{"id":32357,"date":"2018-10-31T00:00:00","date_gmt":"2018-10-31T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/rezemos-pelos-falecidos\/"},"modified":"2018-10-31T00:00:00","modified_gmt":"2018-10-31T03:00:00","slug":"rezemos-pelos-falecidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/rezemos-pelos-falecidos\/","title":{"rendered":"Rezemos pelos falecidos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Cardeal Orani Jo\u00e3o Tempesta<br \/>\n<\/strong><strong>Arcebispo do Rio de Janeiro<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No dia de finados, a Igreja nos convida a recordar os fi\u00e9is defuntos, nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s j\u00e1 falecidos.\u00a0 Esta \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o de vida e esperan\u00e7a, e, n\u00e3o da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 uma celebra\u00e7\u00e3o marcada pela esperan\u00e7a da Ressurei\u00e7\u00e3o. A piedade para com os mortos remonta ao alvorecer da humanidade. Na era crist\u00e3, desde a \u00e9poca das catacumbas, a arte funer\u00e1ria nutria a esperan\u00e7a dos fi\u00e9is.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em Roma, com simplicidade tocante, os crist\u00e3os costumavam representar a figura de L\u00e1zaro na parede do t\u00famulo onde um parente era deposto. Quase para dizer: Quando Jesus chorou por seu amigo L\u00e1zaro e o trouxe de volta \u00e0 vida, ele tamb\u00e9m far\u00e1 isso por seu disc\u00edpulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A comemora\u00e7\u00e3o lit\u00fargica de todos os fi\u00e9is falecidos, por outro lado, tomou forma no s\u00e9culo IX em um ambiente mon\u00e1stico e se concretizou a partir do s\u00e9culo X, concedendo aos monges beneditinos de Cluny, a permiss\u00e3o de celebrar a mem\u00f3ria dos fi\u00e9is defuntos na liturgia da Igreja. Mais tarde, o Papa Bento XV, no contexto da Primeira Guerra Mundial, veio conceder a cada sacerdote a faculdade de celebrar &#8220;tr\u00eas missas&#8221; neste dia, como mem\u00f3ria dos fi\u00e9is falecidos. Este \u00e9 um sinal da presen\u00e7a da m\u00e3e Igreja suplicando pelos falecidos, dando a permiss\u00e3o de celebrar tr\u00eas missas no dia dos fi\u00e9is defuntos, e, atrav\u00e9s de tantos agentes de pastoral, oferecendo a assist\u00eancia espiritual a todos os fi\u00e9is que querem prantear os seus entes queridos com o maior e melhor presente que se pode oferecer: o santo sacrif\u00edcio Eucar\u00edstico!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A esperan\u00e7a crist\u00e3 est\u00e1 enraizada na B\u00edblia, na bondade invenc\u00edvel e na miseric\u00f3rdia de Deus. &#8220;Eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantar\u00e1 sobre a terra&#8221;, diz J\u00f3 no meio do seu canto angustiante. O tema \u00e9 retomado com for\u00e7a expressiva pelo ap\u00f3stolo Paulo, que coloca a morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus em uma sucess\u00e3o n\u00e3o separ\u00e1vel. Os disc\u00edpulos s\u00e3o chamados \u00e0 mesma experi\u00eancia. Toda a sua exist\u00eancia traz os estigmas do mist\u00e9rio pascal, \u00e9 guiada pelo Esp\u00edrito do Ressuscitado. \u00c9 por isso que os fi\u00e9is rezam por seus amados mortos e confiam em sua intercess\u00e3o. Finalmente, eles t\u00eam a esperan\u00e7a de alcan\u00e7\u00e1-los no c\u00e9u para unir os eleitos no louvor da gl\u00f3ria de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nesse dia contemplamos o mist\u00e9rio pascal de Jesus Cristo Nosso Senhor, assim os crist\u00e3os desde sempre consideraram o mist\u00e9rio da morte no contexto do mist\u00e9rio pascal de Cristo, ent\u00e3o o mist\u00e9rio da morte \u00e9 revelado. Em Cristo brilha em n\u00f3s a esperan\u00e7a da ressurrei\u00e7\u00e3o, e se estamos tristes na certeza da morte, somos consolados pela esperan\u00e7a crist\u00e3 da imortalidade. Aos batizados, marcados pelo sinal da f\u00e9 em Jesus Cristo, a vida n\u00e3o \u00e9 tirada, e sim transformada. O Crist\u00e3o que decide por viver em comunh\u00e3o com Cristo encontrar\u00e1 nesse amor alegria plena e definitiva da vida que jamais ter\u00e1 fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A comemora\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is defuntos, muitas vezes nos convida tamb\u00e9m a refletir sobre o mist\u00e9rio da morte, porque \u00e9 o momento mais decisivo e solene da vida e que, portanto, exige uma prepara\u00e7\u00e3o profunda a ser enfrentado com dignidade e serenidade. Tantas vezes fugimos do pensamento da morte, porque isso humilha e contrasta nossas ambi\u00e7\u00f5es. Em vez disso, temos de pensar na morte, ou melhor, a viver como se fosse o \u00faltimo dia, para melhor preparar-nos para aceit\u00e1-lo e consider\u00e1-lo de acordo com a f\u00e9, isto \u00e9, entrar na vida eterna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No dia da comemora\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is defuntos, a Igreja recorda todos os fi\u00e9is que partiram desta vida terrena, e passaram a habitar na eternidade, abra\u00e7ando a plenitude da vida: neste dia a igreja exorta a comunidade crist\u00e3 a renovar a sua f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o e a viver esta mem\u00f3ria na esperan\u00e7a de uma nova vida em Cristo, para que o luto se torne uma esperan\u00e7a alegre e n\u00e3o triste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A morte, aparentemente, \u00e9 a \u00faltima palavra do homem; o muro intranspon\u00edvel contra o qual as esperan\u00e7as do futuro da humanidade se concluem. Para o crist\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 assim. De fato, a esperan\u00e7a que S\u00e3o Paulo apela na carta aos Romanos, (cf. RM 5.5,5), torna-se certeza no futuro, prometido e inaugurado j\u00e1 por Cristo, ressuscitando dos mortos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Hoje n\u00f3s confiamos ao Senhor todos os fies defuntos, aqueles que na vida partilharam conosco seus anseios, esperan\u00e7as, desafios e fracasso, fazemos mem\u00f3ria dos fieis falecidos, irm\u00e3os nossos que partilharam suas vidas e por isso s\u00e3o queridos por n\u00f3s, lembramos com eterna gratid\u00e3o.\u00a0 Al\u00e9m dos fieis falecidos de nossa fam\u00edlia e convivo fraterno, lembramos tamb\u00e9m aqueles cujo nome n\u00e3o conhecemos e que talvez n\u00e3o tenham ningu\u00e9m para orar por eles. \u00c9 uma atitude de gratid\u00e3o que nos guia, mas tamb\u00e9m um esp\u00edrito de fraternidade e solidariedade de irm\u00e3os e irm\u00e3s que partilha o dom da f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A liturgia crist\u00e3 das ex\u00e9quias \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio pascal de Cristo, nosso Senhor. Na celebra\u00e7\u00e3o das ex\u00e9quias, a Igreja reza para que seus filhos, constitu\u00eddos no batismo de Cristo morto e ressuscitado, para passar com ele da morte para vida e, devidamente limpos e sejam recebidos entre os seus santos os eleitos no c\u00e9u. Em nossa vida achamos que nunca temos o suficiente: vivemos em dire\u00e7\u00e3o a um cont\u00ednuo &#8220;amanh\u00e3&#8221;, do qual sempre esperamos &#8220;mais&#8221;, queremos mais amor, mais felicidade, mais bem-estar. Vivemos motivados pela esperan\u00e7a. No entanto, a morte \u00e9 a companheira de toda a nossa exist\u00eancia: despedidas e doen\u00e7as, dores e desilus\u00f5es s\u00e3o como sinais de advert\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A morte continua sendo um profundo mist\u00e9rio para o homem. Um mist\u00e9rio que at\u00e9 mesmo os n\u00e3o-crist\u00e3os os cercam de respeito.\u00a0 A ora\u00e7\u00e3o pelos mortos \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o antiga que remota os prim\u00f3rdios da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ser crist\u00e3o significa seguir a Jesus Cristo o ressuscitado. E isso muda alguma coisa na maneira de considerar a morte, e enfrent\u00e1-la? Qual \u00e9 a atitude do crist\u00e3o diante da morte?\u00a0 A resposta est\u00e1 na profundidade da nossa f\u00e9. A morte para o crist\u00e3o deve ser configurada \u00e0 morte de Cristo na certeza da ressurei\u00e7\u00e3o. Se com ele morremos com ele viveremos. A vida terrena deve ser uma prepara\u00e7\u00e3o para a Plenitude da vida em Deus, na eternidade. Estamos nela como crian\u00e7as no ventre da m\u00e3e: nossa vida terrena \u00e9 um per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o, de lutas, de primeiras escolhas. Com a morte, o homem se depara com tudo o que constitui o objeto de suas mais profundas aspira\u00e7\u00f5es: ele se encontrar\u00e1 diante de Cristo e ser\u00e1 a escolha definitiva, constru\u00edda com todas as escolhas parciais desta vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Cristo nos aguarda de bra\u00e7os abertos, O homem que decide por Cristo encontrar\u00e1 nele, um amor incondicional e uma alegria plena e definitiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Podemos fazer algo pelos mortos? Eles n\u00e3o est\u00e3o longe de n\u00f3s: todos eles pertencem \u00e0 comunidade dos homens e \u00e0 Igreja, tanto aqueles que morreram no abra\u00e7o de Deus, como todos aqueles de quem s\u00f3 o Senhor conheceu a sua f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O conceito antropol\u00f3gico crist\u00e3o oferece seu pr\u00f3prio modo de considerar o fato inelut\u00e1vel da morte. A morte considerada em si n\u00e3o \u00e9 algo desej\u00e1vel, nem um evento que possa ser abra\u00e7ado com um cora\u00e7\u00e3o calmo. O crist\u00e3o pode superar o medo da morte, confiando em outras raz\u00f5es, como f\u00e9 e esperan\u00e7a, que abrem um horizonte diferente da pr\u00f3pria morte.\u00a0 Aceitar a morte com f\u00e9, e a f\u00e9 de &#8220;habitar com o Senhor&#8221; (cf. 2 Cor 5, 8) marca o desejo de comunh\u00e3o com Cristo, e at\u00e9 mesmo vir a louvar o Senhor pela morte.\u00a0 Esta parece ser a concep\u00e7\u00e3o cantada por S\u00e3o Francisco de Assis no famoso C\u00e2ntico das Criaturas. Francisco chamou-a de irm\u00e3, \u00e9 a irm\u00e3 morte porque nos leva a contemplar a plenitude da vida em Jesus Cristo.\u00a0 A morte ent\u00e3o se torna, para o crente, a porta que leva \u00e0 comunh\u00e3o com Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Este sentimento positivo de morte \u00e9 diretamente proporcional \u00e0 &#8220;morte no Senhor&#8221;, que leva \u00e0 bem-aventuran\u00e7a: &#8220;Bem-aventurados os mortos no Senhor&#8221; (cf. Ap 14,13). Deste modo, a vida terrena \u00e9 naturalmente ordenada \u00e0 comunh\u00e3o com Cristo, depois da morte, que \u00e9 um valor superior \u00e0 vida terrena. Superioridade que justifica o desejo m\u00edstico pela morte, que abre o caminho para a vida eterna. Esta maneira de pensar sobre a morte torna-se uma participa\u00e7\u00e3o no mist\u00e9rio pascal pelo batismo, e assim morrer misticamente para o pecado, e participar da ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo (cf. Rm 6, 3-7). Al\u00e9m da &#8220;morte no Senhor&#8221;, h\u00e1 tamb\u00e9m a possibilidade de morte fora do Senhor, que leva \u00e0 segunda morte, como lembrou o Apocalipse (cf. Ap. 20, 14) e o C\u00e2ntico das Criaturas de S\u00e3o Francisco de Assis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em resumo, assim como o cristianismo primitivo, iluminado pela f\u00e9 dos ap\u00f3stolos, interpretou o retorno de Cristo como um evento cheio de esperan\u00e7a e alegria, assim tamb\u00e9m os crist\u00e3os de hoje devem esperar com profunda f\u00e9 e alegre esperan\u00e7a pelo dia festivo do encontro definitivo com Deus.\u00a0 N\u00f3s tamb\u00e9m somos fortemente afetados pelo mist\u00e9rio da morte e vivemos a vida procurando o seu significado. Eles permanecem conosco, em comunh\u00e3o pela f\u00e9, unidos a Jesus Cristo que \u00e9 a Ressurei\u00e7\u00e3o e a vida eterna, na sua Plenitude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Senhor nos aben\u00e7oe e nos guarde, Ele nos console, especialmente quando sentirmos aquela saudade do ente querido, mais a saudade \u00e9 um sentimento de quem ama, por isso conservemos em nosso cora\u00e7\u00e3o esta atitude maravilhosa, a gra\u00e7a do amor que faz sentir saudade, uma saudade que vai no cora\u00e7\u00e3o daqueles que partem antes de n\u00f3s, e que deixa em n\u00f3s saudades como express\u00e3o de amor e fraternidade!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cardeal Orani Jo\u00e3o Tempesta Arcebispo do Rio de Janeiro &nbsp; No dia de finados, a Igreja nos convida a recordar os fi\u00e9is defuntos, nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s j\u00e1 falecidos.\u00a0 Esta \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o de vida e esperan\u00e7a, e, n\u00e3o da morte. \u00c9 uma celebra\u00e7\u00e3o marcada pela esperan\u00e7a da Ressurei\u00e7\u00e3o. A piedade para com os mortos &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/rezemos-pelos-falecidos\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Rezemos pelos falecidos<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":31,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/32357"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/31"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=32357"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/32357\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=32357"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=32357"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=32357"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}