{"id":7388,"date":"2017-08-02T00:00:00","date_gmt":"2017-08-02T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/trafico-de-pessoas-e-um-tumor-mundial-entrevista-com-dom-jose-luiz-ascona\/"},"modified":"2020-03-11T17:09:59","modified_gmt":"2020-03-11T20:09:59","slug":"trafico-de-pessoas-e-um-tumor-mundial-entrevista-com-dom-jose-luiz-ascona","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/trafico-de-pessoas-e-um-tumor-mundial-entrevista-com-dom-jose-luiz-ascona\/","title":{"rendered":"Tr\u00e1fico de pessoas \u00e9 &#8220;um tumor mundial&#8221;, diz dom Jos\u00e9 Luiz Azcona, bispo-em\u00e9rito de Maraj\u00f3 (PA)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>O agostiniano recoleto, nascido em Navarra, na Espanha, Dom Jos\u00e9 Luiz Azcona, tem uma hist\u00f3ria de grande significado para a luta contra o tr\u00e1fico humano de pessoas e a prostitui\u00e7\u00e3o infantil, especialmente na Ilha do Maraj\u00f3, no Par\u00e1. Nomeado bispo por S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, em 1987, ele permaneceu na prelazia marajoara at\u00e9 a ren\u00fancia ao governo pastoral, no ano passado. Como bispo em\u00e9rito, ele participou da reuni\u00e3o promovida pela Comiss\u00e3o Episcopal Pastoral para a A\u00e7\u00e3o Social Transformadora, em Bras\u00edlia, encerrada nesta ter\u00e7a-feira, 01 de agosto. Dom Azcona est\u00e1 entre as pessoas amea\u00e7adas de morte. Depois que se tornou em\u00e9rito, dom Azcona continua morando no Maraj\u00f3. Ele falou com a Assessoria de Imprensa da CNBB.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como o senhor v\u00ea, hoje, a situa\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico de pessoas no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pergunta \u00e9 dif\u00edcil de responder porque os dados estat\u00edsticos oficiais n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis pela dificuldade de extra\u00ed-los de um modo objetivo e cient\u00edfico de uma realidade em si mesma oculta, secreta e em cujo segredo est\u00e1 o \u00eaxito perverso das organiza\u00e7\u00f5es que se dedicam a este tipo de atividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De uma maneira geral, se poderia dizer, ao meu modo de ver, que continua da mesma maneira, ou talvez incrementada esta atividade devido a impunidade e da infiltra\u00e7\u00e3o, cada vez mais intensa, de autoridades, da coniv\u00eancia de poderes, da organiza\u00e7\u00e3o desse tipo de institui\u00e7\u00e3o de perversidade e tamb\u00e9m pela falta de responsabilidade da sociedade. \u00c9 aquele \u201cfazer de conta que n\u00e3o v\u00ea\u201d, quando a verdade do tr\u00e1fico humano \u00e9 t\u00e3o evidente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio que \u00e9 bom destacar que n\u00e3o \u00e9 somente no Par\u00e1, n\u00e3o \u00e9 somente na Amaz\u00f4nia que essa situa\u00e7\u00e3o e esse fen\u00f4meno se evidencia com mais clareza, mas tamb\u00e9m em ouros lugares. Se fizermos uma an\u00e1lise uma panor\u00e2mica r\u00e1pida, n\u00e3o h\u00e1 uma diferen\u00e7a grande entre S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o e o Par\u00e1. Da cidade de Fortaleza, por exemplo, saem expedi\u00e7\u00f5es constantes de mulheres para a It\u00e1lia, para a Eslov\u00eania, com intuito de tr\u00e1fico humano para servi\u00e7os sexuais. L\u00e1 tamb\u00e9m se verifica a prostitui\u00e7\u00e3o infantil como oferta, n\u00e3o como tr\u00e1fico para o exterior, mas presente no turismo sexual. Se descermos, vamos ver que em Recife n\u00e3o deve ser muito diferente. Na Bahia e o Rio de Janeiro, do mesmo modo. E n\u00e3o se trata de uma situa\u00e7\u00e3o apenas do litoral brasileiro, porque tamb\u00e9m no interior, nas estradas acontece o tr\u00e1fico humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu me lembro de um determinado estado do Brasil, por ocasi\u00e3o daquele ano que o tr\u00e1fico humano foi tema da Campanha da Fraternidade, fui convidado para falar diante dos presb\u00edteros, das lideran\u00e7as leigas e quando terminei a minha exposi\u00e7\u00e3o, levantou-se uma senhora e disse: \u201cIsso que o senhor falou tamb\u00e9m acontece aqui entre n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9 preciso ir ver isso somente no Maraj\u00f3, na Amaz\u00f4nia. Aqui acontece isso. Aqui existem grupos organizados que enviam jovens para a explora\u00e7\u00e3o sexual tanto para o norte do Brasil como para o estrangeiro. E nesses grupos h\u00e1 pessoas que participam da missa todos os domingos e eu gostaria muito que essa Campanha da Fraternidade fosse assumida com toda a seriedade pelos p\u00e1rocos e por todos os presb\u00edteros\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A minha resposta, portanto, \u00e9 gen\u00e9rica, mas suficientemente clara para indicar: a situa\u00e7\u00e3o de risco grav\u00edssimo em que se encontram muitas mulheres e tamb\u00e9m homens jovens de serem traficados \u00e9 evidente e \u00e9 um perigo grave.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O senhor poderia tra\u00e7ar um perfil de quem \u00e9 aquele que pratica o tr\u00e1fico humano?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o, eu n\u00e3o conseguiria tra\u00e7ar um perfil. Existem, claro, em n\u00edvel internacional os chefes de m\u00e1fias. Organismos internacionais que possuem um grande poder econ\u00f4mico que influenciam, \u00e0s vezes, os pol\u00edticos e o Judici\u00e1rio. Eles influenciam deputados e empres\u00e1rios e isto \u00e9 verdadeiramente um problema grave. S\u00e3o coisas que s\u00e3o feitas entre poderosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lemos, por exemplo, que at\u00e9 nos Estados Unidos, algumas autoridades, talvez at\u00e9 ex presidentes, est\u00e3o ou estiveram envolvidas no tr\u00e1fico humano, sobretudo no tr\u00e1fico de menores para atividades sexuais. Provar n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, mas a voz \u00e9 recorrente e continuada. Podem existir e existem grandes autoridades envolvidas. Outro exemplo igual ocorre na Inglaterra. Na verdade, \u00e9 um fen\u00f4meno mundial. Aquilo que parece um fen\u00f4meno, uma praga, uma chaga brasileira ou somente da Amaz\u00f4nia \u00e9 um tumor que amea\u00e7a toda a humanidade e que est\u00e1 diante de n\u00f3s, mas tra\u00e7ar um perfil direto do traficante, eu n\u00e3o poderia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais as motiva\u00e7\u00f5es, na opini\u00e3o do senhor, que levam as pessoas a se tornarem v\u00edtimas do tr\u00e1fico humano?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Me lembro que uma entrevista feita pela Globo, em 2010, num munic\u00edpio do Maraj\u00f3 onde fui bispo durante 30 anos. A pergunta n\u00e3o era propriamente sobre tr\u00e1fico humano, mas sobre prostitui\u00e7\u00e3o. O rep\u00f3rter perguntou a uma menina de 16 anos: \u201cPor que voc\u00ea se prostitui? Seus pais passam fome, est\u00e3o desempregados? \u201d Ela respondeu: \u201cmeus pais trabalham, temos uma fam\u00edlia que n\u00e3o passa fome, estamos bem. Agora, eu gostaria de ter perfume, ter certo tipo de sapatos, roupas e por isso me prostituo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa motiva\u00e7\u00e3o tem por tr\u00e1s a ideologia da M\u00eddia em apresentar um mundo feminino realizado ligado a isso, \u00e0 exterioridade de possuir a beleza corporal e nada mais. E isto est\u00e1, comprovadamente, entre os motivos do tr\u00e1fico humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais forte ainda do que isso est\u00e1 a necessidade de sobreviv\u00eancia. L\u00e1 entre n\u00f3s, por exemplo, a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 carente. N\u00f3s temos um munic\u00edpio, Melgas, com o IDH mais baixo do Brasil. E perto dele temos mais outros dois munic\u00edpios que est\u00e3o entre os dez mais pobres do Brasil. Mulheres, sobretudo mulheres, saem do Maraj\u00f3 para sobreviver, par an\u00e3o passar fome. Depois, um lugar onde h\u00e1 muita injusti\u00e7a, onde a distribui\u00e7\u00e3o desigual da renda \u00e9 evidente e o desemprego estrutural \u00e9 t\u00e3o claro que um grande n\u00famero de mulheres tem como motiva\u00e7\u00e3o principal busca da sobreviv\u00eancia e de promover-se na vida fugindo do inferno, que as vezes, \u00e9 o Maraj\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outra parte, existe um grande n\u00famero delas que sai e n\u00e3o s\u00e3o traficadas. Elas t\u00eam baixa educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem prepara\u00e7\u00e3o para a vida de quase nada e s\u00e3o culturalmente fechadas. H\u00e1, ainda, outras motiva\u00e7\u00f5es que s\u00e3o: conhecer o mundo, o primeiro mundo, conhecer o que \u00e9 ter um carro, ter uma casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E sobre a realidade das crian\u00e7as? O tr\u00e1fico e a prostitui\u00e7\u00e3o infantil?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sei que no Maraj\u00f3 eram, possivelmente continuam sendo traficadas meninas e meninos para a Fran\u00e7a por meio da Guiana Francesa para a venda de \u00f3rg\u00e3os. Isso existia. Sobre o tr\u00e1fico de crian\u00e7as antes de nascer, eu conhe\u00e7o uma realidade que envolvem pessoas do Suriname. Elas v\u00e3o ao Maraj\u00f3 para buscar mulheres saud\u00e1veis, bonitas, estabelecendo com elas at\u00e9 mesmo um contrato, com a condi\u00e7\u00e3o que elas se deixem engravidar por homens que conhecer\u00e3o em momento oportuno. Para isso, receber\u00e3o uma taxa de 20 a 25 mil reais ou coisa semelhante. Assinados esses contratos, elas iam para o Suriname, e repito, talvez continuem indo, porque nossas autoridades s\u00e3o muito omissas. L\u00e1 no Suriname, essas mulheres se engravidam desses homens que s\u00e3o encaminhados por organiza\u00e7\u00f5es internacionais. As crian\u00e7as nascem e, por dois ou tr\u00eas anos, essas mulheres acompanham as crian\u00e7as para cuidar e amamentar e depois elas t\u00eam que entregar os filhos sem saber o destino deles, sem saber nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O senhor tem sido amea\u00e7ado de morte por fazer den\u00fancias sobre estas situa\u00e7\u00f5es. O senhor tem medo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O medo tem me acompanhado durante anos. \u00c0s vezes, ao sair do meu quarto para me dirigir a capela, pensava que atr\u00e1s da porta poderia estar o meu assassino. Durante meses, eu tive esse pensamento. No corredor entre o quarto e a capela tem uma sacada e eu pensava que naquela dire\u00e7\u00e3o poderia ter um rifle apontado para mim. E, muitas vezes, andando pelo interior, muitas vezes, o pensamento da morte me acompanha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio que \u00e9 um pensamento salutar porque, no meu caso, o medo n\u00e3o criou um sentimento de ang\u00fastia e de ansiedade. Deus me deu a paz suficiente para enfrentar com reflex\u00e3o e com sinceridade tamb\u00e9m a situa\u00e7\u00e3o em que me encontrava. Entrando por mares e rios, num barco de uma par\u00f3quia, \u00e9 poss\u00edvel que uma lancha r\u00e1pida com uma metralhadora possa terminar conosco. Em menos de dois minutos, podem matar n\u00f3s todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu tenho dito e dei este testemunho em Roma diante de mil sacerdotes em um retiro espiritual em S\u00e3o Jo\u00e3o de Latr\u00e3o: \u201cirm\u00e3os, n\u00e3o tenham medo. A Igreja est\u00e1 sendo chamada para o mart\u00edrio, como nos tinha falado um bispo da S\u00edria onde mulheres e homens tinham sido crucificados, adolescentes decapitados por n\u00e3o renegarem a f\u00e9 em Cristo. E \u00e9 Cristo que nos est\u00e1 chamando para dar esse mesmo testemunho com a nossa vida. E n\u00f3s, que somos os pastores, devemos ir na frente. N\u00e3o tenham medo. Aqui vos fala algu\u00e9m que \u00e9 um covarde, que sou eu, mas que sabe que o Esp\u00edrito Santo d\u00e1 a for\u00e7a, a fortaleza e a coragem para enfrentar a morte. Olhar nos olhos da morte e detr\u00e1s deles ver o Ressuscitado. Para isso, tive que rezar porque considero que se algu\u00e9m quer realmente encontrar paz em entregar-se \u00e0 morte por Cristo e pelos irm\u00e3os, ele tem que rezar. At\u00e9 que Deus ouviu, ouviu a minha ora\u00e7\u00e3o e me deu essa paz fundamental para dizer: Senhor, aqui estou e estou disposto a morrer por Ele, pelo Evangelho. E, na verdade, para mim, hoje, e desde que Deus me deu esta convic\u00e7\u00e3o da possibilidade de poder morrer pelo Evangelho e pelos irm\u00e3os sinto que\u00a0 esta seria a melhor, mais alegre e plenificante sa\u00edda desde mundo para minha vida humana, religiosa e episcopal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foto: Revista Miss\u00f5es<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nascido em Navarra, na Espanha, o bispo tem uma trajet\u00f3ria significativa de luta contra o tr\u00e1fico humano de pessoas e a prostitui\u00e7\u00e3o infantil<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":7389,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":""},"categories":[863],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/7388"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/comments?post=7388"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/posts\/7388\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media\/7389"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/media?parent=7388"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/categories?post=7388"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cnbb.org.br\/cnbb-app\/wp\/v2\/tags?post=7388"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}