{"id":6922,"date":"2017-05-13T00:00:00","date_gmt":"2017-05-13T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/civilidade-e-respeito\/"},"modified":"2017-05-13T00:00:00","modified_gmt":"2017-05-13T03:00:00","slug":"civilidade-e-respeito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/civilidade-e-respeito\/","title":{"rendered":"Civilidade e respeito"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Parece estar cada vez mais distante o tempo em que se investia em civilidade e urbanidade. Era comum, nos lares, ouvir os pais corrigirem seus filhos, valendo-se de express\u00f5es com tons de advert\u00eancia: \u201ccria modos\u201d, \u201ctenha compostura\u201d. De modo semelhante, as escolas, institui\u00e7\u00f5es religiosas e culturais costumavam investir em processos formativos para que os alunos aprendessem as normas da boa conviv\u00eancia. Com o passar dos anos, esses necess\u00e1rios requisitos foram perdendo a import\u00e2ncia, comprometendo os princ\u00edpios de urbanidade que poderiam garantir processos relacionais qualificados e imprescind\u00edveis para a civilidade. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que a qualidade na dimens\u00e3o relacional de um povo \u00e9 determinante, para o bem ou para o mal, nas din\u00e2micas sociais. Por isso \u00e9 importante reconhecer: investir em civilidade \u00e9 necessidade real e urgente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode parecer que esse investimento seja sup\u00e9rfluo ou esteja na contram\u00e3o do mundo p\u00f3s-moderno. Afinal, vive-se num tempo em que as subjetividades reivindicam absoluta autonomia. Um contexto que leva \u00e0 considera\u00e7\u00e3o de que tudo aquilo que n\u00e3o corresponde aos interesses individuais imediatos \u00e9 indevido e, consequentemente, inaceit\u00e1vel. Com isso, cada pessoa orienta seu comportamento observando apenas as suas ambi\u00e7\u00f5es, desconsiderando a vida dos outros. O abandono do necess\u00e1rio processo de aprendizagem das posturas que garantem civilidade contribui para que haja um terr\u00edvel primado do subjetivismo. Consequentemente, cada pessoa passa a considerar-se como norma e refer\u00eancia absolutas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A possibilidade de \u201ccada cabe\u00e7a\u201d estar livre para proferir \u201csenten\u00e7as\u201d contribui para alimentar uma perversa anomia. Com a falta de regras e normas, cada um passa a fazer o que quer e como bem entende, sem obedi\u00eancia e rever\u00eancia a par\u00e2metros inegoci\u00e1veis. Caminho livre para que a arbitrariedade se instale e alimente viol\u00eancias, descasos, subestimando, assim, a sacralidade da vida. N\u00e3o cultivar a rever\u00eancia \u00e0s posturas que garantam civilidade compromete o respeito, a percep\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as, a compet\u00eancia para valorizar aquilo que realmente conta e sustenta o equil\u00edbrio da vida em sua complexidade. Esse mal atinge n\u00e3o apenas algumas pessoas ou segmentos da sociedade. Alcan\u00e7a todos, desencadeando descompassos no \u00e2mbito da cultura. Alimenta preju\u00edzos que incidem na economia, no tecido social e no conjunto dos h\u00e1bitos e das viv\u00eancias que definem o jeito de ser de um povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante da hegemonia da l\u00f3gica do mercado, com suas din\u00e2micas que pesam principalmente sobre o ombro dos mais pobres, torna-se mais dif\u00edcil perceber e considerar a influ\u00eancia determinante da civilidade, que abrange desde as pequenas atitudes aos gestos mais significativos, capazes de configurar, no dia a dia, avan\u00e7os rumo a uma sociedade mais solid\u00e1ria e justa. No entanto, sem investir na civilidade, todos continuar\u00e3o a conviver com situa\u00e7\u00f5es problem\u00e1ticas, a exemplo da frequente incapacidade para respeitar o bem comum, das tend\u00eancias ao desperd\u00edcio e \u00e0 depreda\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se pode deixar de constatar que certos estilos de vida social &#8211; com suas pr\u00e1ticas, privil\u00e9gios, gastos excessivos e desnecess\u00e1rios &#8211; alimentam um imagin\u00e1rio que est\u00e1 longe daquilo que constitui a dignidade humana. Tamb\u00e9m \u00e9 sintom\u00e1tica a insensibilidade diante de um dever, que \u00e9 de todos: contribuir para o cuidado social e o amparo aos mais pobres, a partir do apoio a projetos que tornem a sociedade um lugar melhor para se viver, marcado por valores alicer\u00e7ados no amor e no respeito \u00e0 vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grau de urbanidade incide ainda sobre o estabelecimento de prioridades no contexto social &#8211; do uso honesto dos recursos para promover o bem-estar de todos at\u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de impostos. Isso significa comprometer-se mais com a promo\u00e7\u00e3o e a viv\u00eancia da \u00e9tica, do equil\u00edbrio e de qualificadas rela\u00e7\u00f5es entre os cidad\u00e3os. Uma din\u00e2mica capaz de constituir o tecido cultural que transforma as pessoas, permitindo o aprendizado do sentido de respeito e rever\u00eancia, bem diferente dos muitos descompassos caracter\u00edsticos desta p\u00f3s-modernidade, a exemplo dos comportamentos \u201cviralizados\u201d nas redes sociais. Apenas assim ser\u00e1 poss\u00edvel promover a forma\u00e7\u00e3o de l\u00edderes com refinado sentido social e pol\u00edtico, realmente capacitados para oferecer respostas \u00e0s demandas de uma sociedade mais \u00e9tica. Eis um caminho para reverter o que tanto se amarga neste momento. A sociedade precisa de civilidade e respeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dom Walmor Oliveira de Azevedo<br \/>\nArcebispo metropolitano de Belo Horizonte<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parece estar cada vez mais distante o tempo em que se investia em civilidade e urbanidade. 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