{"id":34268,"date":"2019-05-22T00:00:00","date_gmt":"2019-05-22T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-sinodo-e-uma-provocacao-do-papa-por-maior-atencao-a-amazonia-afirma-padre-jesuita\/"},"modified":"2019-05-22T00:00:00","modified_gmt":"2019-05-22T03:00:00","slug":"o-sinodo-e-uma-provocacao-do-papa-por-maior-atencao-a-amazonia-afirma-padre-jesuita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-sinodo-e-uma-provocacao-do-papa-por-maior-atencao-a-amazonia-afirma-padre-jesuita\/","title":{"rendered":"\u201cO S\u00ednodo \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o do papa por maior aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Amaz\u00f4nia\u201d, afirma jesu\u00edta"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Um dos desafios que enfrenta a reflex\u00e3o teol\u00f3gica \u00e9 ter uma base na experi\u00eancia da f\u00e9 crist\u00e3 do Povo de Deus, e ser enriquecida por essas viv\u00eancias. O S\u00ednodo para a Amaz\u00f4nia, com a colabora\u00e7\u00e3o da Rede Eclesial Pan Amaz\u00f4nica \u2013 REPAM, est\u00e1 tentando trazer essa reflex\u00e3o para o campo acad\u00eamico. Nos \u00faltimos meses, foram organizados diferentes eventos em universidades ao redor do mundo. Na quinta-feira, 16 de maio, a reflex\u00e3o se deu na Universidade Gregoriana de Roma, considerado por muitos o grande centro teol\u00f3gico da Companhia de Jesus, que por outro lado, tem sempre dedicado grandes esfor\u00e7os nesta dimens\u00e3o essencial da vida da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Padre Adelson Ara\u00fajo dos Santos \u00e9 professor de Teologia Espiritual na Universidade Gregoriana, ao que se acrescenta o fato de ter nascido e trabalhado na Amaz\u00f4nia. O jesu\u00edta acredita que \u00e9 necess\u00e1rio buscar um di\u00e1logo entre a espiritualidade crist\u00e3 e as espiritualidades dos povos da Amaz\u00f4nia, atitude que v\u00ea mais vi\u00e1vel por ocasi\u00e3o do S\u00ednodo para a Amaz\u00f4nia, evento que considera uma provoca\u00e7\u00e3o do papa Francisco para a Igreja e para o mundo girar seu olhar para a regi\u00e3o amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>Confira a entrevista na \u00edntegra:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Para algu\u00e9m que nasceu na Amaz\u00f4nia, \u00e9 jesu\u00edta, a mesma ordem do papa, professor na Gregoriana, pr\u00f3ximo do ambiente vaticano. O que significa o S\u00ednodo para a Amaz\u00f4nia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Eu tamb\u00e9m acrescentaria que tamb\u00e9m trago a minha experi\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 de ter nascido na Amaz\u00f4nia e de ser da Companhia de Jesus, a mesma ordem do papa, mas tamb\u00e9m ter vivido aqui na Amaz\u00f4nia, j\u00e1 depois de ter entrado na Companhia, e ter trabalhado aqui, como padre, como jesu\u00edta, e por tanto ter feito uma caminhada tamb\u00e9m com a Igreja da Amaz\u00f4nia. \u00c9 isso que estando hoje t\u00e3o geograficamente distante da nossa Amaz\u00f4nia, me faz sentir muito comprometido com a nossa regi\u00e3o, estando hoje ali perto do papa e perto de toda a iniciativa que ele teve de convocar o S\u00ednodo como uma forma de chamar a aten\u00e7\u00e3o do mundo inteiro, de Igreja tamb\u00e9m, para a realidade aqui da Amaz\u00f4nia.<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_220286\" aria-describedby=\"caption-attachment-220286\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-sinodo-e-uma-provocacao-do-papa-por-maior-atencao-a-amazonia-afirma-padre-jesuita\/pe-adelson-_-amazonia-entevista\/\" rel=\"attachment wp-att-220286\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-220286 size-medium\" src=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Pe.-Adelson-_-Amazonia-entevista-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-220286\" class=\"wp-caption-text\">Padre Adelson dos Santos<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Isso, naturalmente, me motiva, estando l\u00e1, a desejar de alguma forma contribuir para que haja mais pontes entre mundos que aparentemente est\u00e3o t\u00e3o distantes, n\u00e3o s\u00f3 geograficamente, mas tamb\u00e9m de culturas, de perspectivas. Eu vivo hoje num mundo eminentemente acad\u00eamico e fico me perguntando como eu posso, sendo algu\u00e9m daqui da Amaz\u00f4nia, contribuir para que um evento como o S\u00ednodo desperte tamb\u00e9m o interesse de nossa comunidade estudantil, acad\u00eamica, tamb\u00e9m dos professores que est\u00e3o voltados para outros campos de interesse, da teologia, da filosofia, de outras \u00e1reas. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Mas com que a Amaz\u00f4nia possa despertar o interesse deles, para a gente ampliar essa discuss\u00e3o, essa reflex\u00e3o, naquele sentir, naquela consci\u00eancia de que o que acontece na Amaz\u00f4nia, depois tem reflexo no mundo inteiro. Vivemos cada vez mais essa consci\u00eancia da Casa Comum, que o papa nos lembra. \u00c9 uma globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 da economia, n\u00e3o s\u00f3 das pol\u00edticas, mas uma globaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m dos efeitos que a natureza sofre e acarreta tamb\u00e9m, pela mudan\u00e7a dr\u00e1stica que ocorra nela tamb\u00e9m.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>O papa Francisco fala muito de escutar os povos, sobretudo escutar os povos ind\u00edgenas. Como professor de espiritualidade, sabendo que no mundo ind\u00edgena a espiritualidade \u00e9 uma quest\u00e3o que marca a vida cotidiana, como \u00e9 poss\u00edvel levar essa espiritualidade dos povos da Amaz\u00f4nia para uma dimens\u00e3o universal? O que essa espiritualidade pode aportar para a espiritualidade crist\u00e3?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Eu acredito que essa pergunta, ela ainda n\u00e3o tem encontrado todas as respostas, porque n\u00f3s temos um campo muito rico e aberto \u00e0 nossa frente para colher mais frutos desse di\u00e1logo e desse encontro, ou de um reencontro, no sentido de que agora \u00e9 um encontro com uma nova postura, com essas espiritualidades, que se encontram nas popula\u00e7\u00f5es tradicionais, nos povos origin\u00e1rios da Amaz\u00f4nia. J\u00e1 houve um primeiro encontro no passado, na primeira evangeliza\u00e7\u00e3o, que veio junto com a coloniza\u00e7\u00e3o, trazida pelos espanh\u00f3is e portugueses. Acho que foi numa vis\u00e3o totalmente diferente da vis\u00e3o que n\u00f3s temos oportunidade de ter hoje.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>L\u00e1, outrora, tudo o que era visto como uma t\u00e1bula rasa, um ambiente onde voc\u00ea vinha para oferecer e dar tudo, inclusive a espiritualidade, a vis\u00e3o de Deus, a viv\u00eancia religiosa. Hoje essa situa\u00e7\u00e3o mudou a nossa forma de pensar como Igreja, muito no sentido de um di\u00e1logo, de um enriquecimento m\u00fatuo, de um respeito m\u00fatuo pelas culturas e pelas tradi\u00e7\u00f5es religiosas. Elas tamb\u00e9m, as espiritualidades, j\u00e1 s\u00e3o vivenciadas aqui na regi\u00e3o por mil\u00eanios, se n\u00f3s formos atr\u00e1s das origens das popula\u00e7\u00f5es amaz\u00f4nicas que est\u00e3o aqui presentes muito antes da chegada dos primeiros europeus.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Nesse sentido, acho que h\u00e1 um campo muito rico a ser explorado, no sentido de conhecermos e de percebermos que tem a nos ensinar tamb\u00e9m, na linguagem do Concilio Vaticano II, das sementes do Verbo que j\u00e1 est\u00e3o presentes aqui e aonde o mission\u00e1rio que chega para fazer contato e di\u00e1logo com essas espiritualidades, ele n\u00e3o vem trazendo, ele vem tamb\u00e9m para receber. Com o exemplo assim, acho que com o pouco contato que n\u00f3s temos com algumas experi\u00eancias ou algumas espiritualidades com popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas daqui da Amaz\u00f4nia, mas n\u00e3o s\u00f3, a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o ribeirinha, os descendentes dos pr\u00f3prios ind\u00edgenas que j\u00e1 se inculturaram no mundo urbano e que v\u00e3o dando o tom tamb\u00e9m do homem amaz\u00f4nico e da mulher amaz\u00f4nica.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Eu vejo que tem coisas que d\u00e3o para a gente elencar como carater\u00edsticas. Por exemplo, uma espiritualidade, um profundo respeito, integra\u00e7\u00e3o com a M\u00e3e natureza, uma harmonia com essa Cria\u00e7\u00e3o, que se n\u00f3s formos fazer um paralelo, e eu sendo jesu\u00edta n\u00e3o posso deixar de recordar os Exerc\u00edcios Espirituais de Santo In\u00e1cio, quando l\u00e1 no Princ\u00edpio e Fundamento \u00e9 dito que o homem \u00e9 criado para usar de tudo isso que Deus colocou como cria\u00e7\u00e3o no mundo, mas em vista da constru\u00e7\u00e3o da sua voca\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria. Tem que ser uma rela\u00e7\u00e3o de harmonia com essa cria\u00e7\u00e3o. Isso a gente aprende muito aqui na Amaz\u00f4nia, basta ver que aonde est\u00e3o presentes as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, ela \u00e9 conservada, preservada, porque eles a veem como uma entidade m\u00edstica, como um ente que precisa ser respeitado.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Ent\u00e3o, acho que s\u00f3, digamos assim, acenar para algo que eu acho que a nossa civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, a nossa cultura e a nossa tamb\u00e9m espiritualidade crist\u00e3 pode encontrar muitos pontos de contato em comum e de enriquecimento. Meu papel, acredito, como professor hoje de teologia espiritual, mas sendo nativo da Amaz\u00f4nia, \u00e9 de buscar favorecer, construir pontes entre esses dois mundos, entre duas experi\u00eancias, porque a espiritualidade ela parte sempre de experi\u00eancias, e n\u00e3o somente de conceitos abstratos. Conhecer mais a experi\u00eancia de nossos irm\u00e3os ind\u00edgenas e buscar o que isso tem a dizer para a experi\u00eancia crist\u00e3 tamb\u00e9m, de Deus, e da experi\u00eancia espiritual que n\u00f3s fazemos.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>At\u00e9 que ponto, a reflex\u00e3o em torno ao S\u00ednodo para Amaz\u00f4nia pode ajudar a levar esses conceitos para o mundo acad\u00eamico?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>O grande desejo do papa Francisco, imagino, quando ele pensou na convoca\u00e7\u00e3o do S\u00ednodo, entre outras coisas, era uma provoca\u00e7\u00e3o, no sentido de que, mesmo na universidade, na Europa, tradicionalmente voltada para a forma\u00e7\u00e3o clerical, presbiteral, para a vida religiosa, tamb\u00e9m se veja praticamente na obriga\u00e7\u00e3o de se questionar, mas o que \u00e9 que n\u00f3s, como universidade eclesi\u00e1stica, pontif\u00edcia, temos tamb\u00e9m a aprender, e eventualmente\u00a0 contribuir, com a reflex\u00e3o sobre a Amaz\u00f4nia, com a situa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, no sentido da situa\u00e7\u00e3o ambiental, mas tamb\u00e9m a situa\u00e7\u00e3o dos povos que l\u00e1 vivem, e o que \u00e9 que n\u00f3s temos tamb\u00e9m num di\u00e1logo rec\u00edproco a transmitir, e receber tamb\u00e9m, daquelas culturas, daquelas formas de experi\u00eancia de Deus.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Tamb\u00e9m n\u00f3s, e \u00e9 o que a gente tenta fazer, e temos que admitir que n\u00f3s fazemos isso porque fomos provocados pelo S\u00ednodo, porque se n\u00e3o houvesse sido convocado um S\u00ednodo sobre a Amaz\u00f4nia, possivelmente, n\u00e3o posso afirmar mas dificilmente algu\u00e9m poderia ter a ideia de pensar em organizar um semin\u00e1rio ou um ciclo de debate sobre esse tema, e numa universidade que se encontra t\u00e3o longe, t\u00e3o distante da Amaz\u00f4nia. Mas o S\u00ednodo provocou isso, fez com que todos n\u00f3s, Igreja universal e comunidade acad\u00eamica, tamb\u00e9m tivesse que se debru\u00e7ar sobre esse assunto e ir atr\u00e1s de se informar. \u00c9 isso que eu vejo, que eu experimento diariamente, de pessoas, at\u00e9 professores e tamb\u00e9m alunos, que se aproximam de n\u00f3s perguntando, mas qual \u00e9 a finalidade do S\u00ednodo, qual a motiva\u00e7\u00e3o desse S\u00ednodo? Voc\u00ea v\u00ea que o S\u00ednodo j\u00e1 est\u00e1 provocando um resultado no sentido de suscitar maior interesse pela regi\u00e3o da Amaz\u00f4nia, pelos temas que est\u00e3o girando em torno da convoca\u00e7\u00e3o do S\u00ednodo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Voc\u00ea disse que a teologia espiritual parte da experi\u00eancia, nem s\u00f3 dos conceitos. Como seria poss\u00edvel levar essas experi\u00eancias dos paj\u00e9s, das benzedeiras, de tantos personagens espirituais presentes nas comunidades ind\u00edgenas, para uma reflex\u00e3o acad\u00eamica e isso ter um aporte mais significativo para a teologia espiritual crist\u00e3 e cat\u00f3lica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>O fundamental de tudo \u00e9 dar oportunidade a essas pr\u00f3prias pessoas, aos agentes, que vivenciam essas outras espiritualidades, dar oportunidade a eles de nos falarem de sua experi\u00eancia. Acredito que o S\u00ednodo, ele tem estado atento a isso, ao menos aquilo que eu tenho ouvido nas coloca\u00e7\u00f5es, n\u00e3o s\u00f3 do papa Francisco, mas dos organizadores do S\u00ednodo.Se tem dito que haver\u00e1 essa preocupa\u00e7\u00e3o de dar voz tamb\u00e9m, n\u00e3o s\u00f3 falar das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, deixar que as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas mesmas possam falar, e ao falar, que falem tamb\u00e9m das suas espiritualidades, das suas experi\u00eancias m\u00edsticas, das suas experi\u00eancias religiosas, das suas experi\u00eancias de contato com o divino.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Como \u00e9 que elas expressam isso, como \u00e9 que elas vivenciam isso e, como eu dizia antes, numa atitude de di\u00e1logo, de constru\u00e7\u00e3o, de pontos comuns, estabelecer uns paralelos com a nossa espiritualidade, que tem uma raiz b\u00edblica, que tem uma f\u00e9 abra\u00e2mica, l\u00e1 na hist\u00f3ria da Alian\u00e7a, e que com certeza, havendo essa oportunidade, n\u00f3s vamos a encontrarmos pontos em comum e vamos tamb\u00e9m ter um enriquecimento m\u00fatuo. Tenho a impress\u00e3o que o ponto de partida d\u00e1 voz, d\u00e1 oportunidade de conhecer. Sen\u00e3o todos n\u00f3s temos oportunidade de vir \u00e0 Amaz\u00f4nia e viver aqui por um tempo, e de se inculturar, \u00e9 de dar oportunidade, por exemplo, a que algumas pessoas daqui, especialmente dessas lideran\u00e7as que vem dessas culturas, dessas popula\u00e7\u00f5es, possam tamb\u00e9m nos falar, possam, seja no S\u00ednodo, seja em outros espa\u00e7os, comunicar a experi\u00eancia que eles vivem.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>A\u00ed nossa postura, acredito, \u00e9 a postura do te\u00f3logo, para falar enquanto algu\u00e9m que vem da \u00e1rea da teologia e de uma \u00e1rea acad\u00eamica, o te\u00f3logo que busca ver qual \u00e9 a linguagem que Deus est\u00e1 passando ali. Deus que j\u00e1 est\u00e1 presente naquela cultura, naquela express\u00e3o religiosa, naquela forma de culto, de liturgia, e de se admirar com isso tudo, de ver como \u00e9 belo essa multiplicidade, essa variedade de express\u00f5es que n\u00e3o se anulam, nem concorrem uma com a outra, mas no final das contas a gente v\u00ea que todas convergem para a busca de um mundo mais em harmonia, e que provoque tamb\u00e9m efeitos, reflexo numa sociedade tamb\u00e9m.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Desde a Rede Eclesial Pan-Amaz\u00f4nica est\u00e1 se falando da necessidade de &#8221;amazonizar&#8221; o mundo, e tamb\u00e9m poder\u00edamos falar da necessidade de &#8221;amazonizar&#8221; a Igreja. Nesse campo da teologia espiritual, o que poderia significar, quais s\u00e3os os desafios que a espiritualidade nos coloca em nossa em frente para &#8221;amazonizar&#8221; a Igreja Cat\u00f3lica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>\u00c9 uma express\u00e3o interessante, inquietante, que eu tamb\u00e9m acredito que n\u00e3o temos ainda a resposta ou a compreens\u00e3o total do que significa amazonizar a Igreja. Mas alguns sinais nos ajudam, quem tem a oportunidade de morar na Amaz\u00f4nia, de passar um tempo, de caminhar com as Igrejas da Amaz\u00f4nia, que tem caracter\u00edsticas muito pr\u00f3prias, quanto ao tamanho das nossas par\u00f3quias, quanto a extens\u00e3o dos nossos rios, quanto ao tempo que se leva para chegar numa comunidade, numa capelinha no interior para assistir a uma missa que \u00e0s vezes \u00e9 uma vez por ano, e que voc\u00ea n\u00e3o vai de barco, nem de bicicleta, mas vai numa canoa. Quanto que tudo isso deixa marca na nossa experi\u00eancia religiosa, na nossa experi\u00eancia de Deus, e na nossa espiritualidade.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>O tempo n\u00e3o \u00e9 o tempo das estradas, \u00e9 o tempo das \u00e1guas, a liturgia que a gente vive \u00e9 uma liturgia que ela \u00e9 muito mais integrada com elementos da nossa pr\u00f3pria natureza local, regional. Amazonizar a Igreja \u00e9 talvez a gente ver tudo isso com olhares de riquezas e n\u00e3o olhares de amea\u00e7as para nossa f\u00e9, para nossa tradi\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 o olhar dos primeiros ap\u00f3stolos, no final das contas, porque se as primeiras comunidades crist\u00e3s n\u00e3o tivessem sido abertas a outra manifesta\u00e7\u00f5es de f\u00e9 que elas foram encontrando, o cristianismo n\u00e3o teria chegado a ser uma religi\u00e3o t\u00e3o grande como \u00e9 hoje, teria ficado reduzido a um grupo de express\u00e3o judaica.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Acho que a Amaz\u00f4nia tem muito a oferecer como riqueza \u00e0 Igreja desde que seja vista assim, e que n\u00f3s tenhamos essa abertura de conservar a nossa ess\u00eancia, mas nos deixando amazonizar pelas express\u00f5es que s\u00e3o t\u00edpicas daqui, tamb\u00e9m nos cantos, nos costumes, em tantas outras formas que os povos da Amaz\u00f4nia expressam sua espiritualidade.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>A Igreja da Amaz\u00f4nia est\u00e1 muito marcada pelos leigos e especialmente pelas mulheres, pelas pr\u00f3prias circunst\u00e2ncias geogr\u00e1ficas da regi\u00e3o. Essas s\u00e3o ideias que aparecem no Vaticano II e que o papa Francisco est\u00e1 tentando levar para frente, mesmo com as dificuldades e o enfrentamento com muitos setores da Igreja. O S\u00ednodo quer procurar novos caminhos para a Igreja a partir da realidade amaz\u00f4nica, como fundamentar espiritualmente essa necessidade da Igreja cat\u00f3lica se abrir e reconhecer o valor e o protagonismo dos leigos, e especialmente das mulheres, nem s\u00f3 na Amaz\u00f4nia como na Igreja universal?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Esse \u00e9 um dos grandes desafios, um desafio que talvez o S\u00ednodo vai propiciar que se volte sobre essa quest\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o que se reduz somente \u00e0 regi\u00e3o amaz\u00f4nica, mas que \u00e9 uma quest\u00e3o que tem a ver com toda Igreja, mas que aqui sobressai, pela pr\u00f3pria car\u00eancia de um n\u00famero maior de sacerdotes, de presb\u00edteros, e que faz com que a pr\u00f3pria necessidade nos leva a aprender a valorizar os diferentes carismas dentro da Igreja, valorizar a presen\u00e7a feminina.Porque mesmo dentro da vida consagrada, a Amaz\u00f4nia \u00e9 uma regi\u00e3o aonde a Igreja se faz presente muito mais pelas religiosas, pelas irm\u00e3s de diferentes congrega\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o em geral as primeiras a chegarem nesses lugares mais long\u00ednquos, antes mesmo que os padres.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>No campo pastoral, quanto que s\u00e3o as mulheres que est\u00e3o \u00e0 frente das pastorais e das comunidades espalhadas por essa imensa Amaz\u00f4nia, porque n\u00e3o h\u00e1 figura ali de um p\u00e1roco, de um vig\u00e1rio, e s\u00e3o as nossas donas Marias, aquelas m\u00e3es de fam\u00edlia, donas de casa, que tamb\u00e9m exercem esse papel. Acredito que isso mostra, talvez sinalize solu\u00e7\u00f5es que n\u00f3s podemos encontrar, que v\u00e3o muito na linha daquilo que j\u00e1 o Concilio Vaticano II nos convidava a implementar na Igreja, uma Igreja de protagonismo dos leigos, uma Igreja onde todos os carismas s\u00e3o valorizados e uma Igreja menos clerical.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Acho que para isso \u00e9 preciso toda uma revis\u00e3o da nossa pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o presbiteral. E me refiro mesmo \u00e0quilo que n\u00f3s recebermos nos nossos semin\u00e1rios, nas nossas casas de forma\u00e7\u00e3o.Como que desde o in\u00edcio, um jovem que pensa no caminho sacerdotal, que v\u00ea nisso um chamado de Deus, ele tem que ser ajudado a respeitar e a ver como voca\u00e7\u00e3o igual e t\u00e3o importante e rica como a sua tamb\u00e9m, outros carismas, outros chamados, para que depois ele possa ser enviado a uma comunidade como quer o papa Francisco, mas na verdade como quer o Evangelho, como um servidor e n\u00e3o como um pr\u00edncipe, que vai chegar ali para centralizar todo o poder nas suas m\u00e3os.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Isso passa por uma forma\u00e7\u00e3o, isso passa por um aprendizado que se come\u00e7a j\u00e1 no per\u00edodo em que o jovem est\u00e1 ainda estudando, se preparando, e que para isso n\u00e3o basta ser dito dentro de uma sala de aula, precisa vivenciar isso em experi\u00eancias concretas junto com o povo, nas comunidades, porque a forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 s\u00f3 dentro do semin\u00e1rio, ela se d\u00e1 tamb\u00e9m no contato direto, aonde o jovem, futuro presb\u00edtero, aprende a caminhar ao lado do povo, e n\u00e3o distante e muito menos acima desse Povo de Deus.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Antes falava de uma realidade que est\u00e1 presente em muitas comunidades da Amaz\u00f4nia, que \u00e9 a celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia uma vez por ano. Dom Erwin Kr\u00e4utler, bispo em\u00e9rito da Prelazia do Xing\u00fa, que est\u00e1 na Amaz\u00f4nia desde 1965, no m\u00eas de mar\u00e7o, na li\u00e7\u00e3o inaugural da Faculdade Jesu\u00edta de Belo Horizonte, ele fazia algumas propostas de cara ao S\u00ednodo. Uma delas era sobre a celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia, repetindo uma ideia que ele mesmo colocou para o papa Francisco em 2014. Ele diz que \u00e9 preciso encontrar o caminho atrav\u00e9s de minist\u00e9rios, que podem ser assumidos inclusive pelas mulheres, para que a celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia nas comunidades seja algo comum, e n\u00e3o uma coisa que depende da chegada do padre.Como sustentar essa possibilidade desde um ponto de vista teol\u00f3gico e espiritual?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Sem d\u00favida que isso a\u00ed vai ser mat\u00e9ria de discuss\u00e3o, de reflex\u00e3o, de debate, e que precisa amadurecer, precisa ouvir e conversar, n\u00e3o s\u00f3 entre os pr\u00f3prios padres, presb\u00edteros, mas ouvir outras vozes, como as pr\u00f3prias lideran\u00e7as leigas dessas comunidades at\u00e9 chegarmos a um denominar comum que preserve o valor teol\u00f3gico do sacramento da Eucaristia, que \u00e9 o centro da vida crist\u00e3, que \u00e9 a principal express\u00e3o desse encontro sacramental com o Corpo e o Sangue de Jesus. Mas ao mesmo tempo isso possa ser conciliado com a necessidade de abrirmos mais para a participa\u00e7\u00e3o, especialmente olhando aquelas comunidades sem a possibilidade de poder ter um presb\u00edtero, um ministro ordenado, ali com eles.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Esse \u00e9 um desafio pastoral para nossa Igreja, como de um lado assegurar os fundamentos da nossa teologia sacramental, que n\u00e3o pode de modo nenhum banalizar o sacramento da Eucaristia, que para n\u00f3s tem todo um significado, que est\u00e1 muito longe de ser somente um simbolismo, trazer a presen\u00e7a real de Cristo, e como tamb\u00e9m encontrar nessa presen\u00e7a real de Cristo, um modo que ela tamb\u00e9m consiga ser presen\u00e7a real no meio dessas comunidades long\u00ednquas, perdidas no meio da floresta, nas cabeceiras dos rios, aonde Jesus, com certeza, quer chegar e quer estar como presen\u00e7a real ali. A Igreja tem a miss\u00e3o de descobrir novos minist\u00e9rios, novas formas de como fazer esse p\u00e3o da vida chegar tamb\u00e9m a essas pessoas, que elas n\u00e3o sejam privadas disso.<\/em><\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify\"><strong>Por Padre Luis Modino\/Repam Pan-Amaz\u00f4nia<\/strong><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista, padre Adelson considera que o S\u00ednodo \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o do papa para que a Igreja e o mundo gire seu olhar para a regi\u00e3o amaz\u00f4nica<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":34269,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[869],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/34268"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=34268"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/34268\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media\/34269"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=34268"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=34268"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=34268"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}