{"id":33357,"date":"2019-02-12T00:00:00","date_gmt":"2019-02-12T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-mito-de-sisifo\/"},"modified":"2019-02-12T00:00:00","modified_gmt":"2019-02-12T02:00:00","slug":"o-mito-de-sisifo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-mito-de-sisifo\/","title":{"rendered":"O mito de s\u00edsifo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong><em>Dom Alo\u00edsio A. Dilli<br \/>\n<\/em><em>Bispo de Santa Cruz do Sul<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Estimados diocesanos. Nos anos \u201870, durante os estudos de Filosofia, lemos o livro do existencialista Albert Camus: <em>A Peste<\/em>. Usando o antigo mito de S\u00edsifo, o autor descreveu a est\u00f3ria de uma aldeia argelina, atingida pela peste bub\u00f4nica que levaria a maior parte das pessoas, sen\u00e3o todas, \u00e0 morte; mas mesmo assim era preciso lutar contra o mal que ceifava vidas sem parar. O livro foi motivado pela segunda Guerra Mundial e suas conseq\u00fc\u00eancias, servindo como met\u00e1fora para quest\u00f5es surgidas ap\u00f3s o conflito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Trata-se de um romance que coloca o homem frente \u00e0 situa\u00e7\u00e3o-limite que mais o aflige: a morte. N\u00e3o tanto como resultado do ciclo normal da exist\u00eancia, mas a morte tr\u00e1gica, dolorosa, com sofrimento; identificada como um capricho cruel que surge de repente, impondo um fim gradual, pavoroso, absurdo; sequer admitindo esperan\u00e7a de altera\u00e7\u00e3o do quadro. Na \u00e9poca, outros autores existencialistas alimentaram a mesma crise filos\u00f3fico-existencial, como Jean Paul Sartre, considerando a vida um absurdo caminhar para o nada, para o vazio, para a morte, portanto, \u201c<em>uma paix\u00e3o in\u00fatil<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas o que mesmo significa o mito de S\u00edsifo? Os povos antigos gostavam de usar compara\u00e7\u00f5es, est\u00f3rias, mitos, para ensinar. A mitologia grega conta que S\u00edsifo, por amar a vida e menosprezar os deuses e a morte, foi condenado a realizar um trabalho in\u00fatil e sem esperan\u00e7a, por toda a eternidade. Devia empurrar, sem descanso, enorme pedra na dire\u00e7\u00e3o do alto de uma montanha, ciente de que n\u00e3o alcan\u00e7aria o objetivo, pois ela rolaria abaixo novamente para que o absurdo her\u00f3i mitol\u00f3gico descesse em seguida at\u00e9 a plan\u00edcie e empurrasse mais uma vez a enorme pedra para o alto, e assim continuar numa repeti\u00e7\u00e3o mon\u00f3tona e intermin\u00e1vel atrav\u00e9s dos tempos. O inferno de S\u00edsifo era a tr\u00e1gica condena\u00e7\u00e3o de estar realizando algo, sem esperan\u00e7a e que a nada levaria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Se a segundo Guerra Mundial, retratada simbolicamente por Camus na peste da aldeia argelina, dizimara absurdamente milh\u00f5es de vidas humanas, surgiria talvez a mais inquietante pergunta do s\u00e9culo vinte ou de toda hist\u00f3ria da humanidade: Qual \u00e9 mesmo o sentido da vida, se tudo acaba na morte, tantas vezes tr\u00e1gica e absurda? N\u00e3o ser\u00edamos tamb\u00e9m n\u00f3s S\u00edsifos a tentar rolar todos os dias uma enorme pedra na dire\u00e7\u00e3o do topo de uma montanha para depois despencar, ladeira abaixo, e ser empurrada novamente, sem sucesso, j\u00e1 previsto, no dia seguinte? N\u00e3o estar\u00edamos empenhados num grande esfor\u00e7o, num grande sacrif\u00edcio que poderia n\u00e3o estar levando a nada como o sisifismo da mitologia ou \u00e0 \u201c<em>paix\u00e3o in\u00fatil<\/em>\u201d de Sartre?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para n\u00f3s crist\u00e3os, alimentados pela f\u00e9, mesmo cientes do caminhar para a morte f\u00edsica, que um dia nos visitar\u00e1, h\u00e1 uma nova luz em meio ao pensar tr\u00e1gico dos fil\u00f3sofos existencialistas ateus, pois se n\u00e3o havia possibilidade de salva\u00e7\u00e3o para a pessoa humana, por si mesma, o pr\u00f3prio Deus, em sua miseric\u00f3rdia (=Deus colocou seu <strong><em>cora\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong> junto \u00e0 nossa <strong><em>mis\u00e9ria<\/em><\/strong>), por Jesus Cristo, assumiu nossa condi\u00e7\u00e3o humana e a redimiu, rolando definitivamente a pedra de S\u00edsifo ao topo da montanha, pela cruz do calv\u00e1rio, dando esperan\u00e7a e sentido \u00e0 vida, at\u00e9 ao sofrido rolar da pedra, e ensinando a dar-nos as m\u00e3os para faz\u00ea-lo juntos, em comunh\u00e3o fraterna e unidos a Ele. Pela morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, Jesus Cristo veio redimir nossa condi\u00e7\u00e3o humana tr\u00e1gica e abriu as portas da eternidade, dando novo sentido para a vida, alimentando-a com a dimens\u00e3o da esperan\u00e7a e da alegria. Com Ele e os irm\u00e3os conseguiremos rolar a pedra ao topo da montanha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Alo\u00edsio A. Dilli Bispo de Santa Cruz do Sul &nbsp; Estimados diocesanos. Nos anos \u201870, durante os estudos de Filosofia, lemos o livro do existencialista Albert Camus: A Peste. 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