{"id":34248,"date":"2019-05-26T00:00:00","date_gmt":"2019-05-26T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/deixo-vos-a-paz\/"},"modified":"2019-05-26T00:00:00","modified_gmt":"2019-05-26T03:00:00","slug":"deixo-vos-a-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/deixo-vos-a-paz\/","title":{"rendered":"Deixo-vos a Paz"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Cardeal Orani Jo\u00e3o Tempesta<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo Metropolitano de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Anunciai com gritos de alegria, proclamai at\u00e9 os extremos da terra: o Senhor libertou o seu povo, aleluia! (Is 48,20)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Estamos celebrando o sexto Domingo da P\u00e1scoa. Em alguns lugares do mundo, na pr\u00f3xima quinta-feira ser\u00e1 celebrada a solenidade da Ascens\u00e3o do Senhor. No Brasil, esta solenidade foi transferida para o Domingo seguinte substituindo assim o s\u00e9timo domingo de P\u00e1scoa. Nesse domingo ser\u00e1 comemorado mundialmente o 53\u00ba Dia Mundial as Comunica\u00e7\u00f5es Sociais (\u201cSomos membros uns dos outros\u201d (Ef 4, 25) \u2013 \u201cdas comunidades de redes sociais \u00e0 comunidade humana\u201d). Nesta semana, conforme algumas tradi\u00e7\u00f5es, alguns iniciam a Novena de prepara\u00e7\u00e3o para a grande solenidade de Pentecostes (outros fazem a semana de prepara\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o Domingo da Ascens\u00e3o), que no Brasil (e em todo o hemisf\u00e9rio sul) coincide com a Semana de Ora\u00e7\u00e3o pela Unidade dos Crist\u00e3os (&#8220;Procurar\u00e1s a justi\u00e7a, nada al\u00e9m da justi\u00e7a&#8221; [Dt 16.11-20]). Estamos nos aproximando do final do tempo da P\u00e1scoa: \u00e9 tempo de procurarmos aprofundar em como poderemos colocar em pr\u00e1tica a unidade entre os crist\u00e3os, a comunica\u00e7\u00e3o formando comunidades, respondendo a Jesus que nos envia em Miss\u00e3o para anunciar o Evangelho e acolhendo o grande dom do Esp\u00edrito Santo, ele que \u00e9 o grande segredo da nossa vida. Aquilo que a Igreja viveu em seus in\u00edcios somos chamados a viver agora, atualizando o mist\u00e9rio da P\u00e1scoa e de Pentecostes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A palavra de Deus que nos \u00e9 dirigida neste 6\u00ba domingo da P\u00e1scoa, nos fala da import\u00e2ncia de guardar a Palavra. O Evangelho de Jo\u00e3o (Jo 14,23-29), Evangelho que lemos no tempo de P\u00e1scoa, assim diz: \u201cNaquele tempo, disse Jesus a seus disc\u00edpulos: &#8216;Se algu\u00e9m me ama, guardar\u00e1 a minha palavra, e o meu Pai o amar\u00e1, e n\u00f3s viremos e faremos nele a nossa morada\u201d (v.23). Guardar a palavra \u00e9 muito mais do que decor\u00e1-la. \u00c9 coloca-la no \u00edntimo do nosso cora\u00e7\u00e3o, da nossa vida, da nossa mente e exatamente por isso coloc\u00e1-la em pratica no nosso dia a dia. \u00c9 passar a viver da Palavra, que \u00e9 o pr\u00f3prio Jesus Cristo, o Verbo que se fez carne. Somos chamados a ser morada de Deus, quanto mais ouvimos, guardamos e colocamos em pr\u00e1tica essa Palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Evangelho deste domingo est\u00e1 inserido no \u201cdiscurso de despedida\u201d de Jesus. Escrito no contexto do lava p\u00e9s e da \u00faltima Ceia, ele \u00e9 utilizado pela Liturgia para preparar os fi\u00e9is ante as solenidades da Ascens\u00e3o do Senhor e a de Pentecostes. Para entender a grandeza da cena e dos relatos, uma imagem pode nos ajudar: imaginemos o l\u00edder de uma grande fam\u00edlia que se encontra em seus \u00faltimos momentos e pede para reunir a fam\u00edlia para apresentar suas \u00faltimas palavras, que s\u00e3o um resumo de todos os ensinamentos que ele tenha dado ao longo de sua vida, ao mesmo tempo que as palavras dirigidas s\u00e3o as essenciais e que as que gostaria de deixar marcadas para a posteridade. Pois bem, nesse discurso de despedida de Jesus, tr\u00eas mensagens principais: na semana passada ouvimos o relato que traz o novo mandamento de amar-nos como o Senhor nos amou. No Evangelho de hoje, outros dois princ\u00edpios essenciais s\u00e3o enunciados: a Paz e o Par\u00e1clito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cDeixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas n\u00e3o a dou como o mundo. N\u00e3o se perturbe nem se intimide o vosso cora\u00e7\u00e3o\u201d (v.27). A serenidade de cora\u00e7\u00e3o como frutos da paz nos \u00e9 apresentada como consequ\u00eancia direta de algu\u00e9m que ama o Mestre e guarda a sua palavra: \u201cSe algu\u00e9m me ama, guardar\u00e1 a minha palavra, e o meu Pai o amar\u00e1, e n\u00f3s viremos e faremos nele a nossa morada\u201d (v.23). A paz que nos \u00e9 proposta pelo Senhor n\u00e3o \u00e9 uma paz daquele que tem uma vida tranquila, que n\u00e3o acontece nada, que n\u00e3o encontra problemas, dificuldades ou tribula\u00e7\u00f5es. Pelo contr\u00e1rio! A presen\u00e7a do Senhor em n\u00f3s nos faz encarar todas as realidades, inclusive as mais adversas, numa atitude de paz. Uma paz interior que \u00e9 fruto de algu\u00e9m que sabe que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus e de algu\u00e9m que se sabe cuidado por Deus. Por isso, \u201cN\u00e3o se perturbe nem se intimide o vosso cora\u00e7\u00e3o\u201d (v.27).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Logo ap\u00f3s, ante a realidade da aus\u00eancia do mestre e o suposto medo dos disc\u00edpulos que agora temem caminhar s\u00f3, vem a promessa do envio de um Par\u00e1clito, palavra grega que significa Defensor, advogado, aquele que vem em socorro: \u201cMas o Defensor, o Esp\u00edrito Santo, que o Pai enviar\u00e1 em meu nome, ele vos ensinar\u00e1 tudo e vos recordar\u00e1 tudo o que eu vos tenho dito\u201d (v. 26). Jesus nos promete o dom do seu Esp\u00edrito. Pela a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito iremos saborear a Palavra de Deus em nossa vida. Sabemos que tudo \u00e9 Dom! Tudo \u00e9 Gra\u00e7a!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Cristo voltar\u00e1 para o Pai. Agora os ap\u00f3stolos, seus sucessores e todo o povo de Deus v\u00e3o continuar a miss\u00e3o que Cristo inaugurou, de instaurar o Reino de Deus. Mas n\u00e3o seguir\u00e3o essa miss\u00e3o baseados em suas for\u00e7as como se fosse uma ideologia humana: o protagonismo da Miss\u00e3o \u00e9 o Esp\u00edrito Santo. O protagonista da convers\u00e3o dos cora\u00e7\u00f5es \u00e9 o Esp\u00edrito Santo. O protagonista da vida da Igreja \u00e9 o Par\u00e1clito. Quando consideramos a palavra recordar utilizada no texto, tal termo n\u00e3o tem somente o sentido de fazer lembrar, mas traz tamb\u00e9m a ideia de sugerir. O Esp\u00edrito Santo trar\u00e1 aos ap\u00f3stolos n\u00e3o somente a mem\u00f3ria do que Jesus fez e ensinou, mas tamb\u00e9m a capacidade de descobrir a profundidade e a riqueza do que viram e ouviram. Assim como nos recorda o Vaticano II, \u201cos ap\u00f3stolos comunicaram aos seus ouvintes o que o Senhor disse e fez com aquela maior compreens\u00e3o que lhes deram os acontecimentos gloriosos de Cristo\u201d (Dei Verbum 18).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas n\u00e3o a dou como o mundo. N\u00e3o se perturbe nem se intimide o vosso cora\u00e7\u00e3o (v.27).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Estas palavras s\u00e3o importantes para n\u00f3s em um mundo onde j\u00e1 n\u00e3o se vive mais a f\u00e9, em que se persegue a Igreja, em que se quer desacreditar os homens de f\u00e9. Somos chamados a confiar al\u00e9m das nossas evid\u00eancias, pois temos o dom do Esp\u00edrito, que al\u00e9m de nos fazer compreender a mensagem que o Senhor nos entregou, age fazendo com que mesmo as coisas negativas possam se tornar oportunidades de proximidade com Deus e oportunidade de an\u00fancio da Boa Nova. O Esp\u00edrito vem em socorro de nossas fraquezas, principalmente quando parece que uma avalanche de situa\u00e7\u00f5es adversas vem contra n\u00f3s. Deus luta conosco e n\u00e3o contra n\u00f3s, como nos recorda o papa Francisco, em suas catequeses de quarta- feira sobre o Pai Nosso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com o dom do Esp\u00edrito Santo recebemos a paz, a reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus e com os outros. A paz que Jesus nos d\u00e1 transcende completamente a paz deste mundo, que pode ser superficial e aparente, compat\u00edvel com a injusti\u00e7a. Ao contr\u00e1rio, a paz de Cristo \u00e9, antes de mais nada, reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus e entre os homens, um dos frutos do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando Jesus diz que o Pai \u00e9 maior do que ele, est\u00e1 considerando sua natureza humana. Assim, enquanto homem, Jesus vai ser glorificado subindo \u00e0 Direita do Pai. Cristo \u00e9 igual ao Pai segundo a Divindade e menor que o Pai segundo a humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A segunda leitura deste domingo (<strong>At 15,1-2.22-29)<\/strong> reflete as dificuldades que existiam na comunidade. Al\u00e9m daquelas lutas que existem fora, h\u00e1 as dificuldades internas de entendimentos. Quando h\u00e1 tens\u00f5es internas, h\u00e1 tamb\u00e9m a oportunidade de se reunir e de ouvir a voz do Esp\u00edrito por meio daqueles que tem essa miss\u00e3o. E o mais importante: que a resolu\u00e7\u00e3o das desaven\u00e7as seja resolvida na comunh\u00e3o e na unidade: Chegaram alguns da Jud\u00e9ia e ensinavam aos irm\u00e3os de Antioquia, dizendo: &#8216;V\u00f3s n\u00e3o podereis salvar-vos, se n\u00e3o fordes circuncidados, como ordena a Lei de Mois\u00e9s.&#8217; O conflito na comunidade era grave. O problema era: a Igreja seria uma institui\u00e7\u00e3o acabada \u00e0 qual os outros poderia se agregar, conservando suas pr\u00e1ticas vindas do juda\u00edsmo ou seria a Igreja um povo a ser constitu\u00eddo, aberto para a forma que o Esp\u00edrito quiser lhe dar? O Conc\u00edlio de Jerusal\u00e9m, apresentado nesta passagem, confirma a pr\u00e1tica de admitir pag\u00e3os sem passar pelas institui\u00e7\u00f5es judaicas. Apenas, em nome do novo princ\u00edpio da caridade fraterna, os crist\u00e3os do paganismo deveriam abster-se de coisas que eram realmente um tabu para os judeu-crist\u00e3os. N\u00e3o respeitar isso seria dificultar a viv\u00eancia da comunidade. Permanece a primazia da caridade fraterna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O salmo responsorial (<strong>Sl 66,2-3.5.6.8) <\/strong>apresenta o pedido de que todas as na\u00e7\u00f5es possam glorificar o Senhor. O desejo e o pedido de salva\u00e7\u00e3o universal apresentados neste salmo encontram seu cumprimento no envio dos Ap\u00f3stolos por Jesus Cristo para que pregassem a convers\u00e3o a todas as na\u00e7\u00f5es e na implanta\u00e7\u00e3o da Igreja na que todos os povos se unem no louvor ao Senhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A leitura do Apocalipse (<strong>Ap 21,10-14.22-23) chama aten\u00e7\u00e3o para a<\/strong> Miss\u00e3o da Igreja, ligada \u00e1s doze tribos e aos doze ap\u00f3stolos: Estava cercada por uma muralha maci\u00e7a e alta, com doze portas. Sobre as portas estavam doze anjos, e nas portas estavam escritos os nomes das doze tribos de Israel. Havia tr\u00eas portas do lado do oriente, tr\u00eas portas do lado norte, tr\u00eas portas do lado sul e tr\u00eas portas do lado do ocidente. A muralha da cidade tinha doze alicerces, e sobre eles estavam escritos os nomes dos doze ap\u00f3stolos do Cordeiro. N\u00e3o vi templo na cidade pois o seu Templo \u00e9 o pr\u00f3prio Senhor, o Deus Todo-poderoso, e o Cordeiro. Os nomes das tribos de Israel aqui apresentados e dos doze ap\u00f3stolos expressam a continuidade entre o antigo povo eleito e a Igreja de Cristo, ao mesmo tempo que indica a novidade da Igreja, que se edifica sobre os doze ap\u00f3stolos. A posi\u00e7\u00e3o das portas simboliza a universalidade da Igreja, aquela a que as na\u00e7\u00f5es ir\u00e3o recorrer para alcan\u00e7ar a salva\u00e7\u00e3o. \u00c9 curioso observar que no meio dela n\u00e3o h\u00e1 Templo, pois j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 necessidade de um sinal da morada divina, pois os bem-aventurados ver\u00e3o Deus e o Cordeiro Face a Face.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Chegando quase ao final do tempo Pascal, a Palavra nos lembra de acolher a Palavra, acolher a paz que Cristo nos d\u00e1, saber resolver as quest\u00f5es internas na comunh\u00e3o do Esp\u00edrito. Que deixemos que Cristo seja a luz que ilumina toda a nossa vida. Que possamos estar abertos em todos os ambientes, anunciando a presen\u00e7a e a\u00e7\u00e3o do Cristo vivo, a comunh\u00e3o entre n\u00f3s na acolhida e no respeito \u00e0s diferen\u00e7as. Que o Senhor nos d\u00ea a gra\u00e7a de estarmos sempre abertos \u00e0s maravilhas que ele tem preparado para n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cardeal Orani Jo\u00e3o Tempesta Arcebispo Metropolitano de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro Anunciai com gritos de alegria, proclamai at\u00e9 os extremos da terra: o Senhor libertou o seu povo, aleluia! (Is 48,20) Estamos celebrando o sexto Domingo da P\u00e1scoa. 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