{"id":299328,"date":"2021-06-11T11:50:27","date_gmt":"2021-06-11T14:50:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=299328"},"modified":"2021-06-11T11:50:47","modified_gmt":"2021-06-11T14:50:47","slug":"tempo-de-cuidar-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/tempo-de-cuidar-2\/","title":{"rendered":"Tempo de cuidar"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Walmor Oliveira de Azevedo<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo de Belo Horizonte (MG)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 tempo de cuidar, horizonte largo e interpelante da a\u00e7\u00e3o emergencial promovida pela Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil e C\u00e1ritas Brasileira. Trata-se do prosseguimento da necess\u00e1ria a\u00e7\u00e3o em favor dos pobres e vulner\u00e1veis, apresentada na P\u00e1scoa de 2020, relan\u00e7ada na P\u00e1scoa deste ano &#8211; a ilumina\u00e7\u00e3o de um olhar misericordioso e comprometido em favor dos que precisam mais. Iniciativa providencial para esse tempo de sofrimento com a pandemia. Crise sanit\u00e1ria sem precedentes nestas \u00faltimas d\u00e9cadas, que tem produzido incid\u00eancias nefastas e dolorosas no tecido j\u00e1 esgar\u00e7ado da sociedade brasileira, amentando seus rasg\u00f5es, com feridas de grande gravidade humanit\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Situa\u00e7\u00e3o que torna ainda mais cruel os cen\u00e1rios da secular desigualdade da sociedade brasileira, que deve e precisa provocar os brios dos cidad\u00e3os. Esses cen\u00e1rios est\u00e3o se agravando a tal ponto que exigem o engajamento pleno e priorit\u00e1rio de institui\u00e7\u00f5es e segmentos da sociedade. As car\u00eancias alimentares, na contram\u00e3o dos indicadores que mensuram e apontam a melhoria da economia, se p\u00f5em como questionamento humanit\u00e1rio, clamando por novas posturas cidad\u00e3s. H\u00e1 muita gente que acorda sem saber o que ter\u00e1 para comer. A situa\u00e7\u00e3o extrema n\u00e3o d\u00e1 a ningu\u00e9m o direito de repousar sem inquieta\u00e7\u00f5es. No ar se desenha a necessidade de uma nova l\u00f3gica presidindo os conceitos da economia, exigidos a sair, celeremente, da economia que mata para uma economia solid\u00e1ria, de um desenvolvimento comprometido para um desenvolvimento integral. Essas metas s\u00f3 ser\u00e3o alcan\u00e7adas por interm\u00e9dio de l\u00f3gicas novas fecundadas pelo tempero insubstitu\u00edvel da solidariedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A situa\u00e7\u00e3o de car\u00eancia extrema, sofrida por mais da metade da popula\u00e7\u00e3o brasileira, n\u00e3o suporta mais a preval\u00eancia da l\u00f3gica da contrapartida como \u00fanica possibilidade de abrir as m\u00e3os abarrotadas de recursos das pessoas bem situadas financeiramente na sociedade. N\u00e3o h\u00e1 como exigir contrapartida quando o outro s\u00f3 tem a oferecer a sobrevida da fome e da mis\u00e9ria. N\u00e3o h\u00e1 possibilidade para barganhas. O socorro \u00e9 emergencial e urgente sob pena de esmaecer-se, de se provocar uma convuls\u00e3o social que pode ser silenciosa, mas com peso de guerra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sociedade brasileira est\u00e1 desafiada a aprender uma nova l\u00f3gica que n\u00e3o \u00e9 marca de nenhuma sigla partid\u00e1ria. O selo \u00e9 o da solidariedade. Encontrar os vulner\u00e1veis e abrir a m\u00e3o e o cora\u00e7\u00e3o para socorr\u00ea-los, \u00e9 gesto necess\u00e1rio para possibilitar um recome\u00e7o. Embora em continuidade hist\u00f3rica e sobre trilhos de recursos da pr\u00f3pria cultura e do pr\u00f3prio potencial, a sociedade brasileira tem que se compreender exigida \u00e0 necessidade de recome\u00e7ar. H\u00e1 um caos pol\u00edtico-social, com incid\u00eancias humanit\u00e1rias, que requer um recome\u00e7o. N\u00e3o ser\u00e1 um recome\u00e7o do zero, mas a humilde aprendizagem a partir de uma economia com l\u00f3gica completamente diferente da que est\u00e1 vigorando atualmente. Economia que mata muitos e privilegia regiamente uma fatia m\u00ednima da sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa Francisco, na Carta Enc\u00edclica Fratelli Tutti, sublinha que durante d\u00e9cadas tinha-se a impress\u00e3o que o mundo havia aprendido com tantas guerras e fracassos e, lentamente, caminhava para variadas formas de integra\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 do Papa tamb\u00e9m a afirma\u00e7\u00e3o que a hist\u00f3ria mostra sinais de regress\u00e3o, o que leva \u00e0 pergunta: a sociedade brasileira tem progressos e avan\u00e7os? Indiscutivelmente.\u00a0 Contudo, os retrocessos s\u00e3o mais volumosos particularmente sobre as consequ\u00eancias humanit\u00e1rias, evidentes nos cen\u00e1rios das desigualdades sociais, sempre vergonhosas e perversas. Manipula\u00e7\u00f5es legais e governamentais incidem com preju\u00edzos que s\u00e3o aberra\u00e7\u00f5es irracionais em nome de uma equivocada e suicida maneira de tratar a Casa Comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, \u00e9 hora da pr\u00e1tica da humildade de aprendiz, fecundando a mente e os cora\u00e7\u00f5es com o rem\u00e9dio da sensibilidade singular, que se pode cultivar no gesto di\u00e1rio de socorrer aquele que est\u00e1 precisando porque n\u00e3o tem nada e n\u00e3o pode esperar o depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja Cat\u00f3lica, em sintonia com outras confiss\u00f5es religiosas e segmentos sens\u00edveis da sociedade, com selo humanit\u00e1rio reconhecido, intensifica a a\u00e7\u00e3o emergencial solid\u00e1ria \u00c9 Tempo de Cuidar, tecendo e fortalecendo redes de solidariedade, socorrendo pobres e vulner\u00e1veis e criando oportunidade para o exerc\u00edcio de novas pr\u00e1ticas que possam contribuir na recomposi\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica do Brasil. Essa recomposi\u00e7\u00e3o \u00e9 o ato de tecer a unidade capaz de curar as divis\u00f5es entre pessoas e segmentos da sociedade. Inclui-se, nesse processo, a compreens\u00e3o l\u00facida do embate e dos cen\u00e1rios pol\u00edticos, desafiando a cidadania a buscar uma sa\u00edda ante a encruzilhada nebulosa e sem op\u00e7\u00f5es, carente de respostas esperan\u00e7osas, com escassez de lideran\u00e7as que possam oferecer solu\u00e7\u00f5es aos graves problemas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lamentavelmente, brinca-se com a sacralidade do dom da vida. Obscuridades ganham for\u00e7a de convencimento, a mesquinhez do lucro ilude mentes a pensar que, salvando a pr\u00f3pria pele, se pode viver num mundo paradis\u00edaco. Sublinha ainda o Papa Francisco, na Carta Enc\u00edclica Fratelli Tutti: \u201caumentam as dist\u00e2ncias entre as pessoas, e cresce um rev\u00e9s dr\u00e1stico, tornando lenta e dura a marcha rumo a um mundo mais unido e mais justo.\u201d H\u00e1, sem pessimismos ou des\u00e2nimos, um caos em curso, embora com sinais de sa\u00edda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sociedade brasileira precisa reconstruir-se, intuir novas escolhas pol\u00edticas e humanit\u00e1rias, com repercuss\u00e3o na l\u00f3gica da economia, distanciando-a daquela que mata, para o desabrochar de um novo tempo, num ciclo prop\u00edcio a uma cidadania diferente da atual. Assim, \u00e9 indispens\u00e1vel a ajuda de analistas para o entendimento da realidade complexa, a abertura ao di\u00e1logo e a pr\u00e1tica da solidariedade. Por isso, ecoe forte nos cora\u00e7\u00f5es os clamores dos pobres e famintos para a prepara\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais fraterna e justa. Ser\u00e1 agora significativo e determinante compreender, neste tempo, a urg\u00eancia de que \u00e9 tempo de cuidar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Walmor Oliveira de Azevedo Arcebispo de Belo Horizonte (MG) &nbsp; \u00c9 tempo de cuidar, horizonte largo e interpelante da a\u00e7\u00e3o emergencial promovida pela Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil e C\u00e1ritas Brasileira. 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