{"id":36462,"date":"2020-01-21T00:00:00","date_gmt":"2020-01-21T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/no-dia-nacional-de-combate-a-intolerancia-religiosa-dom-zanoni-enaltece-o-dialogo\/"},"modified":"2020-01-21T00:00:00","modified_gmt":"2020-01-21T03:00:00","slug":"no-dia-nacional-de-combate-a-intolerancia-religiosa-dom-zanoni-enaltece-o-dialogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/no-dia-nacional-de-combate-a-intolerancia-religiosa-dom-zanoni-enaltece-o-dialogo\/","title":{"rendered":"No Dia Nacional de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa, dom Zanoni enaltece o di\u00e1logo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Motivado pela C\u00e1ritas Brasileira, por ocasi\u00e3o do Dia Nacional de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa, celebrado em 21 de janeiro, o arcebispo de Feira de Santana (BA), e membro da Comiss\u00e3o Episcopal Pastoral para o Ecumenismo e Di\u00e1logo Inter-religioso da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Zanoni Demettino Castro, fala sobre a quest\u00e3o e afirma: \u201cUm modo para combater essas realidades de intoler\u00e2ncia s\u00e3o as experi\u00eancias de di\u00e1logo, de relacionamento, de conviv\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Confira a entrevista na \u00edntegra:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Qual o cen\u00e1rio atual em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 intoler\u00e2ncia religiosa, como a Igreja dialoga com essa quest\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>O mundo em que vivemos \u00e9 eminentemente plural, diverso, rico de experi\u00eancias e povos, plural nos \u00e2mbitos sociocultural, eclesial e religioso. Esse pluralismo \u00e9 uma caracter\u00edstica forte no mundo globalizado e une os povos, como se fosse uma aldeia planet\u00e1ria, onde todos se encontram, mas, muitas vezes, tamb\u00e9m se desencontram. As diferen\u00e7as das culturas, dos credos enriquecem a hist\u00f3ria da nossa humanidade, mas tamb\u00e9m apresentam o desafio da conviv\u00eancia humana.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Muitos, e a\u00ed \u00e9 o desafio da nossa realidade, diante desse pluralismo vivem a afirma\u00e7\u00e3o segura, a tend\u00eancia ao fundamentalismo, uma atitude preconceituosa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 f\u00e9, isso, de fato, gera tens\u00f5es, afasta pessoas, povos, culturas, igrejas. Vemos crescer em nosso meio, em nossas comunidades, nas cidades, no campo, a intoler\u00e2ncia religiosa, as pessoas se fecham em sua tradi\u00e7\u00e3o, em seu credo, defendem a sua f\u00e9 de maneira r\u00edgida, quase que como uma Cruzada. Muitos terreiros s\u00e3o invadidos, muitas casas de tradi\u00e7\u00e3o africana s\u00e3o violadas, igrejas desrespeitadas, e n\u00e3o s\u00f3 em nosso contexto brasileiro, mas em todo o mundo.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Observamos tamb\u00e9m, \u00e0s vezes, a vulgariza\u00e7\u00e3o da nossa f\u00e9, nossos s\u00edmbolos crist\u00e3os cat\u00f3licos s\u00e3o criticados, tornam-se piadas. \u00c9 justamente essa realidade desafiadora que exige de n\u00f3s di\u00e1logo nessa realidade plural, diversa. Temos um cen\u00e1rio que\u00a0 desabsolutiza a verdade e possibilita a passagem daquilo que \u00e9 est\u00e1tico, fixo, para aquilo que \u00e9 din\u00e2mico e vers\u00e1til.\u00a0 \u00c9 preciso sair do mon\u00f3logo para o di\u00e1logo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>O racismo, em sua vers\u00e3o religiosa, fez aumentar o n\u00famero de casos de viol\u00eancia contra pessoas e grupos religiosos, na sua avalia\u00e7\u00e3o, por que estamos vendo o aumento dessas agress\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Sobre o racismo religioso, eu compreendo que h\u00e1 naquela afirma\u00e7\u00e3o antiga\u00a0\u201cExtra Ecclesiam nulla salus\u201d\u00a0(Fora da Igreja n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o), uma interpreta\u00e7\u00e3o destorcida, err\u00f4nea, nada crist\u00e3, em que se absolutiza a sua verdade religiosa, o modo, a maneira de viver a f\u00e9. E o pr\u00f3prio cristianismo, passa, sobretudo, pela evangeliza\u00e7\u00e3o, pelo an\u00fancio universal da salva\u00e7\u00e3o crist\u00e3. H\u00e1, de fato, uma distor\u00e7\u00e3o, a f\u00e9 \u00e9 defendida como se fosse n\u00e3o uma proposta de resposta a Deus, mas verdades, costumes, preconceitos em rela\u00e7\u00e3o ao outro, ao diferente.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>O cristianismo tem uma diversidade de express\u00f5es e n\u00f3s n\u00e3o podemos impor uma maneira \u00fanica de expressar essa f\u00e9. Por isso, vemos aumentar o n\u00famero de viol\u00eancia por causa da intoler\u00e2ncia religiosa. No entanto, a miss\u00e3o da Igreja \u00e9 evangelizar, dar uma not\u00edcia boa, isso passa, necessariamente, pela preocupa\u00e7\u00e3o com as pessoas. Evangelizar n\u00e3o \u00e9 elencar um grande n\u00famero de ideias, de valores, de verdades. Por isso, \u00e9 importante repensar a nossa f\u00e9, o modo como n\u00f3s evangelizamos, h\u00e1 necessidade de convers\u00e3o pastoral, como tem exigido o papa Francisco, ou seja, uma convers\u00e3o eclesial. \u00c9 preciso tocar as chagas de Jesus, o Cristo crucificado. N\u00e3o nos deter a essa tenta\u00e7\u00e3o de reduzir a f\u00e9 crist\u00e3 a normas, a prescri\u00e7\u00f5es, a proibi\u00e7\u00f5es, a um elenco de verdades.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Diversos casos de viol\u00eancia e intoler\u00e2ncia religiosa s\u00e3o atribu\u00eddos \u00e0 crist\u00e3os, isso nos indica que h\u00e1 fragilidades na forma\u00e7\u00e3o para o di\u00e1logo ecum\u00eanico e inter-religioso. A Igreja Cat\u00f3lica tem se ocupado dessa quest\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Sem d\u00favida alguma h\u00e1 uma defici\u00eancia, uma lacuna enorme na forma\u00e7\u00e3o, na identidade crist\u00e3, no di\u00e1logo com o outro, para que ele apresente tamb\u00e9m a sua verdade. Respeitar o modo diferente de ser \u00e9 preciso, assim como ter presente a sua identidade religiosa, mas \u00e9 fundamental saber ser relevante ao outro. H\u00e1 necessidade de repensar a nossa catequese, a forma\u00e7\u00e3o dos padres, a forma\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os. Mas, isso passa, necessariamente, pelo servi\u00e7o ao outro, o servi\u00e7o ao mundo.\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Diante dessa realidade de intoler\u00e2ncia e viol\u00eancia contra as igrejas ou \u00e0s comunidades de matriz africana, h\u00e1 tamb\u00e9m sinais prof\u00e9ticos que apontam para uma nova maneira de evangelizar.\u00a0 Muitas igrejas diante desses eventos se articulam, abrem di\u00e1logos, buscam se organizar para doa\u00e7\u00f5es em vista da reconstru\u00e7\u00e3o de terreiros que sofreram atentados, essas iniciativas apontam para novas maneiras de evangelizar e de perceber que o Esp\u00edrito Santo de Deus age onde quer, inclusive, em realidades e situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o est\u00e3o em nossos espa\u00e7os religiosos.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Esse contexto que vivemos nos faz compreender que nem tudo o que se refere ao Cristo, \u00e0 Igreja, nem tudo que se fala sobre a f\u00e9 crist\u00e3 corresponde ao ensinamento de Jesus: aquele que passou a vida fazendo o bem, n\u00e3o teve preconceito para com o estrangeiro, sentou-se \u00e0 mesa com os pecadores, falou de maneira respeitosa, sem nenhum machismo ou patriarcalismo com as mulheres, amou sem impor condi\u00e7\u00e3o. Eu creio que mais do que nunca n\u00f3s precisamos fazer com que os ensinamentos de Jesus marquem profundamente nossa miss\u00e3o, nossa pastoral.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Diante dessa realidade o papel da Igreja \u00e9 fundamental. Vejo com grande alegria o trabalho da Comiss\u00e3o Episcopal Pastoral para o Ecumenismo e Di\u00e1logo Inter-religioso da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que tem por miss\u00e3o promover a unidade dos crist\u00e3os e o di\u00e1logo inter-religioso no \u00e2mbito da Igreja Cat\u00f3lica, conforme nos ensina o magist\u00e9rio, as cartas apost\u00f3licas. Nesse sentido, despertar nos v\u00e1rios regionais da CNBB uma pastoral ecum\u00eanica, atividades que indicam esse di\u00e1logo entre as v\u00e1rias Igrejas, essas iniciativas que temos, como a Campanha da Fraternidade Ecum\u00eanica que re\u00fane v\u00e1rias Igrejas, s\u00e3o iniciativas fundamentais.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Como combater a cultura de viol\u00eancia e intoler\u00e2ncia e promover a cultura do di\u00e1logo e do respeito \u00e0s diferentes manifesta\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas de f\u00e9?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Um modo para combater essas realidades de intoler\u00e2ncia s\u00e3o as experi\u00eancias de di\u00e1logo, de relacionamento, de conviv\u00eancia, os encontros entre as comunidades, como acontece durante a Campanha da Fraternidade Ecum\u00eanica, que re\u00fane os crist\u00e3os, ou as celebra\u00e7\u00f5es que realizamos na Semana de Unidade dos Crist\u00e3os, por ocasi\u00e3o da Novena de Pentecostes.\u00a0 Mas tamb\u00e9m, nas viv\u00eancias do dia a dia, na luta pela justi\u00e7a, no cuidado com os pobres, nas comunidades terap\u00eauticas, na luta pela democracia. Quanto espe\u00e7o de di\u00e1logo e aproxima\u00e7\u00e3o h\u00e1 entre as comunidades! Eu mesmo tenho participado de cultos com pastores pentecostais, aceito convites de institui\u00e7\u00f5es religiosos, participo aqui em Feira de Santana de encontros, semin\u00e1rios, dentro da tem\u00e1tica do an\u00fancio da esperan\u00e7a e do fortalecimento da cultura do di\u00e1logo, isso \u00e9 fundamental.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Estamos vivendo no Brasil h\u00e1 algum tempo o uso da tem\u00e1tica religiosa para fins pol\u00edticos econ\u00f4micos. Quais os riscos dessa apropria\u00e7\u00e3o religiosa em campos como esses?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>A manipula\u00e7\u00e3o, a utiliza\u00e7\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3 como respaldo para posturas conservadoras, pol\u00edticas que defendem a ditadura ou realidades n\u00e3o democr\u00e1ticas, \u00e9 uma grande preocupa\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o tem nada haver com o cristianismo, o cristianismo passa pela defesa das pessoas, pela liberdade.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Quando se tem presente o C\u00e2ntico de Maria: \u201cO Senhor eleva os humildes e derruba dos tronos os poderosos\u201d (Lc 1, 46-56),\u00a0 percebemos que o que fazem n\u00e3o parece, de forma alguma, com o cristianismo, uma vez que negam a defesa dos direitos humanos, apontam para o caminho do desrespeito aos pobres,\u00a0 negam a diversidade e a participa\u00e7\u00e3o aut\u00eantica das pessoas.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>A liberdade religiosa \u00e9 um princ\u00edpio e um direito assegurado na Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos de 1948 e na Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira. Nosso pa\u00eds tem se ocupado de fazer valer esse direito?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Nosso pa\u00eds tem uma tradi\u00e7\u00e3o de cultura crist\u00e3, mas somos um pa\u00eds laico, isso n\u00e3o quer dizer que podemos desrespeitar as culturas religiosas, mas que precisamos garantir n\u00e3o seja um espa\u00e7o para impor um modo \u00fanico, uma maneira isolada de um grupo, de uma manifesta\u00e7\u00e3o religiosa, ou de uma Igreja. E que n\u00e3o se utilize de maneira distorcida os princ\u00edpios crist\u00e3os, da fam\u00edlia, da solidariedade, do respeito. O pr\u00f3prio ensinamento de Jesus nos diz: \u201cNem todos aqueles que dizem: Senhor, Senhor, entrar\u00e3o no reino dos c\u00e9us, mas sim aqueles que fazem a vontade do meu Pai que est\u00e1 nos c\u00e9us\u201d (Mt 7,21). E a vontade de Deus n\u00e3o passa pela corrup\u00e7\u00e3o, pela mentira, pelo desrespeito \u00e0s pessoas, pela intransig\u00eancia, mas pelo di\u00e1logo, pela fraternidade, pela constru\u00e7\u00e3o de um mundo de paz.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bispo afirmou que \u201cum modo para combater as realidades de intoler\u00e2ncia s\u00e3o as experi\u00eancias de di\u00e1logo, de relacionamento, de conviv\u00eancia\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":3380,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[841],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/36462"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=36462"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/36462\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media\/3380"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=36462"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=36462"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=36462"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}