{"id":35776,"date":"2019-11-01T00:00:00","date_gmt":"2019-11-01T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/morte-porque-nao-pensei-nisso-antes\/"},"modified":"2019-11-01T00:00:00","modified_gmt":"2019-11-01T03:00:00","slug":"morte-porque-nao-pensei-nisso-antes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/morte-porque-nao-pensei-nisso-antes\/","title":{"rendered":"Morte: porque n\u00e3o pensei nisso antes?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Ricardo Hoepers<\/strong><br \/>\n<strong>Bispo do Rio Grande\/RS<\/strong><br \/>\nDiretor do Instituto Superior de Forma\u00e7\u00e3o Human\u00edstica da UCPel<br \/>\nPresidente da Comiss\u00e3o Especial de Bio\u00e9tica da CNBB<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong><\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cA morte \u00e9 o destino de todos os homens. Destino inexor\u00e1vel, tanto que nem mesmo se sabe se ela colhe primeiro uma pessoa anci\u00e3 ou uma pessoa jovem\u201d, diz Karl Rahner em um pref\u00e1cio seu, ao livro de Silvano Zuchal,<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> escrito dois anos antes de sua morte. De fato, a morte sempre foi um tema de grande interesse e inspirador de muita produ\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e teol\u00f3gica, porque exatamente, faz parte de nosso destino e interessa a todo homem. Ela tornou-se objeto de pesquisa e, na hist\u00f3ria \u00e9 poss\u00edvel perceber as diferentes leituras e interpreta\u00e7\u00f5es dadas a esse acontecimento dram\u00e1tico e intrigante<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. Faggioni, um sacerdote, m\u00e9dico e professor de bio\u00e9tica italiano recorda que, se por um lado, de Agostinho \u00e0 Heidegger houve um convite para acolher a morte com sabedoria, pois esta \u00e9 uma express\u00e3o da intr\u00ednseca finitude do homem, por outro lado, percebemos que a morte \u00e9 um limite extr\u00ednseco \u00e0 nossa exist\u00eancia pessoal podendo ser comparado como um mal que vem de fora, uma diminui\u00e7\u00e3o da integridade da pessoa ou at\u00e9 mesmo como a sua destrui\u00e7\u00e3o total<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O fato \u00e9 que, acima dessas discuss\u00f5es ou especula\u00e7\u00f5es, milh\u00f5es de pessoas, no mundo inteiro, no dia 02 de novembro, acorrem aos cemit\u00e9rios para expressar sentimentos de saudades, de tristeza, de paz, de ang\u00fastia, de esperan\u00e7a, de amor e de f\u00e9, isto \u00e9, express\u00f5es do que temos de mais humano, mas ao mesmo tempo, sentimentos sublimes que nos levam a pensar em Deus, no transcendente, no espiritual, na eternidade. Recordar os fieis defuntos \u00e9 uma comemora\u00e7\u00e3o tradicional da Igreja Cat\u00f3lica e, no termo \u201cdefunto\u201d resgata o sentido mais verdadeiro da conclus\u00e3o da vida biol\u00f3gica, n\u00e3o como um fim, mas como uma passagem. DEFUNCTUS, vem do latim e significa \u201caquele que realizou\u201d, \u201cque levou a termo\u201d, \u201ccumpriu sua vida\u201d. Para n\u00f3s crist\u00e3os, a morte foi vencida, na ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. Essa \u00e9 a profiss\u00e3o de f\u00e9: creio na comunh\u00e3o dos santos, na ressurrei\u00e7\u00e3o da carne, na vida eterna. Am\u00e9m! \u00c9 um momento significativo que toca o profundo do ser humano, onde ele se encontra consigo mesmo, com os seus entes queridos j\u00e1 falecidos, recorda sua hist\u00f3ria e une os sentimentos com uma express\u00e3o de f\u00e9 que d\u00e1 alento e esperan\u00e7a na vida que h\u00e1 de vir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O debate sobre os confins entre a vida e a morte n\u00e3o \u00e9 novo, pois a humanidade sempre esteve atenta aos sinais da morte e buscou decifrar esse processo nas suas mais variadas manifesta\u00e7\u00f5es: \u201cdar o \u00faltimo suspiro\u201d, \u201cexpirar\u201d, \u201centregar o esp\u00edrito\u201d, foram express\u00f5es muito usadas para definir a chegada da morte que era vinculada ao ato de parar de respirar. Mas, talvez, nunca na hist\u00f3ria da humanidade, vivemos uma crise t\u00e3o acirrada em rela\u00e7\u00e3o a esse fen\u00f4meno natural que \u00e9 a finitude da nossa exist\u00eancia, a ponto de tornar o processo de morte um tabu, um inimigo a ser combatido, uma realidade negada, como est\u00e3o fazendo os p\u00f3s-humanistas ou transumanistas<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, que acreditam na poss\u00edvel manipula\u00e7\u00e3o total dos c\u00f3digos da evolu\u00e7\u00e3o do ser humano atrav\u00e9s do uso da tecnologia, em vista do seu aperfei\u00e7oamento, inclusive a supera\u00e7\u00e3o da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A bio\u00e9tica tem procurado ponderar e mediar, com o uso da raz\u00e3o e do di\u00e1logo multidisciplinar cient\u00edfico, as discuss\u00f5es dos transumanistas com os bioconservadores<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. O conceito do desenvolvimento da t\u00e9cnica para o aperfei\u00e7oamento do humano traz consigo tantos benef\u00edcios, mas tamb\u00e9m tantos perigos. N\u00e3o se trata de uma mera presen\u00e7a ou um modo de fazer, mas de certo dom\u00ednio que vem penetrando \u00e0s ra\u00edzes da pr\u00f3pria vida, naquilo que h\u00e1 de mais \u00edntimo no ser humano. O primado da t\u00e9cnica \u00e9 o fazer e o homem corre o risco de tornar-se seu funcion\u00e1rio<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>. Para n\u00e3o correr perigo de nos tornarmos prisioneiros da ditadura da t\u00e9cnica e do relativismo que ela traz consigo \u00e9 necess\u00e1rio sempre voltarmos nossa reflex\u00e3o a partir da consci\u00eancia da nossa voca\u00e7\u00e3o e discernir os perigos de reduzirmos nossa humanidade ao mero <em>faciendum<\/em>. A consci\u00eancia nos remete a assegurar a dignidade humana diante desses perigos de desumaniza\u00e7\u00e3o e da tecnocracia. Para evitar assim, essa coisifica\u00e7\u00e3o humana, que pode acontecer desde a fecunda\u00e7\u00e3o, com a manipula\u00e7\u00e3o dos embri\u00f5es, at\u00e9 a morte, como na eutan\u00e1sia, o trafico de \u00f3rg\u00e3os e outros abusos afins, \u00e9 preciso uma constante vig\u00edlia. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel assimilar ingenuamente a falsa imagem de que \u00e9 o homem a se auto produzir, perdendo o sentido da natural e sobrenatural da sua dignidade humana e caindo numa antropologia das circunst\u00e2ncias onde a autonomia \u00e9 a \u00faltima palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Neste m\u00eas outubro passado, por exemplo, no dia 12, al\u00e9m do dia de Nossa Senhora Aparecida, recordamos o dia mundial dos cuidados paliativos. Nosso Observat\u00f3rio de Bio\u00e9tica da CNBB, aqui no Rio Grande do Sul, tratou do tema dos cuidados paliativos, assessorados pela equipe de Passo Fundo e nos apontou a necessidade urgente do cuidado, como fator primordial da sa\u00fade integral do ser humano. Nos processos de final de vida h\u00e1 muito o que fazer, h\u00e1 muito que cuidar, e para isso, \u00e9 importante considerar a morte como parte da vida, e n\u00e3o neg\u00e1-la com obsess\u00f5es terap\u00eauticas que aumentam o sofrimento de quem est\u00e1 em fase terminal. Os extremos nos levam a antecipar a morte, como na eutan\u00e1sia, ou a prorrog\u00e1-la como na distan\u00e1sia. O cuidado paliativo, ao contr\u00e1rio, respeita a dignidade da pessoa e a sacralidade de sua vida com o conforto f\u00edsico, emocional, espiritual, e integral, necess\u00e1rios nesta etapa primordial da vida, que \u00e9 o seu fim natural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Faggioni, analisa a atual situa\u00e7\u00e3o do conceito de morte como fruto de uma cultura narcisista, materialista e secularizada onde a morte se tornou <em>tanocr\u00e1tica e tabu\u00edstica<\/em><a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>. Tanocr\u00e1tica, porque imp\u00f5e uma cultura de morte justificando que a sociedade constitu\u00edda desse modo deve responder com ordem \u00e0s situa\u00e7\u00f5es de marginalidade. Os mais fracos e vulner\u00e1veis se tornaram v\u00edtimas quotidianas dessa sociedade armada e violenta, que vem \u00a0disseminando \u00f3dio e acostumando-se com a morte social. Tabu\u00edstica, porque ao mesmo tempo em que se constata a morte todos os dias, ocasionada pela viol\u00eancia e injusti\u00e7a, ela \u00e9 s\u00edmbolo da fraqueza e aniquila\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio homem, que se v\u00ea amea\u00e7ado e n\u00e3o aceita seu limite e finitude, tornando a morte sua maior inimiga, da qual n\u00e3o ousa nem falar. Ao falar da morte como tabu comprometemos nossa maneira de enfrentar o \u00faltimo instante da vida perdendo a dimens\u00e3o humana e espiritual dessa experi\u00eancia, tutelando cada vez mais \u00e0 tecnologia, o controle e a programa\u00e7\u00e3o do nosso processo de morrer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando se imp\u00f5e uma antropologia que fundamenta o uso do ser humano em determinadas circunst\u00e2ncias para outros fins, a vida ser\u00e1 sempre manipulada conforme os interesses do momento. Mas se for avaliada a partir de uma antropologia personalista que respeita a sacralidade da vida, n\u00e3o se deixar\u00e1 influenciar pelos fatores acidentais, mas respeitar\u00e1 no seu processo de decl\u00ednio toda a dignidade que este momento traz consigo. Para respeitar a pessoa em cada circunst\u00e2ncia, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio saber com exatid\u00e3o se esta disp\u00f5e plenamente das faculdades de pensamento e vontade, se tem capacidade de linguagem e rela\u00e7\u00e3o, enfim qualquer justificativa que limitasse a pessoa a posse de particularidades. Ao contr\u00e1rio, na pessoa humana est\u00e1 presente, desde o seu in\u00edcio ao seu fim, o mesmo elemento fundamental que lhe \u00e9 essencialmente pr\u00f3prio e que est\u00e1 escrito no seu ser durante toda a sua vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A morte continua a ser um grande mist\u00e9rio, indecifr\u00e1vel aos esquemas emp\u00edricos e inalcan\u00e7\u00e1vel \u00e0s metodologias da casu\u00edstica tradicional. Sua dimens\u00e3o \u00e9 tal que foge aos par\u00e2metros cient\u00edficos e filos\u00f3ficos do conhecimento humano. \u00c9, por\u00e9m a experi\u00eancia que todo o ser humano viver\u00e1 um dia, e nenhuma tecnologia pode tirar o direito a morrer com dignidade, porque a morte tem seu sentido e, como mist\u00e9rio faz parte dos mist\u00e9rios de todos os dias, o mist\u00e9rio de um olhar amigo ou de um sorriso forte, do mist\u00e9rio da bondade e solidariedade de quem nos acompanha do momento da morte at\u00e9 o t\u00famulo. Como nos lembra Wladimir Jank\u00e9l\u00e9vitch,<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> no fim do calv\u00e1rio de Ivan Il\u2019ic, no final de <em>Anna Karenina<\/em> de Tolstoi, ele nos faz pensar como o mist\u00e9rio da morte pode ser mal compreendido ou inteiramente mal interpretado por n\u00f3s. Pensando na morte como um tab\u00fa n\u00f3s a complicamos, mas podemos experiment\u00e1-la tamb\u00e9m como uma experi\u00eancia simples, como as solu\u00e7\u00f5es da vida e do amor, ou como nossas intui\u00e7\u00f5es que depois dizemos: \u201cporque n\u00e3o pensei nisso antes?\u201d. Enfim, Ivan expressa-se assim, antes de morrer: \u201cComo \u00e9 bom, e como \u00e9 f\u00e1cil\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>. \u00c9 exatamente o nosso ato de profunda humildade diante do mist\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Silvano Zuchal, <em>La teologia della morte in Karl Rahner<\/em>, Instituto Trentino de Cultura-Pubblicazioni dell\u2019Istituto di Scienze Religiose, EDB, Bologna 1982, 7-8.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Para encontrar uma bibliografia interessante da morte nos diversos per\u00edodos da hist\u00f3ria da Idade Medieval at\u00e9 a Idade Contempor\u00e2nea, bem como uma excelente sele\u00e7\u00e3o de autores que trabalham o tema da morte como Imagin\u00e1rio e Representa\u00e7\u00e3o, numa leitura antropol\u00f3gica, cf. Michel Vovelle, <em>La morte e l\u2019Occidente, dal 1300 ai giorni nostri<\/em>, Editora Laterza, Roma-Bari 2009, 733-738.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Cf. Maurizio Pietro Faggioni, <em>La vita nelle nostre mani, manuale di bioetica teologica<\/em>, Edizione Camilliane, Torino 2009, 209.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> David Perarce e Nick Bostrom criaram em 1997 a WTA\/H+, World Transhumanist Association\/Human plus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Francis Fukuyama e Jurgen Habermas tem que essa mentalidade possa comprometer os valores mais fundamentais da humanidade e uma instrumentaliza\u00e7\u00e3o da biolog\u00eda humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Cf. Umberto Galimberti, <em>La morte dell\u2019agire e il primato del fare nell\u2019et\u00e0 della tecnica<\/em>, Alboversorio, Milano 2008, 21.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Cf. M. Faggioni, <em>La vita nelle nostre mani\u2026,<\/em> 333.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Wladimir Jank\u00e9l\u00e9vitch, <em>La morte<\/em>, Giulio Einaudi Editore, Torino 2009, 463.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> W. Jank\u00e9l\u00e9vitch, <em>La morte&#8230;<\/em>, 463.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Ricardo Hoepers Bispo do Rio Grande\/RS Diretor do Instituto Superior de Forma\u00e7\u00e3o Human\u00edstica da UCPel Presidente da Comiss\u00e3o Especial de Bio\u00e9tica da CNBB \u201cA morte \u00e9 o destino de todos os homens. 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