{"id":34066,"date":"2019-05-04T00:00:00","date_gmt":"2019-05-04T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/arcebispo-portugues-prega-retiro-espiritual-para-os-bispos-na-57a-assembleia-geral\/"},"modified":"2020-03-11T16:04:17","modified_gmt":"2020-03-11T19:04:17","slug":"arcebispo-portugues-prega-retiro-espiritual-para-os-bispos-na-57a-assembleia-geral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/arcebispo-portugues-prega-retiro-espiritual-para-os-bispos-na-57a-assembleia-geral\/","title":{"rendered":"Arcebispo portugu\u00eas prega retiro espiritual para os  bispos na 57\u00aa Assembleia Geral"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Na tarde do s\u00e1bado, 4 de maio, e a manh\u00e3 do domingo, 5, os membros da CNBB que est\u00e3o reunidos em Aparecida (SP), em sua 57\u00aa Assembleia Geral v\u00e3o participar de um retiro espiritual. O arcebispo Dom Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, arquivista e bibliotec\u00e1rio do Vaticano. Ele vai orientar quatro medita\u00e7\u00f5es importantes e, no s\u00e1bado, os bispos participam de uma celebra\u00e7\u00e3o da Reconcilia\u00e7\u00e3o. A missa de encerramento do retiro ser\u00e1 celebrada \u00e0s 11h30 do domingo, no Santu\u00e1rio Nacional.<\/p>\n<p><strong>Pregador<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O pregador tamb\u00e9m orientou o retiro do Papa Francisco e dos trabalhadores da C\u00faria Romana, no ano passado. Segundo o jornal portugu\u00eas &#8220;Publico&#8221;, dom Jos\u00e9 Tolentino \u00e9 biblista e investigador, al\u00e9m de poeta e consultor do Conselho Pontif\u00edcio para a Cultura. No seu livro &#8220;Pequeno Caminho das Grandes Perguntas&#8221;, lan\u00e7ado em\u00a0 Portugal em setembro de 2017, ele convida os leitores a sentarem-se num banco de jardim com tempo para encarar as grandes perguntas que nos precedem a todos, avisando logo \u00e0 partida que as respostas s\u00e3o o que menos interessa nessa viagem sentada, cujo objectivo seria ent\u00e3o arranjar espa\u00e7o para o sil\u00eancio e para o espanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Numa cr\u00f4nica publicada no mesmo ano no seman\u00e1rio portugu\u00eas &#8220;Expresso&#8221;, ele explicava que \u201c<em>a arte de parar \u00e9 uma aprendizagem indispens\u00e1vel \u00e0 sobreviv\u00eancia<\/em>\u201d. Da poesia ao ensaio, a sua obra \u00e9 atravessada, na opini\u00e3o do padre jesu\u00edta Vasco Pinto de Magalh\u00e3es, \u201c<em>pelo tom da medita\u00e7\u00e3o e da procura de olhar a realidade com olhos de ver<\/em>\u201d. O jesu\u00edta recuperou assim depressa do espanto de ver um portugu\u00eas chamado a orientar a medita\u00e7\u00e3o do Papa, tanto mais que Tolentino \u201c<em>\u00e9 respeitado internacionalmente pelas suas interven\u00e7\u00f5es no campo da cultura e pertence a uma comiss\u00e3o pontif\u00edcia<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">***********<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Confira uma entrevista concedida ao jornal portugu\u00eas &#8220;P\u00fablico&#8221;,\u00a0 realizada em abril do ano passado, pelo jornalista <strong>Ant\u00f3nio Marujo<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>O Elogio da Sede foi o tema que o padre Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a prop\u00f4s ao Papa Francisco, quando este o convidou a orientar os exerc\u00edcios espirituais da Quaresma para os respons\u00e1veis da C\u00faria Romana \u2013 a primeira vez de um padre portugu\u00eas. Com o mesmo t\u00edtulo, foi anteontem posto \u00e0 venda o livro (ed. Quetzal) que re\u00fane os textos das medita\u00e7\u00f5es que o tamb\u00e9m poeta e exegeta b\u00edblico prop\u00f4s ao Papa e aos seus mais directos colaboradores.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>No tempo lit\u00fargico que antecede e prepara a P\u00e1scoa, os crist\u00e3os s\u00e3o chamados a repensar a sua vida \u00e0 luz da f\u00e9 que professam. Esse desafio pode assumir a forma de um encontro de reflex\u00e3o ou medita\u00e7\u00e3o, muitas vezes chamado de \u201cexerc\u00edcios espirituais\u201d, adoptando a express\u00e3o cunhada por In\u00e1cio de Loiola, fundador dos jesu\u00edtas. \u201cUm exerc\u00edcio espiritual \u00e9, sobretudo, um momento de encontro, uma viagem ao interior de si, uma abertura ao que pode ser a voz de Deus, um balan\u00e7o da pr\u00f3pria vida\u201d, explicaria Tolentino Mendon\u00e7a, nesta entrevista.<\/em><\/p>\n<p><em>Foi isso que, durante cinco dias, entre 18 e 23 de Fevereiro, aconteceu em Ariccia, perto de Roma: duas medita\u00e7\u00f5es di\u00e1rias, e o resto do tempo em sil\u00eancio, para cada pessoa se confrontar com a reflex\u00e3o proposta. \u201cO sil\u00eancio com que vivemos este retiro podia interpretar-se como uma sede\u201d, acrescentava o padre portugu\u00eas.<\/em><\/p>\n<p><em>No livro A Nuvem do N\u00e3o-Saber, de final do s\u00e9culo XIV \u2013 que muitos historiadores da mat\u00e9ria consideram \u201cum dos mais belos textos m\u00edsticos de todos os tempos\u201d, como recordava Jos\u00e9 Mattoso na edi\u00e7\u00e3o portuguesa (ed. Ass\u00edrio &amp; Alvim) \u2013, o autor an\u00f3nimo escreve: \u201c[\u00c0] pergunta: \u2018Que buscas? Que desejas?\u2019, responde que era a Deus que desejavas ter: \u2018\u00c9 s\u00f3 a Ele que eu cobi\u00e7o, \u00e9 s\u00f3 a Ele que busco e nada mais sen\u00e3o Ele\u2019. E se te perguntar quem \u00e9 esse Deus, responde que \u00e9 o Deus que te criou e redimiu, e por sua gra\u00e7a te chamou ao seu amor. Insiste que acerca d\u2019Ele tu nada sabes.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Foi sobre essa busca e sobre tactear na procura de Deus que, nas suas dez medita\u00e7\u00f5es, Tolentino Mendon\u00e7a se debru\u00e7ou, mesclando a investiga\u00e7\u00e3o dos textos b\u00edblicos com as inspira\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e art\u00edsticas que marcam tamb\u00e9m a sua obra po\u00e9tica e ensa\u00edstica. E \u00e9 essa intersec\u00e7\u00e3o permanente que transparece no seu livro. Que tem um \u00fanico risco: o de se tornar, tamb\u00e9m ele, uma das grandes obras da m\u00edstica. A par de obras como A Imita\u00e7\u00e3o de Cristo ou o j\u00e1 citado A Nuvem do N\u00e3o-Saber. Ou a par de nomes como Hildegarda de Bingen, Juliana de Norwich, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, Teresa d\u2019\u00c1vila, Etty Hillesum, Dietrich Bonhoeffer, o irm\u00e3o Roger de Taiz\u00e9&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Comecemos por uma pergunta impressiva: o que se sente ao estar diante do Papa, convidado por ele, a orientar um retiro quaresmal?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sentem-se tr\u00eas coisas. A primeira \u00e9 uma grande humildade, porque toda a palavra que dissermos \u00e9 atravessada pela densidade daquela vida, do que ele representa \u2013 e poucas vezes na minha vida me senti t\u00e3o pequeno. Depois, um grande sentido de servi\u00e7o e responsabilidade: estava ali porque ele me convidou. E por fim, por estranho que pare\u00e7a, uma grande simplicidade e naturalidade: eu era um padre a prestar servi\u00e7o a outros padres e era mais um a fazer o que qualquer um pode fazer. Sentia-me a fazer coisas muito normais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>E tamb\u00e9m a fazer o caminho que interessa ao Papa: como ele escreve no pref\u00e1cio, as medita\u00e7\u00f5es que prop\u00f4s cruzam o estudo da B\u00edblia com refer\u00eancias liter\u00e1rias, po\u00e9ticas, a atualidade e o quotidiano. H\u00e1 um apelo a uma reflex\u00e3o que seja tamb\u00e9m o que o Papa prop\u00f5e?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Claramente. Quando ele me convidou, disse-me duas coisas: que me sentisse muito livre e que fosse eu pr\u00f3prio. E que s\u00f3 ajudaria com estas duas condi\u00e7\u00f5es. Aceitei isso com grande verdade, no sentido de que a minha experi\u00eancia de vida aparece muito refletida, tal como as minhas leituras ou o que me parecem ser os caminhos do presente e do futuro da Igreja&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Isso \u00e9 feito num grande di\u00e1logo com o magist\u00e9rio do Papa Francisco e o que ele representa, com o impulso reformista que ele introduz a este tempo do catolicismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Estes cruzamentos d\u00e3o-me a medida do concreto. A teologia n\u00e3o pode ser uma ideologia nem a espiritualidade se pode confundir com um conjunto de abstra\u00e7\u00f5es. Qual \u00e9 o contributo da literatura? \u00c9 trazer uma \u201cconcretude\u201d muito grande, \u00e9 trazer hist\u00f3rias de vida, modelos do vivido, do pessoal, do individual para uma reflex\u00e3o de conjunto. Nesse sentido, \u00e9 um papel muito grande, porque \u00e9 uma esp\u00e9cie de zoom sobre a realidade. \u00c9 muito envolvente sentirmo-nos dentro de uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A grande vantagem de utilizar o texto b\u00edblico\u00a0e a\u00a0tradi\u00e7\u00e3o espiritual crist\u00e3, mas tamb\u00e9m a antropologia, o cinema, a literatura, a pintura e as artes em geral \u00e9 permitir uma tradu\u00e7\u00e3o existencial da mensagem crist\u00e3.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\"><strong>&#8220;Crer n\u00e3o \u00e9 satisfazer-se, n\u00e3o \u00e9 ter as solu\u00e7\u00f5es nem ter encontrado as respostas. Crer \u00e9 habitar o caminho, habitar a tens\u00e3o, viver dentro da procura&#8221;<\/strong><\/p>\n<p class=\"tweet-quote\">Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>E isso \u00e9 necess\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Quando se prop\u00f5em exerc\u00edcios espirituais, claramente n\u00e3o \u00e9 para ensinar doutrina \u00e0s pessoas. Aquelas pessoas \u00e9 que me poderiam ensinar doutrina. Por isso \u00e9 que essa chamada ao real e ao concreto me parecem tra\u00e7os indispens\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>O seu livro anterior, O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas, acaba a falar de ampliar o espanto como legado daqueles que se amam. Estas medita\u00e7\u00f5es come\u00e7am com o tema \u201caprendizes do espanto\u201d. Que espanto ou espantos se devem aprender?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O grande perigo, numa viagem interior, \u00e9 habituarmo-nos \u00e0 nossa pr\u00f3pria vida e a rotina acabar por dominar. \u00c9 um fazer por fazer, os acontecimentos s\u00e3o mec\u00e2nicos. Na vida dos padres, por exemplo, h\u00e1 um retiro anual, que o pr\u00f3prio calend\u00e1rio imp\u00f5e. E, a dada altura, \u00e9 como se um piloto autom\u00e1tico estivesse a comandar a nossa vida e j\u00e1 n\u00e3o f\u00f4ssemos n\u00f3s pr\u00f3prios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O espanto \u00e9 poder abrir os olhos, poder dar-se conta do que somos, do que est\u00e1 perto de n\u00f3s, do que est\u00e1 longe. \u00c9 ganhar um olhar cr\u00edtico sobre a nossa pr\u00f3pria realidade, perceber que muitos gestos, \u00e0 custa de os repetirmos, se tornam tiques e manias, e se esvaziam da autenticidade fundamental. Por isso, a primeira palavra do retiro \u00e9 esse \u201cespanta-me\u201d, mais uma vez. Como se pud\u00e9ssemos ganhar um olhar novo, um primeiro olhar sobre a nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia. \u00c9 essa frescura que permite a infiltra\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito nas nossas vidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>&#8230; E que leva ao tema da sede. Num outro livro anterior, A M\u00edstica do Instante, j\u00e1 escrevia que bebemos de muitas fontes mas a sede volta sempre. A que sedes o cristianismo deve hoje dar resposta?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Escolhi o tema da sede\u00a0porque ele me parece indicar um patrimonio fundamental do crer. Crer n\u00e3o \u00e9 satisfazer-se, n\u00e3o \u00e9 ter as solu\u00e7\u00f5es nem ter encontrado as respostas. Crer \u00e9 habitar o caminho, habitar a tens\u00e3o, viver dentro da procura. Nesse sentido, mais do que estar saciados de Deus, os crentes aprendem os benef\u00edcios da sede, a import\u00e2ncia de viverem no desejo de Deus, na espera de Deus. Um crente n\u00e3o possui Deus, n\u00e3o o domestica com os seus rituais e as suas cren\u00e7as. Ele vive na expectativa de Deus e da sua revela\u00e7\u00e3o que, em grande medida, \u00e9 sempre surpreendente, \u00e9 sempre in\u00e9dita. Por isso, a sede \u00e9 um lugar necess\u00e1rio no\u00a0itiner\u00e1rio crist\u00e3o, que precisamos de revisitar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A dada altura, falo da necessidade de revalorizarmos mais uma espiritualidade da sede.\u00a0E percebermos que, mais do que estar a produzir respostas para perguntas que n\u00e3o escutamos dentro de n\u00f3s e dentro dos outros, o importante \u00e9 perceber a sede como uma palavra que Deus nos diz. Deus coloca-nos numa situa\u00e7\u00e3o, em ato, em experi\u00eancia, mais do que numa montra ou p\u00f3dio onde a vida j\u00e1 aparece conclu\u00edda e rematada. O tempo da Igreja, o tempo da cren\u00e7a, \u00e9 um tempo de inacabamento, de constru\u00e7\u00e3o, \u00e9 um estar a caminho, \u00e9 um fazer-se. A\u00a0<strong>sede<\/strong>\u00a0desempenha, a\u00ed, um papel fundamental. E a\u00ed pergunto: qual \u00e9 a primeira sede?&#8230;<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a primeira sede?&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A primeira sede \u00e9 a sede da sede, viver n\u00e3o na administra\u00e7\u00e3o das nossas certezas, mas numa esp\u00e9cie de fronteira, numa esp\u00e9cie de limiar, que faz do ato de crer ou do ato de rezar uma forma de aten\u00e7\u00e3o: de aten\u00e7\u00e3o a n\u00f3s pr\u00f3prios, de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 vizinhan\u00e7a de Deus, de aten\u00e7\u00e3o aos outros, \u00e0 hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No final do retiro, o\u00a0Papa\u00a0disse-me: \u201cUma das coisas que achei importante foi dizer que Deus tem sede das nossas sedes.\u201d Esse \u00e9 um bom resumo da proposta que fiz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Um dos aspectos da aten\u00e7\u00e3o aos outros passa por uma das faces da sede espiritual: a solid\u00e3o. A dado passo, cita uma hist\u00f3ria intensa do escritor uruguaio Eduardo Galeano, que acaba com a crian\u00e7a hospitalizada a pedir ao m\u00e9dico \u201cdiga a algu\u00e9m que estou aqui\u201d. A companhia e o abra\u00e7o do outro s\u00e3o necessidades maiores?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">S\u00e3o necessidades maiores, tamb\u00e9m para o clero e para a Igreja, que foram os primeiros destinat\u00e1rios desta palavra. \u00c9 muito f\u00e1cil, em todas as condi\u00e7\u00f5es de vida, experimentarmos a radical solid\u00e3o do existir e n\u00e3o encontrarmos interlocutores para as grandes quest\u00f5es, para as grandes sedes que trazemos no cora\u00e7\u00e3o. Essa solid\u00e3o torna-se uma esp\u00e9cie de peso, de custo existencial, com o qual nos conformamos: vivemos como podemos viver.<\/p>\n<div class=\"news-citacao-right\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\" style=\"text-align: justify\"><strong>&#8220;Mais do que estar saciados de Deus, os crentes aprendem os benef\u00edcios da sede, a import\u00e2ncia de viverem no desejo de Deus, na espera de Deus. Um crente n\u00e3o possui Deus, n\u00e3o o domestica com os seus rituais e as suas cren\u00e7as&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">S\u00e3o necess\u00e1rios momentos de revitaliza\u00e7\u00e3o na nossa vida, de questionamento mais profundo, de pausa, como os\u00a0exerc\u00edcios espirituais\u00a0podem ser. Momentos que nos ajudem a romper com o conformismo e a ouvir a solid\u00e3o profunda que temos dentro de n\u00f3s. N\u00e3o escutaremos a voz de Deus se n\u00e3o escutarmos tamb\u00e9m a voz dessa ferida, desse peso de solid\u00e3o que muitas vezes nos esmaga, que muitas vezes condiciona a nossa esperan\u00e7a, condiciona a nossa alegria e que \u00e9 preciso olhar de frente e desconstruir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Fala da rela\u00e7\u00e3o como um alimento invis\u00edvel, que passa pela hospitalidade, pela palavra, pelo cuidado e afecto com os outros. Mas, hoje, chamamos amizade a rela\u00e7\u00f5es com desconhecidos. Como trabalhar a rela\u00e7\u00e3o, tendo em conta esta realidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A grande ideologia dominante, hoje, \u00e9 o consumo. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 tanto uma ideologia pol\u00edtica, mas uma transversalidade que faz de n\u00f3s consumidores de alguma coisa e continuamente estimulados a isso. Qual \u00e9 o problema da sociedade de consumo? \u00c9 que ela n\u00e3o suporta a\u00a0sede, n\u00e3o suporta o desejo. Todos os desejos s\u00e3o para ser realizados no mais imediato poss\u00edvel. A satisfa\u00e7\u00e3o dos nossos desejos \u00e9 colocada como uma promessa fantasma ao alcance da m\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Qual \u00e9 o problema? \u00c9 que j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para grandes sedes, para grandes desejos, porque vivemos numa\u00a0sociedade de satisfa\u00e7\u00e3o\u00a0permanente. E de uma satisfa\u00e7\u00e3o enganadora porque, verdadeiramente, um desejo que se possa satisfazer de um momento para o outro n\u00e3o \u00e9 um verdadeiro desejo humano. Por isso, cada vez mais sentimos que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para que a vida alimente grandes sonhos, grandes paix\u00f5es, grandes viagens, grandes utopias, grandes generosidades&#8230;<\/p>\n<p><strong>Ficamos presos ao imediato&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Isso faz de n\u00f3s pessoas mais desencontradas consigo mesmas. Esta\u00a0sociedade da satisfa\u00e7\u00e3o\u00a0imediata deixa-nos muito insatisfeitos porque vivemos num mecanismo de viciamento e impulso, e n\u00e3o vivemos por ter alimentado, dentro de n\u00f3s, de forma paciente, longa, discernida, demorada, um grande desejo, uma verdadeira vontade, um sopro de liberdade, de criatividade. Mas vivemos neste condicionamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Isto reflete-se em todas as dimens\u00f5es da nossa vida: \u00e9 assim com as necessidades elementares da vida e \u00e9 assim com as nossas rela\u00e7\u00f5es uns com os outros, que acabam por ser, tamb\u00e9m, de consumo. Acabamos por nos consumir uns aos outros e n\u00e3o h\u00e1 um verdadeiro encontro, uma verdadeira espera, uma hospitalidade aut\u00eantica do outro.\u00a0Diminu\u00edmos a nossa capacidade de esperar uns pelos outros: ou \u00e9 no imediato ou j\u00e1 n\u00e3o funciona. E essa acelera\u00e7\u00e3o\u00a0antropol\u00f3gica \u2013 que as tecnologias, os emails, os telefones t\u00eam acentuado \u2013 seca-nos por dentro e desumaniza-nos. Uma sociedade de consumo\u00a0\u00e9, fundamentalmente, uma\u00a0sociedade desumanizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Este tema traz \u00e0 mem\u00f3ria muitas refer\u00eancias b\u00edblicas: o rio e regava o jardim do \u00c9den, o po\u00e7o de Jacob, o veado que suspira pela torrente das \u00e1guas, nos Salmos, o encontro de Jesus com a samaritana, a \u00faltima frase do Apocalipse&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>A\u00a0B\u00edblia\u00a0\u00e9 um manual da\u00a0sede. Podemos ver a B\u00edblia inteira a partir dessa din\u00e2mica da sede e da \u00e1gua, mas de uma \u00e1gua que se acorda dentro da pr\u00f3pria sede. \u201cAos sedentos, eu darei a beber a \u00e1gua viva\u201d, diz Jesus \u2013 que \u00e9, no fundo, a \u00e1gua do esp\u00edrito. Quando Jesus diz \u201ctenho sede\u201d, a seguir entrega o esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 alguma coisa que acontece na din\u00e2mica da nossa\u00a0sede: a nossa sede tem muito a ensinar-nos. Precisamos de confiar mais na nossa sede e na sede do mundo. A Igreja tem de confiar mais na sede do mundo e perceber que essa sede, que est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o do homem, \u00e9 aliada de uma procura espiritual mais aut\u00eantica, mais radical.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Cita o profeta Jeremias, que diz que o povo cometeu um duplo crime: afastou-se de Deus, \u201cnascente de \u00e1guas vivas\u201d, e construiu cisternas rotas, que n\u00e3o ret\u00eam as \u00e1guas. H\u00e1 um discurso crist\u00e3o que identifica a seculariza\u00e7\u00e3o com o afastamento de Deus. Esta leitura \u00e9 correta ou reflecte as muitas sedes das pessoas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No caso do profeta Jeremias, ele fala dos equ\u00edvocos e das ambiguidades que fazem parte do caminho. Falar da sede n\u00e3o \u00e9 um discurso puro nem linear. \u00c9 um discurso onde est\u00e1 o confuso que tamb\u00e9m nos habita, o confuso do mundo que \u00e9 preciso iluminar e purificar. Para mim, \u00e9 claro que temos de olhar para a seculariza\u00e7\u00e3o e as culturas contempor\u00e2neas n\u00e3o como uma barreira para o an\u00fancio de Deus, mas identificando, no cora\u00e7\u00e3o do homem, aquilo que \u00e9 o aliado de um discurso de f\u00e9, de confian\u00e7a, de miseric\u00f3rdia. Isso passa por sintonizar com a sede que existe dentro do cora\u00e7\u00e3o humano. Porque a grande quest\u00e3o \u00e9 antropol\u00f3gica, existencial. No fundo, trata-se de saber como tornar o discurso de Deus relevante para as nossas sociedades, em grande medida indiferentes, que se consomem nesta esp\u00e9cie de mercantilismo global que nos domina. Ou de como acordar a vida, como acordar um desejo de absoluto, como acordar uma sede de mais, uma sede de santidade, como diz o Papa na exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica <em>Gaudete<\/em> <em>et exsultate<\/em> que acaba de publicar.<\/p>\n<p><strong>E como se faz isso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Valorizando a sede. A sede n\u00e3o \u00e9 um t\u00f3pico apenas religioso, a\u00a0sede\u00a0interessa a toda a gente. N\u00e3o somos pessoas se n\u00e3o olharmos com aten\u00e7\u00e3o para a nossa\u00a0sede\u00a0e n\u00e3o a estimarmos ou potenciarmos. O que nos abre horizontes \u00e9 a nossa sede, n\u00e3o s\u00e3o as certezas provis\u00f3rias que vamos encontrando.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 o que diz Saint-\u00c9xupery na ep\u00edgrafe que coloca no livro: \u201cSe quiseres construir um navio\u201d, det\u00e9m-te primeiro a acordar nos oper\u00e1rios \u201co desejo do mar distante e sem fim\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No princ\u00edpio est\u00e1 o desejo. \u00c9 esse desejo e essa sede que s\u00e3o o motor de um caminho. Se quisermos conhecer uma pessoa, devemos perguntar que\u00a0<strong>sedes<\/strong>\u00a0\u00e9 que ela transporta, que sedes n\u00f3s permitimos que nos habitem. S\u00e3o essas sedes \u2013 que n\u00e3o podem ser a sede de poder, a sede do ter, do dominar, do consumir, da viol\u00eancia, mas a sede de justi\u00e7a, de solidariedade, de bem, de beleza \u2013 que s\u00e3o capazes de nos avizinhar do sentido, da verdade da pr\u00f3pria exist\u00eancia. Ignorar a nossa sede \u00e9 desconhecer-se a si pr\u00f3prio, \u00e9 ser um estrangeiro da sua pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Essa reflex\u00e3o sobre o desejo, que vem desde um dos seus primeiros ensaios b\u00edblicos, As Estrat\u00e9gias do Desejo \u00e9 surpreendente, na rela\u00e7\u00e3o com o tema da sede. Quando cita nomes como Emily Dickinson, a dizer que \u201ca \u00e1gua \u00e9-nos ensinada pela sede\u201d, ou S. Jo\u00e3o da Cruz e outros m\u00edsticos, damo-nos conta de que o desejo n\u00e3o se op\u00f5e \u00e0 raz\u00e3o e ao conhecimento. Pelo contr\u00e1rio, confunde-se com eles&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 bonito ver que o primeiro ato de Deus \u00e9 o da cria\u00e7\u00e3o. E da cria\u00e7\u00e3o individual, de cada um: da cria\u00e7\u00e3o daquele\u00a0Ad\u00e3o\u00a0e da cria\u00e7\u00e3o daquela\u00a0Eva\u00a0e das outras criaturas. N\u00f3s n\u00e3o somos c\u00f3pias uns dos outros, n\u00e3o somos simplesmente uma repeti\u00e7\u00e3o, uma massa, uma multid\u00e3o indiferenciada. Pelo contr\u00e1rio: cada um de n\u00f3s \u00e9 \u00fanico, em cada um de n\u00f3s h\u00e1 uma revela\u00e7\u00e3o de Deus que \u00e9 singular, cada um de n\u00f3s \u00e9 uma esta\u00e7\u00e3o do mundo, \u00e9 um primeiro dia da hist\u00f3ria.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\"><strong>\u201cMuitas vezes, a religi\u00e3o \u00e9 uma coisa inodora, virtual. O Papa traz realidade, traz verdade. O cristianismo, com ele, tem cheiro\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"tweet-quote\">Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Por isso \u00e9 t\u00e3o importante come\u00e7ar por a\u00ed. Para mim, a experi\u00eancia da f\u00e9 \u00e9 comunit\u00e1ria, mas potencia a pessoa, o acordar de cada um, o caminho que cada um pode fazer. Nesse sentido, \u00e9 fundamental perguntar a cada um: qual \u00e9 o teu desejo? O que transportas dentro de ti? O que procuras? Porque, na maior parte das vezes, n\u00e3o nos \u00e9 concedida essa possibilidade de express\u00e3o e desabituamo-nos tanto dela que, quando nos fazem essa pergunta, n\u00f3s estremecemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tenho uma hist\u00f3ria curiosa com a Maria Gabriela Llansol.\u00a0Ela leu um texto meu, telefonou-me e marcou um encontro em\u00a0<strong>Sintra<\/strong>. Apanhei o comboio, ela foi esperar-me \u00e0 esta\u00e7\u00e3o. Quando saltei do comboio, cumprimentamo-nos e come\u00e7amos a caminhar. Fez-se um sil\u00eancio e ela perguntou-me: \u201cTolentino, o que \u00e9 que procuras?\u201d Fiquei num embara\u00e7o enorme, porque n\u00e3o esperava aquela pergunta, n\u00e3o vinha preparado para ela. Aquele embara\u00e7o deu-me muito que pensar depois e ainda me lembro dele porque \u00e9 poss\u00edvel andarmos uns com os outros e cumprir uma vida aparentemente muito cheia e nunca respondermos, com verdade, \u00e0 pergunta: \u201cO que procuras? O que desejas? O que trazes dentro do teu cora\u00e7\u00e3o?\u201d Isto n\u00e3o s\u00e3o detalhes de uma vida. Por aqui passa o essencial do que somos, na nossa constru\u00e7\u00e3o. Por isso, a pergunta pelo desejo \u00e9 muito importante e a f\u00e9 tem de ser tamb\u00e9m uma escola do desejo, onde se aprende a desejar, a desejar mais, a desejar melhor, a desejar maior&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Falar-se em desejo, em contexto crist\u00e3o, nem sempre \u00e9 bem visto. O tema da sede pode ajudar os crist\u00e3os a reconciliar-se com a ideia do desejo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 um deficit de\u00a0sede. Mesmo nas nossas\u00a0comunidades crist\u00e3s, h\u00e1 um deficit de sede e de desejo. Quais s\u00e3o os sonhos que os\u00a0crist\u00e3os\u00a0t\u00eam? O que querem eles para o mundo, para a vida, para a\u00a0sociedade, para eles mesmos, para os outros? Que sonhos t\u00eam hoje os jovens? Que vis\u00f5es t\u00eam os mais velhos? O que procuram verdadeiramente os adultos? A sede \u00e9 muito importante porque contraria um certo catolicismo de manuten\u00e7\u00e3o, de subsist\u00eancia, de auto-referencialidade, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de pausa, de torpor, que bloqueia o pr\u00f3prio esp\u00edrito. O esp\u00edrito desassossega o\u00a0cristianismo\u00a0e f\u00e1-lo muito tamb\u00e9m atrav\u00e9s da\u00a0sede. Se pensarmos nos grandes santos, nos m\u00edsticos, nos crist\u00e3os empenhados, naqueles que ajudaram a escrever p\u00e1ginas de hist\u00f3ria, s\u00e3o sedentos, s\u00e3o pessoas que ardem dentro de um desejo e se deixam viver dessa maneira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Cito, por exemplo, Dorothy Day,\u00a0uma mulher espantosa, cujo processo de beatifica\u00e7\u00e3o foi j\u00e1 aberto. Foi sindicalista, anarquista, feminista, esteve presa muitas vezes. E era cat\u00f3lica, s\u00f3 que viveu um catolicismo social muito empenhado na causa dos trabalhadores, dos sindicatos&#8230;<\/p>\n<p><strong>&#8230; dos sem-abrigo&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">&#8230; dos sem-abrigo. E ela dizia isto: na\u00a0Idade M\u00e9dia, havia por exemplo 500 leprosarias em\u00a0Fran\u00e7a, geridas pela Igreja. Hoje, perante problemas que s\u00e3o as novas lepras \u2013 ela falava, por exemplo, do desemprego e da fragilidade e da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho\u00a0\u2013, perguntava: o que fazem os crist\u00e3os em rela\u00e7\u00e3o a este problema concreto? Quantos lugares novos n\u00f3s abrimos para acolher, pensar e reinterpretar as feridas e os dilemas da nossa \u00e9poca?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Papa tem sido um motor extraordin\u00e1rio no catolicismo contempor\u00e2neo, porque ele tem trazido essa sede, esse desejo muito grande, esse sonho de um cristianismo\u00a0capaz de ultrapassar-se, de sair da sua cerca e de gerar uma cultura de encontro, de servi\u00e7o \u00e0 humanidade. Ele \u00e9 tamb\u00e9m, nesse sentido, um mestre da arte da sede.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Na exorta\u00e7\u00e3o que publicou segunda-feira passada (alegrai-vos e exultai), ele volta a repetir que a defesa da vida deve ser da vida toda. Ou seja, tamb\u00e9m das condi\u00e7\u00f5es de vida que as pessoas t\u00eam&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Exatamente. N\u00e3o podemos limitar a defesa da vida apenas a situa\u00e7\u00f5es particulares do curso da exist\u00eancia, mas temos de apoiar a pessoa em todas as circunst\u00e2ncias, em todos os momentos. Esse \u00e9 um chamamento muito forte do\u00a0Papa Francisco, porque h\u00e1 uma fidelidade ao humano a que o contrato crist\u00e3o nos obriga: ver em cada ser humano um irm\u00e3o e n\u00e3o viver, como o\u00a0Papa\u00a0diz, um\u00a0cristianismo\u00a0que sente uma certa repulsa da humanidade ou de certos lugares da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O cristianismo tem de abra\u00e7ar a humanidade dos outros como ela \u00e9 e, especialmente \u2013 e isso o\u00a0Papa\u00a0tem refor\u00e7ado muito \u2013 a humanidade pobre, a humanidade fragilizada, a humanidade mais vulner\u00e1vel, numa op\u00e7\u00e3o clara, sem ambiguidades, pelos mais pobres. Esse \u00e9 um desafio, uma sede, um sonho, que ele recoloca, com muita intensidade, na Igreja do nosso tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Santo Agostinho diz que \u201ca fragilidade de Jesus veio socorrer-nos\u201d e Simone Weil escreve que \u201cem Jesus, Deus tamb\u00e9m se apresenta como mendigo do homem\u201d. \u00c9 necess\u00e1rio outra perspectiva sobre Deus?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A forma como representamos Deus acaba por determinar muito a nossa auto-representa\u00e7\u00e3o junto dos outros. Se temos a ideia de um Deus juiz, de um Deus castigador da hist\u00f3ria, essa representa\u00e7\u00e3o do poder acabar\u00e1 por ser o tra\u00e7o distintivo da nossa presen\u00e7a e do nosso an\u00fancio.<\/p>\n<div class=\"news-citacao-right\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\" style=\"text-align: justify\"><strong>&#8220;Deus \u00e9 um problema para todos, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o para os n\u00e3o-crentes, \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o para os crentes. Deus \u00e9 uma quest\u00e3o que nos une, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o que nos separa: Deus est\u00e1 em todos, crentes e n\u00e3o-crentes&#8221;<\/strong><\/p>\n<p class=\"tweet-quote\" style=\"text-align: justify\">Jos\u00e9 Tolentino<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas o Deus de Jesus \u00e9 um Deus pobre, \u00e9 um Deus desconcertantemente fr\u00e1gil, vulner\u00e1vel. Um grande te\u00f3logo do s\u00e9culo XX, Dietrich Bonhoeffer, diz que Jesus vem anunciar um Deus fraco, um Deus fr\u00e1gil. O Deus dos crist\u00e3os \u00e9 um Deus fr\u00e1gil. \u00c9 um Deus que se anuncia n\u00e3o na for\u00e7a, n\u00e3o no poder, n\u00e3o no exerc\u00edcio de uma transcend\u00eancia que nos esmaga, mas no vagido de uma crian\u00e7a que nasce na manjedoura de\u00a0Bel\u00e9m\u00a0ou no grito do crucificado no alto da cruz. O grito da crian\u00e7a ou do crucificado representam-nos um Deus diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por isso \u00e9 t\u00e3o importante que a teologia nos ajude a fazer um exerc\u00edcio cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s imagens de Deus, que t\u00eam de ser purificadas, para que a nossa inscri\u00e7\u00e3o no mundo traduza o Deus de Jesus Cristo e n\u00e3o um Deus que a pr\u00f3pria vida de Cristo veio negar.<\/p>\n<p><strong>Mas como pode a fragilidade socorrer se, no quotidiano, a nossa experi\u00eancia \u00e9 a oposta? Precisamos de abrigos fortes contra a for\u00e7a da natureza, de estar fortalecidos no trabalho, nas rela\u00e7\u00f5es sociais&#8230; Como pode ser um Deus fr\u00e1gil a socorrer-nos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 interessante o que Simone Weil\u00a0diz na hora da sua convers\u00e3o: que se converte porque Deus n\u00e3o \u00e9 o Deus dos fortes, mas o Deus dos fracos. E, num percurso de f\u00e9 aut\u00eantico, h\u00e1 sempre um momento em que se percebe que Deus nos esvazia as m\u00e3os e esse \u00e9 o maior dom que ele nos d\u00e1. A fragilidade faz-nos experimentar o abandono, a entrega, uma confian\u00e7a que \u00e9 verdadeiramente radical. E n\u00e3o assenta no que j\u00e1 tenho, mas no exerc\u00edcio de colocar a minha vida na depend\u00eancia do amor de Deus, na depend\u00eancia do que Deus pode ser para mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esse \u00e9 o exerc\u00edcio espiritual\u00a0mais profundo. Claro que, na nossa vida, precisamos de confirma\u00e7\u00e3o, de media\u00e7\u00f5es que permitam que a vida aconte\u00e7a de forma est\u00e1vel, de forma segura. Mas, ao mesmo tempo, n\u00e3o podemos substituir essa nudez necess\u00e1ria, essa fragilidade do encontro mais radical connosco pr\u00f3prios por falsas respostas ilus\u00f3rias, que nos afastam de n\u00f3s mesmos. Em \u00faltima an\u00e1lise, nascemos e morremos e estamos perante o\u00a0mist\u00e9rio da vida. Perante ele, n\u00e3o temos grandes respostas nem grandes armaduras sen\u00e3o a descoberta do dom, a descoberta da\u00a0sede.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Nem para trag\u00e9dias inomin\u00e1veis como a Shoah ou para grandes desastres ou massacres?&#8230; Etty Hillesum, que morreu em Auschwitz, escrevia, dirigindo-se a Deus: \u201cUma coisa se vai tornando cada vez mais clara para mim: que Tu, Deus, n\u00e3o nos podes ajudar, que temos de ser n\u00f3s a ajudar-te para nos ajudarmos a n\u00f3s pr\u00f3prios.\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Essa \u00e9 uma das grandes frases do s\u00e9culo XX, pronunciada por esta mulher num campo de concentra\u00e7\u00e3o. Ela percebe que o mais importante n\u00e3o \u00e9 escapar a um destino, n\u00e3o \u00e9 salvar-se a si mesma e salvar a sua pele, n\u00e3o \u00e9 esperar que Deus resolva de fora os meandros da hist\u00f3ria, mas perceber que a nossa vida \u00e9 para ajudar Deus a fazer, a transformar a hist\u00f3ria, a alarg\u00e1-la&#8230; Isso faz-nos olhar para a vida de uma outra forma. Sem essa descoberta, a nossa vida \u00e9 uma lista de reivindica\u00e7\u00f5es, de desejos imediatos, acaba por ser algo que n\u00e3o sabemos o que fazer com ela. Quando descobrimos que a vida pode ser um dom, c\u00famplice de um milagre maior, como Etty descobriu, a vida ganha outra dimens\u00e3o. Por isso, nas \u00faltimas palavras que ela escreve, ao sair do campo de concentra\u00e7\u00e3o para Auschwitz, onde havia de morrer, ela testemunha isto: \u201cSa\u00edmos do campo de concentra\u00e7\u00e3o\u00a0cantando&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Podemos sair da vida de muitas maneiras. Mas, para sair cantando, havemos de ter abra\u00e7ado o paradoxo, a contradi\u00e7\u00e3o do que \u00e9 viver. E, no fundo, \u00e9 perceber que somos mais quando somos menos, que \u00e9 dando que recebemos, que \u00e9 perdoando que somos perdoados, que \u00e9 na oferta radical de n\u00f3s mesmos e na hospitalidade que fazemos \u00e0 vida que, no fundo, somos h\u00f3spedes acolhidos em festa pela mesma vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Regressamos \u00e0 \u00faltima frase do Apocalipse: \u201cQuem tem sede, aproxime-se e beba gratuitamente.\u201d H\u00e1 duas palavras que atravessam as suas medita\u00e7\u00f5es: o dom e o servi\u00e7o. S\u00e3o duas palavras identit\u00e1rias da condi\u00e7\u00e3o humana e da condi\u00e7\u00e3o crist\u00e3?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O caminho da felicidade \u00e9 esse: \u00e9 quando percebemos que a vida \u00e9 dom, que \u00e9 rela\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 uma ilha, que a nossa vida \u00e9 fruto de uma d\u00e1diva porque recebemos de outro e, ao mesmo tempo, \u00e9 transmiss\u00e3o dessa chama e desse esp\u00edrito&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando percebemos o caminho de realiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o para consumir mas para consumar a nossa vida, entendemos a vida como um servi\u00e7o, seja ele qual for. Mas um servi\u00e7o marcado pela gratuidade, pela generosidade, pelo amor&#8230; Quando temos o privil\u00e9gio de servir, de forma desmedida, tamb\u00e9m recebemos o tamanho da nossa vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>O t\u00edtulo de um dos seus poemas e da sua antologia po\u00e9tica, diz: \u201cA noite abre meus olhos\u201d. S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz fala da fonte que, no meio da noite, pode iluminar a sede. O que pode a sede abrir?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Isso mesmo que\u00a0S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz\u00a0diz: \u201cDe noite iremos, de noite, ao encontro da fonte, porque s\u00f3 a sede nos ilumina.\u201d Quando os nossos olhos se abrem na noite \u2013 a noite \u00e9 tamb\u00e9m o s\u00edmbolo do prec\u00e1rio, da nossa fragilidade, do que \u00e9 maior do que n\u00f3s, do que n\u00e3o tem resposta \u2013, quando abrimos os olhos percebemos que somos chamados a uma experi\u00eancia de vida aut\u00eantica. Esse sentir-se chamado \u00e9 alguma coisa que a escuta profunda de n\u00f3s pr\u00f3prios permite.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\"><strong>\u201cO Papa Francisco tem-nos ajudado muito a viver um cristianismo com os p\u00e9s assentes na terra e capaz de ouvir a voz do sofrimento humano\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"tweet-quote\">Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Essa disponibilidade para a escuta \u00e9 um p\u00f4r-se num dinamismo de mudan\u00e7a; \u00e9 dizer que Deus \u00e9 que conduz a hist\u00f3ria, que n\u00e3o somos n\u00f3s, com os nossos olhares parciais, a conduzir a hist\u00f3ria, mas o pr\u00f3prio Deus. Mas, para isso, temos de abrir os olhos e sentir que h\u00e1 uma ilumina\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 acontece quando nos expomos. Os exerc\u00edcios espirituais, a experi\u00eancia de ora\u00e7\u00e3o ou, no mundo contempor\u00e2neo, tamb\u00e9m a arte, a m\u00fasica, o contacto com a natureza, tantas outras formas que s\u00e3o uma exposi\u00e7\u00e3o do que somos e da vida, a escutar o mist\u00e9rio que est\u00e1 presente, que est\u00e1 perto e se revela quando lhe abrimos a porta&#8230;<\/p>\n<p><strong>Essa ideia da proximidade \u00e9 central no discurso e na pr\u00e1tica do Papa. Ele insiste muito nela, como sin\u00f3nimo da miseric\u00f3rdia e da aten\u00e7\u00e3o ao outro.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ainda nesta [\u00faltima] exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica\u00a0ele fala muito da santidade de trazer por casa, poder\u00edamos traduzir assim. Da santidade de todos os dias, da vida comum. N\u00e3o apenas dos santos canonizados, mas das pessoas que lutam pela sobreviv\u00eancia, das que est\u00e3o doentes e continuam a sorrir, dos pais ou dos av\u00f3s que d\u00e3o as m\u00e3os \u00e0s crian\u00e7as e as ajudam a crescer, dos amigos que partilham momentos de alegria e de impasse&#8230; isso \u00e9 express\u00e3o de um Deus pr\u00f3ximo e vizinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E tem sido, no magist\u00e9rio do Papa Francisco, uma mensagem de reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus e, muitas vezes, at\u00e9 com a pr\u00f3pria Igreja. N\u00e3o \u00e9 por acaso que tanta gente esteja a dar \u00e0 Igreja uma segunda oportunidade com o\u00a0Papa <strong>Francisco<\/strong>. Muitas vezes at\u00e9 se ouve dizer que ele \u00e9 a \u00fanica voz humana no contexto da ordem mundial, porque nos aproxima uns dos outros e aproxima-nos desse sentido fundamental que acreditamos que est\u00e1 em Deus.<\/p>\n<p><strong>Quase podemos dizer que h\u00e1 sedes que o Papa est\u00e1 a saciar em muita gente&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o tenho d\u00favidas de que o trabalho dele tem sido, em grande medida, tocar as sedes dos cora\u00e7\u00f5es e das periferias. Mesmo para aquelas situa\u00e7\u00f5es em que n\u00e3o h\u00e1 uma resposta \u00fanica e r\u00e1pida, ele n\u00e3o tem medo de tocar as v\u00e1rias sedes e de tocar com ternura as sedes que as mulheres e os homens do nosso tempo transportam. E, nomeadamente, as v\u00edtimas, os exclu\u00eddos, os mais pobres. N\u00e3o \u00e9 um acaso que ele tenha come\u00e7ado as suas viagens por Lampedusa, com os refugiados, os\u00a0imigrantes&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Um dos perigos do discurso religioso \u00e9 ser uma super-estrutura que anda por cima das nossas cabe\u00e7as e n\u00e3o toca, n\u00e3o se infiltra na pr\u00f3pria realidade e n\u00e3o se deixa ensopar de vida, n\u00e3o tem cheiro, n\u00e3o tem cor nem sabor. Muitas vezes, a religi\u00e3o \u00e9 uma coisa inodora, virtual. O\u00a0Papa\u00a0traz realidade, traz verdade. O\u00a0cristianismo, com ele, tem cheiro. Ele fala muitas vezes do cheiro, do toque, do sabor e \u00e9 a experi\u00eancia de um cristianismo vivido com os seus sentidos, com a realidade desperta. Isso toca muito as pessoas que trazem uma briga com uma religi\u00e3o desencarnada e, quando encontram um cristianismo encarnado no amor e na miseric\u00f3rdia, d\u00e3o-lhe uma segunda hip\u00f3tese.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Um dos cap\u00edtulos \u00e9 dedicado ao papel das mulheres nos evangelhos. O cristianismo e a humanidade t\u00eam algo a aprender com o \u201cfluxo de realidade a modelar a f\u00e9\u201d que o seu lado feminino lhe traz?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O\u00a0Papa Francisco\u00a0tem colocado deliberadamente essa quest\u00e3o na agenda eclesial, o que \u00e9 muito importante. H\u00e1 p\u00e1ginas do evangelho que n\u00e3o percebemos se n\u00e3o forem lidas tamb\u00e9m em chave do feminino. H\u00e1 uma pl\u00e1stica da f\u00e9, uma tradu\u00e7\u00e3o existencial da f\u00e9 que s\u00f3 as l\u00e1grimas das mulheres, o rosto e a vida das mulheres \u00e9 capaz de explicar. H\u00e1 um patrim\u00f4nio muito grande do feminino, nestes dois mil anos de\u00a0cristianismo, que claramente precisa de ser melhor lido e ser mais frequentado.<\/p>\n<div class=\"news-citacao-right\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\"><strong>&#8220;Quando temos o privil\u00e9gio de servir, de forma desmedida, tamb\u00e9m recebemos o tamanho da nossa vida&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p class=\"tweet-quote\">Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Diz que, sobre Deus e o caminho espiritual, faz bem aos crentes escutar os n\u00e3o-crentes. O que pode um crente aprender, sobre Deus, com um n\u00e3o-crente?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A resposta mais \u00f3bvia \u00e9 a sede: num n\u00e3o-crente, encontramos uma sede muitas vezes em estado bruto, em estado de pergunta, num grau de pureza&#8230; Nos automatismos da f\u00e9 e no achar que sabemos, a ignor\u00e2ncia que muitas vezes um n\u00e3o-crente tem, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 f\u00e9, permite-lhe ter um olhar cr\u00edtico e livre que faz bem aos crentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Deus \u00e9 um problema para todos, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o para os n\u00e3o-crentes, Deus tamb\u00e9m \u00e9 uma quest\u00e3o para os crentes. Deus \u00e9 uma quest\u00e3o que nos une, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o que nos separa: Deus est\u00e1 em todos, crentes e n\u00e3o-crentes. Esse di\u00e1logo com os n\u00e3o-crentes \u00e9 fundamental que aconte\u00e7a, no\u00a0<strong>c<\/strong>atolicismo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vivemos num mundo dominado por uma indiferen\u00e7a, uma neutralidade, uma n\u00e3o-cren\u00e7a&#8230; \u00c9 preciso dialogar. Os crist\u00e3os t\u00eam de ser atores de um di\u00e1logo infatig\u00e1vel com os n\u00e3o-crentes. \u00c9 preciso um humanismo crist\u00e3o, capaz de pensar articula\u00e7\u00f5es, pontes, proximidades, afinidades. N\u00e3o \u00e9: ou, ou. Em tantos campos pode ser: e, e. E percebermos que podemos ser\u00a0aristot\u00e9licos\u00a0e\u00a0plat\u00f4nicos, e amar a cultura grega e perceber o discurso crist\u00e3o. O mundo de hoje precisa dessas pontes, desses di\u00e1logos. Temos muito a aprender uns com os outros&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Falamos de sedes espirituais, mas tamb\u00e9m h\u00e1 milh\u00f5es de pessoas com sede f\u00edsica, \u201cuma dura experi\u00eancia de sacrif\u00edcio e de prova\u201d, como escreve, que t\u00eam de percorrer quil\u00f4metros s\u00f3 para transportar \u00e1gua. Como se devem escutar estas sedes que atingem tantas pessoas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A [enc\u00edclica] Laudat S\u00ec\u00a0\u00e9 um dos textos maiores do\u00a0Papa Francisco\u00a0e, sem d\u00favida, ser\u00e1 um dos grandes textos do s\u00e9culo XXI. Identifica a realidade do mundo de hoje, mostrando como a quest\u00e3o da\u00a0\u00e1gua\u00a0e da\u00a0sede \u00e9 absolutamente fundamental para o futuro do mundo. Muita da justi\u00e7a ou da injusti\u00e7a da ordem presente tem a ver com o acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel, com o acesso aos bens, \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, ao trabalho, o acesso \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de uma vida digna. E a Igreja tem de ouvir: o Papa Francisco\u00a0tem-nos ajudado muito a viver um\u00a0cristianismo\u00a0com os p\u00e9s assentes na terra e capaz de ouvir a voz do sofrimento humano. Que se traduz tamb\u00e9m nessa realidade mais viva, mais literal, porque a sede, antes de tudo, n\u00e3o \u00e9 uma alegoria. A sede \u00e9 uma impossibilidade de viver assim, que tantas mulheres e homens nossos contempor\u00e2neos experimentam hoje na sua pele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Olhando para o \u00edndice onom\u00e1stico (outra forma de ler este livro), qual \u00e9 o rio que une pessoas t\u00e3o diversas como Emily Dickinson, rodeada de puritanismo norte-americano, Primo Levi, morto em Auschwitz, Eug\u00e8ne Ionesco com as suas personagens do absurdo, Etty Hillesum,\u00a0Fernando Pessoa, Santo Ant\u00f3nio Abade, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz?&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 o rio da sede. H\u00e1 um rio que atravessa a hist\u00f3ria, um caudal imenso, do qual n\u00f3s fazemos parte e que tem como pontos luminosos os cora\u00e7\u00f5es sedentos, aqueles que n\u00e3o desistiram de levantar mais alto o sentido da sua\u00a0sede.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Se tivesse que escolher uma express\u00e3o para dizer qual \u00e9 o \u201celogio da sede\u201d a partir do evangelho, qual seria ela?<\/strong><\/p>\n<p>Bem-aventurados os que t\u00eam\u00a0sede.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O retiro acontece da tarde do s\u00e1bado \u00e0 manh\u00e3 do domingo, 5\/5. 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