{"id":28995,"date":"2016-12-21T00:00:00","date_gmt":"2016-12-21T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/nao-violencia-e-tema-da-mensagem-do-papa-francisco-para-o-dia-mundial-da-paz\/"},"modified":"2016-12-21T00:00:00","modified_gmt":"2016-12-21T02:00:00","slug":"nao-violencia-e-tema-da-mensagem-do-papa-francisco-para-o-dia-mundial-da-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/nao-violencia-e-tema-da-mensagem-do-papa-francisco-para-o-dia-mundial-da-paz\/","title":{"rendered":"N\u00e3o viol\u00eancia \u00e9 tema da Mensagem do papa Francisco para o Dia Mundial da Paz"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-size: 12.16px\">Desejo do papa \u00e9 que caridade e n\u00e3o-viol\u00eancia sejam guias no modo de tratamento\u00a0nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, sociais e internacionais<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Vaticano divulgou a Mensagem do papa Francisco para 50\u00ba Dia Mundial da Paz, a ser celebrado no dia 1\u00ba de janeiro de 2017. Para a ocasi\u00e3o, o bispo de Roma prop\u00f4s o tema \u201cA n\u00e3o-viol\u00eancia: estilo de uma pol\u00edtica para a paz\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cAlmejo paz a todo o homem, mulher, menino e menina, e rezo para que a imagem e semelhan\u00e7a de Deus em cada pessoa nos permitam reconhecer-nos mutuamente como dons sagrados com uma dignidade imensa. Sobretudo nas situa\u00e7\u00f5es de conflito, respeitemos esta \u2018dignidade mais profunda\u2019 e fa\u00e7amos da n\u00e3o-viol\u00eancia ativa o nosso estilo de vida\u201d, escreveu o pont\u00edfice.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cSejam a caridade e a n\u00e3o-viol\u00eancia a guiar o modo como nos tratamos uns aos outros nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, sociais e internacionais. Quando sabem resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o da vingan\u00e7a, as v\u00edtimas da viol\u00eancia podem ser os protagonistas mais cred\u00edveis de processos n\u00e3o-violentos de constru\u00e7\u00e3o da paz\u201d, sugere Francisco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Al\u00e9m das reflex\u00f5es apresentadas no texto, com o convite para autoridades para \u201caplicar as Bem-aventuran\u00e7as na forma como exercem as suas responsabilidades\u201d, o papa recorda que no dia 1\u00ba de janeiro de 2017, ter\u00e3o in\u00edcio as atividades do novo Dicast\u00e9rio para o Servi\u00e7o do Desenvolvimento Humano Integral, \u201cque ajudar\u00e1 a Igreja a promover, de modo cada vez mais eficaz, \u2018os bens incomensur\u00e1veis da justi\u00e7a, da paz e da salvaguarda da cria\u00e7\u00e3o\u2019 e da solicitude pelos migrantes, \u2018os necessitados, os doentes e os exclu\u00eddos, os marginalizados e as v\u00edtimas dos conflitos armados e das cat\u00e1strofes naturais, os reclusos, os desempregados e as v\u00edtimas de toda e qualquer forma de escravid\u00e3o e de tortura\u2019\u201d. Na mensagem, Francisco ressalta que toda a a\u00e7\u00e3o nesta linha de atua\u00e7\u00e3o do novo organismo da c\u00faria romana, ainda que modesta, \u201ccontribui para construir um mundo livre da viol\u00eancia, o primeiro passo para a justi\u00e7a e a paz\u201d.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify\">Fotos: reprodu\u00e7\u00e3o\/instagram.com\/franciscus<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify\">Leia a mensagem na \u00edntegra:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center\"><strong>MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA A CELEBRA\u00c7\u00c3O DO 50\u00ba DIA MUNDIAL DA PAZ\u00a0<\/strong><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center\">1\u00b0 DE JANEIRO DE 2017<\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center\"><em>A n\u00e3o-viol\u00eancia: estilo de uma pol\u00edtica para a paz<\/em><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">1. No in\u00edcio deste novo ano, formulo sinceros votos de paz aos povos e na\u00e7\u00f5es do mundo inteiro, aos chefes de Estado e de governo, bem como aos respons\u00e1veis das Comunidades Religiosas e das v\u00e1rias express\u00f5es da sociedade civil. Almejo paz a todo o homem, mulher, menino e menina, e rezo para que a imagem e semelhan\u00e7a de Deus em cada pessoa nos permitam reconhecer-nos mutuamente como dons sagrados com uma dignidade imensa. Sobretudo nas situa\u00e7\u00f5es de conflito, respeitemos esta \u00abdignidade mais profunda\u00bb[1] e fa\u00e7amos da n\u00e3o-viol\u00eancia ativa o nosso estilo de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esta \u00e9 a Mensagem para o 50\u00ba Dia Mundial da Paz. Na primeira, o Beato Papa Paulo VI dirigiu-se a todos os povos \u2013 e n\u00e3o s\u00f3 aos cat\u00f3licos \u2013 com palavras inequ\u00edvocas: \u00abFinalmente resulta, de forma clar\u00edssima, que a paz \u00e9 a \u00fanica e verdadeira linha do progresso humano (n\u00e3o as tens\u00f5es de nacionalismos ambiciosos, nem as conquistas violentas, nem as repress\u00f5es geradoras duma falsa ordem civil)\u00bb. Advertia contra o \u00abperigo de crer que as controv\u00e9rsias internacionais n\u00e3o se possam resolver pelas vias da raz\u00e3o, isto \u00e9, das negocia\u00e7\u00f5es baseadas no direito, na justi\u00e7a, na equidade, mas apenas pelas vias dissuasivas e devastadoras\u00bb. Ao contr\u00e1rio, citando a Pacem in terris do seu antecessor S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII, exaltava \u00abo sentido e o amor da paz baseada na verdade, na justi\u00e7a, na liberdade, no amor\u00bb.[2] \u00c9 impressionante a atualidade destas palavras, n\u00e3o menos importantes e prementes hoje do que h\u00e1 cinquenta anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nesta ocasi\u00e3o, desejo deter-me na n\u00e3o-viol\u00eancia como estilo duma pol\u00edtica de paz, e pe\u00e7o a Deus que nos ajude, a todos n\u00f3s, a inspirar na n\u00e3o-viol\u00eancia as profundezas dos nossos sentimentos e valores pessoais. Sejam a caridade e a n\u00e3o-viol\u00eancia a guiar o modo como nos tratamos uns aos outros nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, sociais e internacionais. Quando sabem resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o da vingan\u00e7a, as v\u00edtimas da viol\u00eancia podem ser os protagonistas mais cred\u00edveis de processos n\u00e3o-violentos de constru\u00e7\u00e3o da paz. Desde o n\u00edvel local e di\u00e1rio at\u00e9 ao n\u00edvel da ordem mundial, possa a n\u00e3o-viol\u00eancia tornar-se o estilo carater\u00edstico das nossas decis\u00f5es, dos nossos relacionamentos, das nossas a\u00e7\u00f5es, da pol\u00edtica em todas as suas formas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Um mundo dilacerado<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">2. Enquanto o s\u00e9culo passado foi arrasado por duas guerras mundiais devastadoras, conheceu a amea\u00e7a da guerra nuclear e um grande n\u00famero de outros conflitos, hoje, infelizmente, encontramo-nos a bra\u00e7os com uma terr\u00edvel guerra mundial aos peda\u00e7os. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil saber se o mundo de hoje seja mais ou menos violento que o de ontem, nem se os meios modernos de comunica\u00e7\u00e3o e a mobilidade que carateriza a nossa \u00e9poca nos tornem mais conscientes da viol\u00eancia ou mais rendidos a ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Seja como for, esta viol\u00eancia que se exerce \u00abaos peda\u00e7os\u00bb, de maneiras diferentes e a variados n\u00edveis, provoca enormes sofrimentos de que estamos bem cientes: guerras em diferentes pa\u00edses e continentes; terrorismo, criminalidade e ataques armados imprevis\u00edveis; os abusos sofridos pelos migrantes e as v\u00edtimas de tr\u00e1fico humano; a devasta\u00e7\u00e3o ambiental. E para qu\u00ea? Porventura a viol\u00eancia permite alcan\u00e7ar objetivos de valor duradouro? Tudo aquilo que obt\u00e9m n\u00e3o \u00e9, antes, desencadear repres\u00e1lias e espirais de conflitos letais que beneficiam apenas a poucos \u00absenhores da guerra\u00bb?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o rem\u00e9dio para o nosso mundo dilacerado. Responder \u00e0 viol\u00eancia com a viol\u00eancia leva, na melhor das hip\u00f3teses, a migra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas e a atrozes sofrimentos, porque grandes quantidades de recursos s\u00e3o destinadas a fins militares e subtra\u00eddas \u00e0s exig\u00eancias do dia-a-dia dos jovens, das fam\u00edlias em dificuldade, dos idosos, dos doentes, da grande maioria dos habitantes da terra. No pior dos casos, pode levar \u00e0 morte f\u00edsica e espiritual de muitos, se n\u00e3o mesmo de todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Boa Nova<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">3. O pr\u00f3prio Jesus viveu em tempos de viol\u00eancia. Ensinou que o verdadeiro campo de batalha, onde se defrontam a viol\u00eancia e a paz, \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o humano: \u00abPorque \u00e9 do interior do cora\u00e7\u00e3o dos homens que saem os maus pensamentos\u00bb (Marcos 7, 21). Mas, perante esta realidade, a resposta que oferece a mensagem de Cristo \u00e9 radicalmente positiva: Ele pregou incansavelmente o amor incondicional de Deus, que acolhe e perdoa, e ensinou os seus disc\u00edpulos a amar os inimigos (cf. Mateus 5, 44) e a oferecer a outra face (cf. Mateus 5, 39). Quando impediu, aqueles que acusavam a ad\u00faltera, de a lapidar (cf. Jo\u00e3o 8, 1-11) e na noite antes de morrer, quando disse a Pedro para repor a espada na bainha (cf. Mateus 26, 52), Jesus tra\u00e7ou o caminho da n\u00e3o-viol\u00eancia que Ele percorreu at\u00e9 ao fim, at\u00e9 \u00e0 cruz, tendo assim estabelecido a paz e destru\u00eddo a hostilidade (cf. Ef\u00e9sios 2, 14-16). Por isso, quem acolhe a Boa Nova de Jesus, sabe reconhecer a viol\u00eancia que carrega dentro de si e deixa-se curar pela miseric\u00f3rdia de Deus, tornando-se assim, por sua vez, instrumento de reconcilia\u00e7\u00e3o, como exortava S\u00e3o Francisco de Assis: \u00abA paz que anunciais com os l\u00e1bios, conservai-a ainda mais abundante nos vossos cora\u00e7\u00f5es\u00bb.[3]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Hoje, ser verdadeiro disc\u00edpulo de Jesus significa aderir tamb\u00e9m \u00e0 sua proposta de n\u00e3o-viol\u00eancia. Esta, como afirmou o meu predecessor Bento XVI, \u00ab\u00e9 realista pois considera que no mundo existe demasiada viol\u00eancia, demasiada injusti\u00e7a e, portanto, n\u00e3o se pode superar esta situa\u00e7\u00e3o, exceto se lhe contrapuser algo mais de amor, algo mais de bondade. Este \u201calgo mais\u201d vem de Deus\u00bb.[4]E acrescentava sem hesita\u00e7\u00e3o: \u00aba n\u00e3o-viol\u00eancia para os crist\u00e3os n\u00e3o \u00e9 um mero comportamento t\u00e1tico, mas um modo de ser da pessoa, uma atitude de quem est\u00e1 t\u00e3o convicto do amor de Deus e do seu poder que n\u00e3o tem medo de enfrentar o mal somente com as armas do amor e da verdade. O amor ao inimigo constitui o n\u00facleo da \u201crevolu\u00e7\u00e3o crist\u00e3\u201d\u00bb.[5] A p\u00e1gina evang\u00e9lica \u2013 amai os vossos inimigos (cf. Lucas 6, 27) \u2013 \u00e9, justamente, considerada \u00aba magna carta da n\u00e3o-viol\u00eancia crist\u00e3\u00bb: esta n\u00e3o consiste \u00abem render-se ao mal (&#8230;), mas em responder ao mal com o bem (cf. Romanos 12, 17-21), quebrando dessa forma a corrente da injusti\u00e7a\u00bb.[6]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mais poderosa que a viol\u00eancia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">4. Por vezes, entende-se a n\u00e3o-viol\u00eancia como rendi\u00e7\u00e3o, neglig\u00eancia e passividade, mas, na realidade, n\u00e3o \u00e9 isso. Quando a Madre Teresa recebeu o Pr\u00e9mio Nobel da Paz em 1979, declarou claramente qual era a sua ideia de n\u00e3o-viol\u00eancia ativa: \u00abNa nossa fam\u00edlia, n\u00e3o temos necessidade de bombas e de armas, n\u00e3o precisamos de destruir para edificar a paz, mas apenas de estar juntos, de nos amarmos uns aos outros (&#8230;). E poderemos superar todo o mal que h\u00e1 no mundo\u00bb.[7] Com efeito, a for\u00e7a das armas \u00e9 enganadora. \u00abEnquanto os traficantes de armas fazem o seu trabalho, h\u00e1 pobres pacificadores que, s\u00f3 para ajudar uma pessoa, outra e outra, d\u00e3o a vida\u00bb; para estes obreiros da paz, a Madre Teresa \u00e9 \u00abum s\u00edmbolo, um \u00edcone dos nossos tempos\u00bb.[8] No passado m\u00eas de setembro, tive a grande alegria de a proclamar Santa. Elogiei a sua disponibilidade para com todos \u00abatrav\u00e9s do acolhimento e da defesa da vida humana, a dos nascituros e a dos abandonados e descartados. (&#8230;) Inclinou-se sobre as pessoas indefesas, deixadas moribundas \u00e0 beira da estrada, reconhecendo a dignidade que Deus lhes dera; fez ouvir a sua voz aos poderosos da terra, para que reconhecessem a sua culpa diante dos crimes \u2013 diante dos crimes! \u2013 da pobreza criada por eles mesmos\u00bb.[9] Como resposta, a sua miss\u00e3o \u2013 e nisto representa milhares, antes, milh\u00f5es de pessoas \u2013 \u00e9 ir ao encontro das v\u00edtimas com generosidade e dedica\u00e7\u00e3o, tocando e vendando cada corpo ferido, curando cada vida dilacerada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A n\u00e3o-viol\u00eancia, praticada com decis\u00e3o e coer\u00eancia, produziu resultados impressionantes. Os sucessos alcan\u00e7ados por Mahatma Gandhi e Khan Abdul Ghaffar Khan, na liberta\u00e7\u00e3o da \u00cdndia, e por Martin Luther King Jr contra a discrimina\u00e7\u00e3o racial nunca ser\u00e3o esquecidos. As mulheres, em particular, s\u00e3o muitas vezes l\u00edderes de n\u00e3o-viol\u00eancia, como, por exemplo, Leymah Gbowee e milhares de mulheres liberianas, que organizaram encontros de ora\u00e7\u00e3o e protesto n\u00e3o-violento (pray-ins), obtendo negocia\u00e7\u00f5es de alto n\u00edvel para a conclus\u00e3o da segunda guerra civil na Lib\u00e9ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E n\u00e3o podemos esquecer tamb\u00e9m aquela d\u00e9cada epocal que terminou com a queda dos regimes comunistas na Europa. As comunidades crist\u00e3s deram a sua contribui\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da ora\u00e7\u00e3o insistente e a a\u00e7\u00e3o corajosa. Especial influ\u00eancia exerceu S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, com o seu minist\u00e9rio e magist\u00e9rio. Refletindo sobre os acontecimentos de 1989, na Enc\u00edclica Centesimus annus (1991), o meu predecessor fazia ressaltar como uma mudan\u00e7a epocal na vida dos povos, na\u00e7\u00f5es e Estados se realizara \u00abatrav\u00e9s de uma luta pac\u00edfica que lan\u00e7ou m\u00e3o apenas das armas da verdade e da justi\u00e7a\u00bb.[10] Este percurso de transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para a paz foi poss\u00edvel, em parte, \u00abpelo empenho n\u00e3o-violento de homens que sempre se recusaram a ceder ao poder da for\u00e7a e, ao mesmo tempo, souberam encontrar aqui e ali formas eficazes para dar testemunho da verdade\u00bb. E conclu\u00eda: \u00abQue os seres humanos aprendam a lutar pela justi\u00e7a sem viol\u00eancia, renunciando tanto \u00e0 luta de classes nas controv\u00e9rsias internas, como \u00e0 guerra nas internacionais\u00bb.[11]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Igreja comprometeu-se na implementa\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias n\u00e3o-violentas para promover a paz em muitos pa\u00edses solicitando, inclusive aos intervenientes mais violentos, esfor\u00e7os para construir uma paz justa e duradoura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Este compromisso a favor das v\u00edtimas da injusti\u00e7a e da viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 um patrim\u00f3nio exclusivo da Igreja Cat\u00f3lica, mas pertence a muitas tradi\u00e7\u00f5es religiosas, para quem \u00aba compaix\u00e3o e a n\u00e3o-viol\u00eancia s\u00e3o essenciais e indicam o caminho da vida\u00bb.[12] Reitero-o aqui sem hesita\u00e7\u00e3o: \u00abnenhuma religi\u00e3o \u00e9 terrorista\u00bb.[13] A viol\u00eancia \u00e9 uma profana\u00e7\u00e3o do nome de Deus.[14] Nunca nos cansemos de repetir: \u00abjamais o nome de Deus pode justificar a viol\u00eancia. S\u00f3 a paz \u00e9 santa. S\u00f3 a paz \u00e9 santa, n\u00e3o a guerra\u00bb.[15]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A raiz dom\u00e9stica duma pol\u00edtica n\u00e3o-violenta<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">5. Se a origem donde brota a viol\u00eancia \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o humano, ent\u00e3o \u00e9 fundamental come\u00e7ar por percorrer a senda da n\u00e3o-viol\u00eancia dentro da fam\u00edlia. \u00c9 uma componente daquela alegria do amor que apresentei na Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica Amoris laetitia, em mar\u00e7o passado, concluindo dois anos de reflex\u00e3o por parte da Igreja sobre o matrim\u00f3nio e a fam\u00edlia. Esta constitui o cadinho indispens\u00e1vel no qual c\u00f4njuges, pais e filhos, irm\u00e3os e irm\u00e3s aprendem a comunicar e a cuidar uns dos outros desinteressadamente e onde os atritos, ou mesmo os conflitos, devem ser superados, n\u00e3o pela for\u00e7a, mas com o di\u00e1logo, o respeito, a busca do bem do outro, a miseric\u00f3rdia e o perd\u00e3o.[16] A partir da fam\u00edlia, a alegria do amor propaga-se pelo mundo, irradiando para toda a sociedade.[17] Ali\u00e1s, uma \u00e9tica de fraternidade e coexist\u00eancia pac\u00edfica entre as pessoas e entre os povos n\u00e3o se pode basear na l\u00f3gica do medo, da viol\u00eancia e do fechamento, mas na responsabilidade, no respeito e no di\u00e1logo sincero. Neste sentido, lan\u00e7o um apelo a favor do desarmamento, bem como da proibi\u00e7\u00e3o e aboli\u00e7\u00e3o das armas nucleares: a dissuas\u00e3o nuclear e a amea\u00e7a duma segura destrui\u00e7\u00e3o rec\u00edproca n\u00e3o podem fundamentar este tipo de \u00e9tica.[18] Com igual urg\u00eancia, suplico que cessem a viol\u00eancia dom\u00e9stica e os abusos sobre mulheres e crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Jubileu da Miseric\u00f3rdia, que terminou em novembro passado, foi um convite a olhar para as profundezas do nosso cora\u00e7\u00e3o e a deixar entrar nele a miseric\u00f3rdia de Deus. O ano jubilar fez-nos tomar consci\u00eancia de como s\u00e3o numerosos e variados os indiv\u00edduos e os grupos sociais que s\u00e3o tratados com indiferen\u00e7a, que s\u00e3o v\u00edtimas de injusti\u00e7a e sofrem viol\u00eancia. Fazem parte da nossa \u00abfam\u00edlia\u00bb, s\u00e3o nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s. Por isso, as pol\u00edticas de n\u00e3o-viol\u00eancia devem come\u00e7ar dentro das paredes de casa para, depois, se difundir por toda a fam\u00edlia humana. \u00abO exemplo de Santa Teresa de Lisieux convida-nos a p\u00f4r em pr\u00e1tica o pequeno caminho do amor, a n\u00e3o perder a oportunidade duma palavra gentil, dum sorriso, de qualquer pequeno gesto que semeie paz e amizade. Uma ecologia integral \u00e9 feita tamb\u00e9m de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a l\u00f3gica da viol\u00eancia, da explora\u00e7\u00e3o, do ego\u00edsmo\u00bb.[19]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O meu convite<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">6. A constru\u00e7\u00e3o da paz por meio da n\u00e3o-viol\u00eancia ativa \u00e9 um elemento necess\u00e1rio e coerente com os esfor\u00e7os cont\u00ednuos da Igreja para limitar o uso da for\u00e7a atrav\u00e9s das normas morais, mediante a sua participa\u00e7\u00e3o nos trabalhos das institui\u00e7\u00f5es internacionais e gra\u00e7as \u00e0 competente contribui\u00e7\u00e3o de muitos crist\u00e3os para a elabora\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o a todos os n\u00edveis. O pr\u00f3prio Jesus nos oferece um \u00abmanual\u00bb desta estrat\u00e9gia de constru\u00e7\u00e3o da paz no chamado Serm\u00e3o da Montanha. As oito Bem-aventuran\u00e7as (cf. Mateus 5, 3-10) tra\u00e7am o perfil da pessoa que podemos definir feliz, boa e aut\u00eantica. Felizes os mansos \u2013 diz Jesus \u2013, os misericordiosos, os pacificadores, os puros de cora\u00e7\u00e3o, os que t\u00eam fome e sede de justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Este \u00e9 um programa e um desafio tamb\u00e9m para os l\u00edderes pol\u00edticos e religiosos, para os respons\u00e1veis das institui\u00e7\u00f5es internacionais e os dirigentes das empresas e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social de todo o mundo: aplicar as Bem-aventuran\u00e7as na forma como exercem as suas responsabilidades. \u00c9 um desafio a construir a sociedade, a comunidade ou a empresa de que s\u00e3o respons\u00e1veis com o estilo dos obreiros da paz; a dar provas de miseric\u00f3rdia, recusando-se a descartar as pessoas, danificar o meio ambiente e querer vencer a todo o custo. Isto requer a disponibilidade para \u00absuportar o conflito, resolv\u00ea-lo e transform\u00e1-lo no elo de liga\u00e7\u00e3o de um novo processo\u00bb.[20] Agir desta forma significa escolher a solidariedade como estilo para fazer a hist\u00f3ria e construir a amizade social. A n\u00e3o-viol\u00eancia ativa \u00e9 uma forma de mostrar que a unidade \u00e9, verdadeiramente, mais forte e fecunda do que o conflito. No mundo, tudo est\u00e1 intimamente ligado.[21] Claro, \u00e9 poss\u00edvel que as diferen\u00e7as gerem atritos: enfrentemo-los de forma construtiva e n\u00e3o-violenta, de modo que \u00abas tens\u00f5es e os opostos [possam] alcan\u00e7ar uma unidade multifacetada que gera nova vida\u00bb, conservando \u00abas preciosas potencialidades das polaridades em contraste\u00bb.[22]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Asseguro que a Igreja Cat\u00f3lica acompanhar\u00e1 toda a tentativa de construir a paz inclusive atrav\u00e9s da n\u00e3o-viol\u00eancia ativa e criativa. No dia 1 de janeiro de 2017, nasce o novo Dicast\u00e9rio para o Servi\u00e7o do Desenvolvimento Humano Integral, que ajudar\u00e1 a Igreja a promover, de modo cada vez mais eficaz, \u00abos bens incomensur\u00e1veis da justi\u00e7a, da paz e da salvaguarda da cria\u00e7\u00e3o\u00bb e da solicitude pelos migrantes, \u00abos necessitados, os doentes e os exclu\u00eddos, os marginalizados e as v\u00edtimas dos conflitos armados e das cat\u00e1strofes naturais, os reclusos, os desempregados e as v\u00edtimas de toda e qualquer forma de escravid\u00e3o e de tortura\u00bb.[23] Toda a a\u00e7\u00e3o nesta linha, ainda que modesta, contribui para construir um mundo livre da viol\u00eancia, o primeiro passo para a justi\u00e7a e a paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em conclus\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">7. Como \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o, assino esta Mensagem no dia 8 de dezembro, festa da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o da Bem-Aventurada Virgem Maria. Nossa Senhora \u00e9 a Rainha da Paz. No nascimento do seu Filho, os anjos glorificavam a Deus e almejavam paz na terra aos homens e mulheres de boa vontade (cf. Lucas 2, 14). Pe\u00e7amos \u00e0 Virgem Maria que nos sirva de guia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00abTodos desejamos a paz; muitas pessoas a constroem todos os dias com pequenos gestos; muitos sofrem e suportam pacientemente a dificuldade de tantas tentativas para a construir\u00bb.[24]No ano de 2017, comprometamo-nos, atrav\u00e9s da ora\u00e7\u00e3o e da a\u00e7\u00e3o, a tornar-nos pessoas que baniram dos seus cora\u00e7\u00f5es, palavras e gestos a viol\u00eancia, e a construir comunidades n\u00e3o-violentas, que cuidem da casa comum. \u00abNada \u00e9 imposs\u00edvel, se nos dirigimos a Deus na ora\u00e7\u00e3o. Todos podem ser artes\u00e3os de paz\u00bb.[25]<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Vaticano, 8 de dezembro de 2016.<\/p>\n<h4><em>Francisco<\/em><\/h4>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h5>[1] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 228.<\/h5>\n<h5>[2] Mensagem para a celebra\u00e7\u00e3o do 1\u00ba Dia Mundial da Paz, 1\u00b0 de janeiro de 1968.<\/h5>\n<h5>[3] \u00abLegenda dos tr\u00eas companheiros\u00bb: Fontes Franciscanas, n. 1469.<\/h5>\n<h5>[4] Angelus, 18 de fevereiro de 2007.<\/h5>\n<h5>[5] Ibidem.<\/h5>\n<h5>[6] Ibidem.<\/h5>\n<h5>[7] Discurso por ocasi\u00e3o da entrega do Pr\u00e9mio Nobel, 11 de dezembro de 1979.<\/h5>\n<h5>[8] Francisco, Medita\u00e7\u00e3o \u00abO caminho da paz\u00bb, Capela da Domus Sanctae Marthae, 19 de novembro de 2015.<\/h5>\n<h5>[9] Homilia na canoniza\u00e7\u00e3o da Beata Madre Teresa de Calcut\u00e1, 4 de setembro de 2016.<\/h5>\n<h5>[10] N. 23<\/h5>\n<h5>[11] Ibidem.<\/h5>\n<h5>[12] Francisco, Discurso na Audi\u00eancia inter-religiosa, 3 de novembro de 2016.<\/h5>\n<h5>[13] Idem, Discurso no III Encontro Mundial dos Movimentos Populares, 5 de novembro de 2016.<\/h5>\n<h5>[14] Cf. Idem, Discurso no Encontro com o Xeque dos Mu\u00e7ulmanos do C\u00e1ucaso e com Representantes das outras Comunidades Religiosas, Baku, 2 de outubro de 2016.<\/h5>\n<h5>[15] Idem, Discurso em Assis, 20 de setembro de 2016.<\/h5>\n<h5>[16] Cf. Exort. ap. p\u00f3s-sinodal Amoris laetitia, 90-130.<\/h5>\n<h5>[17] Cf. ibid., 133.194.234.<\/h5>\n<h5>[18] Cf. Francisco, Mensagem \u00e0 Confer\u00eancia sobre o impacto humanit\u00e1rio das armas nucleares, 7 de dezembro de 2014.<\/h5>\n<h5>[19] Idem, Carta enc. Laudato si\u2019, 230.<\/h5>\n<h5>[20] Idem, Exort. ap. Evangelii gaudium, 227.<\/h5>\n<h5>[21] Cf. Idem, Carta enc. Laudato si\u2019, 16.117.138.<\/h5>\n<h5>[22] Idem, Exort. ap. Evangelii gaudium, 228.<\/h5>\n<h5>[23] Idem, Carta apost\u00f3lica sob a forma de \u201cMotu proprio\u201d pela qual se institui o Dicast\u00e9rio para o Servi\u00e7o do Desenvolvimento Humano Integral, 17 de agosto de 2016.<\/h5>\n<h5>[24] Francisco, Regina Caeli, Bel\u00e9m, 25 de maio de 2014.<\/h5>\n<h5>[25] Apelo, Assis, 20 de setembro de 2016.<\/h5>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desejo do papa \u00e9 que caridade e n\u00e3o-viol\u00eancia sejam guias no modo de tratamento\u00a0nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, sociais e internacionais<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":28996,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[784],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/28995"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=28995"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/28995\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media\/28996"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=28995"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=28995"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=28995"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}