a guardar e cultivar a natureza<\/p>\n<p>9. A fam\u00edlia humana recebeu, do Criador, um dom em comum: a natureza. A vis\u00e3o crist\u00e3 da cria\u00e7\u00e3o apresenta um ju\u00edzo positivo sobre a licitude das interven\u00e7\u00f5es na natureza para dela tirar benef\u00edcio, contanto que se atue responsavelmente, isto \u00e9, reconhecendo aquela \u00abgram\u00e1tica\u00bb que est\u00e1 inscrita nela e utilizando, com sabedoria, os recursos para proveito de todos, respeitando a beleza, a finalidade e a utilidade dos diferentes seres vivos e a sua fun\u00e7\u00e3o no ecossistema. Em suma, a natureza est\u00e1 \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o, mas somos chamados a administr\u00e1-la responsavelmente. Em vez disso, muitas vezes deixamo-nos guiar pela gan\u00e2ncia, pela soberba de dominar, possuir, manipular, desfrutar; n\u00e3o guardamos a natureza, n\u00e3o a respeitamos, nem a consideramos como um dom gratuito de que devemos cuidar e colocar ao servi\u00e7o dos irm\u00e3os, incluindo as gera\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n<p>De modo particular o sector produtivo prim\u00e1rio, o sector agr\u00edcola, tem a voca\u00e7\u00e3o vital de cultivar e guardar os recursos naturais para alimentar a humanidade. A prop\u00f3sito, a persistente vergonha da fome no mundo leva-me a partilhar convosco esta pergunta: De que modo usamos os recursos da terra? As sociedades atuais devem refletir sobre a hierarquia das prioridades no destino da produ\u00e7\u00e3o. De facto, \u00e9 um dever impelente que se utilizem de tal modo os recursos da terra, que todos se vejam livres da fome. As iniciativas e as solu\u00e7\u00f5es poss\u00edveis s\u00e3o muitas, e n\u00e3o se limitam ao aumento da produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 mais que sabido que a produ\u00e7\u00e3o atual \u00e9 suficiente, e todavia h\u00e1 milh\u00f5es de pessoas que sofrem e morrem de fome, o que constitui um verdadeiro esc\u00e2ndalo. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio encontrar o modo para que todos possam beneficiar dos frutos da terra, n\u00e3o s\u00f3 para evitar que se alargue o fosso entre aqueles que t\u00eam mais e os que devem contentar-se com as migalhas, mas tamb\u00e9m e sobretudo por uma exig\u00eancia de justi\u00e7a e equidade e de respeito por cada ser humano. Neste sentido, gostaria de lembrar a todos o necess\u00e1rio destino universal dos bens, que \u00e9 um dos princ\u00edpios fulcrais da doutrina social da Igreja. O respeito deste princ\u00edpio \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o essencial para permitir um acesso real e equitativo aos bens essenciais e prim\u00e1rios de que todo o homem precisa e tem direito.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Conclus\u00e3o<\/p>\n<p>10. H\u00e1 necessidade que a fraternidade seja descoberta, amada, experimentada, anunciada e testemunhada; mas s\u00f3 o amor dado por Deus \u00e9 que nos permite acolher e viver plenamente a fraternidade.<\/p>\n<p>O necess\u00e1rio realismo da pol\u00edtica e da economia n\u00e3o pode reduzir-se a um tecnicismo sem ideal, que ignora a dimens\u00e3o transcendente do homem. Quando falta esta abertura a Deus, toda a actividade humana se torna mais pobre, e as pessoas s\u00e3o reduzidas a objecto pass\u00edvel de explora\u00e7\u00e3o. Somente se a pol\u00edtica e a economia aceitarem mover-se no amplo espa\u00e7o assegurado por esta abertura \u00c0quele que ama todo o homem e mulher, \u00e9 que conseguir\u00e3o estruturar-se com base num verdadeiro esp\u00edrito de caridade fraterna e poder\u00e3o ser instrumento eficaz de desenvolvimento humano integral e de paz.<\/p>\n<p>N\u00f3s, crist\u00e3os, acreditamos que, na Igreja, somos membros uns dos outros e todos mutuamente necess\u00e1rios, porque a cada um de n\u00f3s foi dada uma gra\u00e7a, segundo a medida do dom de Cristo, para utilidade comum (cf. Ef 4, 7.25; 1 Cor 12, 7). Cristo veio ao mundo para nos trazer a gra\u00e7a divina, isto \u00e9, a possibilidade de participar na sua vida. Isto implica tecer um relacionamento fraterno, caracterizado pela reciprocidade, o perd\u00e3o, o dom total de si mesmo, segundo a grandeza e a profundidade do amor de Deus, oferecido \u00e0 humanidade por Aquele que, crucificado e ressuscitado, atrai todos a Si: \u00abDou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto \u00e9 que todos conhecer\u00e3o que sois meus disc\u00edpulos: se vos amardes uns aos outros\u00bb (Jo 13, 34-35). Esta \u00e9 a boa nova que requer, de cada um, um passo mais, um exerc\u00edcio perene de empatia, de escuta do sofrimento e da esperan\u00e7a do outro, mesmo do que est\u00e1 mais distante de mim, encaminhando-se pela estrada exigente daquele amor que sabe doar-se e gastar-se gratuitamente pelo bem de cada irm\u00e3o e irm\u00e3.<\/p>\n<p>Cristo abra\u00e7a todo o ser humano e deseja que ningu\u00e9m se perca. \u00abDeus n\u00e3o enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele\u00bb (Jo 3, 17). F\u00e1-lo sem oprimir, sem for\u00e7ar ningu\u00e9m a abrir-Lhe as portas do cora\u00e7\u00e3o e da mente. \u00abO que for maior entre v\u00f3s seja como o menor, e aquele que mandar, como aquele que serve \u2013 diz Jesus Cristo \u2013. Eu estou no meio de v\u00f3s como aquele que serve\u00bb (Lc 22, 26-27). Deste modo, cada actividade deve ser caracterizada por uma atitude de servi\u00e7o \u00e0s pessoas, incluindo as mais distantes e desconhecidas. O servi\u00e7o \u00e9 a alma da fraternidade que edifica a paz.<\/p>\n<p>Que Maria, a M\u00e3e de Jesus, nos ajude a compreender e a viver todos os dias a fraternidade que jorra do cora\u00e7\u00e3o do seu Filho, para levar a paz a todo o homem que vive nesta nossa amada terra.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Vaticano, 8 de dezembro de 2013.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>FRANCISCUS<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[1]Cf. Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 19: AAS 101 (2009), 654-655.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[2]Cf. Francisco, Carta enc. Lumen fidei (29 de Junho de 2013), 54: AAS 105 (2013), 591-592.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[3]Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 87: AAS 59 (1967), 299.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[4]Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 39: AAS 80 (1988), 566-568.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[5]Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 43: AAS 59 (1967), 278-279.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[6]Cf. ibid., 44: o. c., 279.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[7]Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 38: AAS 80 (1988), 566.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[8] Ibid., 38-39: o. c., 566-567.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[9] Ibid., 40: o. c., 569.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[10] Ibid., 40: o. c., 569.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[11]Cf. Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 19: AAS 101 (2009), 654-655.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[12] Summa theologiae, II-II, q. 66, a. 2.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[13] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor\u00e2neo Gaudium et spes, 69; cf. Le\u00e3o XIII, Carta enc. Rerum novarum (15 de Maio de 1891), 19: ASS 23 (1890-1891), 651; Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 42: AAS 80 (1988), 573-574; Pont. Conselho \u00abJusti\u00e7a e Paz\u00bb, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, 178.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[14] Carta enc. Redemptor hominis (4 de Mar\u00e7o de 1979), 16: AAS 61 (1979), 290.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[15]Cf. Pont. Conselho \u00abJusti\u00e7a e Paz\u00bb, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, 159.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[16] Francisco, Carta ao Presidente Vladimir Putin (4 de Setembro de 2013): L\u2019Osservatore Romano (ed. portuguesa de 8\/IX\/2013), 5.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[17] Carta enc. Pacem in terris (11 de Abril de 1963), 17: AAS 55 (1963), 265.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, 1\u00ba de janeiro, celebra-se o Dia Mundial da Paz. 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