{"id":591658,"date":"2021-08-06T10:04:53","date_gmt":"2021-08-06T13:04:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/?p=591658"},"modified":"2021-08-06T10:05:26","modified_gmt":"2021-08-06T13:05:26","slug":"a-alegria-sacerdotal-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/a-alegria-sacerdotal-no-mundo\/","title":{"rendered":"A alegria sacerdotal no mundo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Dom Lindomar Rocha Mota<\/strong><br \/>\n<strong>Bispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os poss\u00edveis exemplos de alegria sacerdotal, um chamou a minha aten\u00e7\u00e3o nestes dias, S\u00e3o Filipe N\u00e9ri. Chamou a minha aten\u00e7\u00e3o por sua capacidade de confundir o mundo com o seu jeito alegre de ser. Uma alegria que n\u00e3o se expressava em rituais cont\u00ednuos de estado psicol\u00f3gico; sua alegria era <em>Christiana Laetitia<\/em>, t\u00e3o profundamente marcada pela ambiguidade do mundo que foi capaz de perturbar dois g\u00eanios da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Goethe, o poeta alem\u00e3o, pensava em S\u00e3o Filipe N\u00e9ri como um milagre de harmonia entre renuncia e alegria (<em>Laetitia<\/em>); uma exist\u00eancia marcada pela presen\u00e7a da simplicidade imediata de quem produz uma a\u00e7\u00e3o prontamente regulada pelo puro desejo de imita\u00e7\u00e3o do seu Senhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De outro lado, Schopenhauer, fil\u00f3sofo alem\u00e3o do s\u00e9culo XIX, tamb\u00e9m se deixou impressionar pela imagem sacerdotal de Filipe N\u00e9ri, mas, desta vez, a imagem do santo se transfigurou em uma forma caricatural da trag\u00e9dia da mente diante da estrutura comum da humanidade e da trag\u00e9dia comum da santidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Schopenhauer, a santidade exprimida por S\u00e3o Filipe \u00e9 a forma autentica de um sacerdote, uma esp\u00e9cie peculiar de intui\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio do mal, que induz ao desejo de viver e a acentua\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria pela dor do outro, que se exprime particularmente atrav\u00e9s da <em>com-paix\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Examinando as duas <em>vias<\/em> podemos concluir que a imagem da alegria sacerdotal corresponde, com mais raz\u00e3o, a esta apresentada sob a luz de Schopenhauer, que n\u00e3o propriamente \u00e0quela de Goethe. De fato, a vida sacerdotal n\u00e3o \u00e9 a de um homem sereno, assegurado de sua salva\u00e7\u00e3o, nem certeza de operar de maneira \u00e9tica. Ou seja, \u00e9 convicto de n\u00e3o corresponder \u00e0 Gra\u00e7a recebida. Entretanto, essa descoberta n\u00e3o deve vir por doce humildade asc\u00e9tica, mas por humildade \u00e9tica, que \u00e9 a consci\u00eancia da infinita responsabilidade pelo irm\u00e3o. Situa\u00e7\u00e3o que s\u00f3 \u00e9 superada nos atos de <em>com-paix\u00e3o<\/em>, consigo mesmo e com os outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dif\u00edcil para o hedonismo atual perceber o motivo profundo da alegria sacerdotal, especialmente depois de encontrar este <em>humano<\/em> profundamente imerso nos mais latentes problemas da sua exist\u00eancia, aqueles tocantes diretamente \u00e0 falta de sentido da vida e das expectativas desiludidas de uma multid\u00e3o incalcul\u00e1vel de homens e mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, uma coisa \u00e9 certa, o <em>ser<\/em> sacerdote confunde a mentalidade moderna do mesmo modo que S\u00e3o Filipe N\u00e9ri confundiu Goethe e Schopenhauer, que geraram imagens discrepantes e opostas sobre a mesma pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode se dizer do sacerdote como um homem profundamente marcado pelas <em>pr\u00e9-disposi\u00e7\u00f5es<\/em> de um mundo sofredor, e esta caricatura se encontra com a defini\u00e7\u00e3o de Schopenhauer. Mas, de outro lado, o sacerdote \u00e9 tamb\u00e9m a perfeita <em>Laetitia<\/em> apresentada por Goethe e S\u00e3o Francisco, vivendo uma exist\u00eancia compenetrada de quem cr\u00ea profundamente no seu Senhor e tem a certeza de n\u00e3o ser desiludido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, podemos afirmar: o sacerdote vive a sua felicidade, sem, contudo, deixar de perceber os sofrimentos do mundo. Sua alegria n\u00e3o \u00e9 um modo de esquecimento ou o disfarce das angustias latentes \u2013 Alegres sim, mas daquela alegria cheia de <em>com-paix\u00e3o<\/em> que se exprime perfeitamente no cap\u00edtulo 25 de Mateus \u2013 Uma forma de vida operosa, segundo a qual todos ser\u00e3o julgados. A ele n\u00e3o importa a an\u00e1lise complexa de um tratado intelectual que ousa definir o que \u00e9 e o que n\u00e3o \u00e9 alegria (<em>laetitia<\/em>), do momento que j\u00e1 p\u00f4s no centro de sua vida o amor na a\u00e7\u00e3o restauradora do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta concord\u00e2ncia existencial entre <em>com-paix\u00e3o<\/em> e <em>laetitia<\/em> do homem diante de Deus me fez entender o fato pelo qual, dois g\u00eanios liter\u00e1rios, como Goethe e Schopenhauer tanto se interessaram pela figura sacerdotal de S\u00e3o Filipe N\u00e9ri.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Lindomar Rocha Mota Bispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO) Entre os poss\u00edveis exemplos de alegria sacerdotal, um chamou a minha aten\u00e7\u00e3o nestes dias, S\u00e3o Filipe N\u00e9ri. Chamou a minha aten\u00e7\u00e3o por sua capacidade de confundir o mundo com o seu jeito alegre de ser. 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