{"id":414364,"date":"2021-07-19T15:56:53","date_gmt":"2021-07-19T18:56:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=414364"},"modified":"2021-07-19T15:57:33","modified_gmt":"2021-07-19T18:57:33","slug":"a-igreja-de-jesus-cristo-nas-dimensoes-de-santidade-e-de-pecado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-igreja-de-jesus-cristo-nas-dimensoes-de-santidade-e-de-pecado\/","title":{"rendered":"A igreja de Jesus Cristo nas dimens\u00f5es de santidade e de pecado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Vital Corbellini<\/strong><br \/>\n<strong> Bispo de Marab\u00e1 (PA)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cSomos povo santo e pecador\u201d, diz a ora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica de n\u00famero V, do Congresso Eucar\u00edstico de Manaus, 1975. O Conc\u00edlio Vaticano II afirma que \u201cenquanto Cristo, \u2018santo, inocente, imaculado (<em>Hb<\/em> 7,26), n\u00e3o conheceu o pecado (cfr. <em>2 Cor<\/em> 5,21), e veio ao mundo para expiar unicamente os pecados do povo\u2019 (cfr. <em>Hb<\/em> 2,17), a Igreja, que re\u00fane em seu seio os pecadores, \u00e9, ao mesmo tempo, santa e sempre necessitada de purifica\u00e7\u00e3o, dedicando-se sem descanso \u00e0 penit\u00eancia e \u00e0 renova\u00e7\u00e3o\u201d (<em>LG<\/em>, 39). A Igreja vem do Senhor, por\u00e9m \u00e9 formada por homens e mulheres com suas limita\u00e7\u00f5es, pecados e possibilidades. Na vida eclesial, a santidade e o pecado caminham juntos e os fi\u00e9is carregam consigo a mais desafiadora peregrina\u00e7\u00e3o, aquela de percorrer dentro de si pr\u00f3prio os caminhos que levem \u00e0 separa\u00e7\u00e3o entre o joio e o trigo. Essas dimens\u00f5es necessitam do reconhecimento pela comunidade a fim de que realizem um projeto de convers\u00e3o perene para alcan\u00e7ar a santidade. Somos, pois, chamados a abra\u00e7ar essa convers\u00e3o de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra Igreja tem origem no grego <em>\u00e9kkl\u00e9sia,<\/em> cujo significado \u00e9 reuni\u00e3o, assembleia, comunidade de fi\u00e9is crist\u00e3os, seja em sentido do corpo m\u00edstico de Cristo, como tamb\u00e9m a reuni\u00e3o do povo de Deus<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. A seguir, veremos como estas dimens\u00f5es foram anunciadas pelos santos padres, os primeiros escritores crist\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A conviv\u00eancia eclesial entre bons e maus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fulg\u00eancio de Ruspe, bispo na Tun\u00edsia nos s\u00e9culos IV e V, afirmou que a Igreja \u00e9 a comunidade onde est\u00e3o inseridos tanto o trigo, quanto o joio, os maus que se confundem com os bons na comunh\u00e3o dos sacramentos e que, em cada estado de vida, seja sacerdotal, seja mon\u00e1stico ou ainda laical, encontram-se juntos, bons e maus. Segundo o bispo, n\u00e3o devemos abandonar os bons pelos maus, mas suportar os maus pelos bons, pautados nos valores da f\u00e9 e da caridade, com vistas a superar, na Igreja, as sementes da infidelidade e do pecado dentre os seus membros. \u00c9 \u00fatil que, na Igreja, os maus sejam tolerados pelos bons, a fim de que os primeiros, ao perceberem o bem e o amor, rejeitem os seus pr\u00f3prios males e, deste modo, busquem a convers\u00e3o para que, pela miseric\u00f3rdia de Deus, possam obter uma vida mais justa e mais santa. No final dos tempos, o Senhor separar\u00e1 os bons dos maus<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O joio entre o trigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Cipriano, bispo de Cartago no s\u00e9culo III, afirmava que na Igreja, o fiel depara-se com a folha daninha, o joio, no entanto, a nossa f\u00e9 e a nossa caridade n\u00e3o devem ficar aprisionadas por este aspecto ao ponto de nos afastar da Igreja, ao contr\u00e1rio, devemos nos empenhar ainda mais para ser o trigo e, assim, quando iniciar a colheita, nos ser\u00e1 dado contemplar o fruto da nossa obra como tamb\u00e9m de nossa fadiga. Com a gra\u00e7a de Deus, devemos ser vasos de ouro ou de prata para anunciar o amor sobre o mal<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os bons em conviv\u00eancia com os maus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Santo Agostinho, bispo de Hipona nos s\u00e9culos IV e V assevera que, neste mundo, a Igreja busca a sua futura glorifica\u00e7\u00e3o com a humildade presente, em meio \u00e0s tormentas e \u00e0 dor, ao cansa\u00e7o das coisas e aos perigos das tenta\u00e7\u00f5es, possuindo uma \u00fanica alegria: a esperan\u00e7a de que maus e bons, envolvidos entre si, sejam recolhidos na rede da qual fala o evangelho (cfr. <em>Mt <\/em>13,47-50) e, neste mundo, como se fosse um mar, viajem todos juntos nesta mesma rede at\u00e9 chegarem \u00e0 encosta, onde ent\u00e3o, maus e bons ser\u00e3o separados, os bons receber\u00e3o a glorifica\u00e7\u00e3o para que Deus seja tudo em todos (cfr. <em>1 Cor<\/em> 15,28)<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agostinho afirmou que, neste tempo, nesta realidade, existe o joio e o trigo e que n\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel lan\u00e7ar fora todo o joio antes do tempo da colheita porque com a separa\u00e7\u00e3o antes da colheita, pode-se jogar fora tanto um quanto o outro, como nos relata o evangelho (cfr. <em>Mt<\/em> 13,24-30). Quando os gr\u00e3os de trigo come\u00e7arem a aparecer e crescerem as suas espigas, elas se tocam com o joio porque est\u00e3o todos na messe, mas ser\u00e3o diferentes do joio<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Neste mundo, todos convivem com o trigo e o joio, pois os dois est\u00e3o dentro de todo ser humano, raz\u00e3o pela qual necessitamos permanentemente de convers\u00e3o de vida, pessoal, comunit\u00e1ria e social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja como m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda segundo Santo Agostinho, a Igreja, como verdadeira m\u00e3e, n\u00e3o insulta com orgulho os filhos pecadores, mas perdoa aqueles j\u00e1 conciliados. A Igreja Cat\u00f3lica acolhe os pecadores, perdoa os seus fi\u00e9is uma vez redimidos para confirm\u00e1-los na piedade<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A supera\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Clemente, bispo de Roma, Papa no final do I s\u00e9culo, exortava os crist\u00e3os de Corinto para que superassem o pecado da divis\u00e3o, fator que abalou a vida da Igreja no final do primeiro s\u00e9culo. Ele considerava toda a quest\u00e3o da divis\u00e3o um esc\u00e2ndalo, o qual deveria ser superado (cfr. <em>Mc<\/em> 9,42). Aquela divis\u00e3o causou pervers\u00e3o, desencorajando a muitos e fez com que tantos outros ficassem entristecidos<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. O fato \u00e9 que a comunidade se revoltou contra os seus dirigentes, sobretudo os presb\u00edteros. Desta forma, S\u00e3o Clemente manifestava que era vergonhosa aquela situa\u00e7\u00e3o e convocava a todos para, com a unidade, superar o pecado da divis\u00e3o<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus \u00e9 a cabe\u00e7a da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Le\u00e3o Magno, Papa do s\u00e9culo V, afirmou que os membros da Igreja est\u00e3o sujeitos \u00e0 fragilidade do pecado, contudo a gra\u00e7a \u00e9 maior na vida crist\u00e3. H\u00e1 uma luta cont\u00ednua na supera\u00e7\u00e3o do mal na vida dos fi\u00e9is. Desta forma, nenhum sacerdote ou pont\u00edfice \u00e9 t\u00e3o perfeito, nenhum bispo \u00e9 t\u00e3o imaculado de poder oferecer h\u00f3stias de pacifica\u00e7\u00e3o pelos delitos do povo, bem como pelos seus pecados. As pessoas pedem aos seus pastores o amor pela Igreja, assim como o Senhor pediu para Pedro, de modo que quanto maior sentirmos sobre n\u00f3s a sobrecarga, o peso, tanto mais ser\u00e3o nossos deveres. Jesus Cristo garante a sua presen\u00e7a na Igreja at\u00e9 o fim dos tempos (cfr. <em>Mt<\/em> 28,20), pois Ele \u00e9 a sua cabe\u00e7a<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja \u00e9 chamada a viver a dimens\u00e3o da santidade de seus membros para manifestar o amor de Deus no mundo. Ela deve testemunhar a alegria da Ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor. No entanto, esta mesma Igreja, por ter em seu meio pecadores e pecadoras, necessita da convers\u00e3o pessoal, comunit\u00e1ria e social para o seguimento fiel \u00e0 Cristo Jesus. Na medida em que reconhe\u00e7amos a nossa condi\u00e7\u00e3o de pecadores, haver\u00e1 a supera\u00e7\u00e3o do clericalismo, do individualismo, da falta de amor para com o pr\u00f3ximo, facilitando o desejo ardente de realizar testemunho do evangelho com a sua pr\u00f3pria vida, promovendo a santidade entre os seus membros que, neste mundo, caminhar\u00e3o juntos em meio ao joio e o trigo para, ao final, na eternidade, apresentar ao Senhor a boa semente da caridade e do amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Cfr. <em>Chiesa<\/em>. In: <em>Il vocabolario treccani<\/em>, <em>Il Conciso<\/em>. Milano, Trento, 1998, pg. 308.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Cfr. Fulgenzio di Ruspe, <em>Regola della vera fede<\/em>, 43. In: <em>La teologia dei padri<\/em>, v.<em> 4<\/em>. Citt\u00e0 Nuova Editrice, Roma, 1982, pg. 34.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>Cfr. Cipriano di Cartago, <em>Le Lettere<\/em>, 54,3 (<em>Ai confessori romani<\/em>). In: <em>Idem<\/em>, pg. 33.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Cfr. Agostino, <em>La Citt\u00e0 di Dio<\/em>, 18,49. In: <em>Idem<\/em>, pg. 33.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Cfr. Agostino, <em>Esposizioni sui salmi<\/em>, 25,5. In: <em>Idem<\/em>, pgs. 33-34<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a>Cfr. <em>Il Combattimento cristiano<\/em>, 30,32. In:<em>Opere di Sant`Agostino. Morale e Ascetismo cristiano<\/em>. Nuova Biblioteca Agostiniana. Citt\u00e0 Nuova Editrice, Roma, 2001, pg 121.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Cfr. Clemente aos romanos, 46, 8-9. In: <em>Padres Apost\u00f3licos<\/em>, S\u00e3o Paulo, Paulus, 1995, pg. 57.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a>Cfr. <em>Idem<\/em>, 47, 6-7, pg. 57.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Cfr. Leone Magno, <em>Sermoni<\/em>, 5,1-4. In: <em>Idem<\/em>, pgs. 85-86.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Vital Corbellini Bispo de Marab\u00e1 (PA) &nbsp; \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cSomos povo santo e pecador\u201d, diz a ora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica de n\u00famero V, do Congresso Eucar\u00edstico de Manaus, 1975. 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