{"id":33843,"date":"2019-04-10T00:00:00","date_gmt":"2019-04-10T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cultura-da-vida-e-morte-social-construir-e-superar-2\/"},"modified":"2019-04-10T00:00:00","modified_gmt":"2019-04-10T03:00:00","slug":"cultura-da-vida-e-morte-social-construir-e-superar-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cultura-da-vida-e-morte-social-construir-e-superar-2\/","title":{"rendered":"Cultura da Vida e Morte Social: construir e superar (2)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><strong>Dom Luiz Antonio Lopes Ricci<br \/>\n<\/strong><strong>Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Niter\u00f3i (RJ)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Seguimos nosso itiner\u00e1rio quaresmal, j\u00e1 tendo a Festa Maior dos crist\u00e3os no horizonte. Nesse caminho, tamb\u00e9m pascal, estamos refletindo sobre a Cultura da Vida e a Morte Social. Com a certeza de que Jesus, com seu Sacrif\u00edcio Redentor, venceu a morte, empenhemo-nos todos, com muita disponibilidade, esperan\u00e7a e entusiasmo pela cultura da vida. Empenho que gera sinergia e sinergia que gera sedu\u00e7\u00e3o pela defesa da vida. Esta sedu\u00e7\u00e3o deve fazer com que todos os ambientes tornem-se, para o povo da vida e a favor da vida, novos are\u00f3pagos, para o an\u00fancio do Deus da vida, vencedor da morte. A vida venceu a morte! Esta \u00e9 a nossa esperan\u00e7a, relatada esplendidamente na Sequ\u00eancia Pascal: \u201cA morte e a vida travaram um duelo tremendo. O Senhor da Vida era morto; mas agora, vivo, triunfa\u201d. Nele e por Ele lutamos contra a Morte Social. Jesus \u00e9 o Evangelho da Vida!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Papa Francisco indica que as ideologias atuais levam a \u201cdois erros nocivos que mutilam o cora\u00e7\u00e3o do Evangelho\u201d. A) \u201cO erro dos crist\u00e3os que separam as exig\u00eancias do Evangelho do seu relacionamento pessoal com o Senhor, da uni\u00e3o com Ele, da Gra\u00e7a. Assim transforma-se o cristianismo em uma esp\u00e9cie de ONG, privando-o daquela espiritualidade irradiante\u201d(GE, n.100).\u00a0 B) \u201c\u00c9 nocivo e ideol\u00f3gico tamb\u00e9m o erro das pessoas que vivem suspeitando do compromisso social dos outros, considerando-o algo de superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista; ou ent\u00e3o relativizam-no, como se houvesse outras coisas mais importantes, como se interessasse apenas uma determinada \u00e9tica ou um arrazoado que eles defendem\u201d(GE, n. 101).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Feito este esclarecimento, n\u00e3o se pode negar que a \u00e9tica crist\u00e3 e a Doutrina Social da Igreja podem oferecer, e j\u00e1 t\u00eam oferecido, uma relevante contribui\u00e7\u00e3o para a reflex\u00e3o bio\u00e9tica. Por essa raz\u00e3o, L. Correa sublinha o interesse no aporte de elementos da \u00e9tica teol\u00f3gica ao debate bio\u00e9tico, ao propor um di\u00e1logo construtivo, por meio dessas \u201cduas racionalidades complementares\u201d: interface bio\u00e9tica e teologia. O encontro da bio\u00e9tica com a teologia favorece a constru\u00e7\u00e3o de uma bio\u00e9tica que se ocupa do bem de todos os indiv\u00edduos, especialmente dos mais pobres e vulnerados. Certamente, na origem do neologismo mistan\u00e1sia, deve-se considerar a orienta\u00e7\u00e3o crist\u00e3, eclesial e comprometida de seu autor, M. Fabri. A teologia contribui grandemente para ampliar o horizonte da reflex\u00e3o e a\u00e7\u00e3o, ao colocar os vulnerados na agenda da bio\u00e9tica. O mal que aflige o outro deve ser motivo recorrente na bio\u00e9tica, visto que \u201co homem que sofre pertence-nos\u201d (S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II). O olhar da f\u00e9 ajuda a ver al\u00e9m\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A bio\u00e9tica, como \u00e9tica aplicada, situada num contexto social injusto e plural, visa contribuir para a tutela, defesa e promo\u00e7\u00e3o da vida humana, sobretudo a vulnerada e exposta \u00e0 possibilidade de morte mistan\u00e1sica: precoce e evit\u00e1vel. O conceito de mistan\u00e1sia facilita a avalia\u00e7\u00e3o \u00e9tica das mortes evit\u00e1veis, tanto como substantivo (mistan\u00e1sia), quanto como adjetivo (mistan\u00e1sica). Trata-se da morte adjetivada, com implica\u00e7\u00f5es \u00e9ticas, por ser \u201cn\u00e3o natural\u201d ou normal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A morte \u00e9 um substantivo, por\u00e9m mistan\u00e1sica (precoce e evit\u00e1vel) \u00e9 um adjetivo que pede transforma\u00e7\u00e3o social e pessoal. A morte \u00e9 comum a todos, contudo a desigualdade social pode antecip\u00e1-la, tornando-a \u201cdesigual\u201d, com s\u00e9rias implica\u00e7\u00f5es \u00e9ticas. A morte natural \u00e9 inevit\u00e1vel e deve ser acolhida e n\u00e3o removida da exist\u00eancia. Diferente \u00e9 a morte mistan\u00e1sica, que \u201cperturba\u201d, justamente por ser evit\u00e1vel. Em alguns casos, resiste-se insistente e inutilmente contra a morte natural (distan\u00e1sia), mas n\u00e3o contra a morte mistan\u00e1sica.\u00a0 A morte \u00e9 uma realidade inevit\u00e1vel, o ser humano \u00e9 temporal, a vida \u00e9 finita, n\u00e3o apenas um ser para a morte, mas um ser de dignidade at\u00e9 a morte. O viver sofrido quase sempre leva a morrer fora do tempo ou \u201cantes da hora\u201d. Mistan\u00e1sia tem for\u00e7a convocat\u00f3ria: evitar a exposi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua \u00e0 morte por meio de pr\u00e1ticas plurais integradas no campo da bio\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 na distin\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel e evit\u00e1vel que se elabora a verdadeira e eficaz resist\u00eancia, em favor da vida com qualidade e dignidade para todos. Por essa raz\u00e3o, a bio\u00e9tica desperta para a compreens\u00e3o de que muito pode ser feito para se evitar o mal na perspectiva da \u201cresist\u00eancia criativa\u201d. Uma pessoa bio\u00e9tica \u00e9 aquela que milita para salvaguardar a vida com qualidade e dignidade. O mesmo serve para a sociedade e institui\u00e7\u00f5es. Assumir a bio\u00e9tica como adjetivo, como um modo de ser e de se posicionar, permite o comprometimento, afeto e encontro com o outro vulnerado e a consequente supera\u00e7\u00e3o da indiferen\u00e7a, al\u00e9m de integrar o conceitual e o vivencial, o social e o pessoal (atitudes e comprometimento).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nesse nosso contexto injusto, desigual e desfavor\u00e1vel \u00e0 vida, a bio\u00e9tica configura-se como uma esp\u00e9cie de a\u00e7\u00e3o afirmativa para corrigir o sistema e impedir ou diminuir as mortes evit\u00e1veis e precoces, conectando duas dimens\u00f5es: \u00e9tica e prof\u00e9tica. A bio\u00e9tica pode, perfeitamente, cumprir esse papel de facilitar a dignidade do viver e do morrer. A conex\u00e3o estreita entre \u00e9tica crist\u00e3 e bio\u00e9tica, entendida como \u00e9tica aplicada com fun\u00e7\u00e3o social, busca criar condi\u00e7\u00f5es dignas e decentes para todos, acrescida pelos novos desafios que derivam das quest\u00f5es emergentes e persistentes que tornam a vida prec\u00e1ria, \u201cnua\u201d (G. AGAMBEN: quest\u00e3o essencialmente pol\u00edtica), vulnerada e exposta \u00e0 morte. Trata-se de uma exposi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua \u00e0 morte, onde se introjetam instrumentos de reprodu\u00e7\u00e3o sist\u00eamica de desigualdades e exclus\u00e3o. A bio\u00e9tica pode contribuir para a transforma\u00e7\u00e3o das estruturas e mecanismos que produzem marginaliza\u00e7\u00e3o e pobreza. O tema da Campanha da Fraternidade, deste ano, pode ajudar muito na elabora\u00e7\u00e3o e fortalecimento de Pol\u00edticas P\u00fablicas, como caminho de supera\u00e7\u00e3o das injusti\u00e7as e desigualdades, que produzem mortes evit\u00e1veis. Continua na pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Desejo a todos e todas uma Feliz e Santa P\u00e1scoa! Sigamos, acreditando no Amor, pois o Amor tem poder. \u201cSem a Cruz o poder de Cristo n\u00e3o seria amor e sem a Ressurrei\u00e7\u00e3o o Amor n\u00e3o seria poder\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Luiz Antonio Lopes Ricci Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Niter\u00f3i (RJ) Seguimos nosso itiner\u00e1rio quaresmal, j\u00e1 tendo a Festa Maior dos crist\u00e3os no horizonte. Nesse caminho, tamb\u00e9m pascal, estamos refletindo sobre a Cultura da Vida e a Morte Social. 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