{"id":34963,"date":"2019-08-13T00:00:00","date_gmt":"2019-08-13T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/marcha-das-margaridas\/"},"modified":"2019-08-13T00:00:00","modified_gmt":"2019-08-13T03:00:00","slug":"marcha-das-margaridas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/marcha-das-margaridas\/","title":{"rendered":"Marcha das Margaridas"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: right\"><strong>Dom Manoel Jo\u00e3o Francisco<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: right\"><strong>Bispo de Corn\u00e9lio Proc\u00f3pio (PR)<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<p style=\"text-align: justify\">Nos dias 13 e 14 de agosto aconteceu em Bras\u00edlia a 6\u00aa Marcha das Margaridas. Trata-se de uma a\u00e7\u00e3o organizada pela Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A primeira edi\u00e7\u00e3o da Marcha das Margaridas aconteceu no ano 2000 e segundo suas organizadoras, reuniu cerca de 20 mil mulheres, vindas de todas as partes do Brasil, representando as agricultoras, as quilombolas, as ind\u00edgenas, as pescadoras e as extrativistas. Na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o, em 2015, segundo a mesma fonte, participaram do evento 100 mil mulheres. A participa\u00e7\u00e3o nesta \u00faltima foi tamb\u00e9m muito numerosa. Al\u00e9m das mulheres de todos os estados do Brasil, estiveram presentes representantes de mais 26 nacionalidades. O s\u00edmbolo do evento s\u00e3o as camisetas lil\u00e1s e os chap\u00e9us de palha decorados com margaridas, usados pelas participantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Chama-se Marcha das Margaridas para homenagear a l\u00edder sindicalista Margarida Maria Alves, assassinada, na porta de sua casa, na frente do marido e do filho pequeno, em 1983, quando lutava pelos direitos dos trabalhadores na Para\u00edba. Durante os 12 anos em que foi presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, Margarida moveu mais de 73 a\u00e7\u00f5es, por desrespeito \u00e0s leis trabalhistas, contra as usinas de a\u00e7\u00facar de cana da regi\u00e3o. Uma das a\u00e7\u00f5es foi contra o filho de um fazendeiro que tinha espancado uma idosa paral\u00edtica, moradora de suas terras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Margarida era uma mulher corajosa e destemida como testemunha sua amiga de luta, Maria Soledade Leite: \u201cMargarida n\u00e3o era dessas de baixar a cabe\u00e7a. N\u00f3s t\u00ednhamos a maior confian\u00e7a nela. Quando ingressava numa luta, ia at\u00e9 o final. A luta de Margarida foi pela jornada de oito horas, pelo 13\u00ba sal\u00e1rio, pela carteira assinada, pelas f\u00e9rias anuais e o repouso semanal remunerado, pelo direito ao s\u00edtio, porque os patr\u00f5es plantavam a cana at\u00e9 na porteira da casa. A luta dela era para que o trabalhador tivesse uma areazinha onde pudesse ter suas planta\u00e7\u00f5es e dar uma vida digna \u00e0 sua fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Marcada para morrer, Margarida n\u00e3o se intimidou e s\u00f3 teve a voz calada pela espingarda calibre 12 de um matador de aluguel. Antes de morrer, num discurso de comemora\u00e7\u00e3o do Dia do Trabalhador, disse uma frase que ficou famosa e \u00e9 repetida com freq\u00fc\u00eancia pelas suas seguidoras e tamb\u00e9m seguidores: \u201c\u00c9 melhor morrer na luta do que morrer de fome\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por ocasi\u00e3o de sua morte, a mesma amiga Maria Soledade Leite dedicou-lhe estes versos: \u201cDia 12 de agosto nasceu um sol diferente\/um aspecto de tristeza, o sol frio em vez de quente\/ era Deus dando o sinal da morte de uma inocente (\u2026) Jesus Cristo deu a vida pra redimir os pecados\/ Tiradentes pela p\u00e1tria foi morto e esquartejado\/ Margarida na defesa dos pobres e necessitados\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em 2001 a casa de Margarida se transformou em museu. Ali se encontram a geladeira, os \u00f3culos, uma bolsa, uma camisa branca com bordado de flores, o chap\u00e9u usado por ela, muitos documentos da \u00e9poca em que liderava o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, al\u00e9m de instrumentos de trabalho usados no corte da cana de a\u00e7\u00facar. Encontram-se tamb\u00e9m, nas paredes desta casa-museu, recortes de jornais do pa\u00eds e do exterior que relatam e comentam o assassinato de Margarida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para cada Marcha das Margaridas se escolhe um lema. O deste ano \u00e9: \u201cMargaridas na luta por um Brasil com soberania popular, democracia, justi\u00e7a, igualdade e livre de viol\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sem d\u00favida, este \u00e9 um lema muito significativo e atual. Apesar de toda luta e organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e trabalhadoras, os conflitos seguem fazendo v\u00edtimas e manchando de sangue a hist\u00f3ria do campo no Brasil. No \u00faltimo dia 30 de julho em Lerroville, distrito rural de Londrina, 167 fam\u00edlias foram despejadas do Acampamento Quilombo dos Palmares. Numa carta de rep\u00fadio a Presid\u00eancia da CNBB Regional informa que esta j\u00e1 a quarta reintegra\u00e7\u00e3o de posse ocorrida neste ano em nosso Estado, \u201ce tudo indica que ocorrer\u00e3o outras, com consequ\u00eancias mais desastrosas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0No relat\u00f3rio anual feito pela Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT) afirma-se que em 2018 aconteceram 1.489 conflitos, 28 assassinatos, 960.342 pessoas envolvidas. A maioria dos assassinatos, como o de Margarida Maria Alves segue sem esclarecimentos. Isto faz com que o Brasil seja considerado o pa\u00eds mais violento do mundo para as popula\u00e7\u00f5es camponesas.<\/p>\n<p>A Marcha das Margaridas n\u00e3o deve ser apenas mais uma not\u00edcia. Pelo contr\u00e1rio, deve ser uma oportunidade para percebermos que \u201cos pobres n\u00e3o s\u00f3 suportam a injusti\u00e7a, mas tamb\u00e9m lutam contra ela. N\u00e3o esperam mais, mas querem ser protagonistas. Organizam-se, estudam, trabalham, exigem e, sobretudo, praticam aquela solidariedade t\u00e3o especial que existe entre os que sofrem, entre os pobres, e que nossa civiliza\u00e7\u00e3o parece ter esquecido, ou pelo menos, tem grande vontade de esquecer\u201d (Papa Francisco). A Marcha das Margaridas deve abrir nossos olhos para ver a opress\u00e3o, despertar nossos ouvidos para ouvir o grito dos oprimidos, mover nosso cora\u00e7\u00e3o para nos condoer com os sofrimentos e despertar nossa consci\u00eancia para descer para junto do povo e participar de suas lutas de resist\u00eancia e conquista de seus direitos e dignidade.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Manoel Jo\u00e3o Francisco Bispo de Corn\u00e9lio Proc\u00f3pio (PR) Nos dias 13 e 14 de agosto aconteceu em Bras\u00edlia a 6\u00aa Marcha das Margaridas. Trata-se de uma a\u00e7\u00e3o organizada pela Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). 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