{"id":35267,"date":"2019-09-13T00:00:00","date_gmt":"2019-09-13T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/evangelizacao-e-liturgia\/"},"modified":"2019-09-13T00:00:00","modified_gmt":"2019-09-13T03:00:00","slug":"evangelizacao-e-liturgia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/evangelizacao-e-liturgia\/","title":{"rendered":"Evangeliza\u00e7\u00e3o e Liturgia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Geovane Lu\u00eds da Silva<\/strong><br \/>\n<strong>Bispo auxiliar de Belo Horizonte<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A liturgia \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o pulsante da Igreja, por\u00e9m n\u00e3o esgota toda a sua a\u00e7\u00e3o evangelizadora (SC 9). Ela n\u00e3o \u00e9 um elemento acidental ou decorativo no \u00e2mbito da miss\u00e3o eclesial; muito pelo contr\u00e1rio, situa-se no centro da sua atividade mission\u00e1ria qual fonte que rejuvenesce sem cessar a comunidade de f\u00e9. Parece que ainda hoje n\u00e3o levamos a s\u00e9rio este princ\u00edpio teol\u00f3gico e pastoral estabelecido pelo Conc\u00edlio Vaticano II na Constitui\u00e7\u00e3o Sobre a Sagrada Liturgia (SC 9.10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u2018Miss\u00e3o, evangeliza\u00e7\u00e3o, pastoreio, liturgia, servi\u00e7o\u2019 s\u00e3o realidades insepar\u00e1veis que expressam o mist\u00e9rio da presen\u00e7a de Cristo agindo no mundo atrav\u00e9s do seu corpo eclesial. N\u00e3o podemos descurar nenhum destes aspectos que expressam a sacramentalidade da Igreja, pois ela deve anunciar integralmente o evangelho (miss\u00e3o\/evangeliza\u00e7\u00e3o), acompanhar e cuidar (pastoreio) daqueles que abra\u00e7aram a f\u00e9 em Cristo e com eles celebrar (liturgia) e viver (servi\u00e7o) a f\u00e9 traduzida no amor e na solidariedade para com os mais pobres e sofredores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Priorizar um destes elementos constitutivos da Igreja esquecendo-se dos demais, seria muito prejudicial aos fi\u00e9is e comprometeria seriamente a sua a\u00e7\u00e3o pastoral na sociedade, pois estar\u00edamos apresentando um retrato mutilado ou um mosaico incompleto do rosto de Cristo que resplandece na Igreja atrav\u00e9s da miss\u00e3o, da evangeliza\u00e7\u00e3o, do pastoreio, da liturgia e do servi\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esta quest\u00e3o foi retomada recentemente no magist\u00e9rio do Papa Francisco, bem ao in\u00edcio do seu pontificado, quando se dirigiu aos fi\u00e9is crist\u00e3os atrav\u00e9s da Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica <em>Evangelii Gaudium<\/em>, a fim de os convidar para uma nova etapa evangelizadora da Igreja\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify\">\n<li><strong>Celebrar cada passo em frente na evangeliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify\">A <em>Evangelii Gaudium<\/em> em seu artigo 24 condensa o pensamento teol\u00f3gico e pastoral do Papa Francisco sobre a liturgia da Igreja e suas implica\u00e7\u00f5es na a\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria e evangelizadora. No referido artigo aparece o retrato ou mosaico do rosto de Cristo que deve resplandecer atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o da Igreja no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Comunidade Eclesial enquanto sacramento de Cristo deve \u201cprimeirear\u201d, envolver-se, acompanhar, frutificar e festejar. No extenso artigo 24 da Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica aparece a intr\u00ednseca rela\u00e7\u00e3o existente entre os elementos que constituem a ess\u00eancia da Igreja: miss\u00e3o, evangeliza\u00e7\u00e3o, pastoreio, liturgia e servi\u00e7o. Ao final do presente artigo o Papa se refere \u00e0 dimens\u00e3o festiva da f\u00e9 e o faz em estreita conex\u00e3o com os demais elementos citados anteriormente. Aqui se revela a vis\u00e3o integral do Papa Francisco que n\u00e3o admite descurar nenhum dos aspectos constitutivos da Igreja. Sua vis\u00e3o integral e unit\u00e1ria nos ajuda a valorizar cada a\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito eclesial e a fugir de uma pr\u00e1xis pastoral reducionista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Analisemos, ainda que brevemente, as \u00faltimas frases do artigo 24, onde o Papa Francisco fala da rela\u00e7\u00e3o vital entre evangeliza\u00e7\u00e3o, liturgia e servi\u00e7o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>\u201ca comunidade evangelizadora jubilosa sabe sempre festejar: celebra e festeja cada pequena vit\u00f3ria, cada passo em frente na Evangeliza\u00e7\u00e3o. No meio desta exig\u00eancia di\u00e1ria de fazer avan\u00e7ar o bem, a evangeliza\u00e7\u00e3o jubilosa torna-se beleza na liturgia. A Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia, que \u00e9 tamb\u00e9m celebra\u00e7\u00e3o da atividade evangelizadora e fonte dum renovado impulso a se dar\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aparecem aqui termos teol\u00f3gicos e profundamente significativos para uma justa hermen\u00eautica da a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Papa nos diz que \u2018<em>a comunidade evangelizadora sabe sempre festejar: celebra e festeja.\u2019<\/em>. A express\u00e3o \u2018comunidade evangelizadora\u2019 evoca a realidade da miss\u00e3o, pois seria imposs\u00edvel a comunidade evangelizar sem se deixar cativar primeiro pelo an\u00fancio do evangelho. Uma vez evangelizados, evangelizamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A obra evangelizadora da Igreja assume tamb\u00e9m uma forma ritual e celebrativa. A Igreja <em>celebra<\/em> com j\u00fabilo a salva\u00e7\u00e3o e <em>faz festa<\/em> na presen\u00e7a do Senhor. <em>Celebrar<\/em> e <em>festejar<\/em> s\u00e3o categorias que evidenciam a dimens\u00e3o antropol\u00f3gica\/humana, teol\u00f3gica\/memorial, comunit\u00e1ria e ritual da f\u00e9 crist\u00e3. Ningu\u00e9m celebra sozinho ou faz festa para si mesmo, pois \u201ca vida se enfraquece no isolamento e se fortalece na doa\u00e7\u00e3o e na comunh\u00e3o. Isto \u00e9, definitivamente, a miss\u00e3o\u201d. <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> A comunidade que celebra a f\u00e9 descobre o sentido da sua exist\u00eancia no mundo e se renova no empenho mission\u00e1rio. Isto se d\u00e1 gra\u00e7as \u00e0 presen\u00e7a de Cristo na liturgia da Igreja (SC 7), pois \u00e9 dele que prov\u00e9m toda for\u00e7a e dinamismo mission\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Qual o motivo da festa? Aqui o Papa Francisco deixa claro: <em>\u201ccelebra e festeja cada pequena vit\u00f3ria, cada passo em frente na Evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d<\/em><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Deste modo evidencia-se que as <em>pequenas vit\u00f3rias<\/em> s\u00e3o fruto e express\u00e3o da <em>vit\u00f3ria suprema de Cristo<\/em> \u201cque venceu o mundo e sua permanente conflitualidade, estabelecendo a paz por seu sangue derramado na cruz\u201d.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> A liturgia da Igreja \u00e9 profiss\u00e3o de f\u00e9 no sentido pascal e de uni\u00e3o \u00e0 P\u00e1scoa de Cristo que se d\u00e1 nas pequenas vit\u00f3rias. Deste modo \u201cJesus nos deixa a Eucaristia como mem\u00f3ria cotidiana da Igreja, que nos introduz cada vez mais na P\u00e1scoa (Lc 22,19). A alegria evangelizadora refulge sempre sobre o horizonte da mem\u00f3ria agradecida\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A dimens\u00e3o est\u00e9tica da liturgia tamb\u00e9m \u00e9 evidenciada pelo Papa: \u201c<em>No meio desta exig\u00eancia di\u00e1ria de fazer avan\u00e7ar o bem, a evangeliza\u00e7\u00e3o jubilosa torna-se beleza na liturgia\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O quotidiano \u00e9 o lugar primeiro do encontro com Deus e nele se insere a liturgia da Igreja, como espa\u00e7o privilegiado para a contempla\u00e7\u00e3o da beleza divina. Evidentemente trata-se daquela beleza suprema, o rosto transfigurado e glorioso de Cristo, que d\u00e1 fundamento aos gestos e palavras da Igreja e n\u00e3o se confunde jamais com o excesso de paramentos, o rubricismo ou o cerimonialismo vazio t\u00e3o presente nos dias atuais. O excesso de paramentos \u00e9 sempre express\u00e3o de mau gosto; n\u00e3o remetem \u00e0 beleza suprema, e o rubricismo \u00e9 muitas vezes sinal de que a liturgia n\u00e3o \u00e9 express\u00e3o aut\u00eantica do sentimento interior que brota do cora\u00e7\u00e3o de quem celebra, quer presidindo ou exercendo outro minist\u00e9rio na assembleia lit\u00fargica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para n\u00e3o deixar margens a d\u00favidas sobre a verdadeira beleza que deve resplandecer na liturgia e a partir da sua celebra\u00e7\u00e3o, o Papa afirma na sua Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica: \u201ctodo cuidado exibicionista da liturgia \u00e9 express\u00e3o evidente de um obscuro mundanismo espiritual que se manifesta hoje em muitas atitudes, mas com a mesma pretens\u00e3o de dominar o espa\u00e7o eclesial e transform\u00e1-lo numa pe\u00e7a de museu ou numa possess\u00e3o de poucos\u201d <a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca entre evangeliza\u00e7\u00e3o, liturgia e vida. A beleza do rosto de Cristo deve permear toda a nossa exist\u00eancia e se irradiar nestes momentos, aparentemente distintos, mas intimamente relacionados. O an\u00fancio do Evangelho converge naturalmente para a sua celebra\u00e7\u00e3o na liturgia e tem implica\u00e7\u00f5es diretas na vida de quem o acolhe com abertura de cora\u00e7\u00e3o. \u201cToda a evangeliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 fundada sobre esta Palavra escutada, meditada, vivida, celebrada e testemunhada\u201d.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O evangelho proclamado \u00e9 celebrado ritualmente, mediante s\u00edmbolos, gestos, palavras e c\u00e2nticos; ou seja, o evangelho anunciado se torna sacramento, sinal vis\u00edvel da ternura de Deus agindo no mundo. Na liturgia da Igreja nada acontece \u00e0 margem da Palavra de Deus (SC 24). Nas palavras do Papa ressoa assim: \u201cA Palavra de Deus ouvida e celebrada, sobretudo na Eucaristia, alimenta e refor\u00e7a interiormente os crist\u00e3os e torna-os capazes de um aut\u00eantico testemunho evang\u00e9lico da vida di\u00e1ria. A Palavra proclamada, viva e eficaz prepara a recep\u00e7\u00e3o do Sacramento e, no Sacramento, essa Palavra alcan\u00e7a a sua m\u00e1xima efic\u00e1cia\u201d.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A liturgia bem celebrada \u00e9 fonte de vida para a comunidade evangelizadora, pois a <em>\u201cIgreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia\u201d.<\/em> Eis a\u00ed um constante desafio para todos n\u00f3s: evangelizar e deixar-se evangelizar!<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> Celebrar e deixar-se tocar pelo Ressuscitado na liturgia e na vida! Certamente o cuidado com a liturgia exigir\u00e1 de todos n\u00f3s um empenho constante para que o evangelho adquira uma real inser\u00e7\u00e3o em nossa vida e nas necessidades concretas da nossa hist\u00f3ria.<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para explicitar a for\u00e7a transformadora da liturgia, ou melhor, a sua efic\u00e1cia o Papa recorre \u00e0 met\u00e1fora da \u2018fonte\u2019<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. Segundo ele a \u201c<em>liturgia \u00e9 tamb\u00e9m celebra\u00e7\u00e3o da atividade evangelizadora e fonte de um renovado impulso a se dar\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Emerge aqui a dimens\u00e3o espiritual<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>, existencial e social da a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica da Igreja j\u00e1 expressa na Constitui\u00e7\u00e3o Conciliar do Vaticano II <em>Sobre a Sagrada Liturgia<\/em><a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>. Em conson\u00e2ncia com o pensamento conciliar o Papa Francisco afirma que a liturgia \u00e9 fonte de um renovado impulso para a nossa autodoa\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo, pois nela, pela a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, se atualiza a autodoa\u00e7\u00e3o de Cristo ao Pai para a salva\u00e7\u00e3o da humanidade. A a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica \u00e9 a realidade plena de tudo aquilo que ela mesma significa e faz mem\u00f3ria: a morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. Por isso ela produz, na vida de quem a celebra com f\u00e9, um renovado impulso e desejo de doa\u00e7\u00e3o levando-a \u201ca tocar a carne sofredora de Cristo no povo\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>. A entrega de n\u00f3s mesmos aos irm\u00e3os e irm\u00e3s mais sofredores \u00e9 o crit\u00e9rio decisivo para comprovar a verdade da liturgia que celebramos em nossas comunidades, pois uma vida autenticamente lit\u00fargica expressa nossa abertura ao an\u00fancio da Palavra e transforma-se em dom para os outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Delineia-se no pensamento do Papa Francisco uma concep\u00e7\u00e3o lit\u00fargica radicada na Escritura, particularmente na <em>tradi\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica<\/em> que atinge sua maturidade nos gestos e palavras prof\u00e9ticos de Jesus. Os profetas do Antigo Testamento, bem como Jesus Cristo, n\u00e3o se opunham ao culto, muito pelo contr\u00e1rio, defendiam-no e n\u00e3o admitiam a banaliza\u00e7\u00e3o ou profana\u00e7\u00e3o dos ritos sagrados que expressavam a comunh\u00e3o do ser humano com Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na concep\u00e7\u00e3o dos profetas <em>liturgia sem miseric\u00f3rdia \u00e9 culto vazio rejeitado por Deus;<\/em> e para o Papa Francisco, <em>liturgia sem amor ao pr\u00f3ximo \u00e9 a mais refinada express\u00e3o do mundanismo espiritual<\/em> que invade sutilmente o espa\u00e7o sagrado e distancia cada vez mais a comunidade celebrante do mist\u00e9rio pascal de Cristo, desobrigando-a da viv\u00eancia ou pr\u00e1xis da miseric\u00f3rdia na rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3ximo. Disto decorre a seguinte afirma\u00e7\u00e3o: a liturgia \u00e9 sinal inequ\u00edvoco da acolhida ao Evangelho e vida que escoa no rio da miseric\u00f3rdia para com o pr\u00f3ximo.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify\" start=\"2\">\n<li><strong>Concep\u00e7\u00e3o unit\u00e1ria da a\u00e7\u00e3o eclesial<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify\">Ao longo da sua Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica o Papa Francisco nos oferece algumas indica\u00e7\u00f5es pastorais que visam superar os desvios criados por uma concep\u00e7\u00e3o reducionista da a\u00e7\u00e3o eclesial no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Igreja \u00e9 um reflexo do Ressuscitado agindo no mundo. Ele \u00e9 o mission\u00e1rio, o evangelizador, o pastor, o liturgo e o servidor por excel\u00eancia. O seu jeito de ser, o seu modo de agir, os seus gestos e palavras s\u00e3o normativos para a Igreja, sacramento de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando desvinculamos a Igreja do mist\u00e9rio de Cristo mission\u00e1rio, evangelizador, pastor, liturgo e servidor, corremos o risco de apresent\u00e1-la de um modo disforme ou desfigurada e cometemos v\u00e1rios equ\u00edvocos em nossa pr\u00e1xis pastoral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">2.1 <strong>Entusiasmo mission\u00e1rio e evangelizador sem cuidado pastoral<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Uma comunidade que prioriza a miss\u00e3o e a evangeliza\u00e7\u00e3o em detrimento do cuidado pastoral quotidiano corre o risco de anunciar o Evangelho aos afastados e n\u00e3o dar o devido acompanhamento a eles quando acolhidos na Igreja. Em contrapartida, uma comunidade que se preocupa somente com aqueles que participam e celebram a f\u00e9, mas n\u00e3o se coloca em atitude de sa\u00edda, est\u00e1 condenada a uma esp\u00e9cie de atrofiamento espiritual e paralisia pastoral. Voltada para si mesma, abre m\u00e3o da atividade mission\u00e1ria e se contenta apenas com os poucos que conseguiu, \u00e0s custas de muito sacrif\u00edcio, manter no seu interior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A miss\u00e3o\/evangeliza\u00e7\u00e3o destina-se sobretudo aos afastados e \u201cest\u00e1 essencialmente relacionada com a proclama\u00e7\u00e3o do Evangelho \u00e0queles que n\u00e3o conhecem Jesus Cristo ou que sempre O recusaram\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. A pastoral ordin\u00e1ria, por sua vez, destina-se aos que j\u00e1 pertencem \u00e0 comunidade de f\u00e9, \u00e0queles que conservam uma f\u00e9 cat\u00f3lica embora n\u00e3o participem frequentemente no culto. Tal a\u00e7\u00e3o visa \u201cincendiar os cora\u00e7\u00f5es dos fi\u00e9is que frequentam regularmente a comunidade, reunindo-se no dia do Senhor, para se alimentarem da sua Palavra e do P\u00e3o de vida eterna<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O olhar da Igreja deve se estender a todos. Ela \u00e9 chamada a acolher e abra\u00e7ar os afastados, mas a se comprometer tamb\u00e9m com aqueles que j\u00e1 frequentam a vida comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>2.2 Celebra\u00e7\u00e3o da f\u00e9 sem compromisso social<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O esmero lit\u00fargico e sacramental sem compromisso s\u00f3cio-transformador parece ser a t\u00f4nica do momento. Tamb\u00e9m isto \u00e9 mundanismo espiritual. Pior ainda quando, al\u00e9m de disso, a comunidade opta deliberadamente pela sacramentaliza\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a> desordenada sem a devida catequese mistag\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Este \u00e9 um sintoma da amn\u00e9sia teol\u00f3gica de muitos. Esqueceram-se ou desconhecem o princ\u00edpio norteador estabelecido pelo Vaticano II nesta mat\u00e9ria (SC 9), onde se afirma que a a\u00e7\u00e3o da Igreja n\u00e3o se reduz \u00e0 liturgia. O Conc\u00edlio j\u00e1 nos alertou contra a amea\u00e7a constante do panliturgismo (<em>tudo \u00e9 liturgia<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Noutros casos confundimos o cuidado pastoral, com rela\u00e7\u00e3o aos sacramentos, com uma alf\u00e2ndega<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a> e ca\u00edmos no absurdo da seletividade e da burocracia fechando a porta dos sacramentos para a maioria das pessoas e abrindo-a para um suposto grupo de eleitos que preenchem os requisitos da institui\u00e7\u00e3o ou correspondem aos caprichos pessoais daqueles que organizam e conduzem a Comunidade Eclesial. Deste modo a Igreja se perde num emaranhado de obsess\u00f5es e procedimentos pastorais e come\u00e7amos a \u201cagir como controladores da gra\u00e7a e n\u00e3o como facilitadores<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O reverso desta atitude, ou seja, a promo\u00e7\u00e3o social sem o an\u00fancio do Evangelho e o devido acompanhamento espiritual aos pobres \u00e9 a pior forma de discrimina\u00e7\u00e3o para com eles<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a>. Agindo assim transformar\u00edamos a Igreja numa ONG qualquer destitu\u00edda da for\u00e7a da Palavra de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na compreens\u00e3o do Papa Francisco<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201choje e sempre os pobres s\u00e3o destinat\u00e1rios privilegiados do Evangelho, e a evangeliza\u00e7\u00e3o dirigida a eles \u00e9 sinal do Reino que Jesus veio trazer. H\u00e1 que afirmar sem rodeios que existe um v\u00ednculo indissol\u00favel entre nossa f\u00e9 e os pobres\u201d<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a>. \u201cA imensa maioria dos pobres possui uma especial abertura \u00e0 f\u00e9; tem necessidade de Deus e n\u00e3o podemos deixar de lhe oferecer a sua amizade, a sua b\u00ean\u00e7\u00e3o, a sua Palavra, a celebra\u00e7\u00e3o dos Sacramentos e a proposta de um caminho de crescimento e amadurecimento na f\u00e9. A op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres deve traduzir-se, principalmente, numa solicitude religiosa privilegiada e priorit\u00e1ria\u201d<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Deste modo podemos afirmar que se faz necess\u00e1rio e urgente rever nossas op\u00e7\u00f5es no amplo horizonte da miss\u00e3o evangelizadora da Igreja. No dizer do Papa, \u201cdo ponto de vista da evangeliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o servem as propostas m\u00edsticas desprovidas de um vigoroso compromisso social e mission\u00e1rio, nem os discursos e a\u00e7\u00f5es sociais e pastorais sem uma espiritualidade que transforme o cora\u00e7\u00e3o. Essas propostas parciais e desagregadoras alcan\u00e7am s\u00f3 pequenos grupos e n\u00e3o t\u00eam for\u00e7a de ampla penetra\u00e7\u00e3o, porque mutilam o Evangelho\u201d <a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Cf. EG 1<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Cf. EG 8.10.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><u>[3]<\/u><\/a><u> EG 24<\/u><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><u>[4]<\/u><\/a><u> EG 229<\/u><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><u>[5]<\/u><\/a><u> EG 13<\/u><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Cf. EG 95 nos remete ao ensinamento de Bento XVI na <em>Sacramentum Caritatis<\/em> 23 quando se trata do ministro que age na pessoa de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> EG 174<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> EG 174<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> EG 174<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> EG 95<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Esta compreens\u00e3o aparece na SC 10, onde os padres conciliares afirmam: \u201cTodavia, a liturgia \u00e9 o cume para o qual tende a a\u00e7\u00e3o da Igreja e, ao mesmo tempo, \u00e9 a fonte donde emana toda a sua for\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a>A liturgia \u201c\u00e9 a primeira e necess\u00e1ria fonte, da qual os fi\u00e9is haurem o esp\u00edrito verdadeiramente crist\u00e3o\u201d (SC 14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Esta refer\u00eancia aos aspectos sociais da liturgia e de suas implica\u00e7\u00f5es na vida pr\u00e1tica aparece nos seguintes artigos da Constitui\u00e7\u00e3o Conciliar: \u201cAos que cr\u00eaem, por\u00e9m, sempre deve pregar-lhes a f\u00e9 e [&#8230;], estimul\u00e1-los para toda obra de caridade\u201d (SC 9); \u201cA renova\u00e7\u00e3o da Alian\u00e7a do Senhor com os homens na Eucaristia, solicita e estimula os fi\u00e9is para a caridade imperiosa de Cristo\u201d (SC 10). No segundo cap\u00edtulo, quando se fala da eucaristia usa-se a express\u00e3o \u2018v\u00ednculo de caridade\u2019 (cf. SC 47). A celebra\u00e7\u00e3o dos sacramentos \u201cprepara os fi\u00e9is do melhor modo poss\u00edvel para receberem frutuosamente a gra\u00e7a, cultuarem devidamente a Deus e praticarem a caridade\u201d (SC 59). \u201cA penit\u00eancia do tempo quaresmal n\u00e3o seja somente interna e individual, mas tamb\u00e9m externa e social\u201d (SC 110).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> EG 24. 270<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> EG 14<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> EG 14<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> EG 63<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> EG 47<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> EG 47<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> EG 200<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> EG 48<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> EG 200<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> EG 262<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Geovane Lu\u00eds da Silva Bispo auxiliar de Belo Horizonte \u00a0 A liturgia \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o pulsante da Igreja, por\u00e9m n\u00e3o esgota toda a sua a\u00e7\u00e3o evangelizadora (SC 9). Ela n\u00e3o \u00e9 um elemento acidental ou decorativo no \u00e2mbito da miss\u00e3o eclesial; muito pelo contr\u00e1rio, situa-se no centro da sua atividade mission\u00e1ria qual fonte que &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/evangelizacao-e-liturgia\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Evangeliza\u00e7\u00e3o e Liturgia<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":76,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/35267"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/76"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=35267"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/35267\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=35267"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=35267"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=35267"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}