{"id":28736,"date":"2015-07-12T00:00:00","date_gmt":"2015-07-12T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/confira-a-integra-do-discurso-do-papa-francisco-no-encontro-mundial-dos-movimentos-populares\/"},"modified":"2015-07-12T00:00:00","modified_gmt":"2015-07-12T03:00:00","slug":"confira-a-integra-do-discurso-do-papa-francisco-no-encontro-mundial-dos-movimentos-populares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/confira-a-integra-do-discurso-do-papa-francisco-no-encontro-mundial-dos-movimentos-populares\/","title":{"rendered":"Confira a \u00edntegra do discurso do papa Francisco no Encontro Mundial dos Movimentos Populares"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\" align=\"center\">O II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, ocorrido em Santa Cruz de La Sierra, Bol\u00edvia, de 7 a 9 de julho, \u00a0reuniu cerca de 1500 representantes de movimentos sociais que, durante os tr\u00eas dias, refletiram sobre o tema: &#8220;M\u00e3e Terra, Moradia, Trabalho &#8211; Integra\u00e7\u00e3o dos Povos&#8221;. A abertura do Encontro foi conduzida pelo presidente do Pontif\u00edcio Conselho Justi\u00e7a e Paz, cardeal Peter Turkson. O bispo de Ipameri (GO) e presidente da Comiss\u00e3o Episcopal Pastoral para o Servi\u00e7o da Caridade, da Justi\u00e7a e da Paz da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Guilherme Werlang, participou do painel: &#8220;O teto, a cidade e os movimentos populares&#8221;. No dia 9, o papa Francisco proferiu seu maior discurso desde o in\u00edcio da viagem pela Am\u00e9rica Latina. Leia, abaixo, a \u00edntegra do pronunciamento do papa:\u00a0<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\" align=\"center\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\" align=\"center\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\"><strong><a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/travels\/2015\/outside\/documents\/papa-francesco-ecuador-bolivia-paraguay-2015.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">VIAGEM APOST\u00d3LICA DO PAPA FRANCISCO<br \/> AO EQUADOR, BOL\u00cdVIA E PARAGUAI\u00a0<\/a><br \/> (5-13 DE JULHO DE 2015)<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>PARTICIPA\u00c7\u00c3O AO II ENCONTRO MUNDIAL DOS MOVIMENTOS POPULARES<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>DISCURSO DO SANTO PADRE<\/em><\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><em>Expo Feira de Santa Cruz de la Sierra (Bol\u00edvia)<br \/> Quinta-feira, 9 de Julho de 2015<\/em><\/p>\n<div align=\"center\">\n<hr width=\"30%\" size=\"1\" noshade=\"noshade\" \/><\/div>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Irm\u00e3os e irm\u00e3s, boa tarde!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 alguns meses, reunimo-nos em Roma e n\u00e3o esque\u00e7o aquele nosso primeiro encontro. Durante este tempo, trouxe-vos no meu cora\u00e7\u00e3o e nas minhas ora\u00e7\u00f5es. E alegra-me v\u00ea-vos de novo aqui, debatendo os melhores caminhos para superar as graves situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a que padecem os exclu\u00eddos em todo o mundo. Obrigado Senhor Presidente Evo Morales, por sustentar t\u00e3o decididamente este Encontro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ent\u00e3o, em Roma, senti algo muito belo: fraternidade, paix\u00e3o, entrega, sede de justi\u00e7a. Hoje, em Santa Cruz de la Sierra, volto a sentir o mesmo. Obrigado! Soube tamb\u00e9m, pelo Pontif\u00edcio Conselho \u00abJusti\u00e7a e Paz\u00bb presidido pelo Cardeal Turkson, que s\u00e3o muitos na Igreja aqueles que se sentem mais pr\u00f3ximos dos movimentos populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos v\u00f3s, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada diocese, em cada comiss\u00e3o \u00abJusti\u00e7a e Paz\u00bb, uma colabora\u00e7\u00e3o real, permanente e comprometida com os movimentos populares. Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organiza\u00e7\u00f5es sociais das periferias urbanas e rurais a aprofundar este encontro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Deus permitiu que nos volt\u00e1ssemos a ver hoje. A B\u00edblia lembra-nos que Deus escuta o clamor do seu povo e tamb\u00e9m eu quero voltar a unir a minha voz \u00e0 vossa: os famosos tr\u00eas \u201cT\u201d: terra, teto e trabalho para todos os nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s. Disse-o e repito: s\u00e3o direitos sagrados. Vale a pena, vale a pena lutar por eles. Que o clamor dos exclu\u00eddos seja escutado na Am\u00e9rica Latina e em toda a terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">1. Em primeiro lugar,\u00a0<em>comecemos por reconhecer que precisamos duma mudan\u00e7a<\/em>. Quero esclarecer, para que n\u00e3o haja mal-entendidos, que falo dos problemas comuns de todos os latino-americanos e, em geral, tamb\u00e9m de toda a humanidade. Problemas, que t\u00eam uma matriz global e que atualmente nenhum Estado pode resolver por si mesmo. Feito este esclarecimento, proponho que nos coloquemos estas perguntas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">&#8211; Reconhecemos n\u00f3s, de verdade, que as coisas n\u00e3o andam bem num mundo onde h\u00e1 tantos camponeses sem terra, tantas fam\u00edlias sem tecto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas na sua dignidade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">&#8211; Reconhecemos n\u00f3s que as coisas n\u00e3o andam bem, quando explodem tantas guerras sem sentido e a viol\u00eancia fratricida se apodera at\u00e9 dos nossos bairros? Reconhecemos n\u00f3s que as coisas n\u00e3o andam bem, quando o solo, a \u00e1gua, o ar e todos os seres da cria\u00e7\u00e3o est\u00e3o sob amea\u00e7a constante?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ent\u00e3o, se reconhecemos isto, digamo-lo sem medo: Precisamos e queremos uma mudan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nas vossas cartas e nos nossos encontros, relataram-me as m\u00faltiplas exclus\u00f5es e injusti\u00e7as que sofrem em cada atividade laboral, em cada bairro, em cada territ\u00f3rio. S\u00e3o tantas e t\u00e3o variadas como muitas e diferentes s\u00e3o as formas pr\u00f3prias de as enfrentar. Mas h\u00e1 um elo invis\u00edvel que une cada uma das exclus\u00f5es. N\u00e3o se encontram isoladas, est\u00e3o unidas, por um fio invis\u00edvel. Conseguimos n\u00f3s reconhec\u00ea-lo? \u00c9 que n\u00e3o se trata de quest\u00f5es isoladas. Pergunto-me se somos capazes de reconhecer que estas realidades destrutivas correspondem a um sistema que se tornou global. Reconhecemos n\u00f3s que este sistema imp\u00f4s a l\u00f3gica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclus\u00e3o social nem na destrui\u00e7\u00e3o da natureza?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Se isso \u00e9 assim \u2013 insisto \u2013 digamo-lo sem medo: Queremos uma mudan\u00e7a, uma mudan\u00e7a real, uma mudan\u00e7a de estruturas. Este sistema \u00e9 insuport\u00e1vel: n\u00e3o o suportam os camponeses, n\u00e3o o suportam os trabalhadores, n\u00e3o o suportam as comunidades, n\u00e3o o suportam os povos&#8230;. E nem sequer o suporta a Terra, a irm\u00e3 M\u00e3e Terra, como dizia S\u00e3o Francisco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Queremos uma mudan\u00e7a nas nossas vidas, nos nossos bairros, no vilarejo, na nossa realidade mais pr\u00f3xima; mas uma mudan\u00e7a que toque tamb\u00e9m o mundo inteiro, porque hoje a interdepend\u00eancia global requer respostas globais para os problemas locais. A globaliza\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a, que nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir esta globaliza\u00e7\u00e3o da exclus\u00e3o e da indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Hoje quero refletir convosco sobre a mudan\u00e7a que queremos e precisamos. Como sabeis, recentemente escrevi sobre os problemas da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Mas, desta vez, quero falar duma mudan\u00e7a noutro sentido. Uma mudan\u00e7a positiva, uma mudan\u00e7a que nos fa\u00e7a bem, uma mudan\u00e7a \u2013 poder\u00edamos dizer \u2013 redentora. Porque \u00e9 dela que precisamos. Sei que buscais uma mudan\u00e7a e n\u00e3o apenas v\u00f3s: nos diferentes encontros, nas v\u00e1rias viagens, verifiquei que h\u00e1 uma expectativa, uma busca forte, um anseio de mudan\u00e7a em todos os povos do mundo. Mesmo dentro da minoria cada vez mais reduzida que pensa sair beneficiada deste sistema, reina a insatisfa\u00e7\u00e3o e sobretudo a tristeza. Muitos esperam uma mudan\u00e7a que os liberte desta tristeza individualista que escraviza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O tempo, irm\u00e3os e irm\u00e3s, o tempo parece exaurir-se; j\u00e1 n\u00e3o nos contentamos com lutar entre n\u00f3s, mas chegamos at\u00e9 a assanhar-nos contra a nossa casa. Hoje, a comunidade cient\u00edfica aceita aquilo que os pobres j\u00e1 h\u00e1 muito denunciam: est\u00e3o a produzir-se danos talvez irrevers\u00edveis no ecossistema. Est\u00e1-se a castigar a terra, os povos e as pessoas de forma quase selvagem. E por tr\u00e1s de tanto sofrimento, tanta morte e destrui\u00e7\u00e3o, sente-se o cheiro daquilo que Bas\u00edlio de Cesareia \u2013 um dos primeiros te\u00f3logos da Igreja &#8211; chamava \u00ab<em>o esterco do diabo<\/em>\u00bb: reina a ambi\u00e7\u00e3o desenfreada de dinheiro. \u00c9 este o\u00a0<em>esterco do diabo<\/em>. O servi\u00e7o ao bem comum fica em segundo plano. Quando o capital se torna um \u00eddolo e dirige as op\u00e7\u00f5es dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioecon\u00f4mico, arru\u00edna a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destr\u00f3i a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo e at\u00e9, como vemos, p\u00f5e em risco esta nossa casa comum, a irm\u00e3 e m\u00e3e terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o quero alongar-me na descri\u00e7\u00e3o dos efeitos malignos desta ditadura subtil: v\u00f3s conhecei-los! Mas tamb\u00e9m n\u00e3o basta assinalar as causas estruturais do drama social e ambiental contempor\u00e2neo. Sofremos de um certo excesso de diagn\u00f3stico, que \u00e0s vezes nos leva a um pessimismo charlat\u00e3o ou a rejubilar com o negativo. Ao ver a cr\u00f4nica negra de cada dia, pensamos que n\u00e3o haja nada que se possa fazer para al\u00e9m de cuidar de n\u00f3s mesmos e do pequeno c\u00edrculo da fam\u00edlia e dos amigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Que posso fazer eu, recolhedor de papel\u00e3o, catador de lixo, limpador, reciclador, frente a tantos problemas, se mal ganho para comer? Que posso fazer eu, artes\u00e3o, vendedor ambulante, carregador, trabalhador irregular, se n\u00e3o tenho sequer direitos laborais? Que posso fazer eu, camponesa, ind\u00edgena, pescador que dificilmente consigo resistir \u00e0 propaga\u00e7\u00e3o das grandes corpora\u00e7\u00f5es? Que posso fazer eu, a partir da minha comunidade, do meu barraco, da minha povoa\u00e7\u00e3o, da minha favela, quando sou diariamente discriminado e marginalizado? Que pode fazer aquele estudante, aquele jovem, aquele militante, aquele mission\u00e1rio que atravessa as favelas e os paradeiros com o cora\u00e7\u00e3o cheio de sonhos, mas quase sem nenhuma solu\u00e7\u00e3o para os seus problemas? Podem fazer muito. V\u00f3s, os mais humildes, os explorados, os pobres e exclu\u00eddos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade est\u00e1, em grande medida, nas vossas m\u00e3os, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca di\u00e1ria dos tr\u00eas \u201cT\u201d \u2013 entendido? &#8211; (trabalho, teto, terra), e tamb\u00e9m na vossa participa\u00e7\u00e3o como protagonistas nos grandes processos de mudan\u00e7a, mudan\u00e7as nacionais, mudan\u00e7as regionais e mudan\u00e7as mundiais. N\u00e3o se acanhem!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">2. Segundo.\u00a0<em>V\u00f3s sois semeadores de mudan\u00e7a<\/em>. Aqui, na Bol\u00edvia, ouvi uma frase de que gosto muito: \u00abprocesso de mudan\u00e7a\u00bb. A mudan\u00e7a concebida, n\u00e3o como algo que um dia chegar\u00e1 porque se imp\u00f4s esta ou aquela op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou porque se estabeleceu esta ou aquela estrutura social. Sabemos, amargamente, que uma mudan\u00e7a de estruturas, que n\u00e3o seja acompanhada por uma convers\u00e3o sincera das atitudes e do cora\u00e7\u00e3o, acaba a longo ou curto prazo por burocratizar-se, corromper-se e sucumbir. \u00c9 preciso mudar o cora\u00e7\u00e3o. Por isso gosto tanto da imagem do processo, onde a paix\u00e3o por semear, por regar serenamente o que outros ver\u00e3o florescer, substitui a ansiedade de ocupar todos os espa\u00e7os de poder dispon\u00edveis e de ver resultados imediatos. A op\u00e7\u00e3o \u00e9 a de gerar processos e n\u00e3o a de ocupar espa\u00e7os. Cada um de n\u00f3s \u00e9 apenas uma parte de um todo complexo e diversificado interagindo no tempo: povos que lutam por uma afirma\u00e7\u00e3o, por um destino, por viver com dignidade, por \u00abviver bem\u00bb, dignamente, nesse sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">V\u00f3s, a partir dos movimentos populares, assumis as tarefas comuns motivados pelo amor fraterno, que se rebela contra a injusti\u00e7a social. Quando olhamos o rosto dos que sofrem, o rosto do campon\u00eas amea\u00e7ado, do trabalhador exclu\u00eddo, do ind\u00edgena oprimido, da fam\u00edlia sem teto, do imigrante perseguido, do jovem desempregado, da crian\u00e7a explorada, da m\u00e3e que perdeu o seu filho num tiroteio porque o bairro foi tomado pelo narcotr\u00e1fico, do pai que perdeu a sua filha porque foi sujeita \u00e0 escravid\u00e3o; quando recordamos estes \u00ab<em>rostos e estes nomes<\/em>\u00bb estremecem-nos as entranhas diante de tanto sofrimento e comovemo-nos, todos nos comovemos\u2026. Porque \u00ab<em>vimos e ouvimos<\/em>\u00bb, n\u00e3o a fria estat\u00edstica, mas as feridas da humanidade dolorida, as nossas feridas, a nossa carne. Isto \u00e9 muito diferente da teoriza\u00e7\u00e3o abstrata ou da indigna\u00e7\u00e3o elegante. Isto comove-nos, move-nos e procuramos o outro para nos movermos juntos. Esta emo\u00e7\u00e3o feita ac\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria \u00e9 incompreens\u00edvel apenas com a raz\u00e3o: tem um\u00a0<em>plus<\/em>\u00a0de sentido que s\u00f3 os povos entendem e que confere a sua m\u00edstica particular aos verdadeiros movimentos populares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">V\u00f3s viveis, cada dia, imersos na crueza da tormenta humana. Falastes-me das vossas causas, partilhastes comigo as vossas lutas, j\u00e1 desde Buenos Aires. E agrade\u00e7o-vos. Queridos irm\u00e3os, muitas vezes trabalhais no insignificante, no que aparece ao vosso alcance, na realidade injusta que vos foi imposta e a que n\u00e3o vos resignais opondo uma resist\u00eancia ativa ao sistema id\u00f3latra que exclui, degrada e mata. Vi-vos trabalhar incansavelmente pela terra e a agricultura camponesa, pelos vossos territ\u00f3rios e comunidades, pela dignifica\u00e7\u00e3o da economia popular, pela integra\u00e7\u00e3o urbana das vossas favelas e agrupamentos, pela auto-constru\u00e7\u00e3o de moradias e o desenvolvimento das infra-estruturas do bairro e em muitas atividades comunit\u00e1rias que tendem \u00e0 reafirma\u00e7\u00e3o de algo t\u00e3o elementar e inegavelmente necess\u00e1rio como o direito aos \u201c3 T\u201d: terra, teto e trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Este apego ao bairro, \u00e0 terra, \u00e0 profiss\u00e3o, \u00e0 corpora\u00e7\u00e3o, este reconhecer-se no rosto do outro, esta proximidade no dia-a-dia, com as suas mis\u00e9rias, porque elas existem, temo-las n\u00f3s mesmos, e os seus hero\u00edsmos quotidianos, \u00e9 o que permite realizar o mandamento do amor, n\u00e3o a partir de ideias ou conceitos, mas a partir do genu\u00edno encontro entre pessoas, precisamos instaurar esta cultura do encontro, porque n\u00e3o se amam os conceitos nem as ideias, ningu\u00e9m ama um conceito, ningu\u00e9m ama uma ideia; amam-se as pessoas. A entrega, a verdadeira entrega nasce do amor pelos homens e mulheres, crian\u00e7as e idosos, vilarejos e comunidades&#8230; Rostos e nomes que enchem o cora\u00e7\u00e3o. A partir destas sementes de esperan\u00e7a semeadas pacientemente nas periferias esquecidas do planeta, destes rebentos de ternura que lutam por subsistir na escurid\u00e3o da exclus\u00e3o, crescer\u00e3o grandes \u00e1rvores, surgir\u00e3o bosques densos de esperan\u00e7a para oxigenar este mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vejo, com alegria, que trabalhais no que aparece ao vosso alcance, cuidando dos rebentos; mas, ao mesmo tempo, com uma perspectiva mais ampla, protegendo o arvoredo. Trabalhais numa perspectiva que n\u00e3o s\u00f3 aborda a realidade setorial que cada um de v\u00f3s representa e na qual felizmente est\u00e1 enraizada, mas procurais tamb\u00e9m resolver, na sua raiz, os problemas gerais de pobreza, desigualdade e exclus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Felicito-vos por isso. \u00c9 imprescind\u00edvel que, a par da reivindica\u00e7\u00e3o dos seus leg\u00edtimos direitos, os povos e as organiza\u00e7\u00f5es sociais construam uma alternativa humana \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o exclusiva. V\u00f3s sois semeadores de mudan\u00e7a. Que Deus vos d\u00ea coragem, vos d\u00ea alegria, vos d\u00ea perseveran\u00e7a e paix\u00e3o para continuar a semear. Podeis ter a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, vamos ver os frutos. Pe\u00e7o aos dirigentes: sede criativos e nunca percais o apego \u00e0s coisas pr\u00f3ximas, porque o pai da mentira sabe usurpar palavras nobres, promover modas intelectuais e adotar posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, mas se construirdes sobre bases s\u00f3lidas, sobre as necessidades reais e a experi\u00eancia viva dos vossos irm\u00e3os, dos camponeses e ind\u00edgenas, dos trabalhadores exclu\u00eddos e fam\u00edlias marginalizadas, de certeza n\u00e3o vos equivocareis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Igreja n\u00e3o pode nem deve ficar alheia a este processo no an\u00fancio do Evangelho. Muitos sacerdotes e agentes pastorais realizam uma tarefa imensa acompanhando e promovendo os exclu\u00eddos de todo o mundo, ao lado de cooperativas, dando impulso a empreendimentos, construindo casas, trabalhando abnegadamente nas \u00e1reas da sa\u00fade, desporto e educa\u00e7\u00e3o. Estou convencido de que a coopera\u00e7\u00e3o amistosa com os movimentos populares pode robustecer estes esfor\u00e7os e fortalecer os processos de mudan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No cora\u00e7\u00e3o, tenhamos sempre a Virgem Maria, uma jovem humilde duma pequena aldeia perdida na periferia dum grande imp\u00e9rio, uma m\u00e3e sem teto que soube transformar um curral de animais na casa de Jesus com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura. Maria \u00e9 sinal de esperan\u00e7a para os povos que sofrem dores de parto at\u00e9 que brote a justi\u00e7a. Rezo \u00e0 Virgem Maria, t\u00e3o venerada pelo povo boliviano, para que permita que este nosso Encontro seja fermento de mudan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">3. Por \u00faltimo, gostaria que reflet\u00edssemos, juntos, sobre algumas tarefas importantes neste momento hist\u00f3rico, pois queremos uma mudan\u00e7a positiva em benef\u00edcio de todos os nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s. Disto estamos certos! Queremos uma mudan\u00e7a que se enrique\u00e7a com o trabalho conjunto de governos, movimentos populares e outras for\u00e7as sociais. Sabemos isto tamb\u00e9m! Mas n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil definir o conte\u00fado da mudan\u00e7a, ou seja, o programa social que reflita este projeto de fraternidade e justi\u00e7a que esperamos, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil defini-lo. Neste sentido, n\u00e3o esperem uma receita deste Papa. Nem o Papa nem a Igreja t\u00eam o monop\u00f3lio da interpreta\u00e7\u00e3o da realidade social e da proposta de solu\u00e7\u00f5es para problemas contempor\u00e2neos. Atrever-me-ia a dizer que n\u00e3o existe uma receita. A hist\u00f3ria \u00e9 constru\u00edda pelas gera\u00e7\u00f5es que se v\u00e3o sucedendo no horizonte de povos que avan\u00e7am individuando o pr\u00f3prio caminho e respeitando os valores que Deus colocou no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Gostaria, no entanto, de vos propor tr\u00eas grandes tarefas que requerem a decisiva contribui\u00e7\u00e3o do conjunto dos movimentos populares:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">3.1\u00a0<em>A primeira tarefa \u00e9 p\u00f4r a economia ao servi\u00e7o dos povos<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os seres humanos e a natureza n\u00e3o devem estar ao servi\u00e7o do dinheiro. Digamos N\u00c3O a uma economia de exclus\u00e3o e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destr\u00f3i a M\u00e3e Terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A economia n\u00e3o deveria ser um mecanismo de acumula\u00e7\u00e3o, mas a condigna administra\u00e7\u00e3o da casa comum. Isto implica cuidar zelosamente da casa e distribuir adequadamente os bens entre todos. A sua finalidade n\u00e3o \u00e9 unicamente garantir o alimento ou um \u00ab<em>decoroso sustento\u00bb<\/em>. N\u00e3o \u00e9 sequer, embora fosse j\u00e1 um grande passo, garantir o acesso aos \u201c3 T\u201d pelos quais combateis. Uma economia verdadeiramente comunit\u00e1ria \u2013 poder-se-ia dizer, uma economia de inspira\u00e7\u00e3o crist\u00e3 \u2013 deve garantir aos povos dignidade, \u00ab<em>prosperidade e civiliza\u00e7\u00e3o em seus m\u00faltiplos aspectos<\/em>\u00bb.<a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2015\/july\/documents\/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html#_ftn1\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[1]<\/a>\u00a0Esta \u00faltima frase foi pronunciada pelo Papa Jo\u00e3o XXIII h\u00e1 cinquenta anos. Jesus fala no Evangelho que aquele que espontaneamente d\u00ea um copo-d\u2019\u00e1gua a quem tem sede, isso lhe ser\u00e1 tido em conta no Reino dos C\u00e9us. Isto envolve os \u201c3 T\u201d mas tamb\u00e9m acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 inova\u00e7\u00e3o, \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e culturais, \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o, ao desporto e \u00e0 recrea\u00e7\u00e3o. Uma economia justa deve criar as condi\u00e7\u00f5es para que cada pessoa possa gozar duma inf\u00e2ncia sem priva\u00e7\u00f5es, desenvolver os seus talentos durante a juventude, trabalhar com plenos direitos durante os anos de atividade e ter acesso a uma digna aposentadoriao na velhice. \u00c9 uma economia onde o ser humano, em harmonia com a natureza, estrutura todo o sistema de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de tal modo que as capacidades e necessidades de cada um encontrem um apoio adequado no ser social. V\u00f3s \u2013 e outros povos tamb\u00e9m \u2013 resumis este anseio duma maneira simples e bela: \u00abviver bem\u00bb, que n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que \u00abaproveitar\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esta economia \u00e9 n\u00e3o apenas desej\u00e1vel e necess\u00e1ria, mas tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 uma utopia, nem uma fantasia. \u00c9 uma perspectiva extremamente realista. Podemos consegui-la. Os recursos dispon\u00edveis no mundo, fruto do trabalho intergeneracional dos povos e dos dons da cria\u00e7\u00e3o, s\u00e3o mais que suficientes para o desenvolvimento integral de \u00ab<em>todos os homens e do homem todo<\/em>\u00bb.<a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2015\/july\/documents\/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html#_ftn2\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[2]<\/a>\u00a0Mas o problema \u00e9 outro. Existe um sistema com outros objetivos. Um sistema que, al\u00e9m de acelerar irresponsavelmente os ritmos da produ\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de implementar m\u00e9todos na ind\u00fastria e na agricultura que sacrificam a M\u00e3e Terra na ara da \u00abprodutividade\u00bb, continua a negar a milhares de milh\u00f5es de irm\u00e3os os mais elementares direitos econ\u00f4micos, sociais e culturais. Este sistema atenta contra o projeto de Jesus, contra a Boa Nova que Jesus trouxe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A justa distribui\u00e7\u00e3o dos frutos da terra e do trabalho humano n\u00e3o \u00e9 mera filantropia. \u00c9 um dever moral. Para os crist\u00e3os, o encargo \u00e9 ainda mais forte: \u00e9 um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres e \u00e0s pessoas o que lhes pertence. O destino universal dos bens n\u00e3o \u00e9 um adorno ret\u00f3rico da doutrina social da Igreja. \u00c9 uma realidade anterior \u00e0 propriedade privada. A propriedade, sobretudo quando afeta os recursos naturais, deve estar sempre em fun\u00e7\u00e3o das necessidades das pessoas. E estas necessidades n\u00e3o se limitam ao consumo. N\u00e3o basta deixar cair algumas gotas, quando os pobres agitam este copo que, por si s\u00f3, nunca derrama. Os planos de assist\u00eancia que acodem a certas emerg\u00eancias deveriam ser pensados apenas como respostas transit\u00f3rias, conjunturais. Nunca poderiam substituir a verdadeira inclus\u00e3o: a inclus\u00e3o que d\u00e1 o trabalho digno, livre, criativo, participativo e solid\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E neste caminho, os movimentos populares t\u00eam um papel essencial, n\u00e3o apenas exigindo e reclamando, mas fundamentalmente criando. V\u00f3s sois poetas sociais: criadores de trabalho, construtores de casas, produtores de alimentos, sobretudo para os descartados pelo mercado global.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Conheci de perto v\u00e1rias experi\u00eancias, onde os trabalhadores, unidos em cooperativas e outras formas de organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, conseguiram criar trabalho onde s\u00f3 havia sobras da economia id\u00f3latra. E vi que alguns est\u00e3o aqui. As empresas recuperadas, as feiras francas e as cooperativas de catadores de papel\u00e3o s\u00e3o exemplos desta economia popular que surge da exclus\u00e3o e que pouco a pouco, com esfor\u00e7o e paci\u00eancia, adota formas solid\u00e1rias que a dignificam. E qu\u00e3o diferente \u00e9 isto do fato de os descartados pelo mercado formal serem explorados como escravos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os governos que assumem como pr\u00f3pria a tarefa de colocar a economia ao servi\u00e7o das pessoas devem promover o fortalecimento, melhoria, coordena\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o destas formas de economia popular e produ\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. Isto implica melhorar os processos de trabalho, prover de adequadas infra-estruturas e garantir plenos direitos aos trabalhadores deste sector alternativo. Quando Estado e organiza\u00e7\u00f5es sociais assumem, juntos, a miss\u00e3o dos \u201c3 T\u201d, ativam-se os princ\u00edpios de solidariedade e subsidiariedade que permitem construir o bem comum numa democracia plena e participativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">3.2\u00a0<em>A segunda tarefa \u00e9 unir os nossos povos no caminho da paz e da justi\u00e7a<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os povos do mundo querem ser art\u00edfices do seu pr\u00f3prio destino. Querem caminhar em paz para a justi\u00e7a. N\u00e3o querem tutelas nem interfer\u00eancias, onde o mais forte subordina o mais fraco. Querem que a sua cultura, o seu idioma, os seus processos sociais e tradi\u00e7\u00f5es religiosas sejam respeitados. Nenhum poder efetivamente constitu\u00eddo tem direito de privar os pa\u00edses pobres do pleno exerc\u00edcio da sua soberania e, quando o fazem, vemos novas formas de colonialismo que afectam seriamente as possibilidades de paz e justi\u00e7a, porque \u00ab<em>a paz funda-se n\u00e3o s\u00f3 no respeito pelos direitos do homem, mas tamb\u00e9m no respeito pelo direito dos povos, sobretudo o direito \u00e0 independ\u00eancia<\/em>\u00bb.<a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2015\/july\/documents\/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html#_ftn3\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[3]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os povos da Am\u00e9rica Latina alcan\u00e7aram, com um parto doloroso, a sua independ\u00eancia pol\u00edtica e, desde ent\u00e3o, viveram j\u00e1 quase dois s\u00e9culos duma hist\u00f3ria dram\u00e1tica e cheia de contradi\u00e7\u00f5es procurando conquistar uma independ\u00eancia plena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nos \u00faltimos anos, depois de tantos mal-entendidos, muitos pa\u00edses latino-americanos viram crescer a fraternidade entre os seus povos. Os governos da regi\u00e3o juntaram seus esfor\u00e7os para fazer respeitar a sua soberania, a de cada pa\u00eds e a da regi\u00e3o como um todo que, de forma muito bela como faziam os nossos antepassados, chamam a \u00abP\u00e1tria Grande\u00bb. Pe\u00e7o-vos, irm\u00e3os e irm\u00e3s dos movimentos populares, que cuidem e fa\u00e7am crescer esta unidade. \u00c9 necess\u00e1rio manter a unidade contra toda a tentativa de divis\u00e3o, para que a regi\u00e3o cres\u00e7a em paz e justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Apesar destes avan\u00e7os, ainda subsistem fatores que atentam contra este desenvolvimento humano equitativo e coarctam a soberania dos pa\u00edses da \u00abP\u00e1tria Grande\u00bb e doutras latitudes do Planeta. O novo colonialismo assume variadas fisionomias. \u00c0s vezes, \u00e9 o poder an\u00f4nimo do \u00eddolo dinheiro: corpora\u00e7\u00f5es, credores, alguns tratados denominados \u00abde livre com\u00e9rcio\u00bb e a imposi\u00e7\u00e3o de medidas de \u00abausteridade\u00bb que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres. Os bispos latino-americanos o denunciamos muito claramente, no documento de Aparecida, quando se afirma que \u00ab<em>as institui\u00e7\u00f5es financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem ao ponto de subordinar as economias locais, sobretudo debilitando os Estados, que aparecem cada vez mais impotentes para levar adiante projetos de desenvolvimento a servi\u00e7o de suas popula\u00e7\u00f5es<\/em>\u00bb.<a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2015\/july\/documents\/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html#_ftn4\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[4]<\/a>\u00a0Noutras ocasi\u00f5es, sob o nobre disfarce da luta contra a corrup\u00e7\u00e3o, o narcotr\u00e1fico ou o terrorismo \u2013 graves males dos nossos tempos que requerem uma a\u00e7\u00e3o internacional coordenada \u2013 vemos que se imp\u00f5em aos Estados medidas que pouco t\u00eam a ver com a resolu\u00e7\u00e3o de tais problem\u00e1ticas e muitas vezes tornam as coisas piores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Da mesma forma, a concentra\u00e7\u00e3o monopolista dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social que pretende impor padr\u00f5es alienantes de consumo e certa uniformidade cultural \u00e9 outra das formas que adota o novo colonialismo. \u00c9 o colonialismo ideol\u00f3gico. Como dizem os bispos da \u00c1frica, muitas vezes pretende-se converter os pa\u00edses pobres em \u00ab<em>pe\u00e7as de um mecanismo, partes de uma engrenagem gigante<\/em>\u00bb.<a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2015\/july\/documents\/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html#_ftn5\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[5]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Temos de reconhecer que nenhum dos graves problemas da humanidade pode ser resolvido sem a intera\u00e7\u00e3o dos Estados e dos povos a n\u00edvel internacional. Qualquer acto de envergadura realizado numa parte do Planeta repercute-se no todo em termos econ\u00f4micos, ecol\u00f3gicos, sociais e culturais. At\u00e9 o crime e a viol\u00eancia se globalizaram. Por isso, nenhum governo pode atuar \u00e0 margem duma responsabilidade comum. Se queremos realmente uma mudan\u00e7a positiva, temos de assumir humildemente a nossa interdepend\u00eancia, ou seja, nossa s\u00e3 interdepend\u00eancia. Mas intera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de imposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 subordina\u00e7\u00e3o de uns em fun\u00e7\u00e3o dos interesses dos outros. O colonialismo, novo e velho, que reduz os pa\u00edses pobres a meros fornecedores de mat\u00e9rias-primas e m\u00e3o de obra barata, gera viol\u00eancia, mis\u00e9ria, emigra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas e todos os males que v\u00eam juntos&#8230; precisamente porque, ao p\u00f4r a periferia em fun\u00e7\u00e3o do centro, nega-lhes o direito a um desenvolvimento integral. E isto, irm\u00e3os, \u00e9 desigualdade, e a desigualdade gera viol\u00eancia que nenhum recurso policial, militar ou dos servi\u00e7os secretos ser\u00e1 capaz de deter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Digamos assim N\u00c3O \u00e0s velhas e novas formas de colonialismo. Digamos SIM ao encontro entre povos e culturas. Bem-aventurados os que trabalham pela paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E aqui quero deter-me num tema importante. \u00c9 que algu\u00e9m poder\u00e1, com direito, dizer: \u00abQuando o Papa fala de colonialismo, esquece-se de certas a\u00e7\u00f5es da Igreja\u00bb. Com pesar, vo-lo digo: Cometeram-se muitos e graves pecados contra os povos nativos da Am\u00e9rica, em nome de Deus. Reconheceram-no os meus antecessores, afirmou-o o CELAM, o Conselho Episcopal Latino-americano, e quero reafirm\u00e1-lo eu tamb\u00e9m. Como S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, pe\u00e7o que a Igreja \u2013 e cito o que ele disse &#8211; \u00ab<em>se ajoelhe diante de Deus e implore o perd\u00e3o para os pecados passados e presentes dos seus filhos<\/em>\u00bb.<a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2015\/july\/documents\/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html#_ftn6\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[6]<\/a>\u00a0E eu quero dizer-vos, quero ser muito claro, como foi S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II:\u00a0<em>Pe\u00e7o humildemente perd\u00e3o<\/em>, n\u00e3o s\u00f3 para as ofensas da pr\u00f3pria Igreja, mas tamb\u00e9m para os crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da Am\u00e9rica. E junto com este pedido de perd\u00e3o e para ser justos, tamb\u00e9m quero que lembremos a milhares de sacerdotes, bispos, que fizeram oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00f3gica da espada com a for\u00e7a da Cruz. Houve pecado, e pecado abundante, mas n\u00e3o pedimos perd\u00e3o no passado. Por isso agora pedimos perd\u00e3o, e pe\u00e7o perd\u00e3o; mas tamb\u00e9m l\u00e1, onde houve pecado, onde abundou o pecado, superabundou a gra\u00e7a atrav\u00e9s destes homens que defenderam a justi\u00e7a dos povos origin\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Pe\u00e7o-vos tamb\u00e9m a todos, crentes e n\u00e3o crentes, que se recordem de tantos bispos, sacerdotes e leigos que pregaram e pregam a boa nova de Jesus com coragem e mansid\u00e3o, respeito e em paz \u2013 falei dos bispos, sacerdotes e leigos, mas n\u00e3o quero esquecer-me das freirinhas que caminham anonimamente nos vossos bairros pobres levando uma mensagem de paz e de bem-; que, na sua passagem por esta vida, deixaram impressionantes obras de promo\u00e7\u00e3o humana e de amor, pondo-se muitas vezes ao lado dos povos ind\u00edgenas ou acompanhando os pr\u00f3prios movimentos populares mesmo at\u00e9 ao mart\u00edrio. A Igreja, os seus filhos e filhas, fazem parte da identidade dos povos na Am\u00e9rica Latina. Identidade que alguns poderes, tanto aqui como noutros pa\u00edses, se empenham por apagar, talvez porque a nossa f\u00e9 \u00e9 revolucion\u00e1ria, porque a nossa f\u00e9 desafia a tirania do \u00eddolo dinheiro. Hoje vemos, com horror, como no M\u00e9dio Oriente e noutros lugares do mundo se persegue, tortura, assassina a muitos irm\u00e3os nossos pela sua f\u00e9 em Jesus. Isto tamb\u00e9m devemos denunci\u00e1-lo: dentro desta terceira guerra mundial em parcelas que vivemos, h\u00e1 uma esp\u00e9cie de \u2013 for\u00e7o um pouco a express\u00e3o &#8211; genoc\u00eddio em curso que deve cessar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aos irm\u00e3os e irm\u00e3s do movimento ind\u00edgena latino-americano, deixem-me expressar a minha mais profunda estima e felicit\u00e1-los por procurarem a conjuga\u00e7\u00e3o dos seus povos e culturas segundo uma forma de conviv\u00eancia, a que eu gosto de chamar poli\u00e9drica, onde as partes conservam a sua identidade construindo, juntas, uma pluralidade que n\u00e3o atenta contra a unidade, mas fortalece-a. A sua procura desta interculturalidade que conjuga a reafirma\u00e7\u00e3o dos direitos dos povos nativos com o respeito \u00e0 integridade territorial dos Estados enriquece-nos e fortalece-nos a todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">3.3 E a<em>\u00a0<\/em><em>terceira tarefa, e talvez a mais importante que devemos assumir hoje, \u00e9 defender a M\u00e3e Terra<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A casa comum de todos n\u00f3s est\u00e1 a ser saqueada, devastada, vexada impunemente. A covardia em defend\u00ea-la \u00e9 um pecado grave. Vemos, com crescente decep\u00e7\u00e3o, sucederem-se uma ap\u00f3s outra as cimeiras internacionais sem qualquer resultado importante. Existe um claro, definitivo e inadi\u00e1vel imperativo \u00e9tico de atuar que n\u00e3o est\u00e1 a ser cumprido. N\u00e3o se pode permitir que certos interesses \u2013 que s\u00e3o globais, mas n\u00e3o universais \u2013 se imponham, submetendo Estados e organismos internacionais, e continuem a destruir a cria\u00e7\u00e3o. Os povos e os seus movimentos s\u00e3o chamados a clamar, mobilizar-se, exigir \u2013 pac\u00edfica mas tenazmente \u2013 a ado\u00e7\u00e3o urgente de medidas apropriadas. Pe\u00e7o-vos, em nome de Deus, que defendais a M\u00e3e Terra. Sobre este assunto, expressei-me devidamente na carta enc\u00edclica\u00a0<em>Laudato si\u2019,<\/em><em>\u00a0<\/em>que creio que vos ser\u00e1 entregue na conclus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">4. Para concluir, quero dizer-lhes novamente: O futuro da humanidade n\u00e3o est\u00e1 unicamente nas m\u00e3os dos grandes dirigentes, das grandes pot\u00eancias e das elites. Est\u00e1 fundamentalmente nas m\u00e3os dos povos; na sua capacidade de se organizarem e tamb\u00e9m nas suas m\u00e3os que regem, com humildade e convic\u00e7\u00e3o, este processo de mudan\u00e7a. Estou convosco. E cada um, repitamos a n\u00f3s mesmos do fundo do cora\u00e7\u00e3o: nenhuma fam\u00edlia sem teto, nenhum campon\u00eas sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma crian\u00e7a sem inf\u00e2ncia, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem uma veneranda velhice. Continuai com a vossa luta e, por favor, cuidai bem da M\u00e3e Terra. Acreditai em mim, e sou sincero, de cora\u00e7\u00e3o vos digo: Rezo por v\u00f3s, rezo convosco e quero pedir a nosso Pai Deus que vos acompanhe e aben\u00e7oe, que vos cumule do seu amor e defenda no caminho concedendo-vos, em abund\u00e2ncia, aquela for\u00e7a que nos mant\u00e9m de p\u00e9: esta for\u00e7a \u00e9 a esperan\u00e7a, a esperan\u00e7a que n\u00e3o decepciona. E pe\u00e7o-vos, por favor, que rezeis por mim. E se algum de v\u00f3s n\u00e3o pode rezar, com todo o respeito, pe\u00e7o-te que me tenha em teus pensamentos e mande-me uma boa \u201conda\u201d. Obrigado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0<br \/> \u00a0<\/p>\n<div>\n<hr width=\"33%\" size=\"1\" \/><\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2015\/july\/documents\/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html#_ftnref1\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[1]<\/a>JO\u00c3O XXIII, Carta enc.\u00a0<em>Mater et Magistra<\/em>\u00a0(15 de Maio de 1961), 3:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a053 (1961), 402.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2015\/july\/documents\/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html#_ftnref2\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[2]<\/a>PAULO VI, Carta enc.\u00a0<em>Popolorum progressio<\/em>, 14.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2015\/july\/documents\/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html#_ftnref3\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[3]<\/a>PONTIF\u00cdCIO CONSELHO \u00abJUSTI\u00c7A E PAZ\u00bb,\u00a0<em>Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja<\/em>, 157.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2015\/july\/documents\/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html#_ftnref4\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[4]<\/a>V CONFER\u00caNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO E DO CARIBE (2007),\u00a0<em>Documento de Aparecida<\/em>, 66.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2015\/july\/documents\/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html#_ftnref5\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[5]<\/a>JO\u00c3O PAULO II, Exort. ap. p\u00f3s-sinodal\u00a0<em>Ecclesia in Africa<\/em>\u00a0(14 de Setembro de 1995), 52:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a088 (1996), 32-33. Cf. IDEM, Carta enc.\u00a0<em>Sollicitudo rei socialis<\/em>\u00a0(30 de Dezembro de 1987), 22:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a080 (1988), 539.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2015\/july\/documents\/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html#_ftnref6\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">[6]<\/a>JO\u00c3O PAULO II, Bula\u00a0<em>Incarnationis mysterium<\/em>, 11.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, ocorrido em Santa Cruz de La Sierra, Bol\u00edvia, de 7 a 9 de julho, \u00a0reuniu cerca de 1500 representantes de movimentos sociais que, durante os tr\u00eas dias, refletiram sobre o tema: &#8220;M\u00e3e Terra, Moradia, Trabalho &#8211; Integra\u00e7\u00e3o dos Povos&#8221;. A abertura do Encontro foi conduzida pelo presidente do &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/confira-a-integra-do-discurso-do-papa-francisco-no-encontro-mundial-dos-movimentos-populares\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Confira a \u00edntegra do discurso do papa Francisco no Encontro Mundial dos Movimentos Populares<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":28737,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[784],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/28736"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=28736"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/28736\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media\/28737"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=28736"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=28736"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=28736"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}