{"id":34655,"date":"2019-07-05T00:00:00","date_gmt":"2019-07-05T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/dialogo-e-dialogos\/"},"modified":"2019-07-05T00:00:00","modified_gmt":"2019-07-05T03:00:00","slug":"dialogo-e-dialogos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/dialogo-e-dialogos\/","title":{"rendered":"Di\u00e1logo e di\u00e1logos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Walmor Oliveira de Azevedo<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte<\/strong><br \/>\n<strong>Presidente da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tem raz\u00e3o quem afirma que o di\u00e1logo n\u00e3o resolve tudo. \u00c9 verdade, mas \u00e9 incontest\u00e1vel que o di\u00e1logo resolve quase tudo. Quando n\u00e3o se consegue resolver algo pelo di\u00e1logo, percebe-se, facilmente, que o descompasso n\u00e3o envolve as din\u00e2micas pr\u00f3prias do ato de dialogar. Certamente, ru\u00eddos e descompassos se hospedam naqueles que protagonizam o di\u00e1logo. Ora, al\u00e9m de ser uma forma de express\u00e3o, o di\u00e1logo \u00e9 um instrumento de produ\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e cient\u00edfica, da indispens\u00e1vel clarivid\u00eancia no entendimento das realidades e de seus processos determinantes para o equil\u00edbrio dos funcionamentos, como garantia de participa\u00e7\u00e3o e respeito \u00e0 verdade e ao bem. Por isso, a for\u00e7a do di\u00e1logo pode desconstruir os dogmatismos que impedem avan\u00e7os e conquistas. Constata-se a rigidez que precisa ser tratada com for\u00e7a dialogal para produzir um novo caminho de compreens\u00e3o. E se valer do que realmente importa quando se busca o bem e a pr\u00e1tica da justi\u00e7a &#8211; condi\u00e7\u00f5es inegoci\u00e1veis para o equil\u00edbrio da sociedade desafiada por sua pluralidade e complexidades espec\u00edficas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Cristaliza\u00e7\u00f5es emocionais-afetivas incidem muito fortemente no processo dialogal, tornando-se determinante impeditivo para que esse processo alcance o \u00eaxito que se pressup\u00f5e em todo di\u00e1logo. A mundivid\u00eancia do indiv\u00edduo tamb\u00e9m muito influencia o processo dialogal. Obviamente que os estreitamentos no horizonte de compreens\u00e3o fecundam as limita\u00e7\u00f5es nesse processo, configurando dificuldades at\u00e9 intranspon\u00edveis. Nesse \u00e2mbito, localizam-se tend\u00eancias a polariza\u00e7\u00f5es em raz\u00e3o da incompet\u00eancia no exerc\u00edcio da fundamental experi\u00eancia dialogal. Todo tipo de polariza\u00e7\u00e3o \u00e9 sinal de incompet\u00eancia na tarefa de se construir, civilizadamente, os rumos da sociedade. Por isso, verifica-se o uso de recursos indevidos e at\u00e9 perversos na \u00e2nsia de querer impor a pr\u00f3pria opini\u00e3o e os par\u00e2metros de escolha, na contram\u00e3o do que se considera minimamente civilizado. Tentar se afirmar, se construir, conquistar os postos almejados, a partir da detrata\u00e7\u00e3o do outro, de modo inver\u00eddico, s\u00e3o evid\u00eancias de uma sub-civiliza\u00e7\u00e3o, consequ\u00eancia da aus\u00eancia do di\u00e1logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Compreende-se que o di\u00e1logo \u00e9 um recurso forte e portador de elementos com propriedades para criar novos rumos na pol\u00edtica, na pr\u00e1tica da justi\u00e7a, no respeito aos direitos humanos e no estabelecimento da paz e da concilia\u00e7\u00e3o na conviv\u00eancia humana, que precisa sempre alcan\u00e7ar patamares de fraternidade. H\u00e1 de se considerar, ao se constatar a relativiza\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo e seu consequente enfraquecimento enquanto for\u00e7a de constru\u00e7\u00e3o, o que hermeneuticamente tem peso determinante, o lugar que se ocupa com seus contornos pr\u00f3prios &#8211; do lugar no qual se est\u00e1 assentado n\u00e3o se pode ter a pretens\u00e3o de ver tudo. O di\u00e1logo funciona, ent\u00e3o, como gerador do movimento indispens\u00e1vel da circularidade que possibilita consequente alargamento da compreens\u00e3o. Pode-se exemplificar com refer\u00eancias a mult\u00edplices situa\u00e7\u00f5es e circunst\u00e2ncias. Entre essas, a refer\u00eancia \u00e0 escuta indispens\u00e1vel da dor dos mais pobres pelos segmentos olig\u00e1rquicos da sociedade ou daqueles que det\u00eam o poder. A aus\u00eancia dessa escuta gera insensibilidade para as escolhas que definem os processos capazes de levar a sociedade a avan\u00e7ar na dire\u00e7\u00e3o almejada do bem viver, justo e saud\u00e1vel &#8211; direito de todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A for\u00e7a din\u00e2mica do di\u00e1logo fica amortecida numa engrenagem que n\u00e3o funciona e n\u00e3o consegue impulsionar na dire\u00e7\u00e3o de um entendimento que cause a lucidez necess\u00e1ria para se encontrar sa\u00eddas e conseguir respostas adequadas de segmentos e institui\u00e7\u00f5es. Por falta de compet\u00eancia dialogal, multiplicam-se as mediocridades. Indiv\u00edduos precisados da for\u00e7a do di\u00e1logo tamb\u00e9m se emperram e se tornam endurecidos, comprovadamente pelas afirma\u00e7\u00f5es muito parciais e por considerar seu modo de pensar completo e adequado. A rigidez no exerc\u00edcio dialogal explica muito do que se percebe de emperramentos. Isto inclui ilus\u00f5es a respeito de si mesmo, alimentadas pela idolatria \u00e0quilo que se elege, aprisionando-se \u00e0s bitolas de ideologias, sejam elas de que tipo for. Esses descompassos que geram atrasos s\u00e3o notados em processos complexos nos governos, em julgamentos que deformam ou estreitam decis\u00f5es. Impactam at\u00e9 as rela\u00e7\u00f5es interpessoais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As mentalidades fechadas, a mesquinhez do cora\u00e7\u00e3o humano, a corre\u00e7\u00e3o urgente de processos tortos e prejudiciais, a recupera\u00e7\u00e3o da convivialidade em lugar de arbitrariedades perversas e inimizades entre grupos e pessoas, bem como o entendimento mais cidad\u00e3o do usufruto dos bens da cria\u00e7\u00e3o na casa comum, dependem fundamentalmente do di\u00e1logo. Mas a compet\u00eancia dialogal \u00e9 quase sempre fragilizada pela mediocridade humana e presun\u00e7\u00e3o social e civilizat\u00f3ria de n\u00e3o conseguir enxergar o \u201coutro lado\u201d, que precisa ser considerado. \u00c9 verdade, di\u00e1logo e di\u00e1logos, entre os que logram a lucidez human\u00edstica e civilizat\u00f3ria, abrem novos caminhos. Tamb\u00e9m renovam institui\u00e7\u00f5es, garantem a justi\u00e7a em favor dos indefesos e pobres, clareiam as escolhas que preservam o meio ambiente na contram\u00e3o da idolatria do dinheiro. Fazem encontrar o sentido de viver e cultivar la\u00e7os de solidariedade. O di\u00e1logo pode ser tudo: alargamento de horizontes e caminho para entendimentos alicer\u00e7ados em valores e princ\u00edpios, configurando novos passos na organiza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica da sociedade, com incid\u00eancia tamb\u00e9m na viv\u00eancia da f\u00e9, enquanto rela\u00e7\u00e3o dialogal com Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O fato \u00e9 que pode n\u00e3o existir o di\u00e1logo, por estreitamento de mentalidades, por entendimentos p\u00edfios e por se estar enjaulado em compreens\u00f5es parcializadas por falta de forma\u00e7\u00e3o human\u00edstica. Um paradoxo nesse tempo em que todos falam, e falam muito, de tudo, at\u00e9 daquilo que n\u00e3o entendem nem lhes diz respeito. Tem raz\u00e3o quem diz que o di\u00e1logo n\u00e3o \u00e9 tudo, porque existem di\u00e1logo e di\u00e1logos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Walmor Oliveira de Azevedo Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte Presidente da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) Tem raz\u00e3o quem afirma que o di\u00e1logo n\u00e3o resolve tudo. \u00c9 verdade, mas \u00e9 incontest\u00e1vel que o di\u00e1logo resolve quase tudo. 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