{"id":34860,"date":"2019-08-02T00:00:00","date_gmt":"2019-08-02T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/fundamentalismo-e-cultura-do-dialogo-ii\/"},"modified":"2019-08-02T00:00:00","modified_gmt":"2019-08-02T03:00:00","slug":"fundamentalismo-e-cultura-do-dialogo-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/fundamentalismo-e-cultura-do-dialogo-ii\/","title":{"rendered":"Fundamentalismo e Cultura do Di\u00e1logo \u2013 II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Luiz Antonio Lopes Ricci<\/strong><br \/>\n<strong>Bispo Auxiliar de Niter\u00f3i (RJ)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">Parte II: retrotopia e desilus\u00e3o acerca do futuro<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">Segundo M. Millen (2017), \u201cpara que o comportamento do pensamento \u00fanico, da autorreferencialidade, n\u00e3o seja a regra, precisamos contemplar o diverso amigavelmente, dispondo-nos a buscar caminhos plaus\u00edveis, mais saud\u00e1veis, que nos revelem horizontes amplos e repousantes\u201d. M. Millen prop\u00f5e algumas atitudes \u00e9ticas e crist\u00e3s essenciais para promover o di\u00e1logo e evitar posturas fundamentalistas. \u201cPensar a vida e o mundo sempre na perspectiva da complexidade, evitando toda esp\u00e9cie de reducionismo; restaurar a presen\u00e7a de perguntas, d\u00favidas e adversativas, que evitam o discurso radical, em geral, feito de afirma\u00e7\u00f5es;\u00a0 mesmo quando achamos que temos a resposta, devemos dar prefer\u00eancia \u00e0 pergunta; cultivar a capacidade de escutar; recuperar a esperan\u00e7a: os desesperan\u00e7ados aceitam solu\u00e7\u00f5es \u00fanicas e radicais; lembrar que nunca estamos prontos; somos seres sempre em forma\u00e7\u00e3o, necessitados de aperfei\u00e7oamento; retomar as diretrizes do Vaticano II; assumir o di\u00e1logo como caminho preferencial: o di\u00e1logo nos conduz \u00e0 n\u00e3o-viol\u00eancia e \u00e0 toler\u00e2ncia ativa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E prossegue, indicando que \u201ctrazer o fundamentalista \u00e0 realidade concreta pode colocar nele a necess\u00e1ria abertura, ou coloc\u00e1-lo em d\u00favida diante de suas \u2018certezas\u2019\u201d. Aponta ainda outras atitudes necess\u00e1rias para se evitar o risco do fundamentalismo: \u201cfugir da arrog\u00e2ncia e autorreferencialidade e da \u2018pseudo-inoc\u00eancia\u2019 de se considerar conhecedor da verdade toda e ter sempre raz\u00e3o;\u00a0 cultivar a hospitalidade, o acolhimento do outro, do diverso; recuperar o bom humor e a capacidade de sorrir: os fundamentalistas s\u00e3o s\u00e9rios, tristes e intransigentes, e veem o mundo com um olhar frio e pessimista; resgatar o esp\u00edrito de gentileza e ternura; superar a desconfian\u00e7a permanente e atitudes defensivas; resgatar o afeto e a ternura; propagar a miseric\u00f3rdia, o cuidado e a compaix\u00e3o; promover sempre a paz e n\u00e3o deixar jamais morrer a esperan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em 2016, Jos\u00e9 Renato Nalini, em seu artigo \u201cUtopia ou Retropia\u201d, comenta o novo livro de Bauman, Retrotopia, como um ensaio sobre a necessidade de voltar ao passado e n\u00e3o pensar em edificar algo diferente no futuro. Trata-se da mistifica\u00e7\u00e3o infantil do passado. A utopia \u00e9 um lugar inexistente, que se mostra imposs\u00edvel de ser atingido no futuro. J\u00e1 a retrotopia \u00e9 o retorno ao passado, a um modo de vida \u201cque foi exageradamente, irrefletidamente e imprudentemente, abandonado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em 2017, Retrotopia foi lan\u00e7ado no Brasil, e nele o autor aborda o \u201cadvento dos sentimentos e das pr\u00e1ticas retrotopianas\u201d. Segundo Bauman, \u201cretrotopia \u00e9 utopia do passado. Vivemos a perda completa da esperan\u00e7a de alcan\u00e7ar a felicidade em algum lugar idealizado no futuro \u2013 como a famosa ilha Utopia, imaginada por Thomas More, o que leva \u00e0 glorifica\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas e projetos de tempos idos\u201d. E prossegue, \u201cfen\u00f4meno atual de busca por um mundo melhor, n\u00e3o mais no futuro a ser constru\u00eddo, mas em ideias e ideais do passado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Seu ponto de partida \u00e9 o quadro de Paul Klee, analisado por Walter Benjamin \u2013 Angelus Novus \u2013 redenominado O Anjo da Hist\u00f3ria. Nesse quadro, o anjo da hist\u00f3ria est\u00e1 voltado para o passado. Hoje, para Bauman, \u201cseu rosto est\u00e1 virando do passado para o futuro. Agora \u00e9 o futuro. Sua hora de ser crucificado parece estar pr\u00f3xima. Est\u00e1 na coluna de d\u00e9bitos. E agora \u00e9 a vez de o passado ser posto na coluna dos cr\u00e9ditos. O passado \u00e9 ainda um lugar de livre escolha e um investimento em esperan\u00e7as at\u00e9 agora n\u00e3o descreditadas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O s\u00e9culo XX come\u00e7ou com uma utopia futurista e acabou com nostalgia: \u201cepidemia global de nostalgia\u201d. Anseio emocional, que renuncia ao pensamento cr\u00edtico em prol do v\u00ednculo afetivo. Hoje est\u00e3o emergindo retrotopias: \u201cvis\u00f5es instaladas num passado perdido\/roubado\/abandonado, mas que n\u00e3o morreu, em vez de se ligarem a um futuro, ainda todavia por nascer e, por isso, inexistente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cA esta atitude de desvalorizar o presente em nome do passado, de achar que \u00e0 nossa frente s\u00f3 pode estar o pior e de endeusar o passado, chamarei \u201cretropia\u201d, isto \u00e9, olhar para o passado como se fosse a idade do ouro e para o presente como o para\u00edso conspurcado pela evolu\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma utopia ao contr\u00e1rio, a olhar para tr\u00e1s, o que \u00e9, obviamente, a nega\u00e7\u00e3o da ideia de utopia. As pessoas \u201cretr\u00f3picas\u201d dizem que tudo foi j\u00e1 inventado, que o passado (hist\u00f3ria) nos ensina como se v\u00e3o passar as coisas e que, se segu\u00edssemos as li\u00e7\u00f5es do passado, resolver\u00edamos n\u00e3o s\u00f3 o presente mas tamb\u00e9m o futuro\u201d (D. Rodrigues, 2013).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Segundo Bauman, \u00e9 urgente resgatar a \u201ccapacidade de di\u00e1logo. N\u00e3o h\u00e1 atalhos que levem a um represamento r\u00e1pido, h\u00e1bil e sem esfor\u00e7o das correntes \u2018de volta\u2019. A tarefa presente de erguer a integra\u00e7\u00e3o humana at\u00e9 o n\u00edvel de toda a humanidade, provavelmente, se mostrar\u00e1 muito \u00e1rdua, onerosa e dif\u00edcil de se levar a efeito e completar. Temos que nos preparar para um longo per\u00edodo, marcado por mais perguntas que respostas, e mais problemas que solu\u00e7\u00f5es, assim como para atuar \u00e0 sombra de chances muito equilibradas de sucesso e derrota. Estamos numa situa\u00e7\u00e3o ou\/ou. Ou nos damos as m\u00e3os, ou rumamos para as nossas valas comuns\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tamb\u00e9m em 2017, o Papa Francisco, em seu Discurso aos novos Bispos, demonstrou uma preocupa\u00e7\u00e3o com \u201cum sentido de autorreferencialidade, que proclama conclu\u00eddo o tempo dos mestres\u201d. Seguem alguns pontos de sua reflex\u00e3o que podem ser perfeitamente aplicados \u00e0 pr\u00e1tica pastoral e \u00e0 forma\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias retas e esclarecidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cOferecer ao rebanho aquele discernimento espiritual e pastoral necess\u00e1rio, a fim de que se alcance o conhecimento e a realiza\u00e7\u00e3o da vontade de Deus. Viver o discernimento, como membro do Povo de Deus, isto \u00e9, numa din\u00e2mica sempre eclesial, a servi\u00e7o da koinon\u00eda\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cPortanto, convido-vos a cultivar uma atitude de escuta, crescendo na liberdade de renunciar ao pr\u00f3prio ponto de vista (quando \u00e9 parcial e insuficiente), para assumir o de Deus. Sem se deixar condicionar pelos olhares alheios, aplicai-vos a conhecer com os vossos pr\u00f3prios olhos os lugares e as pessoas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cDiscernir significa humildade e obedi\u00eancia. Humildade, em rela\u00e7\u00e3o aos pr\u00f3prios projetos. Obedi\u00eancia, relativamente ao Evangelho, crit\u00e9rio \u00faltimo; ao Magist\u00e9rio, que o preserva; \u00e0s normas da Igreja universal, que o servem; e \u00e0 situa\u00e7\u00e3o concreta das pessoas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cO discernimento \u00e9 um rem\u00e9dio contra o imobilismo do \u201csempre se fez assim\u201d ou do \u201cadiar\u201d. \u00c9 um processo criativo, que n\u00e3o se limita a aplicar esquemas. \u00c9 um ant\u00eddoto \u00e0 rigidez, porque as mesmas solu\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o universalmente v\u00e1lidas. \u00c9 sempre o hoje perene do Ressuscitado, que imp\u00f5e que n\u00e3o nos resignemos \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o do passado e tenhamos coragem de nos questionarmos, se as propostas de ontem s\u00e3o ainda evangelicamente v\u00e1lidas. N\u00e3o vos deixeis aprisionar pela nostalgia de poder ter uma \u00fanica resposta a ser aplicada a todos os casos. Isto talvez possa acalmar a nossa ansiedade do rendimento, mas deixaria relegadas \u00e0s margens e \u201c\u00e1ridas\u201d vidas que precisam ser irrigadas pela gra\u00e7a que custodiamos (cf. Mc 3, 1-6; Ez 37, 4)\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Chamados a crescer no discernimento: \u201cDevemos esfor\u00e7ar-nos por crescer num discernimento encarnado e inclusivo, que dialogue com a consci\u00eancia dos fi\u00e9is, que deve ser formada e n\u00e3o substitu\u00edda (cf. Amoris laetitia, 37), num processo de acompanhamento paciente e corajoso, a fim de que possa amadurecer a capacidade de cada um \u2013 fi\u00e9is, fam\u00edlias, presb\u00edteros, comunidades e sociedade \u2013 todos chamados a progredir na liberdade de escolher e realizar o bem desejado por Deus\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cO discernimento aut\u00eantico n\u00e3o se reduz \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o de f\u00f3rmulas ao homem concreto, muitas vezes imergido numa realidade irredut\u00edvel ao branco ou ao preto. Uma condi\u00e7\u00e3o essencial para progredir no discernimento \u00e9 educar-se na paci\u00eancia de Deus e nos seus tempos, que nunca s\u00e3o os nossos. Ele n\u00e3o faz \u201cdescer fogo sobre os infi\u00e9is\u201d (cf. Lc 9, 53-54), nem permite que os zelosos \u201carranquem do campo o joio\u201d que veem crescer (cf. Mt 13, 27-29). A n\u00f3s cabe acolher, cotidianamente, de Deus a esperan\u00e7a que nos preserva de qualquer abstra\u00e7\u00e3o, porque nos permite descobrir a gra\u00e7a escondida no presente sem perder de vista a longanimidade do seu des\u00edgnio de amor que nos ultrapassa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cPe\u00e7o-vos que tenhais escrupulosamente diante dos olhos Jesus a miss\u00e3o que n\u00e3o era sua, mas do Pai (cf. Jo 7, 16), e ofere\u00e7ais \u00e0s pessoas \u2013 hoje como ontem confusas e desconcertadas \u2013 quanto Ele soube dar: a possibilidade de encontrar pessoalmente Deus, de escolher o seu Caminho e de progredir no seu amor\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Escolha o di\u00e1logo e a corre\u00e7\u00e3o fraterna!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com gratid\u00e3o e b\u00ean\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Luiz Antonio Lopes Ricci Bispo Auxiliar de Niter\u00f3i (RJ) Parte II: retrotopia e desilus\u00e3o acerca do futuro Segundo M. Millen (2017), \u201cpara que o comportamento do pensamento \u00fanico, da autorreferencialidade, n\u00e3o seja a regra, precisamos contemplar o diverso amigavelmente, dispondo-nos a buscar caminhos plaus\u00edveis, mais saud\u00e1veis, que nos revelem horizontes amplos e repousantes\u201d. 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