{"id":35475,"date":"2019-10-07T00:00:00","date_gmt":"2019-10-07T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-cirio-de-nazare-como-agente-de-evangelizacao\/"},"modified":"2019-10-07T00:00:00","modified_gmt":"2019-10-07T03:00:00","slug":"o-cirio-de-nazare-como-agente-de-evangelizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-cirio-de-nazare-como-agente-de-evangelizacao\/","title":{"rendered":"O C\u00edrio de Nazar\u00e9 como agente de evangeliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Alberto Taveira Corr\u00eaa<br \/>\nArcebispo de Bel\u00e9m do Par\u00e1<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">No in\u00edcio do s\u00e9culo VIII, encontramos uma imagem de Nossa Senhora de Nazar\u00e9, cuja origem \u00e9 cercada de lendas, em Portugal, no monte de S\u00e3o Bartolomeu. Neste lugar a imagem ficou escondida por cerca de quatro s\u00e9culos, quando na manh\u00e3 de 14 de setembro de 1182, Dom Fuas Roupinho, Alcaide-mor do Castelo de Porto de Moz e amigo do rei Dom Afonso Henrique, ca\u00e7ando um cervo que fugia em disparada, deparou-se a um abismo. Em meio ao grande perigo que estava, clamou a intercess\u00e3o da Virgem de Nazar\u00e9: &#8220;Valei-me Nossa Senhora de Nazar\u00e9!&#8221;. Ap\u00f3s a exclama\u00e7\u00e3o, o cavalo volteou sobre os cascos traseiros evitando a queda mortal. Ap\u00f3s o milagre obtido pela intercess\u00e3o da sant\u00edssima Virgem, Dom Fuas mandou construir uma capela naquele mesmo lugar em honra daquela por cuja intercess\u00e3o sua vida tinha sido poupada. A Capela tornou-se centro de peregrina\u00e7\u00e3o inclusive de reis e navegadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mudemos agora de tempo e lugar, estamos por volta de 1700 e o protagonista n\u00e3o \u00e9 mais um nobre fidalgo portugu\u00eas, mas um caboclo amaz\u00f4nico chamado Pl\u00e1cido Jos\u00e9 dos Santos. Este, em meio a suas caminhadas pela mata, que eram certamente costumeiras, j\u00e1 que segundo a tradi\u00e7\u00e3o Pl\u00e1cido era ca\u00e7ador, achou entre as pedras do igarap\u00e9 Murutucu uma pequena imagem, que tratou de levar para casa. No dia seguinte para a sua surpresa a Imagem n\u00e3o estava onde ele havia deixado, ele ent\u00e3o correu ao local onde a havia achado e l\u00e1 estava ela, ap\u00f3s in\u00fameras tentativas fracassadas de mant\u00ea-la em sua casa decidiu construir uma pequena Capela naquele local. Temos a\u00ed a primeira Igreja de Nazar\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ap\u00f3s o achado da imagem, a devo\u00e7\u00e3o popular imediatamente come\u00e7ou, pois l\u00e1 era caminho de muitos viajantes, j\u00e1 que o lugar era pr\u00f3ximo da \u201cEstrada do Utinga\u201d, fato que ajudou a propagar a devo\u00e7\u00e3o que ali se iniciava. Pouco mais de vinte anos depois, o Bispo da \u00e9poca Dom Bartolomeu de Pilar esteve na capela atra\u00eddo pela grande devo\u00e7\u00e3o que ali se consolidava, na ocasi\u00e3o, Pl\u00e1cido sugeriu ao bispo a constru\u00e7\u00e3o de uma nova igreja, cuja sugest\u00e3o foi prontamente aceita, sendo erguida entre 1730 e 1744.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No ano de 1793, o governador Sousa Coutinho teve a ideia de organizar uma grande feira com produtos agr\u00edcolas e extrativistas para serem comercializados no per\u00edodo em que se costumava celebrar a festa (m\u00eas de agosto). Por\u00e9m, em junho de 1793 este fica doente, condenado a n\u00e3o comparecer a festa, fez a promessa que se caso melhorasse, iria buscar a imagem, lev\u00e1-la para a capela de seu pal\u00e1cio e depois voltaria com ela para a s\u00edtio de Nazar\u00e9. Gra\u00e7a alcan\u00e7ada, promessa cumprida. Temos ent\u00e3o em 8 de setembro de 1793 o primeiro C\u00edrio de Nazar\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A atual Igreja, que se seguiu a outras constru\u00eddas no mesmo local daquela que o Caboclo Pl\u00e1cido edificou, foi constru\u00edda no s\u00e9culo XX. Em seu interior, enriquecido por belos mosaicos e vitrais, temos contada a hist\u00f3ria da Virgem Maria e da sua invoca\u00e7\u00e3o sob o nome de Nazar\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O termo &#8220;C\u00edrio&#8221; tem origem na palavra latina &#8220;cereus&#8221; (de cera), que significa vela grande de cera, objeto comumente usado para se pagar promessas.\u00a0Em tr\u00eas de julho de 1793, o governador determina que no final de setembro de cada ano se organizasse festejos em honra a Nossa Senhora de Nazar\u00e9 no largo de sua ermida, devendo a imagem na v\u00e9spera ser levada \u00e0 capela do pal\u00e1cio dos governadores, atual Pal\u00e1cio Lauro Sodr\u00e9, a fim de ser transferida no dia seguinte novamente para sua ermida. Surge a\u00ed a primeira prociss\u00e3o do C\u00edrio de Nossa Senhora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ap\u00f3s a imagem da Virgem Sant\u00edssima, \u00e9 certamente a corda um nos maiores objetos de devo\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is. Sua origem remonta o ano de 1885, quando na hora da prociss\u00e3o, a ba\u00eda do Guajar\u00e1 tinha transbordado, para que a berlinda (que era puxada por bois) pudesse avan\u00e7ar, tiveram a ideia de lhe passar uma grande corda em volta, pedindo aos fi\u00e9is que a puxassem, dessa forma a berlinda p\u00f4de vencer o atoleiro e assim constituiu-se a tradi\u00e7\u00e3o de atrelar uma corda a berlinda.\u00a0A Berlinda \u00e9 o carro mais importante, e sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 proteger a imagem e proporcionar sua melhor visualiza\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m da Berlinda, temos a presen\u00e7a de outros carros que foram surgindo em tempos distintos, e retratam v\u00e1rios epis\u00f3dios ligados a devo\u00e7\u00e3o a Virgem de Nazar\u00e9, como o milagre de Dom Fuas. H\u00e1 ainda os carros que retratam aspectos da f\u00e9 cat\u00f3lica, como o da Sant\u00edssima Trindade e os Anjos, al\u00e9m da barca dos milagres, que recolhe os objetos em cera levados pelos devotos no cumprimento de suas promessas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Pl\u00e1cido Jos\u00e9 de Souza foi conduzido pelo Esp\u00edrito Santo, que o conduziu pelas m\u00e3os para nos presentear com a devo\u00e7\u00e3o a Nossa Senhora de Nazar\u00e9. Desejamos continuamente recuperar a mesma devo\u00e7\u00e3o com que Pl\u00e1cido aprendeu a fazer o jogo de amor, passando do Igarap\u00e9 das matas da estrada do Utinga \u00e0 sua tosca resid\u00eancia e vice-versa, at\u00e9 que fosse reconhecido que \u201co cora\u00e7\u00e3o humilde daquele homem era o mais apropriado abrigo para a Rainha dos C\u00e9us\u201d (Dom Jo\u00e3o Evangelista Pereira, Bispo do Par\u00e1). Os recursos para o maravilhoso templo, nossa Bas\u00edlica Santu\u00e1rio de Nossa Senhora de Nazar\u00e9, vieram com o amadurecimento dos tempos, mas nossa M\u00e3e e Rainha continua passeando, passando pelas vias da f\u00e9, abertas nos sulcos escancarados do cora\u00e7\u00e3o de nosso povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A devo\u00e7\u00e3o mariana acompanhou passo a passo a peregrina\u00e7\u00e3o da f\u00e9 vivida pela Igreja. De fato, aquela que chamamos Estrela da Evangeliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 a refer\u00eancia maior na escuta amorosa de Deus e no assentimento a seu plano de salva\u00e7\u00e3o. Com Maria, a Igreja continua a subir pelas montanhas de Jud\u00e1 ou caminhar pelos muitos caminhos do mundo para amar e servir aos mais pobres. A Bel\u00e9m do nascimento de Jesus se repete n\u00e3o s\u00f3 na Bel\u00e9m do Par\u00e1, mas onde quer que a Igreja esteja presente, com pessoas semelhantes a Maria e Jos\u00e9. Diante do mist\u00e9rio do sofrimento, ali est\u00e1 Maria, firme diante de Sime\u00e3o ou de p\u00e9 ao lado da Cruz de seu Filho. Em Can\u00e1 ou no Cen\u00e1culo, disc\u00edpula e modelo da ora\u00e7\u00e3o, ali est\u00e1 Maria, conduzindo-nos sempre de novo \u00e0 casa de Nazar\u00e9, s\u00edmbolo da intimidade profunda na qual o tu a tu com Deus h\u00e1 de repetir, pois as respostas a Deus s\u00e3o exig\u00eancias do mist\u00e9rio com o qual fomos criados, sedentos dele e de sua Palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">S\u00e3o muitos os \u201cPl\u00e1cidos\u201d de l\u00e1 para c\u00e1. Quero contempl\u00e1-los nos olhares gritantes que encontro nos ambientes mais complexos da sociedade. Pl\u00e1cido para mim s\u00e3o os detentos que vejo nos pres\u00eddios da Grande Bel\u00e9m. Pl\u00e1cidos s\u00e3o as pessoas cujos passos tr\u00f4pegos nas aventuras da vida querem acertar, mas carregam, como enfermidades desafiadoras, seus limites tantas vezes inexplic\u00e1veis, que t\u00eam o nome de v\u00edcios! Pl\u00e1cidos s\u00e3o os justos ou pecadores na multicolorida sociedade paraense. Pl\u00e1cidas s\u00e3o as crian\u00e7as e os jovens, iniciados no verdadeiro mist\u00e9rio que \u00e9 ser devoto da Virgem de Nazar\u00e9, j\u00e1 que ningu\u00e9m resiste ao C\u00edrio! Pl\u00e1cido \u00e9 aquela pessoa que participa do C\u00edrio, ainda confusa, atra\u00edda misteriosamente pelo turbilh\u00e3o do povo que cr\u00ea, mas l\u00e1 dentro tem mil perguntas sem respostas. E ela n\u00e3o consegue ficar em casa, porque n\u00e3o d\u00e1 para ser paraense sem C\u00edrio! S\u00e3o igarap\u00e9s que parecem mais um fio d\u2019\u00e1gua teimoso que conduz ao Mar que \u00e9 Deus!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Pl\u00e1cidos de hoje s\u00e3o os cerca de vinte e cinco mil volunt\u00e1rios, que ajudam a carregar a Santa e seu cortejo, para que nenhum pedacinho de rua ou de cora\u00e7\u00e3o fique sem C\u00edrio! Pl\u00e1cidas s\u00e3o as varandas e sacadas, arquibancadas e pra\u00e7as, com o burburinho das grandes festas, e a nossa \u00e9 a maior! Como o povo hebreu no deserto, muitas vezes somos barulhentos, quem sabe desorganizados, mas nossa ora\u00e7\u00e3o \u00e9 feita de passos e cansa\u00e7o, sangue nas m\u00e3os e nos p\u00e9s, cordas misteriosas que nos valem o contato com o Sagrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Cardeal Martini, na mais lida e comentada de suas cartas pastorais (\u201cIl lembo del mantello\u201d &#8211; Carta Pastoral 1991-1992), referindo-se ao manto de Jesus, indica tr\u00eas realidades que chamam aten\u00e7\u00e3o: a multid\u00e3o que acorre em massa, o mist\u00e9rio de cada pessoa e a experi\u00eancia de Deus, a que somos todos chamados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 uma multid\u00e3o an\u00f4nima que se espreme em torno de Jesus. Muitos o tocam, mas n\u00e3o acontece nada; ningu\u00e9m se distingue com um desejo pr\u00f3prio. No meio da massa, uma mulher vem \u00e0 tona. Ela tem um projeto bem definido e uma grande f\u00e9. Jesus lhe dir\u00e1 depois \u201cFilha, a tua f\u00e9 te salvou\u201d. Tem tamanha confian\u00e7a em Jesus que pensa que apenas o contato com a barra de seu manto bastar\u00e1 para cur\u00e1-la. Entra em contato aut\u00eantico com Jesus, de tal forma que ele mesmo percebe e proclama publicamente. Do meio da massa uma pessoa se manifesta!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Noutras ocasi\u00f5es Jesus fala, ordena, toca nas pessoas. Aqui \u00e9 suficiente a barra de um manto, quem sabe, cheio da poeira das estradas, para estabelecer um contato pessoal da mulher com Jesus! Se o plano de salva\u00e7\u00e3o do Pai abra\u00e7a tudo o que existe e a miss\u00e3o do Filho e do Esp\u00edrito abrange toda a cria\u00e7\u00e3o, todos os meios para comunicar a boa nova podem ser adotados por Deus para tocar o cora\u00e7\u00e3o humano. Muitos foram tocados at\u00e9 pela sombra de Pedro nos Atos dos Ap\u00f3stolos (Cf. At 5, 12-16). No correr da hist\u00f3ria da Igreja, a liberalidade do amor de Deus se serviu de in\u00fameras pessoas para sinalizar que o Senhor Jesus permanece conosco at\u00e9 o fim dos tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tamb\u00e9m nossas prociss\u00f5es, nossos gestos, o canto, as promessas e a corda do C\u00edrio podem ser como a veste a ser tocada para estabelecer o contato com as realidades sagradas, ainda mais quando somos conduzidos pelas m\u00e3os maternas da Virgem de Nazar\u00e9, que aceitou ser escrava do Senhor para que o Verbo de Deus se fizesse carne. E todas as gera\u00e7\u00f5es a proclamam bem-aventurada, como fazemos aqui. Todas as coisas boas que fazemos nos dias do C\u00edrio, com nossa vibra\u00e7\u00e3o e nossas emo\u00e7\u00f5es, podem ser espa\u00e7os que o Verbo de Deus n\u00e3o desdenha. S\u00e3o orlas de seu manto, atrav\u00e9s das quais pode oferecer a gra\u00e7a da salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas a barra da roupa de Jesus \u00e9 apenas um peda\u00e7o de seu manto. O manto nos leva a quem o veste e \u00e9 mais importante do que a roupa! \u00c9 necess\u00e1rio que do meio da multid\u00e3o cada pessoa saiba que tem nome e hist\u00f3ria, que \u00e9 amada e levada a s\u00e9rio por Deus e diga seu sim a Ele, a modo de Maria em Nazar\u00e9. O C\u00edrio \u00e9 mutir\u00e3o de evangeliza\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia de convers\u00e3o para quem dele participa. Quem apenas \u201cassiste\u201d, joga fora a grande oportunidade, um presente de Deus. C\u00edrio se vive como acontecimento de f\u00e9, muito maior do que o alcance cultural do evento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A corda que se estende por nossas ruas, atrelada \u00e0 berlinda que conduz a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazar\u00e9 \u00e9 um dos sinais do desejo profundo existente em nossos cora\u00e7\u00f5es de um contato com o que \u00e9 sagrado. E Deus sabe o quanto este sinal tem sido importante para tantos de n\u00f3s. Entretanto, mais importante do que um peda\u00e7o de corda, levado para casa como lembran\u00e7a, ser\u00e1 atrelar a pr\u00f3pria vida ao Senhor e \u00e0 sua Igreja. \u00c9 a experi\u00eancia magn\u00edfica descrita pelo profeta Os\u00e9ias: \u201cSim, fui eu quem ensinou Efraim a andar, segurando-o pela m\u00e3o. S\u00f3 que eles n\u00e3o percebiam que era eu quem deles cuidava. Eu os lacei com la\u00e7os de amizade, eu os amarrei com cordas de amor; fazia com eles como quem toma uma crian\u00e7a ao colo e a traz at\u00e9 junto ao rosto. Para dar-lhes de comer eu me abaixava at\u00e9 eles\u201d (Os 11, 3-4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em nome da humanidade, a imagem de Nossa Senhora de Nazar\u00e9 traz nos bra\u00e7os o trof\u00e9u da vit\u00f3ria, Jesus Menino! Ternura nos bra\u00e7os e no olhar, para fazer-nos de novo como crian\u00e7as acolhidas no rega\u00e7o. M\u00e3e e Filho! Em Jesus Cristo est\u00e1 nossa vida e nossa esperan\u00e7a de Ressurrei\u00e7\u00e3o. Sem Ele nada podemos fazer. A M\u00e3e que o Pai preparou para seu Filho amado continuar\u00e1 proclamando no C\u00edrio e em todos os dias de nossa vida: \u201cFazei tudo o que Ele vos disser\u201d (Jo 2, 5). \u00c9 o jeito de Maria nos dizer \u201cFeliz C\u00edrio\u201d, como dizemos durante o C\u00edrio de Nazar\u00e9!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A decis\u00e3o de caminhar em dire\u00e7\u00e3o ao santu\u00e1rio j\u00e1 \u00e9 uma confiss\u00e3o de f\u00e9, o caminhar \u00e9 um verdadeiro canto de esperan\u00e7a e a chegada \u00e9 um encontro de amor. O olhar do peregrino para a imagem da Virgem de Nazar\u00e9 simboliza a ternura e a proximidade de Deus e da M\u00e3e de Deus. O amor se det\u00e9m, contempla o sil\u00eancio, desfruta dele em sil\u00eancio. Tamb\u00e9m se comove, derramando todo o peso de sua dor e de seus sonhos. A s\u00faplica sincera, que flui confiadamente, \u00e9 a melhor express\u00e3o de um cora\u00e7\u00e3o que renunciou \u00e0 autossufici\u00eancia, reconhecendo que, sozinho, nada \u00e9 poss\u00edvel. Um breve instante de pedido sintetiza uma viva experi\u00eancia espiritual. Peregrinos do C\u00edrio somos todos n\u00f3s, chamados a viver a experi\u00eancia de um mist\u00e9rio que nos supera, uma realidade que envolve a vida de Igreja e supera nossa fam\u00edlia, nosso bairro e nosso trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A piedade popular penetra delicadamente a exist\u00eancia pessoal de cada fiel e ainda que se viva em uma multid\u00e3o, envolve toda a nossa vida. Nos diferentes momentos da luta cotidiana, muitos de n\u00f3s recorremos a algum sinal do amor de Deus: um crucifixo, uma medalha, um ros\u00e1rio, uma vela que se acende para acompanhar um filho em sua enfermidade, um Pai Nosso recitado entre l\u00e1grimas, uma Ave-Maria, uma promessa, uma corda que nos faz pr\u00f3ximos uns dos outros para nos aproximar de Deus, um olhar carinhoso para a imagem querida de Maria, um sorriso dirigido ao C\u00e9u em meio a uma simples alegria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nossa piedade popular mariana \u00e9 uma maneira leg\u00edtima de viver a f\u00e9, um modo de se sentir parte da Igreja e uma forma de ser mission\u00e1rios, onde se recolhem as mais profundas vibra\u00e7\u00f5es de nosso cora\u00e7\u00e3o, de nossa cultura e mais ainda de nossa f\u00e9. No ambiente de seculariza\u00e7\u00e3o em que vivem nossos povos, o C\u00edrio continua sendo uma poderosa confiss\u00e3o do Deus vivo que age na hist\u00f3ria e um canal de transmiss\u00e3o da f\u00e9. O \u201ccaminhar juntos\u201d para o santu\u00e1rio e a participa\u00e7\u00e3o em outras manifesta\u00e7\u00f5es da piedade popular, levando tamb\u00e9m os filhos ou convidando a outras pessoas, \u00e9 em si mesmo um gesto evangelizador pelo qual o povo crist\u00e3o evangeliza a si mesmo e cumpre a voca\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria da Igreja. (Cf. Documento de Aparecida 259-264)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Alberto Taveira Corr\u00eaa Arcebispo de Bel\u00e9m do Par\u00e1 No in\u00edcio do s\u00e9culo VIII, encontramos uma imagem de Nossa Senhora de Nazar\u00e9, cuja origem \u00e9 cercada de lendas, em Portugal, no monte de S\u00e3o Bartolomeu. 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