{"id":34855,"date":"2019-08-02T00:00:00","date_gmt":"2019-08-02T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-uso-dos-bens\/"},"modified":"2019-08-02T00:00:00","modified_gmt":"2019-08-02T03:00:00","slug":"o-uso-dos-bens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-uso-dos-bens\/","title":{"rendered":"O uso dos bens"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Alberto Taveira Corr\u00eaa<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo de Bel\u00e9m do Par\u00e1<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\nEstamos empenhados em buscar juntos as indica\u00e7\u00f5es para os v\u00e1rios aspectos da vida crist\u00e3. E um dos grandes desafios para os crist\u00e3os \u00e9 o uso dos bens da terra. Somos iluminados pela Palavra de Deus e pelos desdobramentos dela nascidos, presentes no Ensino Social da Igreja. Ao participar da Missa do domingo, ouviremos o texto do Evangelho de S\u00e3o Lucas que nos orienta nesta dire\u00e7\u00e3o (Lc 12,13-21): \u201cAlgu\u00e9m do meio da multid\u00e3o disse a Jesus: \u2018Mestre, dize ao meu irm\u00e3o que reparta a heran\u00e7a comigo\u2019. Ele respondeu: \u2018Homem, quem me encarregou de ser juiz ou \u00e1rbitro entre v\u00f3s?\u2019 E disse-lhes: \u2018Aten\u00e7\u00e3o! Guardai-vos de todo tipo de gan\u00e2ncia, pois mesmo que se tenha muitas coisas, a vida n\u00e3o consiste na abund\u00e2ncia de bens\u2019. E contou-lhes uma par\u00e1bola: \u2018A terra de um homem rico deu uma grande colheita. Ele pensava consigo mesmo: Que vou fazer? N\u00e3o tenho onde guardar minha colheita. Ent\u00e3o resolveu: J\u00e1 sei o que fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir maiores; neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. Ent\u00e3o poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, goza a vida! Mas Deus lhe diz: Tolo! Ainda nesta noite, tua vida te ser\u00e1 tirada. E para quem ficar\u00e1 o que acumulaste? Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas n\u00e3o se torna rico diante de Deus\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\nN\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontrar situa\u00e7\u00f5es em que a partilha de heran\u00e7as resultou em grandes lit\u00edgios entre familiares. \u00c9 tamb\u00e9m conhecido o que acontece com o dinheiro de loteria, quando a import\u00e2ncia recebida sem luta e sem o suor do rosto resulta em gastan\u00e7as e malversa\u00e7\u00e3o dos bens. E nem ficam distantes de n\u00f3s as brigas no interior por causa de meio metro de cerca, ou os assassinatos e chacinas que ainda se multiplicam, manchando de sangue esta terra de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\nAfinal de contas, \u00e9 justo acumular os bens e buscar o sustento pessoal e familiar adequado? \u00c9 pecado investir dinheiro, mesmo que seja no meio mais simples que \u00e9 a poupan\u00e7a? E posso desejar ter bens como casa, carro e outras express\u00f5es de conforto? Posso julgar aquela pessoa que luta com todas as for\u00e7as para ter casa pr\u00f3pria, e se sente contente por ter, mesmo que seja com simplicidade e limites, aquele bem tanto desejado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\nAcolhamos a palavra do Papa Francisco: \u201cN\u00e3o somos Deus. A terra existe antes de n\u00f3s e foi-nos dada. Isto permite responder a uma acusa\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada contra o pensamento judaico-crist\u00e3o segundo a qual a narra\u00e7\u00e3o do G\u00eanesis, que convida a dominar a terra (Cf. Gn 1, 28), favoreceria a explora\u00e7\u00e3o selvagem da natureza, apresentando uma imagem do ser humano como dominador e devastador. Mas esta n\u00e3o \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o correta da B\u00edblia, como a entende a Igreja. Se \u00e9 verdade que n\u00f3s, crist\u00e3os, algumas vezes interpretamos de forma incorreta as Escrituras, hoje devemos decididamente rejeitar que, do fato de ser criados \u00e0 imagem de Deus e do mandato de dominar a terra, se deduza um dom\u00ednio absoluto sobre as outras criaturas. \u00c9 importante ler os textos b\u00edblicos no seu contexto e lembrar que nos convidam a cultivar e guardar o jardim do mundo (Cf. Gn 2, 15). Cultivar quer dizer lavrar ou trabalhar um terreno, guardar significa proteger, cuidar, preservar, velar. Isto implica uma rela\u00e7\u00e3o de reciprocidade respons\u00e1vel entre o ser humano e a natureza. Cada comunidade pode tomar da bondade da terra aquilo de que necessita para a sua sobreviv\u00eancia, mas tem tamb\u00e9m o dever de a proteger e garantir a continuidade da sua fertilidade para as gera\u00e7\u00f5es futuras. Em \u00faltima an\u00e1lise, \u2018ao Senhor pertence a terra\u2019 (Sl 23, 1), a ele pertence \u2018a terra e tudo o que nela existe\u2019 (Dt 10, 14)\u201d (Cf. Laudato si 67-68).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\nO Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja (N\u00famero 172) ensina que o princ\u00edpio da destina\u00e7\u00e3o universal dos bens da terra est\u00e1 na base do direito universal ao uso dos bens. Todo o homem deve ter a possibilidade de usufruir do bem-estar necess\u00e1rio para o seu pleno desenvolvimento. O princ\u00edpio do uso comum dos bens \u00e9 o primeiro princ\u00edpio de toda a ordem \u00e9tico-social e princ\u00edpio t\u00edpico da doutrina social crist\u00e3. Trata-se, antes de tudo, de um direito natural, inscrito na natureza humana. \u00c9 inerente a cada pessoa, e \u00e9 priorit\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o a qualquer interven\u00e7\u00e3o humana sobre os bens, a qualquer regulamenta\u00e7\u00e3o jur\u00eddica dos mesmos, a qualquer sistema e m\u00e9todo econ\u00f4mico-social. Todos os outros direitos, quaisquer que sejam, incluindo os de propriedade e de com\u00e9rcio livre, est\u00e3o-lhe subordinados: n\u00e3o devem portanto impedir, mas, pelo contr\u00e1rio, facilitar a sua realiza\u00e7\u00e3o; \u00e9 um dever social grave e urgente conduzi-los \u00e0 sua finalidade primeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\nN\u00f3s temos necessidade do p\u00e3o de cada dia, e Deus nos ensinou a pedir este p\u00e3o. Precisamos de tudo o que nos serve, roupa, casa, trabalho. O que Deus condena \u00e9 a cobi\u00e7a, o desejo incontrol\u00e1vel da posse e do poder, a arrog\u00e2ncia, o senso de superioridade ligado \u00e0 riqueza. Trata-se da pessoa que diz ser segura apenas por ser rica, pensando ser autossuficiente, sem descobrir que os bens s\u00e3o um meio e n\u00e3o a finalidade da vida. \u00c9 como perder de vista a meta da viagem da vida!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Algumas propostas podem ajudar-nos. Podemos rever as nossas posses e guardados, para verificar o que \u00e9 sup\u00e9rfluo e pode ser colocado \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos outros. H\u00e1 muita coisa acumulada, com a desculpa de que um dia poder\u00e1 servir, e nunca vem a ser utilizada. Podemos ainda comprometer-nos seriamente com obras a institui\u00e7\u00f5es que cuidam do servi\u00e7o ao pr\u00f3ximo e da caridade. Vale ainda abrir os nossos olhos, os bra\u00e7os e o bolso para fazer o bem ali bem pertinho de n\u00f3s, onde existem pessoas sofrendo, e muitas vezes caladas ou oprimidas. Al\u00e9m disso, ao verificar o que nos cabe no ganho mensal, separar sempre o que \u00e9 justo para devolver a Deus atrav\u00e9s do d\u00edzimo em nossa Igreja e o que pode ser partilhado em benefic\u00eancia. E isso vale para todos, inclusive porque sabemos que as m\u00e3os mais pobres s\u00e3o as que mais se abrem para tudo dar!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Alberto Taveira Corr\u00eaa Arcebispo de Bel\u00e9m do Par\u00e1 Estamos empenhados em buscar juntos as indica\u00e7\u00f5es para os v\u00e1rios aspectos da vida crist\u00e3. E um dos grandes desafios para os crist\u00e3os \u00e9 o uso dos bens da terra. 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