{"id":30086,"date":"2018-05-02T00:00:00","date_gmt":"2018-05-02T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/em-entrevista-especialista-fala-sobre-as-falsas-noticias-em-evidencia-no-cenario-mundial\/"},"modified":"2020-10-23T14:48:00","modified_gmt":"2020-10-23T17:48:00","slug":"em-entrevista-especialista-fala-sobre-as-falsas-noticias-em-evidencia-no-cenario-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/em-entrevista-especialista-fala-sobre-as-falsas-noticias-em-evidencia-no-cenario-mundial\/","title":{"rendered":"Desde a catequese, Igreja tem papel de conscientizar para a comunica\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Em tempos de redes sociais e de in\u00fameras informa\u00e7\u00f5es que circulam nos v\u00e1rios meios, com diversas fontes e objetivos, um fen\u00f4meno antigo, mas com roupagem nova, chama a aten\u00e7\u00e3o: as not\u00edcias falsas, mundialmente chamadas no contexto atual de <em>fake news<\/em>.\u00a0A tem\u00e1tica que mereceu espa\u00e7o na reflex\u00e3o do papa Francisco para o 52\u00ba Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais &#8211; neste ano em 13 de maio &#8211; foi abordada em entrevista \u00e0 revista &#8220;Bote F\u00e9&#8221; concedida pelo doutor e mestre em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) Mois\u00e9s Sbardelotto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A rela\u00e7\u00e3o entre os termos &#8220;p\u00f3s-verdade&#8221; e fake news, as redes sociais e suas possibilidades de disseminar conte\u00fados falsos e tamb\u00e9m de dar voz a quem n\u00e3o tinha em outros tempos s\u00e3o alguns pontos abordados por Sbardelotto. O especialista tamb\u00e9m analisa o contexto das elei\u00e7\u00f5es no Brasil e sugere um &#8220;processo de conscientiza\u00e7\u00e3o comunicacional&#8221; para enfrentar a avalanche de mentiras entre candidatos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A realidade da Igreja tamb\u00e9m \u00e9 lembrada, na qual &#8220;certos indiv\u00edduos e grupos cat\u00f3licos em rede, muitas vezes, deixam de lado a miss\u00e3o de anunciar a \u201cboa not\u00edcia\u201d (<em>good news<\/em>) para inventar e compartilhar apenas <em>\u201cfake (good) news\u201d<\/em>, falsificando o Evangelho e o testemunho crist\u00e3o com suas pr\u00e1ticas de \u00f3dio e intoler\u00e2ncia&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Confira, abaixo, a entrevista na \u00edntegra:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Desde 2016, os termos \u201cp\u00f3s-verdade\u201d e \u201cfake news\u201d (not\u00edcias falsas) t\u00eam ganhado espa\u00e7o na m\u00eddia e no debate pol\u00edtico em \u00e2mbito mundial. Estas express\u00f5es s\u00e3o sin\u00f4nimas? O que significam?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Essas express\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o propriamente sin\u00f4nimas, mas est\u00e3o inter-relacionadas. A ideia de <em>fake news <\/em>diz respeito a um fen\u00f4meno antigo, mas que ganhou mais evid\u00eancia hoje, gra\u00e7as \u00e0s redes sociais digitais. Trata-se justamente das \u201cnot\u00edcias falsas\u201d, como o pr\u00f3prio nome diz, que s\u00e3o produzidas e postas em circula\u00e7\u00e3o seja para fins pol\u00edticos, publicit\u00e1rios ou midi\u00e1ticos. Em tempos de redes sociais digitais, o objetivo de difundir tais not\u00edcias \u00e9 obter o m\u00e1ximo de \u201ccurtidas\u201d, cliques, visualiza\u00e7\u00f5es, compartilhamentos, inclusive com o recurso aos chamados <em>\u201cbots\u201d<\/em>, ou rob\u00f4s inform\u00e1ticos, que simulam uma a\u00e7\u00e3o humana coordenada na internet. Essa falsidade das not\u00edcias pode envolver tamb\u00e9m uma certa gradualidade. Podemos ter fake news que envolvem a inven\u00e7\u00e3o pura de dados e fatos, totalmente fantasiosos, sem qualquer fundamento na realidade, mediante mentiras. Ou ent\u00e3o a <em>deturpa\u00e7\u00e3o <\/em>de algum dado ou fato objetivo, envolvendo, portanto, a difama\u00e7\u00e3o, a mentira, a cal\u00fania sobre algo ou algu\u00e9m. Ou ainda a <em>desinforma\u00e7\u00e3o<\/em>, que \u00e9 revelar apenas uma parte daquilo que se sabe, somente aquilo que \u00e9 mais conveniente a certos interesses, ocultando aquilo que possa prejudic\u00e1-los \u2013 e este \u00e9 um dos maiores \u201cpecados da m\u00eddia\u201d, como afirmou o Papa Francisco, porque impede que as pessoas possam fazer um ju\u00edzo integral sobre a realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-188646 alignleft\" src=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/moises_sbardelotto-1-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" \/>E isso n\u00e3o envolve apenas a profiss\u00e3o jornal\u00edstica. Na mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais deste ano, as <em>fake news <\/em>s\u00e3o analisadas tamb\u00e9m no \u00e2mbito da \u201cresponsabilidade pessoal de cada um\u201d de n\u00f3s, de cada pessoa. H\u00e1 o reconhecimento de que estamos \u201cno contexto de uma comunica\u00e7\u00e3o cada vez mais r\u00e1pida e dentro de um sistema digital\u201d, como afirma o papa, em que o midi\u00e1tico \u00e9 um fen\u00f4meno complexo, pois envolve, justamente, de modo crescente, \u201ccada um\u201d de n\u00f3s, seja quem for. A responsabilidade, portanto, \u00e9 de todos e todas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em tudo isso, est\u00e1 em xeque a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de \u201cverdade\u201d, e aqui est\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o com o conceito de \u201cp\u00f3s-verdade\u201d. O termo foi eleito pelo dicion\u00e1rio Oxford como a \u201cpalavra do ano\u201d de 2016 na l\u00edngua inglesa; n\u00e3o por casualidade, foi o ano das elei\u00e7\u00f5es estadunidenses que levaram Trump ao poder e da vit\u00f3ria do \u201csim\u201d no referendo sobre o Brexit, que levou \u00e0 sa\u00edda do Reino Unido da Uni\u00e3o Europeia, acontecimentos que envolveram uma s\u00e9rie de <em>fake news<\/em>. Em s\u00edntese, o conceito de p\u00f3s-verdade envolve a ideia de que os fatos objetivos importam menos para a opini\u00e3o p\u00fablica do que a emo\u00e7\u00e3o e as cren\u00e7as pessoais ou grupais. Hoje, ent\u00e3o, n\u00e3o interessariam tanto os dados e os fatos, mas sim as vers\u00f5es e as opini\u00f5es sobre eles. O prefixo \u201cp\u00f3s\u201d, nesse caso, diria respeito ao fim da verdade como tal: haveria apenas interpreta\u00e7\u00f5es. Mas ele tamb\u00e9m pode ser pensado como a supera\u00e7\u00e3o de uma determinada concep\u00e7\u00e3o de verdade. Neste segundo caso, o conceito de \u201cp\u00f3s-verdade\u201d torna-se mais complexo e at\u00e9 mais desafiador, pois leva a nos questionarmos sobre o que entendemos por verdade, especialmente em um per\u00edodo hist\u00f3rico em que temos acesso a uma quantidade inimagin\u00e1vel de informa\u00e7\u00f5es, instantaneamente. Como encontrar a verdade no meio do \u201ccaos midi\u00e1tico\u201d em que vivemos? A resposta, de certo modo, foi dada pelo pr\u00f3prio Papa Francisco no t\u00edtulo de um livro-entrevista com ele, intitulado \u201cA verdade \u00e9 um encontro\u201d. Para os crist\u00e3os e crist\u00e3s, a Verdade tem nome e rosto, \u00e9 Jesus. \u00c9 na rela\u00e7\u00e3o com Ele que encontramos a Verdade. Ou, melhor, \u201csomos encontrados\u201d pela Verdade. N\u00f3s n\u00e3o possu\u00edmos a Verdade, n\u00e3o somos donos dela. Ela \u2013 na pessoa de Jesus \u2013 \u00e9 que \u201cnos possui\u201d. A quest\u00e3o, ent\u00e3o, \u00e9 estar ou n\u00e3o estar em rela\u00e7\u00e3o com a Verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>O cen\u00e1rio da comunica\u00e7\u00e3o parece ca\u00f3tico. Muitas pessoas com acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, principalmente por meio das redes sociais, mas nem sempre com a verdade e a correta interpreta\u00e7\u00e3o dos fatos. Como voc\u00ea avalia este contexto?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Trata-se de um contexto marcado, primeiro, pela crise do jornalismo, com a perda de p\u00fablico, de poder e de credibilidade por parte da \u201cgrande m\u00eddia\u201d. Quando as institui\u00e7\u00f5es sociais que deveriam prover a sociedade em geral com informa\u00e7\u00f5es ver\u00eddicas caem no mero sensacionalismo ou partidarismo, \u00e9 justo e necess\u00e1rio que as pessoas busquem outras fontes de informa\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o, contudo, \u00e9 como as pessoas elegem essas fontes e como julgam essas informa\u00e7\u00f5es, a partir de quais crit\u00e9rios e segundo quais desejos, interesses e necessidades. Fica evidente, portanto, a import\u00e2ncia de \u201cformar para a informa\u00e7\u00e3o\u201d, ou seja, de possibilitar que as pessoas possam construir as compet\u00eancias necess\u00e1rias \u2013 desde a inf\u00e2ncia, por exemplo, nas escolas \u2013 para lidar com um mundo de informa\u00e7\u00f5es, sem ficarem sobrecarregadas, desorientadas, inertes ou indiferentes diante dessa realidade t\u00e3o complexa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em segundo lugar, trata-se de um contexto marcado pelo surgimento das chamadas \u201credes sociais\u201d, como Facebook, Twitter, Instagram, e pelo crescente poder de plataformas como Google, Amazon, Netflix, que dominam quantidades gigantescas de informa\u00e7\u00f5es, fornecidas por seus pr\u00f3prios usu\u00e1rios, que \u201ctrabalham\u201d para essas plataformas constantemente, mesmo sem perceber. Nesses ambientes, formam-se com mais facilidade as chamadas \u201cbolhas\u201d de informa\u00e7\u00e3o, em que cada pessoa busca se cercar apenas de fontes e conte\u00fados que reforcem suas convic\u00e7\u00f5es pessoais. A diferen\u00e7a e o diferente, assim, desaparecem do horizonte. E os algoritmos de cada plataforma, por sua vez, refor\u00e7am ainda mais essa caracter\u00edstica \u201cmais do mesmo\u201d das redes digitais. Poder\u00edamos dizer que a informa\u00e7\u00e3o hoje n\u00e3o \u00e9 mais sin\u00f4nimo de poder, pois cada pessoa pode ter acesso a elas, em um clicar de bot\u00f5es. O poder est\u00e1 em quem gerencia as informa\u00e7\u00f5es. Quando entregamos esse poder de gest\u00e3o sobre nossas informa\u00e7\u00f5es pessoais a tais conglomerados informacionais e midi\u00e1ticos, estamos abrindo m\u00e3o de uma importante parcela de responsabilidade sobre a nossa pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<figure id=\"attachment_188648\" aria-describedby=\"caption-attachment-188648\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-188648 size-medium\" src=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/moises_sbardelotto-4-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"199\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-188648\" class=\"wp-caption-text\"><em>Mois\u00e9s Sbardelloto no Encontro Nacional da Pascom | Foto: arquivo pessoal<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas h\u00e1 tamb\u00e9m um aspecto positivo nesse \u201ccaos\u201d midi\u00e1tico. As redes sociais, pela sua facilidade de uso, pelo seu alcance e abrang\u00eancia, possibilitam que as pessoas assumam um poder de \u201cpalavra p\u00fablica\u201d, especialmente aquelas que n\u00e3o t\u00eam acesso aos meios tecnol\u00f3gicos industriais ou corporativos de comunica\u00e7\u00e3o. As m\u00eddias digitais podem se tornar espa\u00e7os de autonomia positiva e alternativa para pessoas e grupos historicamente minorit\u00e1rios, perif\u00e9ricos e silenciados, indo al\u00e9m do controle de governos e empresas midi\u00e1ticas que tentam monopolizar o processo de produ\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. As pessoas passam a n\u00e3o querer mais apenas \u201couvir\/ler\/ver\u201d o mundo a partir do ponto de vista da \u201cgrande m\u00eddia\u201d, mas tamb\u00e9m diz\u00ea-lo, mostr\u00e1-lo, produzi-lo, constru\u00ed-lo a partir dos seus pr\u00f3prios pontos de vista locais. Assim, as plataformas digitais tornam-se espa\u00e7os de manifesta\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias \u201cvozes\u201d sociais, que podem questionar e se contrapor a certas narrativas e interpreta\u00e7\u00f5es sobre o mundo e a realidade. E esse \u201ccaos\u201d pode ser muito produtivo e enriquecedor para a sociedade, para evitar todo \u201ctotalitarismo\u201d informacional, para evitar uma sociedade de \u201copini\u00e3o \u00fanica\u201d, que seria muito mais pobre e limitada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>As elei\u00e7\u00f5es norte-americanas s\u00e3o tomadas como um marco quando se fala em fake news, pelo uso do termo pelo presidente eleito nos EUA em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s not\u00edcias negativas relacionadas a ele. Mas a pr\u00e1tica de dissemina\u00e7\u00e3o de not\u00edcias falsas vem de longa data no processo eleitoral brasileiro. Autoridades t\u00eam ensaiado mudan\u00e7as para prevenir a pr\u00e1tica j\u00e1 no pleito deste ano. O que voc\u00ea considera eficaz como medida?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o simples, nem uma sa\u00edda \u00fanica e instant\u00e2nea, pois, como voc\u00ea mesmo disse, n\u00e3o \u00e9 algo novo no cen\u00e1rio brasileiro. Em primeiro lugar, haveria as medidas legais e jur\u00eddicas a serem tomadas, por exemplo, para punir candidatos ou partidos que recorram a falsidades para constru\u00edrem suas campanhas. Embora sendo uma medida justa e at\u00e9 necess\u00e1ria, o risco \u00e9 cair em um legalismo que, muitas vezes, como temos visto, \u201cacaba em pizza\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Parece-me mais produtivo pensar em um processo de conscientiza\u00e7\u00e3o comunicacional. Por um lado, as empresas midi\u00e1ticas devem refor\u00e7ar sua postura \u00e9tica e evitar a produ\u00e7\u00e3o e a divulga\u00e7\u00e3o de toda m\u00e1 informa\u00e7\u00e3o. Mesmo tendo fins financeiros, o lucro e os interesses corporativos n\u00e3o podem levar a melhor em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 responsabilidade p\u00fablica de tais empresas. Nesse sentido, um ecossistema midi\u00e1tico mais complexo, com mais \u201cseres\u201d em a\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o apenas os mesmos \u201cdinossauros\u201d de sempre, contribui para que a falsidade seja evidenciada em meio \u00e0 boa disputa e \u00e0s boas tens\u00f5es presentes nesse ambiente na busca de uma boa informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-164870 alignleft\" src=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Papa_Fake_News_Shutterstock-e1519221185250-300x191.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"191\" \/>Por outro lado \u2013 e esta me parece ser a \u201cmedida\u201d mais eficaz, embora de longo prazo \u2013, \u00e9 preciso colaborar para que cada pessoa saiba discernir a falsidade que se espreita em um panorama pol\u00edtico e midi\u00e1tico complexo. Trata-se, por exemplo, de aumentar a sensibilidade do nosso \u201cdesconfi\u00f4metro\u201d pessoal, especialmente nesse per\u00edodo do ano, em rela\u00e7\u00e3o ao debate pol\u00edtico e \u00e0quilo que se torna not\u00edcia. Uma \u201cdieta midi\u00e1tica\u201d mais variada, que n\u00e3o dependa apenas da \u201cgrande m\u00eddia\u201d nem dos meios alternativos, mas saiba articul\u00e1-los e contrap\u00f4-los, \u00e9 algo que favorece que n\u00e3o se caia em armadilhas informacionais. \u00c9 aquilo que o papa chama de \u201cconfronto sadio com outras fontes de informa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E aqui a Igreja tem um papel pedag\u00f3gico e formativo muito importante, desde a catequese. Novamente, trata-se de conscientizar para a comunica\u00e7\u00e3o e de formar para a informa\u00e7\u00e3o, no sentido de ajudar as pessoas a serem \u201cprudentes como as serpentes e astutas como as pombas\u201d no meio dos poss\u00edveis \u201clobos\u201d midi\u00e1ticos. Nas palavras do papa em sua mensagem para o Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais deste ano, trata-se trata-se de promover um \u201cdiscernimento profundo e cuidadoso\u201d, que permita desmascarar a \u201cl\u00f3gica da serpente\u201d que produz as <em>fake news<\/em>.<em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Talvez como luz para guiar os crist\u00e3os, principalmente, o papa Francisco escolheu para este ano o tema \u201cA verdade vos tornar\u00e1 livres \u2013 fake news e jornalismo de paz\u201d. O que este texto diz aos profissionais da comunica\u00e7\u00e3o e aos consumidores de informa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em sua mensagem, o Papa Francisco principalmente contrap\u00f5e dois modos de entender e praticar a comunica\u00e7\u00e3o. Por um lado, ela \u00e9 vista a partir do \u201cprojeto de Deus\u201d, segundo o qual \u00e9 compreendida como uma \u201cmodalidade essencial\u201d para viver a comunh\u00e3o. Por outro lado, a partir do \u201cego\u00edsmo orgulhoso\u201d, afirma o papa, a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 vista como um \u201cmodo distorcido\u201d de usar a pr\u00f3pria faculdade de comunicar, que provoca uma \u201caltera\u00e7\u00e3o da verdade\u201d, em suma, a falsidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E como podemos nos defender da falsidade que nos permeia, tanto nas rela\u00e7\u00f5es pessoais quanto na comunica\u00e7\u00e3o social? \u201cO ant\u00eddoto mais radical ao v\u00edrus da falsidade\u201d, responde o Papa Francisco, \u201c\u00e9 deixar-se purificar pela verdade\u201d. E ela tem justamente um \u201csentido relacional\u201d, afirma o pont\u00edfice. Isto \u00e9, a verdade sempre se encarna em rela\u00e7\u00f5es. Para Francisco, a verdade n\u00e3o deve ser imposta como algo \u201cextr\u00ednseco e impessoal\u201d, mas deve brotar de \u201crela\u00e7\u00f5es livres entre as pessoas, na escuta rec\u00edproca\u201d. Por isso, \u201co melhor ant\u00eddoto contra as falsidades n\u00e3o s\u00e3o as estrat\u00e9gias, mas as pessoas: pessoas que, livres da ambi\u00e7\u00e3o, est\u00e3o prontas a ouvir e, atrav\u00e9s da fadiga de um di\u00e1logo sincero, deixam emergir a verdade; pessoas que, atra\u00eddas pelo bem, se mostram respons\u00e1veis no uso da linguagem\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nesse sentido, o papa vai al\u00e9m da diferen\u00e7a entre \u201cprodutores e consumidores\u201d, \u201cjornalistas e p\u00fablicos\u201d, e v\u00ea a comunica\u00e7\u00e3o \u2013 toda ela \u2013 como uma rela\u00e7\u00e3o entre pessoas. Cada comunicador \u2013 seja ele profissional ou n\u00e3o \u2013 \u00e9 chamado a se relacionar com o \u201coutro\u201d em sua qualidade de pessoa. N\u00e3o como mero \u201creceptor\u201d passivo, \u201cconsumidor\u201d, \u201cmassa\u201d. A s\u00edntese de toda a mensagem do papa \u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o da falsidade a partir da busca da rela\u00e7\u00e3o. S\u00f3 assim \u00e9 que a comunica\u00e7\u00e3o pode se explicitar como \u201cescuta rec\u00edproca\u201d, como \u201cdi\u00e1logo sincero\u201d, como uma linguagem usada responsavelmente, nas palavras do papa. \u00c9 essa comunica\u00e7\u00e3o relacional, longe do \u201cego\u00edsmo orgulhoso\u201d que permite que a verdade venha \u00e0 tona e que a comunh\u00e3o seja poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Percebe-se um esfor\u00e7o do papa em \u201credescobrir o valor da profiss\u00e3o jornal\u00edstica\u201d. Como isso pode acontecer na pr\u00e1tica, em nosso pa\u00eds, visto que os profissionais da comunica\u00e7\u00e3o &#8211; de forma muito expressiva nos grandes grupos de m\u00eddia &#8211; t\u00eam sua atua\u00e7\u00e3o limitada e passam pela deteriora\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho, ap\u00f3s a perda da obrigatoriedade do diploma, quando n\u00e3o pelo desemprego?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O cen\u00e1rio do jornalismo, hoje, \u00e9 bastante desafiador. No fundo, trata-se da constante perda do seu sentido social, j\u00e1 que as empresas midi\u00e1ticas apostam grande parte de seus esfor\u00e7os na obten\u00e7\u00e3o de lucros e na defesa de seus interesses ou de seus partid\u00e1rios. Nessa \u00f3tica, pouco importa quem faz o trabalho jornal\u00edstico e em que condi\u00e7\u00f5es pessoais e de trabalho, da\u00ed essa deteriora\u00e7\u00e3o a que voc\u00ea se refere na pergunta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas o Papa Francisco, por outro lado, reitera a import\u00e2ncia de quem assume a comunica\u00e7\u00e3o como profiss\u00e3o, isto \u00e9, o jornalista, chamado pelo pont\u00edfice de \u201cguardi\u00e3o das not\u00edcias\u201d. Na vis\u00e3o do papa, a not\u00edcia \u00e9 um tesouro que enriquece a toda a sociedade, n\u00e3o apenas uma mercadoria para enriquecer as empresas que a produzem. Por isso, novamente, segundo o papa, no centro das not\u00edcias, devem estar as pessoas. \u201cInformar \u00e9 formar, \u00e9 lidar com a vida das pessoas\u201d, afirma ele. Um \u201cjornalismo de paz\u201d \u00e9 aquele que \u00e9 \u201cfeito por pessoas para as pessoas e considerado como servi\u00e7o a todas as pessoas, especialmente \u00e0quelas \u2013 e no mundo, s\u00e3o a maioria \u2013 que n\u00e3o t\u00eam voz\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-187684 alignright\" src=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/capa-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" \/>Esta me parece ser uma boa pista de como o jornalismo pode se reinventar. Bento XVI falava da necessidade de uma \u201cdiaconia da cultura\u201d, ou seja, de se colocar a servi\u00e7o dos processos culturais, de se inculturar, aprendendo com as culturas e oferecendo-lhes aquilo que temos de mais precioso, como o pr\u00f3prio Evangelho. Para superar a deteriora\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho e suas consequ\u00eancias, \u00e9 preciso revalorizar as rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas que comp\u00f5em o processo jornal\u00edstico. O jornalista, portanto, n\u00e3o \u00e9 um mero \u201cescrevedor de textos\u201d ou \u201cprodutor de conte\u00fados\u201d, mas sim um profissional que domina n\u00e3o apenas uma t\u00e9cnica, mas que principalmente possui uma \u00e9tica e uma est\u00e9tica que permitem construir rela\u00e7\u00f5es entre informa\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es entre pessoas a partir da informa\u00e7\u00e3o, com sentido social. Quando a not\u00edcia \u00e9 vista como riqueza social (e n\u00e3o mera mercadoria empresarial), quando o jornalista \u00e9 reconhecido como pessoa, como sujeito social voltado \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es entre pessoas e sentidos (e n\u00e3o como mero t\u00e9cnico frio), estamos diante de um bom caminho para se redescobrir o valor do jornalismo hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Tamb\u00e9m a Igreja tem enfrentado a dissemina\u00e7\u00e3o das <em>fake news<\/em> nas redes sociais, com ataques a express\u00f5es de f\u00e9 e conte\u00fados ofensivos sendo divulgados como \u201cjornal\u00edsticos\u201d sem a responsabilidade de apura\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do profissional, que deve sempre ouvir os dois lados. Quais as li\u00e7\u00f5es que o papa apresenta em sua mensagem e o que pode ser tirado desta experi\u00eancia por quem atua com a comunica\u00e7\u00e3o eclesial?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ao falar da verdade, Francisco afirma que \u201ca contamina\u00e7\u00e3o cont\u00ednua por uma linguagem enganadora acaba por ofuscar o \u00edntimo da pessoa\u201d. E, para discernir a verdade, \u201c\u00e9 preciso examinar aquilo que favorece a comunh\u00e3o e promove o bem e aquilo que, ao inv\u00e9s, tende a isolar, dividir e contrapor\u201d. O que vemos, muitas vezes, nas rela\u00e7\u00f5es entre cat\u00f3licos, especialmente em certas p\u00e1ginas das redes sociais digitais ou em certos sites e blogs, \u00e9 uma comunica\u00e7\u00e3o \u201ccontra\u201d o outro, para que ele ou ela n\u00e3o tenha voz alguma e apenas \u201cme\u201d ou\u00e7a. Assim, a reflex\u00e3o teol\u00f3gica e as rela\u00e7\u00f5es intraeclesiais transformam-se em campo aberto para a circula\u00e7\u00e3o de in\u00fameros estere\u00f3tipos e preconceitos, de aniquila\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a e dos diferentes, de manuten\u00e7\u00e3o e refor\u00e7o de um certo <em>status quo<\/em> cat\u00f3lico. \u00c9 a autorreferencialidade, t\u00e3o criticada por Francisco: s\u00f3 \u00e9 \u201cIgreja\u201d e s\u00f3 \u00e9 \u201ccat\u00f3lico\u201d aquilo que se enquadra nos \u201cmeus\u201d padr\u00f5es e esquemas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Desse modo, certos indiv\u00edduos e grupos cat\u00f3licos em rede, muitas vezes, deixam de lado a miss\u00e3o de anunciar a \u201cboa not\u00edcia\u201d (<em>good news<\/em>) para inventar e compartilhar apenas <em>\u201cfake (good) news\u201d<\/em>, falsificando o Evangelho e o testemunho crist\u00e3o com suas pr\u00e1ticas de \u00f3dio e intoler\u00e2ncia. Supostamente agindo pelo bem da Igreja e a salva\u00e7\u00e3o das almas, esses cat\u00f3licos ultrarradicais s\u00e3o verdadeiros \u201cprofetas da desventura\u201d e apedrejam simbolicamente tudo e todos que forem \u201cdiferentemente cat\u00f3licos\u201d, incluindo o papa, se acharem necess\u00e1rio. Assim, fazem exatamente aquilo que o pont\u00edfice denuncia na mensagem: imp\u00f5em sua verdade \u201ccomo algo de extr\u00ednseco e impessoal\u201d, isolam, dividem e se contrap\u00f5em, prejudicando a comunh\u00e3o eclesial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As redes sociais digitais, embora habitadas por cat\u00f3licos de catolicidades variadas, transformam-se n\u00e3o em assembleias p\u00fablicas (no grego, <em>ekklesia<\/em>, \u201cigreja\u201d) voltadas \u00e0 conviv\u00eancia entre pessoas diferentes, mas sim em arenas em que s\u00f3 sobrevive quem aniquila o outro a golpes ret\u00f3ricos de cita\u00e7\u00f5es b\u00edblicas e de Catecismo. Tudo isso entre pessoas que, supostamente, deveriam se comunicar como irm\u00e3os e irm\u00e3s de f\u00e9&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-184528 alignleft\" src=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/papa-viagem-267x300.jpg\" alt=\"\" width=\"267\" height=\"300\" \/>Mas o Papa Francisco \u00e9 bem claro na mensagem: \u201cUma argumenta\u00e7\u00e3o impec\u00e1vel pode basear-se em fatos ineg\u00e1veis, mas, se for usada para ferir o outro e desacredit\u00e1-lo \u00e0 vista alheia, por mais justa que apare\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 habitada pela verdade. A partir dos frutos, podemos distinguir a verdade dos v\u00e1rios enunciados: se suscitam pol\u00eamica, fomentam divis\u00f5es, infundem resigna\u00e7\u00e3o ou se, em vez disso, levam a uma reflex\u00e3o consciente e madura, ao di\u00e1logo construtivo, a uma prof\u00edcua atividade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em s\u00edntese, o sinal do comunicador crist\u00e3o, nas redes e fora delas, \u00e9 a paz. Uma comunica\u00e7\u00e3o que, como reza o pont\u00edfice no fim de sua mensagem, pratica a escuta, e n\u00e3o o rumor; inspira harmonia, e n\u00e3o confus\u00e3o; leva clareza, e n\u00e3o ambiguidade; leva partilha, e n\u00e3o exclus\u00e3o; usa sobriedade, e n\u00e3o sensacionalismo; faz interrogativos verdadeiros, e n\u00e3o superficialidade; desperta confian\u00e7a, e n\u00e3o preconceitos; leva respeito, e n\u00e3o agressividade; e, por fim, leva verdade, e n\u00e3o falsidade. \u00c9 nas rela\u00e7\u00f5es constru\u00eddas a partir desse horizonte que a \u201cVerdade em pessoa\u201d se manifesta e se encarna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/messages\/communications\/documents\/papa-francesco_20180124_messaggio-comunicazioni-sociali.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mensagem do papa Francisco para o 52\u00ba Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com o Doutor em Comunica\u00e7\u00e3o, Mois\u00e9s Sbardelloto, que fala sobre busca da verdade e faz reflex\u00e3o sobre mensagem do papa<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":30087,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[750,856],"tags":[1408],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/30086"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=30086"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/30086\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media\/30087"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=30086"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=30086"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=30086"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}