{"id":36708,"date":"2020-02-10T00:00:00","date_gmt":"2020-02-10T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/mistica-do-cuidado\/"},"modified":"2020-02-10T00:00:00","modified_gmt":"2020-02-10T03:00:00","slug":"mistica-do-cuidado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/mistica-do-cuidado\/","title":{"rendered":"M\u00edstica do Cuidado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong>Dom Luiz Antonio Lopes Ricci<\/strong><br \/>\n<strong>Bispo Auxiliar de Nitter\u00f3i (RJ)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Conscientizar, \u00e0 luz da Palavra de Deus, para o sentido da vida como Dom e Compromisso, que se traduz em rela\u00e7\u00f5es de m\u00fatuo cuidado entre as pessoas, na fam\u00edlia, na comunidade, na sociedade e no planeta, nossa Casa Comum\u201d (Objetivo Geral da CF 2020).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Iniciaremos no final deste m\u00eas o prof\u00edcuo e transformador Tempo da Quaresma, durante o qual se desenvolve a Campanha da Fraternidade, com o lema \u201cviu, sentiu compaix\u00e3o e cuidou dele\u201d (Lc 10, 33-34). Como cuidadores da vida, urge refletir sobre os fundamentos do cuidar, \u00e0 luz da antropologia e m\u00edstica crist\u00e3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para o crist\u00e3o, o cuidado adquire status de virtude e de resposta livre ao chamado do Mestre do cuidado, que vai ao encontro para cuidar. O cuidado \u00e9 express\u00e3o do afeto e consequ\u00eancia do amor. Amar \u00e9 cuidar! Contudo, cuidar exige tempo. A arte de cuidar \u00e9 a arte de doar o tempo, de estar junto, de estabelecer rela\u00e7\u00f5es pautadas pelo afeto e solidariedade. Sem o tempo, doado com amor e alegria, n\u00e3o se estabelece a \u201cproximidade com o pr\u00f3ximo\u201d (Papa Francisco). O tempo \u00e9 garantia de uma presen\u00e7a continuada e eficaz. \u00c9 um tempo partilhado com generosidade e afeto. Emerge aqui a virtude da disponibilidade bastante difusa entre os fi\u00e9is crist\u00e3os leigos (as). As pessoas sempre respondem, positivamente, quando s\u00e3o chamadas, de modo correto, para executar um servi\u00e7o relevante. Servir \u00e0 vida, por Amor a Cristo, \u00e9 sempre um chamado carregado de significados e extremamente envolvente, fascinante e gratificante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O cuidado, aqui entendido como express\u00e3o de afeto, produz estabilidade e perseveran\u00e7a. Quem cuida cativa e \u00e9 cativado. Criam-se la\u00e7os de afeto e consequente aumento de responsabilidade. O afeto \u00e9 sempre cuidador, curativo e transformador. D\u00e1 origem e sustenta a m\u00edstica do cuidado, que se concretiza nas rela\u00e7\u00f5es pautadas pela solidariedade concreta. Sem afeto e cuidado, a vida n\u00e3o sobrevive. O destinat\u00e1rio do cuidado crist\u00e3o \u00e9 um \u201ctu\u201d, n\u00e3o algu\u00e9m, ou qualquer um. O cuidado coloca o outro no cora\u00e7\u00e3o do cuidador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A arte de cuidar pode ser uma inclina\u00e7\u00e3o natural ou provocada, com dois sentidos distintos: natural e \u00e9tico. O natural \u00e9 aquele sem nenhum tipo de media\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie de inclina\u00e7\u00e3o natural, o cuidado da m\u00e3e, por exemplo. J\u00e1 no cuidado \u00e9tico, a pessoa prestadora de cuidado encontra suas ra\u00edzes e motiva\u00e7\u00f5es na recorda\u00e7\u00e3o de ter sido objeto de cuidados por parte dos outros. Uma esp\u00e9cie de retribui\u00e7\u00e3o, uma resposta generosa e agradecida por ter sido cuidado (Cf. V. Mele). \u201cQuando n\u00e3o temos cuidado perdemos o nosso ser; e o cuidado \u00e9 a via de retorno ao ser\u201d (V. Mele). Por isso, o cuidado \u00e9 extremamente gratificante e ben\u00e9fico para o cuidador. Nesse caso, o dar-se \u00e9 tamb\u00e9m um curar-se. \u201cTampouco devemos ignorar as feridas n\u00e3o curadas dentro de n\u00f3s mesmos: quando admitimos sua exist\u00eancia e buscamos sua cura, tamb\u00e9m contribu\u00edmos para a cura do mundo\u201d (T. Hal\u00edk). Al\u00e9m desses dois sentidos, temos o cuidado crist\u00e3o, que emerge da F\u00e9 em Jesus Cristo, que nos envia para anunciar, ter compaix\u00e3o e cuidar por Amor a Ele e com amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tanto o destinat\u00e1rio da a\u00e7\u00e3o, geralmente ferido e atingido por situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis e adversas, quanto o cuidador, devem preservar a capacidade de serem afetados e cuidados, atrav\u00e9s da permeabilidade e docilidade rec\u00edprocas. A Primeira Carta de Pedro oferece um fundamento b\u00edblico-teol\u00f3gico para a M\u00edstica do cuidado: \u201cColoquem nas m\u00e3os de Deus qualquer preocupa\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 Ele quem cuida de voc\u00eas\u201d (1 Pd 5,7). Tamb\u00e9m a Par\u00e1bola do Bom Pastor e a do Bom Samaritano, desenvolvida no Texto Base da CF 2020 s\u00e3o, significativamente, inspiradoras. Textos que revelam o cuidado<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">de Deus e a resposta do homem a esse cuidado. Por essa raz\u00e3o, \u00e0 luz da f\u00e9 em Cristo, o cuidado se transforma em m\u00edstica do cuidado, por ser uma resposta de amor ao Amor recebido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O paradigma do cuidado \u00e9 o caminho para se evitar a neglig\u00eancia e resgatar a responsabilidade pessoal e social pela vida. Logo, a arte de cuidar deve ser tamb\u00e9m cr\u00edtica, ou seja, ajudar o destinat\u00e1rio e o cuidador a descobrirem quais s\u00e3o as necessidades reais e emergentes e quais os meios para super\u00e1-las. Assim, o cuidado (to care) pode curar (to cure) tanto a pessoa quanto a sociedade. A m\u00edstica do cuidado \u00e9 comportamento ativo, atitude permanente, compreendida na ordem do ser e do fazer. Cuidar por amor! \u00c9 o afeto em a\u00e7\u00e3o. O cuidado \u00e9 afetivo e efetivo. \u201cSentimos como a Esperan\u00e7a come\u00e7a a transformar-se em Utopia, uma concentra\u00e7\u00e3o de esperan\u00e7as que querem tornar-se realidade\u201d (Dom Paulo E. Arns). \u00c9 a esperan\u00e7a crist\u00e3 a fonte da utopia e n\u00e3o o contr\u00e1rio. A m\u00edstica do cuidado desperta novas iniciativas em favor da vida e potencializa as j\u00e1 operantes e, consequentemente, contribui para a cultura da vida, ou melhor, a cultura do cuidado com a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A situa\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica injusta continua sacrificando os empobrecidos, com um pre\u00e7o alt\u00edssimo em termos de vida humana. Aqui emerge o imperativo crist\u00e3o de evitar o mal. N\u00e3o se pode justificar ou legitimar a pobreza a partir da constata\u00e7\u00e3o de que os pobres, n\u00e3o obstante a escassez ou falta do necess\u00e1rio, s\u00e3o capazes de viver com alegria, solidariedade e f\u00e9 invenc\u00edvel, fato ineg\u00e1vel e f\u00e1cil de ser observado entre muitos. Contudo, n\u00e3o obstante a presen\u00e7a dos valores do Reino de Deus entre os pobres, deve-se pensar naqueles que n\u00e3o tiveram ou n\u00e3o ter\u00e3o a chance de sobreviver para poder viver com estas mesmas atitudes. Pensamos na vida abreviada e morte antecipada que n\u00e3o ter\u00e1 a chance de ser manifesta\u00e7\u00e3o do Reino de Deus. \u201cEu te louvo, Pai, Senhor do c\u00e9u e da terra, porque escondeste essas coisas aos s\u00e1bios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos\u201d (Mt, 11,25). Trata-se de colaborar primeiramente para garantir a vida e depois para promov\u00ea-la por meio das mudan\u00e7as estruturais e comportamentais. Fala-se muito sobre a morte digna e o morrer com dignidade. Contudo, demasiado pouco sobre o viver com dignidade. H\u00e1 pessoas que combatem a vida toda contra a morte, uma esp\u00e9cie de desejo de imortalidade, mas n\u00e3o s\u00e3o capazes de viver na perspectiva da eubiosia (bem viver), do dom e da biofilia (amor \u00e0 vida). Vive-se para n\u00e3o morrer e n\u00e3o para viver ou para que o outro viva com dignidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quem vive de modo autenticamente crist\u00e3o concretiza em si a voca\u00e7\u00e3o inata de toda pessoa humana: cuidar da vida e da cria\u00e7\u00e3o. \u201cAquilo que torna humano o viver do homem \u00e9 justamente este interesse pela vida que n\u00f3s chamamos amor\u201d (J. Moltmann) Certamente, a m\u00edstica do cuidado, por ser extremamente terap\u00eautica e transformadora, impedir\u00e1 a met\u00e1stase das situa\u00e7\u00f5es produtoras de mortes precoces e evit\u00e1veis (mistan\u00e1sia). Se o mal \u201c\u00e9 a priva\u00e7\u00e3o de um bem devido\u201d (S.T. de Aquino) e o bem \u201c\u00e9 aquilo a que todas as coisas tendem\u201d (Arist\u00f3teles) e se \u201ca vida humana \u00e9 sempre um bem\u201d (S. J. Paulo II), parece correto inferir que toda boa a\u00e7\u00e3o, motivada por uma m\u00edstica crist\u00e3 subjacente que visa a defesa e promo\u00e7\u00e3o da vida, realiza o bem poss\u00edvel, contribui para diminuir a pot\u00eancia do mal, garante a futuridade (conserva\u00e7\u00e3o) da vida, destinada ao encontro com o Sumo Bem e origem de todo bem: Deus. N\u00e3o basta, portanto, ver e sentir compaix\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio, sobretudo, cuidar! Imitemos o Bom Samaritano, que \u00e9 tamb\u00e9m Jesus, vamos cuidar do ferido, que \u00e9 tamb\u00e9m Jesus e vamos acolher com docilidade e generosidade o seu imperativo: \u201cv\u00e1 e fa\u00e7a o mesmo\u201d (Lc 10, 37), torne-se mais pr\u00f3ximo de seu pr\u00f3ximo, sobretudo dos que precisam de sua ajuda e proximidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Prof\u00edcuo e Sereno Tempo de Quaresma! Com gratid\u00e3o e b\u00ean\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Luiz Antonio Lopes Ricci Bispo Auxiliar de Nitter\u00f3i (RJ) &nbsp; Conscientizar, \u00e0 luz da Palavra de Deus, para o sentido da vida como Dom e Compromisso, que se traduz em rela\u00e7\u00f5es de m\u00fatuo cuidado entre as pessoas, na fam\u00edlia, na comunidade, na sociedade e no planeta, nossa Casa Comum\u201d (Objetivo Geral da CF 2020). &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/mistica-do-cuidado\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">M\u00edstica do Cuidado<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":71,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[758],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/36708"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/71"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=36708"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/36708\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=36708"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=36708"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=36708"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}