{"id":35898,"date":"2019-11-19T00:00:00","date_gmt":"2019-11-19T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-rechaco-aos-pobres-aporofobia\/"},"modified":"2019-11-19T00:00:00","modified_gmt":"2019-11-19T03:00:00","slug":"o-rechaco-aos-pobres-aporofobia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/o-rechaco-aos-pobres-aporofobia\/","title":{"rendered":"O recha\u00e7o aos pobres: aporofobia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><strong>Dom Jo\u00e3o Justino de Medeiros Silva<\/strong><br \/>\n<strong>Arcebispo Metropolitano de Montes Claros (MG)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O tema dos pobres est\u00e1 presente em toda a B\u00edblia. Jesus mesmo se identificou com eles, sendo um deles (cf. 2Cor 8,9). Falou de sua miss\u00e3o de \u201cevangelizar os pobres\u201d (Lc 4,18). Ensinou aos seus disc\u00edpulos o servi\u00e7o aos pequenos (cf. Mt 25,31-46). A hist\u00f3ria registra, ao longo dos s\u00e9culos, a sensibilidade crist\u00e3 com a pobreza e os in\u00fameros servi\u00e7os que despontaram para o atendimento aos pobres. Uma multid\u00e3o de religiosos e religiosas consagraram suas vidas a cuidar de \u00f3rf\u00e3os, de enfermos, de vi\u00favas, de idosos, de mulheres em situa\u00e7\u00e3o de prostitui\u00e7\u00e3o, de prisioneiros entre outros. Esse cuidado se perpetua nas obras sociais da Igreja cat\u00f3lica, em n\u00famero praticamente imposs\u00edvel de ser catalogado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o faltou, tamb\u00e9m, o embate das perspectivas diferentes sobre o servi\u00e7o aos pobres. O risco do assistencialismo foi tantas vezes evocado. Insistiu-se na necessidade da promo\u00e7\u00e3o social. Quem nunca ouviu dizer \u201cN\u00e3o basta dar o peixe. \u00c9 preciso ensinar a pescar\u201d? H\u00e1, tamb\u00e9m, a\u00e7\u00f5es de conscientiza\u00e7\u00e3o. Para essa corrente \u00e9 preciso libertar o pobre de seu conformismo e despert\u00e1-lo para a consci\u00eancia de seus direitos como cidad\u00e3o. Ilumina esses diferentes olhares a palavra de Dom H\u00e9lder C\u00e2mara: \u201cQuando ajudo diretamente os pobres me chamam de santo. Quando pergunto por que est\u00e3o pobres, me chamam de comunista\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Hoje s\u00e3o muitas as institui\u00e7\u00f5es devotadas \u00e0s causas dos pobres. Igrejas, associa\u00e7\u00f5es, sindicatos, ONGs e o pr\u00f3prio poder p\u00fablico desenvolvem a\u00e7\u00f5es em favor dos pobres. Cresce a percep\u00e7\u00e3o da necess\u00e1ria integra\u00e7\u00e3o dos projetos, evitando a duplicidade de a\u00e7\u00f5es. Di\u00e1logos, rodas de conversa, f\u00f3runs e semin\u00e1rios s\u00e3o realizados com o intuito de organizar o servi\u00e7o aos que est\u00e3o socialmente vulner\u00e1veis e clamam o apoio de toda a sociedade. \u00c9 sempre maior a certeza de que a assist\u00eancia social precisa ser criticamente pensada e organicamente elaborada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Adela Cortina, fil\u00f3sofa da Universidade de Valencia, Espanha, introduziu uma nova e urgente quest\u00e3o para a \u00e9tica no tratamento dos pobres. Essa fil\u00f3sofa d\u00e1 nome a um comportamento mais que comum na sociedade hodierna. Ela observa que a xenofobia (medo ou recha\u00e7o ao diferente, ao estrangeiro) \u00e9 seletiva. Os pa\u00edses n\u00e3o receiam receber turistas estrangeiros que alimentam a economia local. No entanto, recha\u00e7am os imigrantes pobres e os refugiados pol\u00edticos, fecham as fronteiras e at\u00e9 constroem cercas e muros. N\u00e3o h\u00e1 protestos quando um time de futebol compra, por milhares de d\u00f3lares, um jogador estrangeiro. Nem se recusa a entrada no pa\u00eds de uma banda de rock para uma viagem de apresenta\u00e7\u00f5es. Diante da constata\u00e7\u00e3o de uma xenofobia seletiva, identifica-se a exist\u00eancia de uma verdadeira aporofobia (do grego \u201c\u00e1poros\u201d que quer dizer pobre). N\u00e3o \u00e9 todo estrangeiro que \u00e9 recha\u00e7ado, mas aquele que \u00e9 pobre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sim, o que existe \u00e9 o recha\u00e7o aos pobres. Aqui e ali emergem rea\u00e7\u00f5es dos n\u00e3o-pobres contra os pobres. Ditas \u201cpessoas de bem\u201d refutam os empobrecidos e at\u00e9 se organizam para se defenderem de uma eventual proximidade deles, como a chegada de um servi\u00e7o de atendimento aos pobres pr\u00f3ximo de suas resid\u00eancias. A democracia se enfraquece ao se recha\u00e7ar os pobres e os seus direitos como cidad\u00e3os. Urge indignar-se diante da aporofobia e trabalhar incansavelmente para a hospitalidade, caminho primeiro para a supera\u00e7\u00e3o da fome e da mis\u00e9ria. Para os crist\u00e3os, est\u00e1 em jogo a centralidade do mandamento de Jesus: \u201cAmai-vos uns aos outros como eu vos amei\u201d (Jo 13,34).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o Justino de Medeiros Silva Arcebispo Metropolitano de Montes Claros (MG) O tema dos pobres est\u00e1 presente em toda a B\u00edblia. Jesus mesmo se identificou com eles, sendo um deles (cf. 2Cor 8,9). Falou de sua miss\u00e3o de \u201cevangelizar os pobres\u201d (Lc 4,18). Ensinou aos seus disc\u00edpulos o servi\u00e7o aos pequenos (cf. 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