{"id":30923,"date":"2018-07-05T00:00:00","date_gmt":"2018-07-05T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/ouve-se-um-clamor\/"},"modified":"2018-07-05T00:00:00","modified_gmt":"2018-07-05T03:00:00","slug":"ouve-se-um-clamor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/ouve-se-um-clamor\/","title":{"rendered":"Ouve-se um clamor!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Jaime Spengler<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo de Porto Alegre<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Dante, no primeiro canto do Inferno, descreve seu encontro com Virg\u00edlio: \u201cQuando o vi no grande deserto, ai de mim, gritei para ele: que \u00e9 que sejas, sombra ou homem certo. Respondeu-me: n\u00e3o homem, homem j\u00e1 fui\u201d. Esse verso traduz o que significa a expans\u00e3o progressiva da t\u00e9cnica e que vai atingindo todos os \u00e2mbitos da vida humana.<\/p>\n<p>O ser humano, de algum modo, sabe que participa, e consequentemente \u00e9 correspons\u00e1vel, da cria\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o da vida. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, est\u00e1 sempre correndo o risco de se tornar promotor da destrui\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio viver pessoal e social. \u00c9 que na possibilidade de viver humanamente e dignamente est\u00e1 igualmente latente a possibilidade de matar e aniquilar desumanamente. N\u00e3o faltam exemplos dessa realidade atrav\u00e9s dos quais se pode colher os gritos da puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p>As conquistas da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica oferecem um n\u00famero sem fim de possibilidades de promo\u00e7\u00e3o da vida em suas distintas formas de manifesta\u00e7\u00e3o. Oferecem tamb\u00e9m meios sofisticados para sua destrui\u00e7\u00e3o. Ela elimina o que \u00e9, desfaz o que foi, e apaga os tra\u00e7os do que ser\u00e1. Desse modo s\u00e3o eliminadas as virtualidades da surpresa, substituindo a natureza pela t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Em se tratando da vida humana, desde sua origem at\u00e9 o seu ocaso natural, pode-se perceber que a condi\u00e7\u00e3o humana \u00e9 marcada pela possibilidade de realizar-se plenamente ou n\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel arrancar do ser humano o quociente de equidade, sem destruir a pessoa. O desejo de criar um ser humano \u2018puro\u2019 j\u00e1 foi, em tempos recentes, uma tenta\u00e7\u00e3o nefasta!<\/p>\n<p>Toda forma de agress\u00e3o \u00e0 vida, n\u00e3o importa o seu est\u00e1gio, desqualifica o ser humano na sua identidade e dignidade. A ningu\u00e9m \u00e9 concedido o direito ou o dever de eliminar a vida humana.<\/p>\n<p>Todo indiv\u00edduo, pelo fato de ser pessoa humana, \u00e9 provido de uma qualidade peculiar inerente a todos em igual medida. Ningu\u00e9m pode instrumentalizar quem quer que seja. Tal qualidade gera o dever de tratar o ser humano, n\u00e3o importa o est\u00e1gio e a condi\u00e7\u00e3o de sua exist\u00eancia, com considera\u00e7\u00e3o e respeito, pois a condi\u00e7\u00e3o de pessoa alguma \u00e9 intrinsecamente superior \u00e0 de outro sujeito.<\/p>\n<p>A dignidade do ser humano exige o respeito de todos os outros membros da coletividade. A ningu\u00e9m \u00e9 concedido a possibilidade de realizar ataques ou agress\u00f5es, seja de que ordem for, \u00e0 autonomia do sujeito.<\/p>\n<p>Afinal, qual o princ\u00edpio da vida humana? O princ\u00edpio \u00e9 origem, surge e se imp\u00f5e ao longo de toda a vida. O princ\u00edpio s\u00f3 alcan\u00e7a plenitude na integra\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o do fim. In\u00edcio \u00e9 princ\u00edpio em busca de realiza\u00e7\u00e3o, fim \u00e9 o princ\u00edpio, plenamente realizado.<\/p>\n<p>Pode-se assim compreender porque a quest\u00e3o da aprova\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o do aborto, seja em que est\u00e1gio for, n\u00e3o pode ser fruto de dados cient\u00edficos e t\u00e9cnicos. Trata-se originariamente de uma quest\u00e3o de compreens\u00e3o e de respeito pela dignidade humana. Nos debates em torno da quest\u00e3o do aborto n\u00e3o se observa um grito amoroso pela salva\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. \u00c9, antes de tudo, um grito necr\u00f3filo de morte \u00e0 vida e sua originalidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jaime Spengler Arcebispo de Porto Alegre &nbsp; Dante, no primeiro canto do Inferno, descreve seu encontro com Virg\u00edlio: \u201cQuando o vi no grande deserto, ai de mim, gritei para ele: que \u00e9 que sejas, sombra ou homem certo. Respondeu-me: n\u00e3o homem, homem j\u00e1 fui\u201d. 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