{"id":293821,"date":"2021-06-08T10:55:41","date_gmt":"2021-06-08T13:55:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=293821"},"modified":"2021-06-08T10:56:21","modified_gmt":"2021-06-08T13:56:21","slug":"sao-paulo-e-a-comunhao-eclesial-parte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/sao-paulo-e-a-comunhao-eclesial-parte-2\/","title":{"rendered":"S\u00e3o Paulo e a Comunh\u00e3o Eclesial (Parte 2)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><b>Dom Antonio de Assis Ribeiro<br \/>\nBispo Auxiliar de Bel\u00e9m do Par\u00e1 (PA)<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar das fragilidades internas presentes no grupo dos Doze, Onze compreenderam a ess\u00eancia da exig\u00eancia da Comunh\u00e3o e suas consequ\u00eancias. Lamentavelmente aquele que nada assimilou traiu o Mestre e, por orgulho, rompeu com a Igreja, isolou-se, saiu para satisfazer suas ilus\u00f5es e teve um fim dram\u00e1tico (cf. Mt 27,1-5). Judas Iscariotes \u00e9 s\u00edmbolo da vaidade e da autorreferencialidade que sempre contribui para o fracasso do sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Judas Iscariotes continua ainda vivo na Igreja e se manifesta nas m\u00faltiplas atitudes daqueles que pretendem acertar sozinhos, democraticamente, isolados, seguindo seus crit\u00e9rios, mas negando a comunh\u00e3o com Cristo e a Igreja. Dessa forma, negam as manifesta\u00e7\u00f5es do Esp\u00edrito Santo que a guia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pessoa ou grupo que na Igreja segue seus pr\u00f3prios interesses desconexos do senso de sinodalidade (do caminhar juntos, que exige paci\u00eancia!), n\u00e3o est\u00e1 em sintonia com os ensinamentos e nem com as atitudes de Jesus que sempre esteve em obedi\u00eancia e comunh\u00e3o com o Pai, animado pelo Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 comunh\u00e3o onde a f\u00e9 se esfriou, os interesses pessoais ou grupais se fortaleceram, o democratismo doutrinal promoveu o relativismo e perdeu-se de vista o dinamismo do Reino de Deus. Em geral, isso acontece, quase sempre, a partir de uma vis\u00e3o distorcida e fragmentada da pessoa de Jesus Cristo e da identidade da Igreja. Nesta reflex\u00e3o concentremos o nosso olhar sobre a sensibilidade de S\u00e3o Paulo para com o tema da Comunh\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>As exig\u00eancias do batismo <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O compromisso de comunh\u00e3o \u00e9 fruto da f\u00e9 em Cristo, abra\u00e7ada conscientemente, da qual decorre um novo modo de viver ou um estilo de vida que n\u00e3o mais se deixa pautar pela moral da cultura, nem pelas solicita\u00e7\u00f5es dos pr\u00f3prios interesses e nem pelos impulsos pessoais. O batismo traz consigo o compromisso de vida nova, que brota do dinamismo do Amor da Sant\u00edssima Trindade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos ensinamentos de S\u00e3o Paulo h\u00e1 uma fort\u00edssima aten\u00e7\u00e3o sobre a qualidade do relacionamento dos batizados. Isso deve distinguir a comunidade dos disc\u00edpulos de outros grupos. Na <strong>carta aos Romanos<\/strong> S\u00e3o Paulo os convida a tomarem consci\u00eancia dessa nova moralidade, como sendo a aurora de um novo modo de viver: \u201cj\u00e1 \u00e9 hora de voc\u00eas acordarem<em>: a nossa salva\u00e7\u00e3o est\u00e1 agora mais pr\u00f3xima do que quando come\u00e7amos a crer. A noite vai avan\u00e7ada, e o dia est\u00e1 pr\u00f3ximo. Deixemos, portanto, as obras das trevas e vistamos as armas da luz. Vivamos honestamente, como em pleno dia: n\u00e3o em orgias e bebedeiras, prostitui\u00e7\u00e3o e libertinagem, brigas e ci\u00fames. Mas vistam-se do Senhor Jesus Cristo, e n\u00e3o sigam os desejos dos instintos ego\u00edstas\u201d<\/em> (Rm 13,11-14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As obras das trevas significa um comportamento que n\u00e3o leva em conta o dinamismo da caridade, mas simplesmente os instintos, os pr\u00f3prios interesses, paix\u00f5es, caprichos pessoais. Disso decorrem consequ\u00eancias como briga, divis\u00f5es, disputas, ci\u00fames&#8230; Segundo S\u00e3o Paulo, n\u00e3o vive a comunh\u00e3o quem segue os \u201cdesejos dos instintos ego\u00edstas\u201d. N\u00e3o existe espa\u00e7o para a comunh\u00e3o onde cada um segue seus puros sentimentos, impulsos e ideias pessoais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na <strong>Carta aos Cor\u00edntios,<\/strong> a fragilidade da comunh\u00e3o aparece bem acentuada por isso o ap\u00f3stolo suplica: \u201c<em>Eu lhes pe\u00e7o, irm\u00e3os, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo mantenham-se de acordo uns com os outros, para que n\u00e3o haja divis\u00f5es. Sejam estreitamente unidos no mesmo esp\u00edrito e no mesmo modo de pensar\u201d<\/em> (1Cor 1,11). E na <strong>Segunda Carta<\/strong> declara: <em>\u201cTenho receio de que entre voc\u00eas haja disc\u00f3rdia, inveja, animosidade, rivalidade, maledic\u00eancias, falsas acusa\u00e7\u00f5es, arrog\u00e2ncia, desordens\u201d <\/em>(2Cor 12,20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na <strong>carta aos Ef\u00e9sios<\/strong> encontramos a mesma firmeza do ap\u00f3stolo quando fala da necessidade da passagem do \u201chomem velho\u201d para o \u201chomem novo\u201d, referindo-se ao antes e ao depois do batismo. Em nome do Senhor Jesus Cristo os ef\u00e9sios s\u00e3o solicitados a n\u00e3o viverem como os pag\u00e3os: de mente vazia e cega, longe da vida divina, duros de cora\u00e7\u00e3o, ignorantes, insens\u00edveis, libertinos, \u00e1vidos por todo tipo de imoralidade (cf. Ef 4,17-19). E conclui recomendando-lhes: <em>\u201cvoc\u00eas devem deixar de viver como viviam antes, como homem velho que se corrompe com paix\u00f5es enganadoras. \u00c9 preciso que voc\u00eas se renovem pela transforma\u00e7\u00e3o espiritual da intelig\u00eancia, e se revistam do homem novo, criado segundo Deus na justi\u00e7a e na santidade que vem da verdade\u201d<\/em> (Ef 4,22-24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a experi\u00eancia da comunh\u00e3o onde cada um apela para a pr\u00f3pria liberdade e n\u00e3o se deixa orientar pela intelig\u00eancia iluminada pela f\u00e9 que nos apresenta o dinamismo da vida divina. Onde n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para obedi\u00eancia, \u00e9 imposs\u00edvel a comunh\u00e3o. Quem n\u00e3o \u00e9 capaz de comunh\u00e3o, porque est\u00e1 centrado nas pr\u00f3prias ideias, n\u00e3o sente a t<em>ransforma\u00e7\u00e3o espiritual da sua intelig\u00eancia, e tudo segue outra l\u00f3gica, aquela do direito pessoal, da pr\u00f3pria vontade e liberdade. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos <strong>G\u00e1latas S\u00e3o Paulo<\/strong> faz o apelo \u00e0 necessidade da gest\u00e3o emocional e das paix\u00f5es pessoais. Certamente essa comunidade, como aquela de Corinto, tinha muitos problemas de relacionamentos porque o ap\u00f3stolo \u00e9 enf\u00e1tico dizendo-lhes<em>: \u201cse voc\u00eas se mordem e se devoram uns aos outros, tomem cuidado! Voc\u00eas v\u00e3o acabar destruindo-se mutuamente\u201d<\/em> (Gl 5,16). Nesse contexto lhes mostra o poder mal\u00e9fico dos instintos ego\u00edstas e da impulsividade desgovernada que gera conflitos, desobedi\u00eancia, libertinagem, idolatria, \u00f3dio, disc\u00f3rdia, ci\u00fame, ira, rivalidade, divis\u00e3o, sectarismo&#8230; (cf. Gl 5,17-32).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que a Igreja viva a comunh\u00e3o \u00e9 preciso que cada um n\u00e3o se deixe arrastar pelos ressentimentos, descontrole emocional e nem imp\u00e9rios dos instintos. S\u00e3o Paulo nos estimula a pensar que a experi\u00eancia da comunh\u00e3o n\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tica, mas pressup\u00f5e forma\u00e7\u00e3o humana, esfor\u00e7o pessoal e treinamento nas virtudes. Onde h\u00e1 ressentimentos n\u00e3o h\u00e1 comunh\u00e3o e nem paz.<\/p>\n<p><strong>Virtudes a cultivar<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Comunh\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma virtude isolada. Ela s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel para quem tem relativa maturidade humana, senso eclesial e robusta f\u00e9. Por isso as in\u00fameras orienta\u00e7\u00f5es que o ap\u00f3stolo Paulo dava \u00e0s comunidades est\u00e3o relacionadas \u00e0 diversas dimens\u00f5es da vida. Isso nos diz que a Comunh\u00e3o eclesial tem muitas dimens\u00f5es: afetiva, espiritual, doutrinal, pol\u00edtica (governo), pastoral, econ\u00f4mica, administrativa, mission\u00e1ria, etc. Trata-se de uma realidade profunda e transversal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No que diz respeito \u00e0 afetividade Paulo recomenda como ingrediente da comunh\u00e3o a sinceridade do afeto, o carinho, a m\u00fatua estima, o zelo no servi\u00e7o, o fervor de esp\u00edrito, a firmeza nas dificuldades, a pr\u00e1tica da hospitalidade, a solidariedade (cf. Rm 12,9-13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos Romanos ainda lhes pede para n\u00e3o levarem em conta o mal sofrido, a serem solid\u00e1rios, gratuitos, buscar a harmonia, a serem modestos, a n\u00e3o se deixarem vencer pelo mal, mas vencer o mal com o bem (cf. Rm 12,14-21) e conclui afirmando que \u201co amor n\u00e3o pratica o mal contra o pr\u00f3ximo, pois o amor \u00e9 o pleno cumprimento da Lei\u201d (Rm 13,10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os G\u00e1latas s\u00e3o estimulados a saborear os frutos do Esp\u00edrito que \u201c\u00e9 amor, alegria, paz, paci\u00eancia, bondade, benevol\u00eancia, f\u00e9, mansid\u00e3o e dom\u00ednio de si\u201d (Gl 5,22). Na carta aos Ef\u00e9sios recorda-lhes a dignidade da voca\u00e7\u00e3o que receberam e por isso lhes pede que \u201csejam humildes, am\u00e1veis, pacientes e suportem-se uns aos outros no amor. Mantenham entre voc\u00eas la\u00e7os de paz, para conservar a unidade do Esp\u00edrito\u201d (Ef 4,3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com essas e tantas outras preocupa\u00e7\u00f5es apresentadas por S\u00e3o Paulo, chegamos \u00e0 conclus\u00e3o de que a comunh\u00e3o eclesial \u00e9 dom de Deus e, ao mesmo tempo, depende da compreens\u00e3o das exig\u00eancias batismais, da profundidade da f\u00e9, da forma\u00e7\u00e3o humana, do esfor\u00e7o pessoal e da corresponsabilidade fraterna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PARA REFLEX\u00c3O PESSOAL:<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">Por que S\u00e3o Paulo fala tanto do potencial mal\u00e9fico dos nossos \u201cinstintos ego\u00edstas\u201d?<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Por que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a comunh\u00e3o eclesial sem a forma\u00e7\u00e3o humana?<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Por que a comunh\u00e3o eclesial tem muitas dimens\u00f5es?<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Antonio de Assis Ribeiro Bispo Auxiliar de Bel\u00e9m do Par\u00e1 (PA) &nbsp; Apesar das fragilidades internas presentes no grupo dos Doze, Onze compreenderam a ess\u00eancia da exig\u00eancia da Comunh\u00e3o e suas consequ\u00eancias. 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