{"id":30913,"date":"2018-07-05T00:00:00","date_gmt":"2018-07-05T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/jogar-solidariamente\/"},"modified":"2018-07-05T00:00:00","modified_gmt":"2018-07-05T03:00:00","slug":"jogar-solidariamente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/jogar-solidariamente\/","title":{"rendered":"Jogar solidariamente"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Reginaldo Andrietta<\/strong><br \/>\n<strong> Bispo de Jales<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O vazio das ruas na hora de um jogo da sele\u00e7\u00e3o sugere reflex\u00f5es. A ansiedade por vit\u00f3rias, mesmo simb\u00f3licas, d\u00e1 o que pensar. Por que o ser humano se excita tanto com competi\u00e7\u00f5es? Por que uma na\u00e7\u00e3o inteira se torna hist\u00e9rica com a vit\u00f3ria de sua sele\u00e7\u00e3o, sabendo que isso n\u00e3o agrega nada \u00e0 qualidade da vida social. Ao contr\u00e1rio, alimenta seu sentimento de superioridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A que serve a vangl\u00f3ria? A cultura competitiva \u00e9, realmente, ben\u00e9fica? O ser humano se torna feliz aplacando outros ou colaborando-se? Por que os jogos cooperativos s\u00e3o t\u00e3o pouco tomados em conta, at\u00e9 mesmo nas escolas, onde, supostamente se ensinam valores? Por que os meios de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhes d\u00e3o import\u00e2ncia e difundem tanto o esporte competitivo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A resposta \u00e9 \u00f3bvia. A sociedade capitalista se move pela competi\u00e7\u00e3o. Nela, o poder \u00e9 objeto de luta. Muitos ambicionam o poder do Estado e se perpetuarem nele, mesmo sem legitimidade e credibilidade popular. As empresas tra\u00e7am estrat\u00e9gias para influenciarem igualmente o Estado, abocanharem recursos destinados ao bem p\u00fablico e tornarem-se hegem\u00f4nicas no mercado. As na\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m defendem seus interesses em detrimento das demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Dessa forma, n\u00e3o se constr\u00f3i um projeto comum de sociedade. Rejeita-se a contribui\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os, de suas associa\u00e7\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es sociais. Os grupos economicamente influentes se imp\u00f5em. O Estado se submete \u00e0 forma desses grupos jogarem. Cada um defende a si pr\u00f3prio, contra os demais. Associam-se, no entanto, na defesa de seus interesses corporativos. At\u00e9 o mundo religioso \u00e9 influenciado por essa l\u00f3gica competitiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O ensinamento de Cristo a esse respeito \u00e9 iluminador. Ele exortou seus disc\u00edpulos a n\u00e3o reproduzirem rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o existentes na sociedade: \u201cSabeis que os governadores das na\u00e7\u00f5es as dominam e os grandes as tiranizam. Entre v\u00f3s n\u00e3o dever\u00e1 ser assim. Ao contr\u00e1rio, aquele que quiser tornar-se grande entre v\u00f3s, seja aquele que serve, e o que quiser ser o primeiro, seja o servo de todos\u201d (Mt 20,24-27).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Papa Le\u00e3o XIII, em sua Enc\u00edclica <em>Rerum Novarum<\/em> (Coisas Novas), de 1891, deu in\u00edcio \u00e0 cr\u00edtica da Igreja, sempre atual, sobre o modelo societ\u00e1rio competitivo, afirmando que \u201cos princ\u00edpios e o sentimento religiosos desapareceram das leis e das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, e assim, pouco a pouco, os trabalhadores, isolados e sem defesa, t\u00eam-se visto, com o decorrer do tempo, entregues \u00e0 merc\u00ea de senhores desumanos e \u00e0 cobi\u00e7a de uma concorr\u00eancia desenfreada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O que dizer, ent\u00e3o, do esporte? Ele \u00e9 saud\u00e1vel, se praticado de forma cooperativa e l\u00fadica. Sendo, no entanto, extremamente competitivo e mercantil, d\u00e1 fluidez ideol\u00f3gica \u00e0 engrenagem do sistema capitalista e nutre a cultura da supremacia de uns sobre os outros, favor\u00e1vel aos mais fortes. O que ganhamos, ent\u00e3o, com vit\u00f3rias em competi\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Existiria outro tipo de alegria que valha muito mais a pena? Com certeza: a alegria de entrarmos nos campos reais da vida; jogarmos no time da classe trabalhadora; driblarmos o desemprego, o sal\u00e1rio baixo e as condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de vida; darmos um ol\u00e9 nos que governam para as elites; marcarmos gols a favor dos socialmente exclu\u00eddos; e vencermos nosso pr\u00f3prio sentimento de povo derrotado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Que tal, ent\u00e3o, em lugar de torcermos histericamente por uma ta\u00e7a simb\u00f3lica, que alimenta arrog\u00e2ncia, acordarmos, enxergarmos e entendermos os desafios de nosso momento pol\u00edtico? Ele \u00e9 oportuno para retirarmos de campo os que fazem gol contra, mudarmos as regras do jogo, e podermos, enfim, \u201cjogar solidariamente\u201d, com garra, arte e alegria, em favor do bem comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Reginaldo Andrietta Bispo de Jales &nbsp; O vazio das ruas na hora de um jogo da sele\u00e7\u00e3o sugere reflex\u00f5es. A ansiedade por vit\u00f3rias, mesmo simb\u00f3licas, d\u00e1 o que pensar. Por que o ser humano se excita tanto com competi\u00e7\u00f5es? 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