{"id":36490,"date":"2020-01-24T00:00:00","date_gmt":"2020-01-24T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/papa-francisco-divulga-mensagem-para-o-54o-dia-mundial-das-comunicacoes-sociais\/"},"modified":"2020-10-23T16:04:22","modified_gmt":"2020-10-23T19:04:22","slug":"papa-francisco-divulga-mensagem-para-o-54o-dia-mundial-das-comunicacoes-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/papa-francisco-divulga-mensagem-para-o-54o-dia-mundial-das-comunicacoes-sociais\/","title":{"rendered":"Papa Francisco divulga mensagem para o 54\u00ba Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">O Papa Francisco divulgou hoje, sexta-feira, 24 de janeiro, no dia mem\u00f3ria de S\u00e3o Francisco de Sales, a sua mensagem para o 54\u00b0 Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais intitulada \u201cPara que possas contar e fixar na mem\u00f3ria\u201d (Ex 10, 2). A vida faz-se hist\u00f3ria. O Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais ser\u00e1 celebrado em 24 de maio pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O eixo central da mensagem do Papa \u00e9 a narra\u00e7\u00e3o e o papel das boas hist\u00f3rias e narrativas na vida de cada ser humano. \u201cO homem \u00e9 um ente narrador. Desde pequenos, temos fome de hist\u00f3rias, como a temos de alimento. Sejam elas em forma de f\u00e1bula, romance, filme, can\u00e7\u00e3o, ou simples not\u00edcia, influenciam a nossa vida, mesmo sem termos consci\u00eancia disso. Muitas vezes, decidimos aquilo que \u00e9 justo ou errado com base nos personagens e hist\u00f3rias assimiladas. As narrativas marcam-nos, plasmam as nossas convic\u00e7\u00f5es e comportamentos, podem ajudar-nos a compreender e dizer quem somos\u201d, diz o texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na mensagem, o Santo Padre chama a aten\u00e7\u00e3o para as hist\u00f3rias que nos \u201cnarcotizam\u201d, convencendo-nos de que, para ser felizes, precisamos continuamente de ter, possuir, consumir. \u201cQuase n\u00e3o nos damos conta de qu\u00e3o \u00e1vido nos tornamos por bisbilhotices e intrigas, de quanta viol\u00eancia e falsidade consumimos. (&#8230;) Em vez de narra\u00e7\u00f5es construtivas, que solidificam os la\u00e7os sociais e o tecido cultural, produzem-se hist\u00f3rias devastadoras e provocat\u00f3rias, que corroem e rompem os fios fr\u00e1geis da conviv\u00eancia\u201d, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Numa \u00e9poca em se revela cada vez mais sofisticada a falsifica\u00e7\u00e3o, o Papa afirma que precisamos da sapi\u00eancia para patrocinar e criar narra\u00e7\u00f5es belas, verdadeiras e boas. O Papa tamb\u00e9m chamou a aten\u00e7\u00e3o para as falsas hist\u00f3rias. \u201cQuando se misturam informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o verificadas repetem discursos banais e falsamente persuasivos, percutem com proclama\u00e7\u00f5es de \u00f3dio, est\u00e1-se, n\u00e3o a tecer a hist\u00f3ria humana, mas a despojar o homem da sua dignidade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A B\u00edblia, afirma o Papa na mensagem, \u00e9 a grande hist\u00f3ria de amor entre Deus e a humanidade. A mensagem afirma que Jesus \u00e9 o centro desta narra\u00e7\u00e3o e sua hist\u00f3ria leva \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o o amor de Deus pelo homem e vice-versa. O Santo Padre afirma que o homem ser\u00e1 chamado, de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, a contar e ficar na mem\u00f3ria os epis\u00f3dios mais significativos desta Hist\u00f3ria de hist\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A mensagem afirma que depois que Deus Se fez hist\u00f3ria, toda hist\u00f3ria humana \u00e9, de certo modo, hist\u00f3ria divina. \u201cEm cada grande hist\u00f3ria, entra em jogo a nossa hist\u00f3ria. Ao mesmo tempo que lemos a Escritura, as hist\u00f3rias dos Santos e outros textos que souberam ler a alma do homem e trazer \u00e0 luz a sua beleza, o Esp\u00edrito Santo fica livre para escrever no nosso cora\u00e7\u00e3o, renovando em n\u00f3s a mem\u00f3ria daquilo que somos aos olhos de Deus\u201d.<\/p>\n<p>Conhe\u00e7a a mensagem a \u00edntegra:<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO<\/strong><br \/>\n<strong>PARA O LIV DIA MUNDIAL DAS COMUNICA\u00c7\u00d5ES SOCIAIS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>\u00ab \u201cPara que possas contar e fixar na mem\u00f3ria\u201d (Ex 10, 2).<\/strong><br \/>\n<strong>A vida faz-se hist\u00f3ria \u00bb<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Desejo dedicar a Mensagem deste ano ao tema da narra\u00e7\u00e3o, pois, para n\u00e3o nos perdermos, penso que precisamos de respirar a verdade das hist\u00f3rias boas: hist\u00f3rias que edifiquem, e n\u00e3o as que destruam; hist\u00f3rias que ajudem a reencontrar as ra\u00edzes e a for\u00e7a para prosseguirmos juntos. Na confus\u00e3o das vozes e mensagens que nos rodeiam, temos necessidade duma narra\u00e7\u00e3o humana, que nos fale de n\u00f3s mesmos e da beleza que nos habita; uma narra\u00e7\u00e3o que saiba olhar o mundo e os acontecimentos com ternura, conte a nossa participa\u00e7\u00e3o num tecido vivo, revele o entran\u00e7ado dos fios pelos quais estamos ligados uns aos outros.<\/p>\n<p><strong>1. Tecer hist\u00f3rias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O homem \u00e9 um ente narrador. Desde pequenos, temos fome de hist\u00f3rias, como a temos de alimento. Sejam elas em forma de f\u00e1bula, romance, filme, can\u00e7\u00e3o, ou simples not\u00edcia, influenciam a nossa vida, mesmo sem termos consci\u00eancia disso. Muitas vezes, decidimos aquilo que \u00e9 justo ou errado com base nos personagens e hist\u00f3rias assimiladas. As narrativas marcam-nos, plasmam as nossas convic\u00e7\u00f5es e comportamentos, podem ajudar-nos a compreender e dizer quem somos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O homem n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 o \u00fanico ser que precisa de vestu\u00e1rio para cobrir a pr\u00f3pria vulnerabilidade (cf. Gn 3, 21), mas tamb\u00e9m o \u00fanico que tem necessidade de narrar-se a si mesmo, \u00abrevestir-se\u00bb de hist\u00f3rias para guardar a pr\u00f3pria vida. N\u00e3o tecemos apenas roupa, mas tamb\u00e9m hist\u00f3rias: de fato, servimo-nos da capacidade humana de \u00abtecer\u00bb quer para os tecidos, quer para os textos. As hist\u00f3rias de todos os tempos t\u00eam um \u00abtear\u00bb comum: a estrutura prev\u00ea \u00abher\u00f3is\u00bb \u2013 mesmo do dia a dia \u2013 que, para encal\u00e7ar um sonho, enfrentam situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, combatem o mal movidos por uma for\u00e7a que os torna corajosos, a for\u00e7a do amor. Mergulhando dentro das hist\u00f3rias, podemos voltar a encontrar raz\u00f5es heroicas para enfrentar os desafios da vida.<\/p>\n<p>O homem \u00e9 um ente narrador, porque em devir: descobre-se e enriquece-se com as tramas dos seus dias. Mas, desde o in\u00edcio, a nossa narra\u00e7\u00e3o est\u00e1 amea\u00e7ada: na hist\u00f3ria, serpeja o mal.<\/p>\n<p>2. Nem todas as hist\u00f3rias s\u00e3o boas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00abSe comeres, tornar-te-\u00e1s como Deus\u00bb (cf. Gn 3, 4): esta tenta\u00e7\u00e3o da serpente introduz, na trama da hist\u00f3ria, um n\u00f3 dif\u00edcil de desfazer. \u00abSe possu\u00edres\u2026, tornar-te-\u00e1s\u2026, conseguir\u00e1s\u2026\u00bb: sussurra ainda hoje a quem se utiliza do chamado storytelling para fins instrumentais. Quantas hist\u00f3rias nos narcotizam, convencendo-nos de que, para ser felizes, precisamos continuamente de ter, possuir, consumir. Quase n\u00e3o nos damos conta de qu\u00e3o \u00e1vidos nos tornamos de bisbilhotices e intrigas, de quanta viol\u00eancia e falsidade consumimos. Frequentemente, nos \u00abteares\u00bb da comunica\u00e7\u00e3o, em vez de narra\u00e7\u00f5es construtivas, que solidificam os la\u00e7os sociais e o tecido cultural, produzem-se hist\u00f3rias devastadoras e provocat\u00f3rias, que corroem e rompem os fios fr\u00e1geis da conviv\u00eancia. Quando se misturam informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o verificadas, repetem discursos banais e falsamente persuasivos, percutem com proclama\u00e7\u00f5es de \u00f3dio, est\u00e1-se, n\u00e3o a tecer a hist\u00f3ria humana, mas a despojar o homem da sua dignidade.<\/p>\n<p>Mas, enquanto as hist\u00f3rias utilizadas para proveito pr\u00f3prio ou ao servi\u00e7o do poder t\u00eam vida curta, uma hist\u00f3ria boa \u00e9 capaz de transpor os confins do espa\u00e7o e do tempo: \u00e0 dist\u00e2ncia de s\u00e9culos, permanece atual, porque nutre a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Numa \u00e9poca em que se revela cada vez mais sofisticada a falsifica\u00e7\u00e3o, atingindo n\u00edveis exponenciais (o deepfake), precisamos de sapi\u00eancia para patrocinar e criar narra\u00e7\u00f5es belas, verdadeiras e boas. Necessitamos de coragem para rejeitar as falsas e depravadas. Precisamos de paci\u00eancia e discernimento para descobrirmos hist\u00f3rias que nos ajudem a n\u00e3o perder o fio, no meio das in\u00fameras lacera\u00e7\u00f5es de hoje; hist\u00f3rias que tragam \u00e0 luz a verdade daquilo que somos, mesmo na heroicidade oculta do dia a dia.<\/p>\n<p><strong>3. A Hist\u00f3ria das hist\u00f3rias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Sagrada Escritura \u00e9 uma Hist\u00f3ria de hist\u00f3rias. Quantas vicissitudes, povos, pessoas nos apresenta! Desde o in\u00edcio, mostra-nos um Deus que \u00e9 simultaneamente criador e narrador: de fato, pronuncia a sua Palavra e as coisas existem (cf. Gn 1). Deus, atrav\u00e9s deste seu narrar, chama \u00e0 vida as coisas e, no apogeu, cria o homem e a mulher como seus livres interlocutores, geradores de hist\u00f3ria juntamente com Ele. Temos um Salmo onde a criatura se conta ao Criador: \u00abTu modelaste as entranhas do meu ser e teceste-me no seio de minha m\u00e3e. Dou-Te gra\u00e7as por me teres feito uma maravilha estupenda (\u2026). Quando os meus ossos estavam a ser formados, e eu, em segredo, me desenvolvia, recamado nas profundezas da terra, nada disso Te era oculto\u00bb (Sal 139\/138, 13-15). N\u00e3o nascemos perfeitos, mas necessitamos de ser constantemente \u00abtecidos\u00bb e \u00abrecamados\u00bb. A vida foi-nos dada como convite a continuar a tecer a \u00abmaravilha estupenda\u00bb que somos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Neste sentido, a B\u00edblia \u00e9 a grande hist\u00f3ria de amor entre Deus e a humanidade. No centro, est\u00e1 Jesus: a sua hist\u00f3ria leva \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o o amor de Deus pelo homem e, ao mesmo tempo, a hist\u00f3ria de amor do homem por Deus. Assim, o homem ser\u00e1 chamado, de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, a contar e fixar na mem\u00f3ria os epis\u00f3dios mais significativos desta Hist\u00f3ria de hist\u00f3rias: os epis\u00f3dios capazes de comunicar o sentido daquilo que aconteceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O t\u00edtulo desta Mensagem \u00e9 tirado do livro do \u00caxodo, narrativa b\u00edblica fundamental que nos faz ver Deus a intervir na hist\u00f3ria do seu povo. Com efeito, quando os filhos de Israel, escravizados, clamam por Ele, Deus ouve e recorda-Se: \u00abDeus recordou-Se da sua alian\u00e7a com Abra\u00e3o, Isaac e Jacob. Deus viu os filhos de Israel e reconheceu-os\u00bb (Ex 2, 24-25). Da mem\u00f3ria de Deus brota a liberta\u00e7\u00e3o da opress\u00e3o, que se verifica atrav\u00e9s de sinais e prod\u00edgios. E aqui o Senhor d\u00e1 a Mois\u00e9s o sentido de todos estes sinais: \u00abPara que possas contar e fixar na mem\u00f3ria do teu filho e do filho do teu filho (\u2026) os meus sinais que Eu realizei no meio deles. E v\u00f3s conhecereis que Eu sou o Senhor\u00bb (Ex 10, 2). A experi\u00eancia do \u00caxodo ensina-nos que o conhecimento de Deus se transmite sobretudo contando, de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, como Ele continua a tornar-Se presente. O Deus da vida comunica-Se, narrando a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O pr\u00f3prio Jesus falava de Deus, n\u00e3o com discursos abstratos, mas com as par\u00e1bolas, breves narrativas tiradas da vida de todos os dias. Aqui a vida faz-se hist\u00f3ria e depois, para o ouvinte, a hist\u00f3ria faz-se vida: tal narra\u00e7\u00e3o entra na vida de quem a escuta e transforma-a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tamb\u00e9m os Evangelhos \u2013 n\u00e3o por acaso \u2013 s\u00e3o narra\u00e7\u00f5es. Enquanto nos informam acerca de Jesus, \u00abperformam-nos\u00bb[1] \u00e0 imagem de Jesus, configuram-nos a Ele: o Evangelho pede ao leitor que participe da mesma f\u00e9 para partilhar da mesma vida. O Evangelho de Jo\u00e3o diz-nos que o Narrador por excel\u00eancia \u2013 o Verbo, a Palavra \u2013 fez-Se narra\u00e7\u00e3o: \u00abO Filho unig\u00eanito, que \u00e9 Deus e est\u00e1 no seio do Pai, foi Ele quem O contou\u00bb (1, 18). Usei o termo \u00abcontou\u00bb, porque o original <em>exegh\u00e9sato<\/em> tanto se pode traduzir \u00abrevelou\u00bb como \u00abcontou\u00bb. Deus teceu-Se pessoalmente com a nossa humanidade, dando-nos assim uma nova maneira de tecer as nossas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p><strong>4. Uma hist\u00f3ria que se renova<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A hist\u00f3ria de Cristo n\u00e3o \u00e9 um patrim\u00f4nio do passado; \u00e9 a nossa hist\u00f3ria, sempre atual. Mostra-nos que Deus tomou a peito o homem, a nossa carne, a nossa hist\u00f3ria, a ponto de Se fazer homem, carne e hist\u00f3ria. E diz-nos tamb\u00e9m que n\u00e3o existem hist\u00f3rias humanas insignificantes ou pequenas. Depois que Deus Se fez hist\u00f3ria, toda a hist\u00f3ria humana \u00e9, de certo modo, hist\u00f3ria divina. Na hist\u00f3ria de cada homem, o Pai rev\u00ea a hist\u00f3ria do seu Filho descido \u00e0 terra. Cada hist\u00f3ria humana tem uma dignidade incancel\u00e1vel. Por isso, a humanidade merece narra\u00e7\u00f5es que estejam \u00e0 sua altura, \u00e0quela altura vertiginosa e fascinante a que Jesus a elevou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">V\u00f3s \u00absois uma carta de Cristo \u2013 escrevia S\u00e3o Paulo aos Cor\u00edntios \u2013, confiada ao nosso minist\u00e9rio, escrita, n\u00e3o com tinta, mas com o Esp\u00edrito do Deus vivo; n\u00e3o em t\u00e1buas de pedra, mas em t\u00e1buas de carne que s\u00e3o os vossos cora\u00e7\u00f5es\u00bb (2 Cor 3, 3). O Esp\u00edrito Santo, o amor de Deus, escreve em n\u00f3s. E, escrevendo dentro de n\u00f3s, fixa em n\u00f3s o bem, recorda-no-lo. De facto, <em>re-cordar<\/em> significa levar ao cora\u00e7\u00e3o, \u00abescrever\u00bb no cora\u00e7\u00e3o. Por obra do Esp\u00edrito Santo, cada hist\u00f3ria, mesmo a mais esquecida, mesmo aquela que parece escrita em linhas mais tortas, pode tornar-se inspirada, pode renascer como obra-prima, tornando-se um ap\u00eandice de Evangelho. Assim as Confiss\u00f5es de Agostinho, o Relato do Peregrino de In\u00e1cio, a Hist\u00f3ria de uma alma de Teresinha do Menino Jesus, os Noivos prometidos (Promessi sposi) de Alexandre Manzoni, os Irm\u00e3os Karamazov de Fi\u00f3dor Dostoevskij\u2026 e inumer\u00e1veis outras hist\u00f3rias, que t\u00eam representado admiravelmente o encontro entre a liberdade de Deus e a do homem. Cada um de n\u00f3s conhece v\u00e1rias hist\u00f3rias que perfumam de Evangelho: testemunham o Amor que transforma a vida. Estas hist\u00f3rias pedem para ser partilhadas, contadas, feitas viver em todos os tempos, com todas as linguagens, por todos os meios.<\/p>\n<p><strong>5. Uma hist\u00f3ria que nos renova<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em cada grande hist\u00f3ria, entra em jogo a nossa hist\u00f3ria. Ao mesmo tempo que lemos a Escritura, as hist\u00f3rias dos Santos e outros textos que souberam ler a alma do homem e trazer \u00e0 luz a sua beleza, o Esp\u00edrito Santo fica livre para escrever no nosso cora\u00e7\u00e3o, renovando em n\u00f3s a mem\u00f3ria daquilo que somos aos olhos de Deus. Quando fazemos mem\u00f3ria do amor que nos criou e salvou, quando metemos amor nas nossas hist\u00f3rias di\u00e1rias, quando tecemos de miseric\u00f3rdia as tramas dos nossos dias, nesse momento estamos a mudar de p\u00e1gina. J\u00e1 n\u00e3o ficamos atados a lamentos e tristezas, ligados a uma mem\u00f3ria doente que nos aprisiona o cora\u00e7\u00e3o, mas, abrindo-nos aos outros, abrimo-nos \u00e0 pr\u00f3pria vis\u00e3o do Narrador. Nunca \u00e9 in\u00fatil narrar a Deus a nossa hist\u00f3ria: ainda que permane\u00e7a inalterada a cr\u00f4nica dos fatos, mudam o sentido e a perspetiva. Narrarmo-nos ao Senhor \u00e9 entrar no seu olhar de amor compassivo por n\u00f3s e pelos outros. A Ele podemos narrar as hist\u00f3rias que vivemos, levar as pessoas, confiar situa\u00e7\u00f5es. Com Ele, podemos recompor o tecido da vida, cosendo as ruturas e os rasg\u00f5es. Quanto n\u00f3s, todos, precisamos disso!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com o olhar do Narrador \u2013 o \u00fanico que tem o ponto de vista final \u2013, aproximamo-nos depois dos protagonistas, dos nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s, atores juntamente conosco da hist\u00f3ria de hoje. Sim, porque ningu\u00e9m \u00e9 mero figurante no palco do mundo; a hist\u00f3ria de cada um est\u00e1 aberta a possibilidades de mudan\u00e7a. Mesmo quando narramos o mal, podemos aprender a deixar o espa\u00e7o \u00e0 reden\u00e7\u00e3o; podemos reconhecer, no meio do mal, tamb\u00e9m o dinamismo do bem e dar-lhe espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por isso, n\u00e3o se trata de seguir as l\u00f3gicas do storytelling, nem de fazer ou fazer-se publicidade, mas de fazer mem\u00f3ria daquilo que somos aos olhos de Deus, testemunhar aquilo que o Esp\u00edrito escreve nos cora\u00e7\u00f5es, revelar a cada um que a sua hist\u00f3ria cont\u00e9m maravilhas estupendas. Para o conseguirmos fazer, confiemo-nos a uma Mulher que teceu a humanidade de Deus no seio e \u2013 diz o Evangelho \u2013 teceu conjuntamente tudo o que Lhe acontecia. De facto, a Virgem Maria tudo guardou, meditando-o no seu cora\u00e7\u00e3o (cf. Lc 2, 19). Pe\u00e7amos-Lhe ajuda a Ela, que soube desatar os n\u00f3s da vida com a for\u00e7a suave do amor:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00d3 Maria, mulher e m\u00e3e, V\u00f3s tecestes no seio a Palavra divina, V\u00f3s narrastes com a vossa vida as magn\u00edficas obras de Deus. Ouvi as nossas hist\u00f3rias, guardai-as no vosso cora\u00e7\u00e3o e fazei vossas tamb\u00e9m as hist\u00f3rias que ningu\u00e9m quer escutar. Ensinai-nos a reconhecer o fio bom que guia a hist\u00f3ria. Olhai o c\u00famulo de n\u00f3s em que se emaranhou a nossa vida, paralisando a nossa mem\u00f3ria. Pelas vossas m\u00e3os delicadas, todos os n\u00f3s podem ser desatados. Mulher do Esp\u00edrito, M\u00e3e da confian\u00e7a, inspirai-nos tamb\u00e9m a n\u00f3s. Ajudai-nos a construir hist\u00f3rias de paz, hist\u00f3rias de futuro. E indicai-nos o caminho para as percorrermos juntos.<\/p>\n<p>Roma, em S\u00e3o Jo\u00e3o de Latr\u00e3o, na Mem\u00f3ria de S\u00e3o Francisco de Sales, 24 de janeiro de 2020.<\/p>\n<p><em>[Franciscus]<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">[1] Cf. Bento XVI, Carta enc. Spe salvi (30\/XI\/2007), 2: \u00abA mensagem crist\u00e3 n\u00e3o era s\u00f3 &#8220;informativa&#8221;, mas &#8220;performativa&#8221;. Significa isto que o Evangelho n\u00e3o \u00e9 apenas uma comunica\u00e7\u00e3o de realidades que se podem saber, mas uma comunica\u00e7\u00e3o que gera factos e muda a vida\u00bb.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O eixo central \u00e9 a narra\u00e7\u00e3o e o papel das boas hist\u00f3rias na vida de cada ser humano. &#8220;Precisamos respirar a verdade das hist\u00f3rias boas&#8221;, diz<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[784],"tags":[2603],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/36490"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=36490"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/36490\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=36490"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=36490"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=36490"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}