{"id":319891,"date":"2021-06-24T10:51:10","date_gmt":"2021-06-24T13:51:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=319891"},"modified":"2021-06-24T10:54:26","modified_gmt":"2021-06-24T13:54:26","slug":"paciencia-em-tempo-de-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/paciencia-em-tempo-de-pandemia\/","title":{"rendered":"Paci\u00eancia em tempo de pandemia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Sebasti\u00e3o Lima Duarte <\/strong><br \/>\n<strong>Bispo de Caxias do Maranh\u00e3o (MA)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Paci\u00eancia em tempo de pandemia: uma contribui\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Cipriano de Cartago<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A humanidade vive tempos de perplexidade e sofrimento. Desde o in\u00edcio de 2020, assistimos, confusos, o surgimento e difus\u00e3o de um novo Coronav\u00edrus que afeta milh\u00f5es no mundo e provoca mortes. N\u00e3o escolhe g\u00eanero, nem idade, assim como n\u00e3o olha para a condi\u00e7\u00e3o social. For\u00e7ou-nos ao distanciamento social e na Igreja at\u00e9 mesmo lit\u00fargico-sacramental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora a ci\u00eancia j\u00e1 tenha encontrado a vacina, interesses escusos, burocracia e outros fatores impedem que a imuniza\u00e7\u00e3o seja universal. Enquanto isso milh\u00f5es de pessoas s\u00e3o infectadas e milhares morrem por causa da Covid-19. No Brasil, chegamos ao fat\u00eddico mais de 500.000 brasileiros e brasileiras que importam, que contam, \u00a0pois s\u00e3o \u00f3bitos de filhos de Deus e irm\u00e3os nossos, v\u00edtimas do negacionismo e do se importar pouco com a vida, v\u00edtimas da covid-19. Digno de nota, o sofrimento de quem foi acometido e de seus familiares, quantas sequelas deixadas; al\u00e9m da sobrecarga dos profissionais de sa\u00fade, obrigados ao cont\u00ednuo estresse para salvar vidas e preservar a pr\u00f3pria sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m duvida que sejam tempos dif\u00edceis, \u00e1rduos, exigentes, os que vivemos. Tempos que carecem de significado e ressignifica\u00e7\u00e3o, explica\u00e7\u00e3o at\u00e9, para que n\u00e3o nos permitamos cair no fatalismo ou fundamentalismo, desconsiderando a ci\u00eancia e a esperan\u00e7a de dias melhores. Para lan\u00e7ar alguma luz sobre essa situa\u00e7\u00e3o queremos nos inspirar em uma obra de S\u00e3o Cipriano, cujo t\u00edtulo pode parecer inusitado: \u201cO Bem da Paci\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p><strong>O Autor e a Obra<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor, \u00e9 T\u00e1scio Cec\u00edlio Cipriano, nascido provavelmente em Cartago, norte da \u00c1frica, entre 200\/210. J\u00e1 adulto, versado em latim, grego, direito e reconhecido mestre de ret\u00f3rica, foi motivado \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3 pelo presb\u00edtero Ceciliano, converteu-se ao cristianismo e recebeu o batismo por volta de 246.\u00a0 Foi escolhido di\u00e1cono, ordenado presb\u00edtero, eleito e consagrado bispo entre 248\/249. S\u00e3o Cipriano era conhecido tamb\u00e9m como \u201cPapa da \u00c1frica\u201d, t\u00edtulo usado por presb\u00edteros de Roma numa carta. Durante a persegui\u00e7\u00e3o de D\u00e9cio (249-251), achou melhor esconder-se e governar a sua Igreja atrav\u00e9s de cartas. Al\u00e9m da tens\u00e3o persecut\u00f3ria, surgiram no interior da comunidade, disputas, desentendimentos e cis\u00f5es. \u00c9 nesse contexto que foi escrita a obra <em>De Bono Patientia<\/em>, em torno de 256<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Nosso santo bispo sofreu o mart\u00edrio em 14 de setembro de 258, durante a persegui\u00e7\u00e3o de Valeriano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que possamos apreender fielmente o conte\u00fado da obra \u00e9 importante considerar o que fizeram as monjas beneditinas da Abadia Nossa Senhora das Gra\u00e7as, de Belo Horizonte &#8211; MG, ao ofereceram \u00e0 l\u00edngua portuguesa uma excelente tradu\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> da obra em quest\u00e3o: o duplo significado da palavra latina <em>patientia<\/em>. Em sentido objetivo, <em>patientia <\/em>significa \u201ca\u00e7\u00e3o de sofrer, de suportar\u201d; o outro sentido \u00e9 subjetivo e ganha o significado de \u201ccoragem de suportar, firmeza, const\u00e2ncia\u201d. As tradutoras lembram que, em portugu\u00eas, <em>paci\u00eancia<\/em> tem o significado de resigna\u00e7\u00e3o, que se liga mais ao sentido subjetivo de <em>patientia<\/em>. As monjas fazem notar que S\u00e3o Cipriano usa, quase sempre, o termo no seu sentido objetivo, no sentido de sofrer ou suportar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nosso objetivo aqui \u00e9 dar voz a S\u00e3o Cipriano para que ele nos instrua a vivermos neste tempo de pandemia e exercitarmos a necess\u00e1ria paci\u00eancia com o alongar-se do tempo. Nosso santo m\u00e1rtir parte do princ\u00edpio de que o caminho mais \u00fatil e adequado para a vit\u00f3ria \u00e9 nos firmarmos nos <em>preceitos do Senhor<\/em>, com o obs\u00e9quio do temor e da devo\u00e7\u00e3o, sem falsas doutrinas, v\u00e3s sabedorias e excessivo amor pr\u00f3prio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 claro que o contexto de S\u00e3o Cipriano \u00e9 diferente do nosso. L\u00e1 havia a persegui\u00e7\u00e3o aos crist\u00e3os e o desejo de revigorar o paganismo, enquanto aqui experimentamos a incid\u00eancia de uma doen\u00e7a sobre a humanidade inteira, deflagrada por um inimigo t\u00e3o min\u00fasculo, que invis\u00edvel, como o descreveu Frei Raniero Cantalamessa, Cardeal Franciscano pregador da casa pontif\u00edcia: \u201cMenor e mais informe elemento da natureza&#8230; Bastou isso para nos recordar nossa mortalidade e que a tecnologia e o poderio militar n\u00e3o bastam para nos salvar\u201d. Em comum, ontem e hoje, os sentimentos e desafios que a morte e o sofrimento imprimem \u00e0 vida humana.<\/p>\n<p><strong>Deus \u00e9 Paci\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A exorta\u00e7\u00e3o do bispo para sua comunidade tem uma finalidade bem pr\u00e1tica: incentivar o exerc\u00edcio da paci\u00eancia. Por isso, come\u00e7a sua mensagem, recordando que \u201ca origem e grandeza da paci\u00eancia tem Deus como autor\u201d. Sobre esse fundamento, Cipriano repassa os sinais da paci\u00eancia divina que ficaram mais expl\u00edcitos com a vinda do Filho, recomendando: \u201cSe Deus \u00e9 nosso Senhor e Pai, imitemos a paci\u00eancia tanto do Senhor como do Pai, pois cabe aos servos serem obedientes, e aos filhos n\u00e3o conv\u00e9m serem degenerados\u201d (O bem da Paci\u00eancia 3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A paci\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 prov\u00e9m de Deus, mas \u00e9 o modo de Deus ser e revelar pacientemente seu amor por n\u00f3s ao longo do tempo, pois \u201cele faz o dia nascer e a luz do sol levantar igualmente sobre bons e maus; e, quando rega a terra com as chuvas, ningu\u00e9m \u00e9 exclu\u00eddo de seus benef\u00edcios, mas concede de igual maneira as mesmas chuvas aos justos e injustos; e ainda que Deus seja provocado por frequentes, ou melhor, por cont\u00ednuas ofensas, ele modera sua indigna\u00e7\u00e3o e guarda pacientemente o dia, determinado uma \u00fanica vez, para o ajuste de contas. E ainda que tenha a vingan\u00e7a em seu poder, prefere conservar a paci\u00eancia por muito tempo (&#8230;) para que, assim, a maldade por muito prolongada, sendo poss\u00edvel, algum dia se mude; e o homem, despojado da contamina\u00e7\u00e3o dos erros e dos crimes, se volte enfim para Deus, que admoesta, dizendo: \u2018N\u00e3o quero a morte do pecador, mas que se converta e viva\u2019 (Ez 33,11)\u201d (O Bem da Paci\u00eancia 4). \u00c9 gra\u00e7as \u00e0 paci\u00eancia divina que perdura a esperan\u00e7a da salva\u00e7\u00e3o da humanidade, pois nela h\u00e1 ocasi\u00e3o e tempo para a convers\u00e3o e abandono do pecado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Cipriano nos recorda que o pr\u00f3prio Jesus Cristo ensinou a paci\u00eancia com palavras e a realizou em obras. Sob esta chave de leitura, Cipriano repassa o itiner\u00e1rio da encarna\u00e7\u00e3o, demonstrando que todos os gestos, atitudes e palavras de Jesus Cristo est\u00e3o sempre assinalados pela paci\u00eancia: desceu para fazer a vontade do Pai, n\u00e3o desdenhou revestir-se da carne do homem, assumiu os pecados que n\u00e3o eram seus e morreu para salva\u00e7\u00e3o dos culpados; permitiu ser batizado, jejuou, sentiu fome, lutou com o diabo, n\u00e3o dirigiu os disc\u00edpulos como servos; com muita paci\u00eancia suportou Judas e os judeus; durante a paix\u00e3o e a cruz quanta inf\u00e2mia afrontosa pacientemente ouviu; Aquele que ofereceu o c\u00e1lice da salva\u00e7\u00e3o foi alimentado com fel e vinagre; a Palavra de Deus \u00e9 conduzida calada para a imola\u00e7\u00e3o. Ele resiste a dor sem manifestar sua majestade, suporta tudo at\u00e9 o fim com perseveran\u00e7a e sem interrup\u00e7\u00e3o, a fim de que a paci\u00eancia plena e perfeita seja consumada no Cristo. Mas depois de tudo isso \u201cbenigno e paciente, com uma salutar paci\u00eancia para poupar [os homens], a ningu\u00e9m fecha a sua Igreja&#8230;\u00c9 vivificado pelo sangue de Cristo mesmo aquele que derramou o sangue de Cristo. Tal e tanta \u00e9 a paci\u00eancia do Cristo que, se n\u00e3o fosse tal e t\u00e3o grande, a Igreja nem mesmo teria Paulo como Ap\u00f3stolo\u201d (O Bem da Paci\u00eancia 7-8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O bispo de Cartago, citando 1Jo 2,6 (Quem diz que permanece em Cristo, deve tamb\u00e9m caminhar como ele caminhou) nos incentiva a seguir as pegadas salutares de Cristo, observando seus exemplos. Segundo ele at\u00e9 mesmo os patriarcas, profetas e justos do Primeiro Testamento foram figuras do Cristo no que tange a paci\u00eancia vivida: \u201cTodos chegaram \u00e0s coroas celestiais pela gl\u00f3ria da paci\u00eancia, pois n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel receber a coroa das dores e dos sofrimentos, sem a preced\u00eancia da paci\u00eancia na dor e no sofrimento\u201d. (O Bem da Paci\u00eancia 10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Al\u00e9m das figuras do Primeiro Testamento, Cipriano evoca o exemplo de Estev\u00e3o, o primeiro a imitar o mestre. O primeiro m\u00e1rtir n\u00e3o pedia vingan\u00e7a para si, mas o perd\u00e3o para os assassinos, sendo assim n\u00e3o somete arauto da paix\u00e3o do Senhor, mas tamb\u00e9m um imitador de sua pacient\u00edssima brandura. Como Est\u00eav\u00e3o, um crist\u00e3o deve ter paci\u00eancia no cora\u00e7\u00e3o para n\u00e3o dar lugar a ira, disc\u00f3rdia e inimizade, um domic\u00edlio pac\u00edfico onde o Deus da paz se compraza em habitar. Agindo assim, este crist\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 no porto do Cristo. (O Bem da Paci\u00eancia 16)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os seguidores de Cristo tamb\u00e9m se inspiram nele com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 paci\u00eancia, pois ela \u00e9 o melhor al\u00edvio diante das adversidades da vida mortal e foi de grande valia no tempo da persegui\u00e7\u00e3o que atormentava os crist\u00e3os no in\u00edcio da segunda metade do s\u00e9culo III, quando Cipriano era encarregado de os animar e manter firmes na f\u00e9 e na caridade: \u201cpara n\u00f3s que, al\u00e9m das diversas e frequentes lutas das tenta\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m temos, no certame das persegui\u00e7\u00f5es, de abandonar as riquezas, de enfrentar o c\u00e1rcere, de ser postos a ferros, de dar a vida, de suportar, na f\u00e9 e na virtude da paci\u00eancia, a espada, as feras, as fogueiras, as cruzes e, finalmente, todas as esp\u00e9cies de tormentos e de penas\u201d. Por isso \u201cSe n\u00f3s, que renunciamos ao diabo e ao mundo, sofremos com maior frequ\u00eancia e viol\u00eancia os apertos e vexames do diabo e do mundo, tanto mais devemos conservar a paci\u00eancia, com a qual, como auxiliar e companheira, aguentaremos todas as adversidades\u201d (O Bem da Paci\u00eancia 12). Pois \u201ca paci\u00eancia n\u00e3o somente conserva as coisas boas, mas tamb\u00e9m afasta as adversidades\u201d (O Bem da Paci\u00eancia 14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A paci\u00eancia \u00e9 preceito salutar: \u201cAquele que aguentar at\u00e9 o fim, este ser\u00e1 salvo\u201d (Mt 10, 22). Diz, nosso santo, que \u201c\u00e9 preciso aguentar e perseverar, a fim de que, uma vez introduzidos na esperan\u00e7a da verdade e da liberdade, possamos alcan\u00e7ar a pr\u00f3pria verdade e a pr\u00f3pria liberdade. Pois o fato de sermos crist\u00e3os \u00e9 quest\u00e3o de f\u00e9 e de esperan\u00e7a. Mas para que a esperan\u00e7a e a f\u00e9 possam chegar ao seu futuro, \u00e9 preciso paci\u00eancia. Estas palavras exortam a perseverar corajosa e pacientemente, a fim de que seja coroado na paci\u00eancia quem se esfor\u00e7a, estando j\u00e1 pr\u00f3xima a gl\u00f3ria, por obter a coroa\u201d (O Bem da Paci\u00eancia 13).<\/p>\n<p><strong>Paci\u00eancia \u00e9 fortaleza na luta<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Prosseguindo a exorta\u00e7\u00e3o, Cipriano sublinha a import\u00e2ncia da paci\u00eancia para a viv\u00eancia e conviv\u00eancia cotidiana, onde diversos sofrimentos nos s\u00e3o ocasionados e tenta\u00e7\u00f5es nos s\u00e3o infligidas: perda dos bens, ardores das febres, dores das feridas, perda dos caros. Ele afirma que \u201ca paci\u00eancia \u00e9 tamb\u00e9m necess\u00e1ria para enfrentar os inc\u00f4modos da carne e os frequentes e duros tormentos do corpo, pelos quais o g\u00eanero humano \u00e9 cotidianamente perseguido e sacudido. S\u00f3 a for\u00e7a da paci\u00eancia pode sustentar quem deve lutar e combater. Luta e combate que s\u00f3 podem ser sustentados pelas for\u00e7as da paci\u00eancia\u201d (O Bem da Paci\u00eancia 17).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para fundamentar esse \u00e2ngulo da paci\u00eancia, Cipriano evoca dois personagens que d\u00e3o testemunhos de virtude no meio das desgra\u00e7as: J\u00f3 e Tobias. Examinado e provado, J\u00f3, pela paci\u00eancia, foi levado ao sumo da gl\u00f3ria. \u201cQuantos dardos do diabo lan\u00e7ados contra ele, quantos sofrimentos acarretados! A perda do patrim\u00f4nio lhe \u00e9 infligida, a priva\u00e7\u00e3o de uma numerosa prole lhe \u00e9 imposta. Senhor rico em haveres e pai mais rico em filhos, de repente n\u00e3o \u00e9 mais nem senhor nem pai. Soma-se [a isso] a devasta\u00e7\u00e3o das feridas, e ainda a dor devoradora dos vermes consome as articula\u00e7\u00f5es definhadas e d\u00e9beis. E para que n\u00e3o faltasse absolutamente nada que J\u00f3 n\u00e3o experimentasse em suas tenta\u00e7\u00f5es, o diabo, usando daquele antigo engenho de sua maldade, arma tamb\u00e9m a esposa, como se pudesse enganar e iludir a todos por meio da mulher, como o fizera no in\u00edcio do mundo. J\u00f3, contudo, n\u00e3o \u00e9 abatido pelos pecados e cerrados combates; pelo contr\u00e1rio, com a vit\u00f3ria da paci\u00eancia, o louvor de Deus \u00e9 proclamado no meio daquelas [suas] ang\u00fastias e tribula\u00e7\u00f5es\u201d (O Bem da Paci\u00eancia 18).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m Tobias, depois das magn\u00edficas obras de sua justi\u00e7a e miseric\u00f3rdia, tentado pela perda da vista, suportou a cegueira, pelo m\u00e9rito da paci\u00eancia se tornou grandemente digno de Deus. (O Bem da Paci\u00eancia 18)<\/p>\n<p><strong>Os Males da impaci\u00eancia e o bem da paci\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em sua miss\u00e3o pedag\u00f3gica, Cipriano considera tamb\u00e9m os males que a impaci\u00eancia acarreta na vida das pessoas para destacar ainda mais o bem da paci\u00eancia, pois esta \u00e9 um bem do Cristo e aquela \u00e9 um mal do diabo. Ao elencar uma s\u00e9rie de exemplos de impaci\u00eancia, alerta os crist\u00e3os a permanecerem atentos a estas tenta\u00e7\u00f5es e, ao mesmo tempo, ilumina por contradi\u00e7\u00e3o, as conquistas da paci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ad\u00e3o, impaciente por obter o alimento da morte, morreu; Caim, bastou ficar impaciente com o sacrif\u00edcio e a d\u00e1diva do irm\u00e3o para mat\u00e1-lo; Esa\u00fa, impaciente para comer lentilha, perdeu a primogenitura; o povo judaico, por n\u00e3o suportar a demora de Mois\u00e9s, que conversava com Deus, ousou pedir deuses profanos, um chefe bovino e uma est\u00e1tua da terra, al\u00e9m disso, sendo que nunca se apartou da mesma impaci\u00eancia, contra a bondade e a admoesta\u00e7\u00e3o divinas, matou os profetas e justos, at\u00e9 que se atirasse por fim \u00e0 cruz e ao sangue do Senhor; na Igreja, a impaci\u00eancia cria os hereges, e, \u00e0 semelhan\u00e7a dos judeus, leva os que se rebelam contra a paz e a caridade do Cristo a agressivos e furiosos \u00f3dios. Por isso, tudo sem exce\u00e7\u00e3o, que a paci\u00eancia, por suas obras, edifica para a gl\u00f3ria, a impaci\u00eancia destr\u00f3i para a ru\u00edna. (O Bem da Paci\u00eancia 19). Ao contr\u00e1rio, \u201cn\u00e3o se pode conservar nem a unidade nem a paz, sem que os irm\u00e3os se tratem uns aos outros com m\u00fatua toler\u00e2ncia, e guardem, por meio da paci\u00eancia, o v\u00ednculo da conc\u00f3rdia\u201d (O Bem da Paci\u00eancia 16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O santo m\u00e1rtir anima que se preferira a observ\u00e2ncia da paci\u00eancia permanecendo no Cristo, pois, \u201ccopiosa e variada, n\u00e3o se encerra em estreitos confins, nem se restringe a acanhados limites\u201d. \u00c9 a paci\u00eancia que nos recomenda e nos conserva para Deus, pois ela incide em n\u00f3s: modera a ira, freia a l\u00edngua, governa a mente, guarda a paz, rege a disciplina; quebra o \u00edmpeto das paix\u00f5es, reprime a viol\u00eancia do orgulho, apaga o ardor da rivalidade; restringe o poder dos ricos, alivia a indig\u00eancia dos pobres, conserva nas virgens a integridade ditosa, nas vi\u00favas a custosa castidade, nos que est\u00e3o unidos e casados o amor indiviso&#8230; Ainda: torna humildes na prosperidade, fortes nas adversidades, manso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s injusti\u00e7as e \u00e0s afrontas. Ensina a perdoar e suplicar o perd\u00e3o, combate as tenta\u00e7\u00f5es, aguenta as persegui\u00e7\u00f5es, leva \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o os supl\u00edcios e os mart\u00edrios. Tamb\u00e9m: sustenta com firmeza os fundamentos da nossa f\u00e9 e sublimemente promove o crescimento da esperan\u00e7a. Dirige nossa a\u00e7\u00e3o para trilharmos o caminho do Cristo e faz que perseveremos na filia\u00e7\u00e3o divina, enquanto imitamos a paci\u00eancia do Pai. (O Bem da Paci\u00eancia 20)<\/p>\n<p><strong>A Paci\u00eancia sabe esperar<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece natural que os que padecem sofrimentos e tribula\u00e7\u00f5es aspirem pelo dia da vingan\u00e7a, pela hora de que a dor cesse e o seu causador pade\u00e7a as consequ\u00eancias do mal que provocou. Uma vez mais, o pastor procura orientar seu rebanho. Lembra, que \u201ca pressa \u00e9 inimiga da paci\u00eancia e de alcan\u00e7ar os frutos de sua perfei\u00e7\u00e3o\u201d. Exprime a seu modo, um dito que ainda hoje repetimos: a pressa \u00e9 inimiga da perfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o parece que esse conselho pela calma seja um arrego ao sofrimento ou uma justificativa pela sua continuidade. Trata-se de encorajar quem sofre a suportar as dores, associando-as aos sofrimentos salv\u00edficos de Cristo e a cultivar uma sadia confian\u00e7a naquele que \u00e9 Senhor da hist\u00f3ria e a quem somos convidados a depositar nossa esperan\u00e7a e nossa confian\u00e7a e fala, no Apocalipse, dizendo: \u201cN\u00e3o seles as palavras da profecia deste livro, porque o tempo j\u00e1 est\u00e1 pr\u00f3ximo, a fim de que aqueles que perseveram em fazer o mal o fa\u00e7am, e o que est\u00e1 nas imund\u00edcies ainda se suje; que o justo, por\u00e9m, fa\u00e7a obras mais justas, e, semelhantemente, aquele que \u00e9 santo [fa\u00e7a] obras mais santas. Eis que venho logo, e a minha recompensa est\u00e1 comigo, para retribuir a cada qual segundo as suas obras\u201d (Ap 22, 10-12).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m nesse ensinamento, Cipriano toma o exemplo de Jesus Cristo. Partindo da profecia de Isaias que diz \u2018tenho-me calado, por acaso sempre me hei de calar?\u2019 (Is 42,13s), o bispo de Cartago comenta: \u201cQuem, pois, \u00e9 este que diz ter-se calado antes, e que n\u00e3o se calar\u00e1 sempre? Sem d\u00favida \u00e9 aquele que como uma ovelha, foi conduzido \u00e0 imola\u00e7\u00e3o, aquele que n\u00e3o gritou e cuja voz n\u00e3o foi ouvida nas pra\u00e7as, aquele que n\u00e3o foi recalcitrante nem protestou quando exp\u00f4s suas costas aos a\u00e7oites e sua face aos escarros. Sem d\u00favida \u00e9 aquele que, enquanto era acusado pelos sacerdotes e anci\u00e3os, nada respondia e que, \u00e0 admira\u00e7\u00e3o de Pilatos, conservou um pacient\u00edssimo sil\u00eancio. \u00c9 esse que tendo se calado na paix\u00e3o, n\u00e3o se calar\u00e1 mais tarde no castigo. Esse \u00e9 nosso Deus, isto \u00e9, n\u00e3o de todos, mas o Deus dos fi\u00e9is e dos crentes, que n\u00e3o se calar\u00e1 quando vier manifestado no segundo advento, pois, tendo antes estado oculto na humildade, vir\u00e1 manifesto com poder\u201d (O Bem da Paci\u00eancia 23).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Feito o percurso, S\u00e3o Cipriano, conclui sua exorta\u00e7\u00e3o com as seguintes palavras: \u201cNos nossos sofrimentos e persegui\u00e7\u00f5es, irm\u00e3os dilet\u00edssimos, pensemos na sua paci\u00eancia. Prestemos ao seu advento um obs\u00e9quio cheio de esperan\u00e7a. N\u00e3o nos apressemos, com \u00edmpia e atrevida precipita\u00e7\u00e3o, em sermos defendidos, n\u00f3s servos, antes do Senhor. Ao contr\u00e1rio, fiquemos firmes; trabalhemos e observemos os preceitos do Senhor, vigiando de todo o cora\u00e7\u00e3o e permanecendo inabal\u00e1veis em tudo o que aguentamos; a fim de que n\u00e3o sejamos castigados com os \u00edmpios e pecadores quando vier aquele dia de ira e de reivindica\u00e7\u00e3o, mas, com os justos e os que temem a Deus, n\u00f3s o glorifiquemos. (O Bem da Paci\u00eancia 24).<\/p>\n<p><strong>Nota Conclusiva<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrevemos no in\u00edcio de nossa reflex\u00e3o que h\u00e1 uma grande diferen\u00e7a entre a realidade vivida pela comunidade de Cartago no meio do terceiro s\u00e9culo e a realidade que nos toca viver no alvorecer do s\u00e9culo XXI. Al\u00e9m dos desafios diferentes, tamb\u00e9m a forma de entend\u00ea-los e o modo de express\u00e1-los t\u00eam suas caracter\u00edsticas espec\u00edficas. N\u00e3o se trata simplesmente, portanto, repetir a exorta\u00e7\u00e3o de Cipriano para as nossas comunidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece, por\u00e9m, bastante oportuno e atual a exorta\u00e7\u00e3o \u00e0 paci\u00eancia. N\u00e3o tanto no seu conte\u00fado corriqueiro de resigna\u00e7\u00e3o, mas naquele objetivo de \u201csuportar com for\u00e7a e esperan\u00e7a\u201d as adversidades que a pandemia trouxe consigo. Enquanto crist\u00e3os somos convidados e revisar com aten\u00e7\u00e3o e paci\u00eancia nosso modo de viver, avaliando o modo de consumir, de trabalhar, de estabelecer rela\u00e7\u00f5es e os crit\u00e9rios que usamos para ordenar fatos, compromissos, atividades. Sob a batuta da paci\u00eancia podemos avaliar at\u00e9 o lugar que Deus ocupa em nosso cotidiano e como nos colocamos na sua presen\u00e7a e que confian\u00e7a temos na sua a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, paci\u00eancia em tempos de pandemia pode significar assumir novas formas de estabelecer rela\u00e7\u00f5es, incorporar atitudes e pr\u00e1ticas que n\u00e3o eram de nossa rotina. Exercitar a paci\u00eancia \u00e9 assumir as indica\u00e7\u00f5es das autoridades sanit\u00e1rias e ser capaz de postergar atividades e eventos que n\u00e3o s\u00e3o imprescind\u00edveis. Sobretudo nos tempos que estamos vivendo, parece ser urgente o exerc\u00edcio da paci\u00eancia com aquelas pessoas que pensam diferente de n\u00f3s. N\u00e3o significa aceitar ingenuamente tudo o que \u00e9 dito, nem substituir nosso modo de compreender as coisas e at\u00e9 mesmo detectar as responsabilidades de quem se omitiu a enfrentar os males desta pandemia desde o in\u00edcio. Trata-se de fazer o processo de ponderar os diversos pontos de vista, perceber as verdades, as falhas, os embustes, as maldades que podem estar presentes tanto no discurso do outro quanto em nosso pr\u00f3prio. Para termos coragem de fazer isso, haja paci\u00eancia!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caxias, 22 de junho de 2021<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com agradecimento ao Prof. Me. Frei Jos\u00e9 Bernardi-OFMCap, pela revis\u00e3o,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dom Sebasti\u00e3o Lima Duarte \u2013 Bispo de Caxias do Maranh\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Mais ou menos neste per\u00edodo, o bispo de Cartago tamb\u00e9m escreveu um coment\u00e1rio ao Pai-nosso (Sobre a Ora\u00e7\u00e3o do Senhor) e um tratado <em>De Mortalitate<\/em>, que pode ser traduzido por \u201cSobre a Mortalidade\u201d ou \u201cSobre a Mortandade\u201d, cuja origem ou ocasi\u00e3o parece ter sido uma peste que assolou a \u00c1frica e causou muitas mortes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Trata-se da tradu\u00e7\u00e3o publicada no v. 35\/1 da Cole\u00e7\u00e3o Patr\u00edstica, disponibilizada pelas Edi\u00e7\u00f5es Paulus. CIPRIANO DE CARTAGO. <strong>Obras Completas I<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2016. Neste volume se encontram v\u00e1rias outras obras do mesmo autor, felizmente acess\u00edvel ao p\u00fablico brasileiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Sebasti\u00e3o Lima Duarte Bispo de Caxias do Maranh\u00e3o (MA) &nbsp; Paci\u00eancia em tempo de pandemia: uma contribui\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Cipriano de Cartago A humanidade vive tempos de perplexidade e sofrimento. Desde o in\u00edcio de 2020, assistimos, confusos, o surgimento e difus\u00e3o de um novo Coronav\u00edrus que afeta milh\u00f5es no mundo e provoca mortes. 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