{"id":31709,"date":"2018-09-07T00:00:00","date_gmt":"2018-09-07T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/e-o-verbo-se-fez-carne-e-habitou-entre-nos-joao-1-14\/"},"modified":"2018-09-07T00:00:00","modified_gmt":"2018-09-07T03:00:00","slug":"e-o-verbo-se-fez-carne-e-habitou-entre-nos-joao-1-14","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/e-o-verbo-se-fez-carne-e-habitou-entre-nos-joao-1-14\/","title":{"rendered":"&#8220;E o Verbo se fez carne e habitou entre n\u00f3s\u201d\u00a0 (Jo\u00e3o 1, 14)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Cardeal Orani Jo\u00e3o Tempesta<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo Metropolitano de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro (RJ)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O pr\u00f3ximo fato social de importante e relevo social \u00e9 o da Independ\u00eancia do Brasil, o qual se deu no dia 07 de setembro de 1822, em rela\u00e7\u00e3o ao ent\u00e3o Reino de Portugal. Como dissemos h\u00e1 algum tempo, em outra reflex\u00e3o sobre esta mesma data, esta data que \u00e9 contada com tanta gl\u00f3ria na vis\u00e3o de uma historiografia mais tradicional e que \u00e9 t\u00e3o belamente representada no quadro \u201cIndepend\u00eancia ou Morte\u201d de Pedro Am\u00e9rico, o qual se encontra, atualmente, localizado no Museu Paulista da USP, merecem um pouco mais de nossa aten\u00e7\u00e3o e, sobretudo um aprofundamento sua an\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Dentre v\u00e1rios motivos, podemos mostrar que a t\u00e3o contada e recontada independ\u00eancia do Brasil n\u00e3o foi t\u00e3o cheia de honra e pompa, assim como nos querem fazer parecer. Na parte da historiografia, podemos demonstrar isto pelo simples fato de que, ao contr\u00e1rio de outros pa\u00edses que conquistaram sua independ\u00eancia de forma gratuita, o Brasil teve de pagar tipo uma indeniza\u00e7\u00e3o ao Reino de Portugal, para que pudesse ter a sua \u201cindepend\u00eancia\u201d galgada. Para tanto, teve o Brasil de pegar empr\u00e9stimo, e, em tese, para muitos seria este o in\u00edcio da d\u00edvida externa brasileira. Na quest\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o art\u00edstica, hoje, tranquilamente pode-se afirmar que a ostenta\u00e7\u00e3o do bel\u00edssimo quadro nunca se deu como ali representado. Ao se afirmar isso, jamais se perde de vista a import\u00e2ncia o fato da liberdade art\u00edstica, afinal, como diria o velho brocardo latino, \u00e0 natureza e ao poeta tudo \u00e9 l\u00edcito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">De toda sorte, \u00e9 preciso que se fa\u00e7a uma an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o social que assola o Brasil e que nos leva a pensar sobre o quanto j\u00e1 caminhamos e sobre o quanto ainda precisamos caminhar. Naquele momento, pens\u00e1vamos que os fortes agitos e turbul\u00eancia pelos quais passavam a pol\u00edtica nacional em \u00e2mbito, sobretudo localizado em Bras\u00edlia, era um fator pontual e que, com o passar de mais algum tempo, a crise, naturalmente, se extinguiria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sem qualquer tipo de vi\u00e9s partid\u00e1rio-ideol\u00f3gico em espec\u00edfico, mas ao mesmo tempo procurando fazer uma reflex\u00e3o \u00e0 luz do Evangelho sobre fatos e n\u00e3o sobre pessoas, \u00e9 importante para a miss\u00e3o da Igreja que as presentes linhas consistam numa perspectiva de procura de ajuda de constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade cada vez mais solid\u00e1ria e justa. Isto \u00e9 a miss\u00e3o da Igreja e a miss\u00e3o de cada um dos batizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para muitos, qualquer tipo de coment\u00e1rio sobre situa\u00e7\u00f5es objetivamente colocadas n\u00e3o consiste em miss\u00e3o da Igreja, a qual, para os defensores desta forma de pensar, deveria ficar reclusas \u00e0 sacristia das Igrejas e aos momentos devocionais e desligados da realidade social na qual a Igreja se encontra. Entretanto, para estes que querem, de alguma forma, calarem a voz prof\u00e9tica da Igreja temos de lembrar o treco que inaugura o presente texto. A partir de sua Encarna\u00e7\u00e3o no Seio da Virgem, Nosso Senhor Jesus Cristo se tornou um conosco, em tudo igual, menos no pecado, assim como diz a carta paulina. Mas, com a Encarna\u00e7\u00e3o, o Senhor armou sua Tenda entre n\u00f3s e passou a conhecer cada nuance da exist\u00eancia humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Durante v\u00e1rios trechos do Evangelho, podemos notar que o Senhor Jesus teve momentos tensos e chegando ao cl\u00edmax da conversa entre Jesus e Pilatos (Evangelho de Jo\u00e3o 19, 1-6), pois depois de mandar a\u00e7oitar Jesus, Pilatos o apresenta simplesmente como \u201co humano\u201d (v. 5). H\u00e1 certo desprezo na palavra de Pilatos. Tal atitude parece ser uma manobra do evangelista com duplo prop\u00f3sito: Pilatos constata a humanidade de Jesus e a comunidade de f\u00e9 a professa como realiza\u00e7\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o. Colocada no discurso dos advers\u00e1rios (ironia joanina), a afirma\u00e7\u00e3o de que Jesus se fez filho de Deus (v. 7), \u00e9 a proclama\u00e7\u00e3o de f\u00e9 no \u201chomem Jesus\u201d como enviado e revelador do Pai. Jesus como o Verbo divino vem e nos liberta de toda forma de escravid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O termo \u201chumano\u201d na boca de Pilatos tem o sentido depreciativo de \u201cacusado\u201d, com acentua\u00e7\u00e3o na sua fraqueza e impossibilidade de fazer o mal. Por\u00e9m, para o evangelista evoca o t\u00edtulo de \u201cFilho do Homem\u201d, que no Quarto Evangelho exprime o mist\u00e9rio crist\u00e3o. H\u00e1, possivelmente, um desejo do evangelista de afirmar a humanidade de Jesus como lugar \u00fanico de manifesta\u00e7\u00e3o do sagrado. Para a comunidade crist\u00e3, o dito \u201cEis o humano\u201d (v. 5) soa como sin\u00f4nimo de \u201co Logos fez-se carne\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na pessoa de Jesus, despojado de toda a \u201crealeza do mundo\u201d, vislumbra-se o verdadeiro ser humano, aquele que \u00e9 livre para se entregar at\u00e9 o fim num gesto pleno de amor. Novamente, o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 uma dificuldade em se aceitar a humanidade de Jesus. Pelo contr\u00e1rio, ela \u00e9 um dado plenamente aceito e inequ\u00edvoco. O Cristo joanino \u00e9 o Verbo que se fez carne, feito nosso irm\u00e3o, em tudo semelhante a n\u00f3s. O que importa n\u00e3o \u00e9 pregar a humanidade sofrida do \u201cJesus-carne\u201d, mas sim o \u00eaxito final de sua miss\u00e3o que se dar\u00e1 pela entrega na cruz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nosso Senhor teve um momento hist\u00f3rico e num determinado espa\u00e7o, nos quais, cumpriu a miss\u00e3o para a qual veio, e a qual conhecia desde toda eternidade, ou seja, de Reden\u00e7\u00e3o de toda a humanidade, para que todos pudessem chegar ao pleno conhecimento de Deus e sua Miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Desta forma, a Igreja, como fiel seguidora do Seu Divino Mestre e Senhor, n\u00e3o pode deixar de se imiscuir nas mais diversas realidades sociais nas quais se encontra e em todos os tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ali\u00e1s, muito antes da Igreja como a conhecemos hoje, temos a hist\u00f3ria do povo de Deus, a qual j\u00e1 mostra como os israelitas sempre trouxeram as suas experi\u00eancias de f\u00e9 como fonte e fundamento de sua caminhada social. Como prefigura\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o da Igreja, por todo Antigo Testamento, j\u00e1 se v\u00ea que a pol\u00edtica sempre, como ato comum a favor de todos, sempre sofreu a influ\u00eancia atrav\u00e9s de reis ou profetas. Devido ao fato do Deus de Israel ser um Deus pessoal, fruto de uma experi\u00eancia libertadora, exige compromisso com o bem comum e com a realidade. Dentre v\u00e1rios profetas do Antigo Testamento, sem cairmos em min\u00facias que n\u00e3o s\u00e3o o foco de uma leitura b\u00edblica mais apurada, podemos pegar como exemplo o Profeta Os\u00e9ias, o qual sempre denunciou as v\u00e1rias injusti\u00e7as pelas quais o Povo de Deus passava. Apesar de todas limita\u00e7\u00f5es, sempre teve como fundamento primeiro e fim \u00faltimo fazer com que o povo de Deus voltasse \u00e0 fidelidade do primeiro testemunho. Outros v\u00e1rios e fartos exemplos podemos encontrar pelo livro de Isa\u00edas e em diversos Salmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em <em>A Trindade<\/em>, o Bispo Santo Agostinho de Hipona, Doutor da Igreja, diz tamb\u00e9m qual o sentido da encarna\u00e7\u00e3o, acentuando novamente a condi\u00e7\u00e3o pecadora da humanidade: E a luz brilha nas trevas, mas as trevas n\u00e3o a apreenderam (Jo 1,5). As trevas s\u00e3o as mentes dos homens insensatos, cegadas pelas m\u00e1s concupisc\u00eancias e pela infidelidade. Foi para as curar e sarar que o Verbo pelo qual tudo foi feito, se fez carne e habitou entre n\u00f3s (Jo1,14). Pois nossa ilumina\u00e7\u00e3o \u00e9 uma participa\u00e7\u00e3o no Verbo, isto \u00e9, \u00e0quela vida que \u00e9 a luz dos homens. A imund\u00edcie de nossos pecados tornava-nos menos id\u00f4neos ou totalmente in\u00e1beis a essa participa\u00e7\u00e3o. Dev\u00edamos, portanto, ser purificados.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nesta mesma linha de an\u00e1lise de Jo\u00e3o 1, 14, sobre como o Verbo fez morada entre n\u00f3s e por isto conhecedor de nossa realidade, \u00e9 importante lembrarmos do te\u00f3logo Karl Rahner, SJ, o qual captou em profundidade os apelos do homem moderno em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 f\u00e9, percebendo-os num quadro mais amplo que o meramente eclesial e religioso, abrindo-se para a antropologia. Isso se deu pela sua percep\u00e7\u00e3o do mal-estar em que os crist\u00e3os viviam diante de um mundo onde as ci\u00eancias evolu\u00edram, onde o mundo em si evoluiu, e as verdades da f\u00e9 permaneciam acrisoladas em formula\u00e7\u00f5es dogm\u00e1ticas repetidas, mas incompreendidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Jesus, Deus-homem, \u00e9, para Rahner, o portador Absoluto de Salva\u00e7\u00e3o. Sendo assim, compreendeu ser urgente uma investida da teologia no di\u00e1logo com outras \u00e1reas e a formula\u00e7\u00e3o de uma teologia de cunho ontol\u00f3gico, significando n\u00e3o s\u00f3 uma mudan\u00e7a na linguagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 teologia de concep\u00e7\u00f5es \u00f4nticas, mas, acima de tudo, uma variante na forma de olhar e de dizer a f\u00e9 no mundo, a partir do humano.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O humano, esp\u00edrito e mat\u00e9ria que \u00e9, n\u00e3o \u00e9 capaz de uma vis\u00e3o beat\u00edfica j\u00e1 neste mundo. Portanto, a poss\u00edvel revela\u00e7\u00e3o de Deus deve dar-se no lugar hist\u00f3rico. \u00c9 nele somente que a humanidade poder\u00e1 conhecer, pois o conhecimento humano ser\u00e1 a pr\u00e9-capta\u00e7\u00e3o do infinito no finito de sua exist\u00eancia. A hist\u00f3ria \u00e9 o espa\u00e7o no qual a palavra de Deus deve dar-se a conhecer. Tal revela\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria rompe com os esquemas antag\u00f4nicos em que Deus, o Absoluto, n\u00e3o se envolve com o mundo. Na hist\u00f3ria e na \u201ccarne\u201d \u00e9 que Deus pode se comunicar. Assim sendo, como nos primeiros Santos Padres, \u00e9 n\u00edtido que toda a hist\u00f3ria \u00e9 em si marcada pela gra\u00e7a, sendo uma realidade permanente do humano, e n\u00e3o um adicional divino que pode lhe ser acrescentado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ainda no mesmo sentido de tudo que expusemos acima, antes de adentrarmos na quest\u00e3o da atual conjectura nacional, para mostrarmos a import\u00e2ncia do crist\u00e3o estar engajado na vida social, trazemos a cita\u00e7\u00e3o do n. 62, da Enc\u00edclica \u201cLaudato Si\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> do Santo Padre o Papa Francisco:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cPor que motivo incluir, neste documento dirigido a todas as pessoas de boa vontade, um cap\u00edtulo referido \u00e0s convic\u00e7\u00f5es de f\u00e9? N\u00e3o ignoro que alguns, no campo da pol\u00edtica e do pensamento, rejeitam decididamente a ideia de um Criador ou consideram-na irrelevante, chegando ao ponto de relegar para o reino do irracional a riqueza que as religi\u00f5es possam oferecer para uma ecologia integral e o pleno desenvolvimento do g\u00e9nero humano; outras vezes, sup\u00f5e-se que elas constituam uma subcultura, que se deve simplesmente tolerar. Todavia a ci\u00eancia e a religi\u00e3o, que fornecem diferentes abordagens da realidade, podem entrar num di\u00e1logo intenso e frutuoso para ambas.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Feita esta mais longa e pormenorizada introdu\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio que se entre numa an\u00e1lise sint\u00e9tica dos problemas que a n\u00f3s todos como cidad\u00e3os estamos enfrentando. Posto isto, \u00e9 importante frisarmos que este ano \u2013 em 05 de outubro de 2018 \u2013 fazemos 30 anos da Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Federativa do Brasil e que esta \u00e9 um marco social, pol\u00edtico, pol\u00edtico, jur\u00eddico, dentre outros fatores, muito importante. Pelo fato de ser um marco de divis\u00e3o extremamente marcante, \u00e9 que vamos fazer usar como suporte da situa\u00e7\u00e3o atual a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ap\u00f3s 24 anos de um per\u00edodo de exce\u00e7\u00e3o, no qual n\u00e3o estamos para acusar ou desculpar erros de quem quer que seja, podemos afirmar de forma perempt\u00f3ria que o estabelecimento de uma democracia pol\u00edtica protegida por diversos mecanismos a garantir, pela primeira vez, algum acesso m\u00ednimo de todos os brasileiros e brasileiras a processos de decis\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o coletivas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na caminhada constante do crescimento da democracia, sempre \u00e9 importante lembrarmos que o Brasil tem um processo de democratiza\u00e7\u00e3o cheio de sobressaltos e, ainda hoje, bastante prec\u00e1rio. Teoricamente, \u00e9 problem\u00e1tico se ter um \u201cideal de democracia\u201d. A democracia \u00e9 uma forma din\u00e2mica de tomada de decis\u00f5es coletivas que pode se organizar de formas diversas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Indo ao encontro do processo de fiscaliza\u00e7\u00e3o e fortalecimento das institui\u00e7\u00f5es de controle, n\u00e3o h\u00e1 como deixar de citar as a\u00e7\u00f5es do Poder Judici\u00e1rio, em todas as suas inst\u00e2ncias, que distribuindo a a\u00e7\u00e3o jurisdicional, com seus acertos e erros, mostrou-nos que a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 um fator que perpassa por, praticamente, todos os vieses de todos os partidos e que est\u00e1 perpetrada na vida privada e na vida p\u00fablica. Com seus belos discursos, preparados por seus profissionais do marketing, o Senhor os chamaria de \u201csepulcro caiado\u201d, n\u00e3o porque s\u00e3o belas formas de ludibriar a realidade, mas tamb\u00e9m porque s\u00e3o formas de desvincular a fala da realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nessa crise de constitucionaliza\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira, n\u00e3o se pode ser reducionista e simplista, ao querer se fazer o antigo esquema de direita e esquerda, eles contra n\u00f3s, em s\u00edntese, como se fosse uma quest\u00e3o bin\u00e1ria, manique\u00edsta, dual. N\u00e3o, isto \u00e9 n\u00e3o se adentrar no problema de forma horizontal e incisiva. N\u00e3o se pode recorrer ao discurso do \u00f3dio. Isto prega contra o Evangelho, que n\u00e3o \u00e9 pacifista, mas sim pacificador e de entrega por Amor e no Amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Igreja deve e pode ajudar na constru\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira mais justa, solid\u00e1ria e sempre fincada nos milenares valores que nasceram do Cristo na Cruz e, posteriormente, do nascimento dela em Pentecostes. Para colaborar com este pensamento social brasileiro, \u00e0 frente, trazemos algumas reflex\u00f5es sobre como ainda estamos muito longe e distantes de conseguirmos cumprir a promessa de um pa\u00eds melhor e extinguirmos de vez a pobreza e o subdesenvolvimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Uma primeira quest\u00e3o que toca o subdesenvolvimento \u00e9 a baix\u00edssima aplica\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o formal. Ainda h\u00e1 poucos dias saiu uma pesquisa a qual, de forma vergonhosa, informou o que j\u00e1 se sabe h\u00e1 muito tempo, a falta de respeito com a educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o daqueles que nos suceder\u00e3o. Em informa\u00e7\u00f5es livres, foi dito que, no m\u00ednimo, 70% dos alunos n\u00e3o sabe interpretar um texto b\u00e1sico ou ter conhecimento de uma f\u00f3rmula matem\u00e1tica de complexidade m\u00e9dia. Ora sem uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade estamos fazendo um refor\u00e7o para baixo e constante do subdesenvolvimento, uma vez que se as pessoas n\u00e3o podem ter uma forma\u00e7\u00e3o melhor elas t\u00eam de procurar outras formas de subdesenvolvimento, seja na mis\u00e9ria de um subemprego ou na criminalidade. Esta forma de viol\u00eancia e agress\u00e3o contra a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais grave do que a de um indiv\u00edduo que furta algo de pequena monta. N\u00e3o se pode justificar um erro com outro, mas os desvios de verbas p\u00fablicas causam muito mais repercuss\u00e3o na vida do cidad\u00e3o comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por falar em \u00edndices de criminalidade, quando a mulher ou o homem sem qualifica\u00e7\u00e3o para o mercado se veem desesperados pela sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia ou de sua fam\u00edlia, premido pela necessidade, acabam se enfronhando no submundo do crime. Ao fazerem isto, em boa parte das vezes, estas pessoas mais iletradas s\u00e3o processadas e julgadas em \u00e2mbito criminal e fazendo inchar ainda mais o sistema carcer\u00e1rio brasileiro, o qual j\u00e1 \u00e9 um dos maiores do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em n\u00fameros formais, temos, aproximadamente, 14 milh\u00f5es de desempregados, mas, certamente, o n\u00famero supera e muito a isto. Temos um verdadeiro ex\u00e9rcito de indigentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o \u00e9 por falta de cadeias e n\u00famero de pessoas presas que o Brasil n\u00e3o resolve seus problemas, pois, a gest\u00e3o pela puni\u00e7\u00e3o continua no \u00e2mbito do encarceramento em massa continua elevado no Brasil. Em 2010, o Brasil tinha 496 mil presos. Uma m\u00e9dia de 253 detentos para cada 100 mil habitantes. Em 2016, o pa\u00eds encarcerava em suas masmorras 607 mil pessoas. E saltava em 20% a m\u00e9dia. 301 presos para cada 100 mil habitantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Trabalho precarizado no Brasil e da gest\u00e3o da sua quest\u00e3o social. E fim que hoje destina hoje aos seus milh\u00f5es de trabalhadores radicaliza e retro-alimenta suas tend\u00eancias dominantes hoje no mercado de trabalho, quais sejam, o desemprego que desvaloriza ainda mais a for\u00e7a de trabalho e o punitivismo como forma de sele\u00e7\u00e3o natural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ainda como reflexo da nossa sociedade ca\u00f3tica, como reflexo da desigualdade social, falta de uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade e de pol\u00edticas p\u00fablicas, temos de nos lembrar do sistema de sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O policial, em boa parte das vezes, t\u00e3o sub-valorizado tamb\u00e9m, como qualquer pessoa, sente a necessidade de um sal\u00e1rio digno. Durante os anos, temos v\u00e1rios exemplos de viol\u00eancia. S\u00e3o ru\u00eddos inc\u00f4modos o suficiente para demonstrar a falta de paz. Bem como aumento explosivo da viol\u00eancia em Recife, em Porto Alegre, nas rebeli\u00f5es cada vez mais sanguin\u00e1rias e das guerras de fac\u00e7\u00f5es nos pres\u00eddios, s\u00e3o apenas o aspecto mais vis\u00edvel destes conflitos. Nas ruas dos centros velhos das grandes cidades, onde o medo \u00e9 constante, pessoas contra pessoas, e de pessoas contra a pol\u00edcia, passando pelas brigas no tr\u00e2nsito, at\u00e9 no almo\u00e7o de fam\u00edlia da classe m\u00e9dia, chegando, finalmente, \u00e0 redes sociais e comunidades de \u201chaters\u201d, a desintegra\u00e7\u00e3o social avan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Poder-se-ia ainda citar outros fatores para sempre pensados como a possibilidade de terceiriza\u00e7\u00e3o do trabalho, do consumo enquanto instrumento de distin\u00e7\u00e3o social, da desconfian\u00e7a selvagem em rela\u00e7\u00e3o aos pol\u00edticos e partidos, da supervaloriza\u00e7\u00e3o do privado sobre o p\u00fablico, da ideologia do m\u00e9rito jogou para escanteio o programa democr\u00e1tico-popular e, com isto, as no\u00e7\u00f5es de identidade de classe, de associativismo e de direitos universais em nome do empreendedorismo etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sei bem que as reflex\u00f5es acima s\u00e3o fortes e incisivas, mas o nosso \u00fanico intuito \u00e9 de provocar um certo desconforto nas pessoas, para que possamos juntos procurar sa\u00eddas e alternativas para fortalecer a nossa novel democracia, ainda incipiente e que precisa da colabora\u00e7\u00e3o de todas e todas para que seja fortalecida. E esta democracia s\u00f3 pode ser fortalecida com mais democracia, isto \u00e9, criando-se mecanismos nos quais os que n\u00e3o representam a vontade popular de progresso e melhoria social sejam definitivamente exclu\u00eddos. N\u00e3o \u00e9 se omitindo informa\u00e7\u00f5es e fazendo como se nada houvesse que o problema vai ser resolvido, mas sim se enfrentando o problema de frente e procurando solu\u00e7\u00e3o. Assim \u00e9 que \u00e9 feito em pa\u00edses como a Finl\u00e2ndia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Enquanto vivermos neste mundo teremos desafios, por isto a presente mensagem \u00e9 de encorajamento de todos que visam seguir o Senhor Jesus, lembrar que seguir o Mestre, em tempo algum e em lugar foi miss\u00e3o f\u00e1cil, tanto assim que nos primeiros 4 s\u00e9culos de cristianismo, os que nos precederam na f\u00e9 foram perseguidos e mortos. Mas, como se diz no Livro dos Atos dos Ap\u00f3stolos, o sangue dos m\u00e1rtires era semente de novos crist\u00e3os. E isto muito antes de vi\u00e9s pol\u00edtico-partid\u00e1rio que temos nos dias atuais. Nosso Senhor diz: \u201cSomente em mim tereis a paz\u201d (Jo\u00e3o 16,33). Assim sendo, busquemos como Igreja, como filhos de Deus no \u00fanico batismo, chegar mais pr\u00f3ximo ao sonho de Deus para um mundo melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Rezemos com o Papa Francisco, em \u201cLaudato Si\u201d, no n. 244: Na expectativa da vida eterna, unimo-nos para tomar a nosso cargo esta casa que nos foi confiada, sabendo que aquilo de bom que h\u00e1 nela ser\u00e1 assumido na festa do C\u00e9u. Juntamente com todas as criaturas, caminhamos nesta terra \u00e0 procura de Deus, porque, \u201cse o mundo tem um princ\u00edpio e foi criado, procura quem o criou, procura quem lhe deu in\u00edcio, aquele que \u00e9 o seu Criador\u201d. Caminhemos cantando; que as nossas lutas e a nossa preocupa\u00e7\u00e3o por este planeta n\u00e3o nos tirem a alegria da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> AGOSTINHO, Santo. <em>A Trindade<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1994 (Patr\u00edstica)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Cf. RAHNER, Karl. <em>Teologia e antropologia.<\/em> S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1969. p.162-163.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/encyclicals\/documents\/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/encyclicals\/documents\/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cardeal Orani Jo\u00e3o Tempesta Arcebispo Metropolitano de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro (RJ) O pr\u00f3ximo fato social de importante e relevo social \u00e9 o da Independ\u00eancia do Brasil, o qual se deu no dia 07 de setembro de 1822, em rela\u00e7\u00e3o ao ent\u00e3o Reino de Portugal. 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