{"id":34719,"date":"2019-07-16T00:00:00","date_gmt":"2019-07-16T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-advertencia-do-sul\/"},"modified":"2019-07-16T00:00:00","modified_gmt":"2019-07-16T03:00:00","slug":"a-advertencia-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-advertencia-do-sul\/","title":{"rendered":"A advert\u00eancia do Sul"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><em><strong>Dom Roque Paloschi<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Bispo de Porto Velho (RO)<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Presidente do Cimi<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>A realidade dos Povos Ind\u00edgenas sob as lonas pretas, no Sul do Brasil, pode servir como advert\u00eancia aos povos da Amaz\u00f4nia, que atrav\u00e9s do S\u00ednodo buscam \u201cnovos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral\u201d.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Finda a tarde do dia 03 de julho de 2019, munic\u00edpio de Acegu\u00e1, fronteira entre o Brasil e o Uruguai, dezenas de fam\u00edlias Guarani Mbya, vivem \u00e0s margens de estradas, onde n\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua pot\u00e1vel, alimento e agasalho para o frio intenso do inverno. Contam com algum tipo de apoio de pessoas solid\u00e1rias para matar a fome. Onde vivem n\u00e3o tem nem casa, s\u00f3 barracos.\u00a0 A Opy (casa de reza) n\u00e3o se pode construir porque n\u00e3o est\u00e3o dentro de uma terra, mas nas margens dela. Isso implica que n\u00e3o podem realizar os rituais sagrados do povo, e quando algu\u00e9m morre s\u00e3o obrigados a velar o corpo em um barraco improvisado, coberto com lona preta. O frio, o vento e a chuva s\u00e3o companhias permanentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Assim como em Acegu\u00e1 existem dezenas de outros acampamentos ind\u00edgenas Mbya, Nhandewa, Kaingang, sem \u00e1gua pot\u00e1vel e energia el\u00e9trica, muito menos com saneamento b\u00e1sico. Raramente recebem visita de equipes de sa\u00fade da Sesai (Secretaria Especial de Aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Sa\u00fade Ind\u00edgena) e da Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio. Estes alegam falta de recursos e de combust\u00edvel para prestar atendimento \u00e0s comunidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A terra reivindicada j\u00e1 foi, por diversas vezes, objeto de estudos de antrop\u00f3logos que comprovaram a tradicionalidade da ocupa\u00e7\u00e3o Guarani na regi\u00e3o. A Funai nunca realizou os encaminhamentos devidos, porque do outro lado da cerca est\u00e1 uma grande fazenda onde se cria gado e se cultiva arroz, enquanto as fam\u00edlias Guarani s\u00e3o mantidas na indig\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A realidade de abandono dos povos ind\u00edgenas \u00e9 conhecida. S\u00e3o tratados com medidas emergenciais, longe de pol\u00edticas duradouras em defesa da vida desses povos. No Rio Grande do Sul, a imagem de fam\u00edlias ind\u00edgenas acampadas \u00e0 beira de rodovias j\u00e1 faz parte da paisagem. Gera\u00e7\u00f5es inteiras de Guarani n\u00e3o conheceram outra realidade a n\u00e3o ser a vida em acampamentos \u201cprovis\u00f3rios\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>A experi\u00eancia do Sul<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tomando como par\u00e2metro a realidade dos povos ind\u00edgenas nos estados do Sul do Brasil, podemos ver os efeitos de um avassalador processo de coloniza\u00e7\u00e3o, historicamente todo ele promovido e custeado pelos governos estaduais. Os estados se serviam dos soldados do ex\u00e9rcito e de empresas colonizadoras contratadas para lotear as terras e distribui-las \u00e0s fam\u00edlias de imigrantes. Antes, por\u00e9m, as empresas promoviam a chamada \u201climpeza \u00e9tnica\u201d, que consistia na expuls\u00e3o ou remo\u00e7\u00e3o for\u00e7ada dos ind\u00edgenas que estavam sobre as \u00e1reas a serem entregues aos colonos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por meio dessa pol\u00edtica, as terras passavam a ser liberadas para explora\u00e7\u00e3o por empresas madeireiras e por colonos vindos da Europa. Neste contexto, se constitu\u00edram grandes fazendas e se expandiu o latif\u00fandio. Em poucas d\u00e9cadas as terras foram todas cercadas, as matas devastadas, os animais extintos, os rios represados e as \u00e1guas paulatinamente tornaram-se contaminadas. Cidades foram erguidas e dominaram os lugares onde habitavam povos milenares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O que se produziu no Sul do Brasil, parece agora se reproduzir, de modo ainda mais acelerado e intenso, na Amaz\u00f4nia. A expans\u00e3o madeireira, miner\u00e1ria, da agropecu\u00e1ria e agricultura afeta e amea\u00e7a a vida dos povos ind\u00edgenas e tamb\u00e9m o ecossistema amaz\u00f4nico, suas matas, seus animais, as nascentes de rios, enfim, todos os bens dessa \u201ccasa comum\u201d. O desmatamento sem controle, as grandes extens\u00f5es de monocultivos transg\u00eanicos na base de agrot\u00f3xicos, a minera\u00e7\u00e3o e o garimpo produzem res\u00edduos de vidas contaminadas e desesperadas. Se esse ciclo predat\u00f3rio de dimens\u00f5es globais n\u00e3o for contido, as matas ser\u00e3o aos poucos devastadas (como j\u00e1 atestam os mapas da degrada\u00e7\u00e3o ambiental, produzidos com fotos de sat\u00e9lite), as terras ser\u00e3o loteadas e entregues \u00e0 indiscriminada explora\u00e7\u00e3o. E depois das cercas instaladas, aos povos ind\u00edgenas que l\u00e1 ainda est\u00e3o restar\u00e1, como no Sul, as margens das fazendas, as beiras das estradas ou ser\u00e3o convertidos em trabalhadores bra\u00e7ais, a servi\u00e7o dos grandes propriet\u00e1rios de terras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Em defesa dos direitos constitucionais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Hoje temos de um lado, povos ind\u00edgenas que t\u00eam seus direitos assegurados no texto constitucional e que lhes permite viver em suas terras, cuja tradicionalidade \u00e9 incontest\u00e1vel. Pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988 n\u00e3o deveria ter em nenhum canto do pa\u00eds comunidades ind\u00edgenas acampadas na beira da estrada e por baixo de lonas pretas. A Lei Maior do pa\u00eds assegura aos povos ind\u00edgenas suas organiza\u00e7\u00f5es sociais, l\u00ednguas, cren\u00e7as, tradi\u00e7\u00f5es e os direitos sobre as terras tradicionalmente ocupadas. A Constitui\u00e7\u00e3o assegurou-lhes o direito de se organizar, de se manifestar, de serem consultados sobre temas que concernem aos seus territ\u00f3rios e suas formas de vida, rompendo-se, desse modo, com a perspectiva da tutela e da integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por outro lado, os ocupantes que se dizem propriet\u00e1rios dessas mesmas terras, s\u00e3o representantes de um poder econ\u00f4mico privilegiado, do agroneg\u00f3cio e daqueles que querem anular os preceitos constitucionais. Neste contexto de disputa entre direitos constitucionais, valores humanos e interesses econ\u00f4micos, o Poder P\u00fablico, representando a pol\u00edtica indigenista do Estado, protege os interesses considerados produtivos e lucrativos em detrimento dos direitos ind\u00edgenas e de uma \u00e9tica minimamente humana. O que se verifica, nestas circunst\u00e2ncias, \u00e9 que o texto constitucional e os direitos nele resguardados ficam ref\u00e9ns de jogos econ\u00f4micos e de interesses defendidos pelo governo federal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Confrontado com essa situa\u00e7\u00e3o, o S\u00ednodo para a Amaz\u00f4nia convocado pelo papa Francisco, a pedido de v\u00e1rios encontros realizados no Brasil desde 1972 (Santar\u00e9m) ser\u00e1 um <em>kair\u00f3s<\/em> para levantar a voz prof\u00e9tica da Igreja em defesa dos povos e da floresta amaz\u00f4nicos. Toler\u00e2ncia zero para todas as formas de neocolonialismo pol\u00edtico, econ\u00f4mico e cultural!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Roque Paloschi Bispo de Porto Velho (RO) Presidente do Cimi A realidade dos Povos Ind\u00edgenas sob as lonas pretas, no Sul do Brasil, pode servir como advert\u00eancia aos povos da Amaz\u00f4nia, que atrav\u00e9s do S\u00ednodo buscam \u201cnovos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral\u201d. Finda a tarde do dia 03 de julho &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-advertencia-do-sul\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">A advert\u00eancia do Sul<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":57,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/34719"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/57"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=34719"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/34719\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=34719"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=34719"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=34719"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}