{"id":34517,"date":"2019-06-17T00:00:00","date_gmt":"2019-06-17T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/apos-10-dias-de-visita-a-manaus-agentes-da-pastoral-carceraria-relatam-situacao\/"},"modified":"2019-06-17T00:00:00","modified_gmt":"2019-06-17T03:00:00","slug":"apos-10-dias-de-visita-a-manaus-agentes-da-pastoral-carceraria-relatam-situacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/apos-10-dias-de-visita-a-manaus-agentes-da-pastoral-carceraria-relatam-situacao\/","title":{"rendered":"Ap\u00f3s 10 dias de visita a Manaus, agentes da Pastoral Carcer\u00e1ria relatam situa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">A Pastoral Carcer\u00e1ria Nacional enviou uma equipe para Manaus ap\u00f3s o recente massacre nas pris\u00f5es. O texto que segue em anexo foi escrito por pela assessora jur\u00eddica da Pastoral. Al\u00e9m dos muitos relatos, o texto fala da impunidade de toda a situa\u00e7\u00e3o e lan\u00e7a uma pergunta ao poder p\u00fablico poder p\u00fablico do Amazonas, a Umanizzare e as institui\u00e7\u00f5es\u00a0 do sistema de justi\u00e7a: quantos mais v\u00e3o precisar morrer at\u00e9 que se considere inaceit\u00e1vel que essas unidades prisionais continuem existindo?<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>Quantos mais v\u00e3o precisar morrer?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c0s fam\u00edlias que depois que seus filhos morreram n\u00e3o atendem mais o telefone, dizem at\u00e9 que elas nem vivem mais em Manaus; \u00e0 m\u00e3e que rezava o ter\u00e7o na segunda-feira, orando pelas fam\u00edlias que perderam seus parentes no domingo, e foi interpelada por algu\u00e9m que veio lhe dizer que o luto tamb\u00e9m era seu \u2013 seu filho havia sido assassinado pela manh\u00e3;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c0 senhora que recentemente viu seu filho sair do semi-aberto, mas n\u00e3o pode enterrar o sobrinho, cujo desaparecimento na chacina do COMPAJ de 2017, sem que constasse na lista de mortos, ainda n\u00e3o foi explicado; \u00e0 mulher que correu desesperada para a entrada do ramal na segunda-feira, ap\u00f3s a primeira leva de mortes, na certeza de que o conflito se estenderia, e ao implorar para que a pol\u00edcia entrasse, escutou em retorno: \u201cdeixe que se matem entre eles\u201d; ao ex-agente da Umanizzare que acordava apavorado durante a noite tendo pesadelos com os presos sendo torturados pelo Choque;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c0s tantas fam\u00edlias que se aglomeraram na porta das unidades em busca de not\u00edcias conforme circulavam os boatos de mortes e receberam nas m\u00e3os, ali mesmo, uma lista de nomes e a informa\u00e7\u00e3o de que todos os que estivessem nela haviam morrido; \u00e0 mo\u00e7a que nos dias que se seguiram pediu desesperada \u00e0 assist\u00eancia social da unidade not\u00edcias sobre seu irm\u00e3o, j\u00e1 que as visitas est\u00e3o suspensas por tempo indeterminado e as not\u00edcias de feridos s\u00e3o obscuras, e recebeu como \u00fanica resposta: \u201cse ele n\u00e3o morreu, est\u00e1 vivo\u201d;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c0 venezuelana que est\u00e1 em busca de alguma informa\u00e7\u00e3o sobre os estrangeiros presos, preocupada que muitas fam\u00edlias vivem em outros pa\u00edses sem ter not\u00edcias de seus parentes; ao agente da Pastoral Carcer\u00e1ria que escuta tudo isso e diz, preocupado, que teme que a lista de mortos do massacre de 2019 seja maior: imagina se um desses venezuelanos apenas some \u2013 corpo, nome \u2013 sem que sua fam\u00edlia tenha condi\u00e7\u00f5es de reclamar por sua vida, quem ia dizer que ele um dia esteve l\u00e1?;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c0 senhora que perdeu seu irm\u00e3o dentro do sistema prisional poucos anos atr\u00e1s, fruto de agress\u00f5es e omiss\u00f5es de cuidado, e que chorou tudo de novo essa semana, pensando nas fam\u00edlias dos 55 mortos; \u00e0 familiar que teve seu corpo t\u00e3o invadido em uma revista vexat\u00f3ria, que nunca mais retornou para visitar; ao homem que foi morto na pris\u00e3o na segunda-feira, poucas horas antes de o seu alvar\u00e1 de soltura chegar; a todos aqueles que apanharam do Choque, inclusive com cachorros, nos \u00faltimos meses nas unidades prisionais de Manaus; aos que receberam refei\u00e7\u00f5es estragadas, comida azeda;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c0 equipe da Pastoral Carcer\u00e1ria da Arquidiocese de Manaus, que ap\u00f3s as mortes de 2017 ficou quase 6 meses sem conseguir visitar e que agora tamb\u00e9m est\u00e1 com as visitas suspensas por tempo indeterminado; aos tantos homens assassinados, cujos corpos ficaram congelados em um caminh\u00e3o frigor\u00edfico na porta do IML, pois n\u00e3o havia espa\u00e7o l\u00e1 dentro para a quantidade de mortos que chegavam; aos tr\u00eas homens que acabavam de ser detidos, algemados e enfiados no cambur\u00e3o como bichos, que chegavam ao IML para serem examinados e descerem ao pres\u00eddio, no mesmo momento em que mais um corpo era liberado para o enterro;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c0s m\u00e3es que lembraram o carinho que receberam dos filhos na \u00faltima visita. Eram tantos \u201ceu te amo\u201d que s\u00f3 agora elas entendiam que os filhos se despediam, eles j\u00e1 sabiam que iam morrer; \u00e0 m\u00e3e que estava na fila para visitar seu filho no domingo, quando os agentes lhe expulsaram com metralhadora na cabe\u00e7a, pois j\u00e1 haviam come\u00e7ado as mortes e que, na segunda pela manh\u00e3, recebe a not\u00edcia de que tamb\u00e9m seu filho foi assassinado; ao agente da Umanizzare que carregou pilhas de corpos e peda\u00e7os de gente em carrinhos de lixo para fora do complexo em 2017 e nunca recebeu um pingo de assist\u00eancia psicol\u00f3gica;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c0s milhares de pessoas que continuam aprisionadas em condi\u00e7\u00f5es degradantes nas cadeias de Manaus; aos presos das unidades prisionais onde ocorreram as mortes, que desde ent\u00e3o \u2013 talvez desde muito antes, ningu\u00e9m sabe dizer ao certo &#8211; n\u00e3o foram ouvidos por nenhuma institui\u00e7\u00e3o de controle externo para saber sobre as condi\u00e7\u00f5es de aprisionamento; aos presos que sa\u00edram das unidades prisionais nestes \u00faltimos dias e fizeram saber que est\u00e3o \u201ccarecando\u201d os presos no IPAT, que a comida por vezes n\u00e3o chega, \u00e1gua nem pensar, que cortaram o banho de sol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Que desde as mortes est\u00e3o colocando os presos em \u201cum tal de procedimento\u201d: tem que ficar \u201cigual um feto no ch\u00e3o, acocado, com as pernas encolhidas, a m\u00e3o no pesco\u00e7o e a cabe\u00e7a abaixada\u201d. Que jogam spray de pimenta o tempo todo; aos familiares que imploram por uma visita dos direitos humanos para que n\u00e3o seja apenas a palavra delas denunciando; \u00e0s tantas familiares que rodam Manaus denunciando o cotidiano de tortura nas unidades prisionais e \u00e0quelas cujo grito de socorro resta sufocado pelo medo;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c0s que j\u00e1 tiveram suas carteirinhas de visita cortadas por levantarem a voz frente \u00e0s humilha\u00e7\u00f5es; aos mais \u2013 quanto mais? &#8211; de 100 mortos nas unidades prisionais de Manaus nos \u00faltimos anos. A todos eles o poder p\u00fablico do Amazonas, a Umanizzare e as institui\u00e7\u00f5es\u00a0 do sistema de justi\u00e7a devem uma resposta: quantos mais v\u00e3o precisar morrer at\u00e9 que se considere inaceit\u00e1vel que essas unidades prisionais continuem existindo?<\/p>\n<p>Luisa Cytrynowicz<br \/>\nassessora jur\u00eddica da Pastoral Carcer\u00e1ria Nacional<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Quantos mais v\u00e3o precisar morrer at\u00e9 que se considere inaceit\u00e1vel essas unidades prisionais?&#8221;, questiona assessora jur\u00eddica da pastoral<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":1708,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[767,766],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/34517"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=34517"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/34517\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media\/1708"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=34517"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=34517"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=34517"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}