{"id":34643,"date":"2019-07-04T00:00:00","date_gmt":"2019-07-04T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/fundamentalismo-e-cultura-do-dialogo-i\/"},"modified":"2019-07-04T00:00:00","modified_gmt":"2019-07-04T03:00:00","slug":"fundamentalismo-e-cultura-do-dialogo-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/fundamentalismo-e-cultura-do-dialogo-i\/","title":{"rendered":"Fundamentalismo e Cultura do Di\u00e1logo \u2013 I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Luiz Antonio Lopes Ricci<\/strong><br \/>\n<strong>Bispo Auxiliar de Niter\u00f3i<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cO que \u00e9 mais dif\u00edcil ainda \u00e9 desapegar-se de si mesmo, dos pr\u00f3prios pontos de vista e das pr\u00f3prias manias de nos considerarmos sempre maiores que os outros. A base de tudo \u00e9 a humildade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O fundamentalismo \u00e9 um tema emergente e, de certo modo, j\u00e1 bastante difuso, que precisa ser enfrentado com serenidade, discernimento e fortaleza, nos ambientes sociais, em geral, e no interior da Igreja, em particular. Hoje, mais do que antes, precisamos resgatar o \u201cdi\u00e1logo intraeclesial\u201d, para garantir sempre a unidade e a comunh\u00e3o.\u00a0 Por essa raz\u00e3o, ser\u00e3o apresentados v\u00e1rios fragmentos\u00ad de textos recentes, a modo de esquema, para melhor compreens\u00e3o desse assunto complexo e preocupante. Trata-se de uma s\u00edntese de v\u00e1rios autores, com pequena contribui\u00e7\u00e3o de minha parte.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por conta do espa\u00e7o disponibilizado, vou dividir o meu texto, j\u00e1 publicado pela OSIB (2018), em tr\u00eas apresenta\u00e7\u00f5es mensais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Segundo J. Konings (2017): \u201cO termo fundamentalismo tem um significado bem mais extenso, apontando movimentos e\/ou atitudes, na teologia e em outros campos, que se at\u00eam, irremovivelmente, a determinadas posi\u00e7\u00f5es, subtra\u00eddas a qualquer tipo de interpreta\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o deve ser confundido com o conservadorismo em geral, que pode apresentar de modo bastante dialogal, posi\u00e7\u00f5es e preocupa\u00e7\u00f5es com valores e ideias tradicionais. O problema do fundamentalismo n\u00e3o \u00e9 seu conservadorismo ou tradicionalismo, mas sua recusa de di\u00e1logo e interpreta\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na verdade, os fundamentalismos e fanatismos s\u00e3o express\u00f5es de patologias do pensamento e vis\u00e3o do mundo, que necessitam de urgente interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica. Urge cultivar um constante e ativo exerc\u00edcio hermen\u00eautico e esp\u00edrito de discernimento, para n\u00e3o ficarmos, dogmaticamente, presos a uma vis\u00e3o dicot\u00f4mica e reducionista do \u201cbranco ou preto\u201d, frente a situa\u00e7\u00f5es humanas e conflitivas, mas que sejamos capazes de acolher as \u201czonas cinzentas\u201d do ser, do agir e do comportamento humano. Trata-se de um pensamento, vis\u00e3o e a\u00e7\u00e3o \u201chospitaleiros\u201d, que acolhem o diferente, marcados pela inclus\u00e3o, compaix\u00e3o e solidariedade, e n\u00e3o uma postura de \u201chostilidade\u201d, que exclui o diferente com viol\u00eancia, os fan\u00e1ticos. Em vez de ser para e pelo outro, posiciona-se contra \u201co outro\u201d, eleito como inimigo a ser combatido (L. Pessini, 2017).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 oportuno recordar as aulas de hermen\u00eautica, quando mestres l\u00facidos insistiam, sem se cansar, em nos dizer que precisamos colocar \u201co texto, no contexto, para que depois n\u00e3o sirva de pretexto\u201d.\u00a0 Sem d\u00favida alguma, a cr\u00edtica hermen\u00eautica ser\u00e1 sempre um rem\u00e9dio necess\u00e1rio e eficaz, para garantir a lucidez e a sabedoria do pensamento \u00e9tico e teol\u00f3gico (L. Pessini, 2017).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No \u00e2mbito religioso, por exemplo: \u201cNada t\u00e3o terr\u00edvel que a \u2018evid\u00eancia\u2019 da vontade de Deus para gerar fan\u00e1ticos, fundamentalistas, ortodoxos r\u00edgidos, autorit\u00e1rios doentios. Estes nunca \u2018aprendem a\u2019 discernir. Pensam que discernem quando projetam muito de si para dentro de um espa\u00e7o que eles chamam de vontade de Deus. Aprender a discernir \u00e9 criar uma atitude de vigil\u00e2ncia para n\u00e3o misturar facilmente o que julgamos ser a vontade de Deus e as nossas proje\u00e7\u00f5es\u201d (J. Libanio, 2001).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Dom Bruno Forte, renomado te\u00f3logo, em sua palestra no Congresso Internacional de Teologia Moral, em Trento, 2010, utilizou uma met\u00e1fora para descrever os tempos de hoje. Trata-se da met\u00e1fora do naufr\u00e1gio, no bojo da qual nasce a necessidade da \u00e9tica da transcend\u00eancia. Afirma Forte que o barco da humanidade naufragou no mar revolto da hist\u00f3ria, e os instrumentos que possibilitariam navega\u00e7\u00e3o tranquila, dire\u00e7\u00e3o certa e chegada \u00e0 terra firme est\u00e3o todos danificados. Estamos perdidos em alto mar e com s\u00e9rio risco de afogamento. O que fazer?\u00a0 Os n\u00e1ufragos necessitam uns dos outros para sobreviver. Se forem uns contra os outros, \u00e9 o fim de tudo (L. Pessini, 2017).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Papa Francisco insiste em nos chamar, para cultivarmos a teimosia da esperan\u00e7a. Ele n\u00e3o cessa de nos alertar, criticamente, a respeito da necessidade de discernimento perante as situa\u00e7\u00f5es \u201ccinza\u201d da vida, quando os fundamentalistas somente veem \u201cpreto ou branco\u201d (L. Pessini, 2017).\u00a0 Alerta tamb\u00e9m, para a rigidez, como \u201cum tipo de fundamentalismo. Quando encontro algu\u00e9m r\u00edgido, em especial se ele \u00e9 jovem, digo a mim mesmo que ele est\u00e1 doente. Na verdade, est\u00e3o procurando seguran\u00e7a\u201d (Francisco, 2017). Portanto, o fundamentalista sofre e faz sofrer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em grande sintonia com o tema Fundamentalismo, o jornalista Lira Neto, em agosto de 2017, apresenta, em artigo, uma s\u00edntese do livro de Am\u00f3s Oz, Mais de uma luz, assim se expressando \u2013 seguem fragmentos de seu texto:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cEm um tempo no qual se vociferam, sem pudores, agress\u00f5es e preconceitos nas redes sociais e nas caixas de coment\u00e1rios da internet; a leitura de Mais de uma Luz: fanatismo, f\u00e9 e conviv\u00eancia no s\u00e9culo XXI, de Am\u00f3s Oz, torna-se imprescind\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Oz enfileira uma s\u00e9rie de instigantes reflex\u00f5es a respeito da intoler\u00e2ncia, t\u00e3o presente em nossos dias. \u201cAfinal, um fan\u00e1tico nunca entra em um debate. Se ele considera que algo \u00e9 ruim, seu dever \u00e9 liquidar imediatamente aquela abomina\u00e7\u00e3o\u201d, escreve o autor. \u201cTodos os tipos de fan\u00e1ticos tendem a viver num mundo em preto e branco. Num faroeste simplista de mocinhos contra bandidos. O fan\u00e1tico \u00e9 na verdade um homem que s\u00f3 sabe contar at\u00e9 1.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cA vacina\u00e7\u00e3o parcial que recebemos est\u00e1 se esgotando; \u00f3dio, fanatismo, avers\u00e3o ao outro e ao diferente (\u2026) tudo isso est\u00e1 ressurgindo\u201d, lamenta Am\u00f3s Oz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Afinal, para o olhar do fan\u00e1tico, n\u00e3o se trata de fazer valer uma ideia ou um ideal, mas de querer purificar o mundo a ferro e fogo, exterminar a diversidade, converter os malditos infi\u00e9is e dizimar o oponente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O fanatismo produz a infantiliza\u00e7\u00e3o do debate. Em contrapartida, a infantiliza\u00e7\u00e3o do debate retroalimenta o fanatismo. Oferecer respostas simplistas para problemas complexos faz parte do jogo sujo. Apontar determinado grupo como \u00fanico culpado por todos os males do mundo ou de um pa\u00eds, idem. O culto \u00e0 personalidade, o deslumbre pela celebridade, mais ainda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Am\u00f3s Oz, que \u00e9 judeu, disserta sobre o car\u00e1ter do povo judaico e argumenta que todos os mandamentos que regem a f\u00e9 e a cultura de sua gente poderiam ser resumidos em uma s\u00f3 senten\u00e7a: \u201cN\u00e3o causar\u00e1s a dor\u201d. Do mesmo modo, o humanismo que o autor professa estaria condensado no reconhecimento do direito \u00e0 diferen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cSomos diferentes uns dos outros n\u00e3o porque alguns de n\u00f3s ainda n\u00e3o enxergam a luz, mas porque o que existe no mundo s\u00e3o luzes, e n\u00e3o uma s\u00f3 luz\u201d, prop\u00f5e Oz. \u201cO fan\u00e1tico \u00e9 um ponto de exclama\u00e7\u00e3o ambulante. \u00c9 desej\u00e1vel que a luta contra ele n\u00e3o se expresse como outro ponto de exclama\u00e7\u00e3o a enfrentar o primeiro\u201d, adverte Oz (L. Neto, 2017).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">J\u00e1 M. Millen, Presidente da Sociedade Brasileira de Teologia Moral (SBTM), no Congresso de 2017, que tratou justamente do \u201cFundamentalismo e desafios \u00e0 \u00c9tica Teol\u00f3gica\u201d, assim se expressou em seu texto \u201cRespeito \u00e0 diversidade como caminho \u00e9tico-moral\u201d. Trata-se de respeitar as diferen\u00e7as sem perder a identidade. \u201cO que se percebe, muitas vezes, \u00e9 que em nome da garantia da identidade desenvolve-se uma vis\u00e3o de mundo r\u00edgida, considerada a \u00fanica vi\u00e1vel e verdadeira, quando todas as outras s\u00e3o desqualificadas e exclu\u00eddas. Fundamentalismo representa a atitude que confere car\u00e1ter absoluto ao seu ponto de vista\u201d (M. Millen, 2017).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nesta perspectiva, encontramos os radicais, aqueles que s\u00f3 acreditam numa explica\u00e7\u00e3o que lhes parece total, ou seja, suficiente e v\u00e1lida para tudo. O radical n\u00e3o exerce a pluralidade poss\u00edvel das explica\u00e7\u00f5es e das vers\u00f5es: ele \u00e9 o famoso homem de um livro s\u00f3 (cf. C. Calligaris, 2017).\u00a0 Continua na pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Escolha o di\u00e1logo e a corre\u00e7\u00e3o fraterna!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com gratid\u00e3o e b\u00ean\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Luiz Antonio Lopes Ricci Bispo Auxiliar de Niter\u00f3i &nbsp; \u201cO que \u00e9 mais dif\u00edcil ainda \u00e9 desapegar-se de si mesmo, dos pr\u00f3prios pontos de vista e das pr\u00f3prias manias de nos considerarmos sempre maiores que os outros. A base de tudo \u00e9 a humildade\u201d. 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