{"id":31113,"date":"2018-07-24T00:00:00","date_gmt":"2018-07-24T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/nem-tanto-ao-mar-nem-tanto-a-terra\/"},"modified":"2018-07-24T00:00:00","modified_gmt":"2018-07-24T03:00:00","slug":"nem-tanto-ao-mar-nem-tanto-a-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/nem-tanto-ao-mar-nem-tanto-a-terra\/","title":{"rendered":"Nem tanto ao mar, nem tanto \u00e0 terra"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Edney Gouv\u00eaa Mattos<br \/>\n<\/strong><strong>Bispo de Nova Friburgo (RJ)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Caros amigos, vivemos tempos de exageros. Enquanto alguns arrastam-se pela terra de seus problemas, outros velejam nas ondas da sua pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o autossuficiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No campo das emo\u00e7\u00f5es, \u00e9 comum percebermos pessoas que oscilam extremos da alegria \u00e0 tristeza. A depress\u00e3o, chamada a doen\u00e7a do s\u00e9culo, acabrunha muitos de nossos irm\u00e3os, apesar de se multiplicarem nas redes sociais os sorrisos fotogr\u00e1ficos. A euforia irrespons\u00e1vel, que apesar de condenar toda reflex\u00e3o \u00e9tica da preocupa\u00e7\u00e3o com o outro, justifica-se na defesa de uma pol\u00edtica social justa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No campo da raz\u00e3o ocorre algo semelhante: os extremos v\u00e3o desde aqueles que, na defesa de suas pr\u00f3prias ideias, se esquecem da realidade; at\u00e9 aos que, em prol das exig\u00eancias concretas da realidade, relativizam a verdade. Em tempos de falta de paradigmas, agarrar-se aos extremos parece ser a resposta mais instintiva e imediata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No entanto, a linha da coer\u00eancia crist\u00e3 \u00e9 muito t\u00eanue. N\u00e3o se pode abrir m\u00e3o de uma coisa em prol de outra. O bem \u00e9 feito de boas ideias encarnadas na realidade dos filhos e filhas de Deus. O caminho n\u00e3o pode ser \u201cnem tanto ao mar, nem tanto \u00e0 terra\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Papa Francisco identifica duas falsifica\u00e7\u00f5es da santidade que tende nos extraviar do caminho virtuoso do Evangelho: o Gnosticismo e o Pelagianismo. Diz: \u201cS\u00e3o duas heresias que surgiram nos primeiros s\u00e9culos do cristianismo, mas continuam a ser de alarmante atualidade. Ainda hoje os cora\u00e7\u00f5es de muitos crist\u00e3os, talvez inconscientemente, deixam-se seduzir por estas propostas enganadoras. Nelas aparece expresso um imanentismo antropoc\u00eantrico disfar\u00e7ado de verdade cat\u00f3lica\u201d (Gaudete et Exsultate, 35).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O gnosticismo afirma a exist\u00eancia de um \u201cconhecimento salvador\u201d reservado a um seleto grupo de \u201cpredestinados\u201d, que como \u201cseres humanos evolu\u00eddos\u201d distinguem-se dos demais, condenados a uma vida mediana ou med\u00edocre. O Papa Francisco aponta para este risco em grupos da Igreja que, na pr\u00e1tica fechada do subjetivismo, se acham \u201cmais santos\u201d ou melhores que os outros. Ele os acusa de \u201cum elitismo narcisista e autorit\u00e1rio, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso \u00e0 gra\u00e7a, consomem suas energias em controlar\u201d (Idem).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Enquanto isso, o pelagianismo, negando a exist\u00eancia do pecado original, afirma que Jesus n\u00e3o nos perdoou por sua gra\u00e7a, mas apenas releva nossos pecados pessoais e nos d\u00e1 seu \u201cbom exemplo\u201d para que sigamos os seus passos. Como m\u00e1xima express\u00e3o de autossufici\u00eancia, o homem torna-se o \u201csalvador de si mesmo\u201d. Ensina o Papa Francisco que \u201cembora falem da gra\u00e7a de Deus com discursos adocicados, no fundo, s\u00f3 confiam nas suas pr\u00f3prias for\u00e7as e sentem-se superiores aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fieis a um certo estilo cat\u00f3lico. (Evangeli Gaudium, 94).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para estas duas correntes n\u00e3o interessam nem Jesus Cristo nem os outros (cf. Gaudete et Exsultate, 35). O homem, encerrado no individualismo, tra\u00e7a seu caminho sem limites e ordem, guiado apenas por seus pr\u00f3prios interesses. Mas, n\u00e3o podemos esquecer que Jesus, por sua encarna\u00e7\u00e3o, abriu-nos as portas da comunh\u00e3o com Deus e com os irm\u00e3os. Seremos promotores da verdade construindo um caminho de santidade correspondendo ao amor que Deus tem por n\u00f3s vivendo a caridade com o pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A santidade, portanto, \u00e9 feita de passos concretos no caminho certo, e Jesus \u00e9 o Caminho! (cf. Jo 14,6). Cuidemos para n\u00e3o sermos iludidos pela autossufici\u00eancia humana, e assim atrofiarmos o projeto de santidade querido por Deus para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Edney Gouv\u00eaa Mattos Bispo de Nova Friburgo (RJ) &nbsp; Caros amigos, vivemos tempos de exageros. Enquanto alguns arrastam-se pela terra de seus problemas, outros velejam nas ondas da sua pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o autossuficiente. No campo das emo\u00e7\u00f5es, \u00e9 comum percebermos pessoas que oscilam extremos da alegria \u00e0 tristeza. 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